Falas
de bispos católicos sobre ‘soberania’ e rumores sobre Nossa Senhora viralizam e
viram ativo da campanha de Lula
O que
significa quando um religioso fala sobre a importância da "soberania"
do Brasil, em meio a uma eleição
disputada? As interpretações a essa pergunta aqueceram o debate sobre religião e
eleições nas redes sociais nesta última semana, reta final antes do primeiro
turno.
Entre
vídeos de bispos da Amazônia divulgados no Instagram e um resgate de uma fala
do arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, na missa em 7 de
Setembro deste ano, religiosos aparecem dizendo que é preciso "defender a
soberania" do país.
Os
vídeos se somaram à polêmica sobre retirar de
Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, que perfis
de esquerda associaram a Flávio Bolsonaro (PL). O candidato desmentiu a
informação e foi à Justiça Eleitoral pedir a remoção de posts.
O único
projeto de lei com esse objetivo foi apresentado em 2007 pelo então deputado
Victório Galli (PMDB-MT), que anos depois foi assessor do governo Jair
Bolsonaro, e arquivado em 2008. Não há registro de participação de Flávio
Bolsonaro na proposta.
O termo
"soberania", utilizado pelos religiosos nos vídeos, chama atenção por
ser usado como bandeira pelo governo e pela campanha do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), impulsionado pelos embates diplomáticos do Brasil com o
governo de Donald Trump, nos EUA.
Coordenador
do Grupo de Análise de Conjuntura Padre Thierry Linard, órgão de assessoramento
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Francisco Lima disse à
BBC News Brasil que não acredita numa finalidade eleitoral.
Segundo
ele, o tom das mensagens está de acordo com a doutrina da igreja, mas padres
deveriam evitar se pronunciar dessa forma em período de campanha.
"Toda
a fala nesse momento só precisaria ser da CNBB. Uma fala isolada de um bispo
isolado pode fazer assimetria com relação aos outros. E a gente não faz
isso", criticou Lima, bispo de Carolina, interior do Maranhão. "Isso
é perigoso."
Dom
Francisco Lima contou que, numa reunião recente do grupo de análise da CNBB que
ele coordena, os integrantes chegaram a classificar "soberania" como
uma palavra a ser evitada, porque, dita por alguém da Igreja, poderia ter
repercussão política.
"Tentamos
não fomentar termos que polarizam mais ainda, porque não ganhamos nada com
isso", declarou Lima.
O vídeo
que viralizou foi publicado na segunda-feira (21/09), com bispos do Amazonas e
Roraima, da Regional Norte 1 da CNBB.
Em um
trecho, dom Frei Samuel Ferreira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus,
diz: "É importante a soberania do Brasil, a soberania da nossa Amazônia, a
soberania das nossas riquezas e bens. A democracia, portanto, é um bem precioso
a ser cuidado e garantido."
Também
passou a circular o vídeo em que dom Orlando Brandes, de Aparecida, declara aos
fiéis que "vamos defender a soberania". "Nenhum poder de fora,
seja quem for, deve mandar aqui".
O
sociólogo Alexandre Landim, autor do recém-lançado livro O Deus das urnas:
evangélicos e católicos em eleições presidenciais no Brasil (Telha, 2026),
avalia que o que chama mais atenção é a forma inédita como a campanha da
esquerda está usando esses vídeos numa disputa religiosa com a direita.
"Este
ano parece que as eleições ainda não emplacaram, por conta da temperatura
eleitoral sem debate intenso. Ao que parece, nessa reta final, as candidaturas
entenderam que a pauta da religião anima o eleitorado", avalia.
"Até
então, era uma retórica só da direita, desde 1989, quando evangélicos diziam
que o PT fecharia igrejas. Então, a retórica agora é muito parecida, só que
está com o sinal trocado", explica Landim.
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O que indicam os vídeos
As
orientações oficiais recentes da CNBB apontam para o não envolvimento do clero
com questões eleitorais, explica Landim.
Os
vídeos que se espalharam nas redes, porém, mesmo sem apoio direto a Lula, podem
levar a interpretações nesse sentido.
"O
conteúdo dos vídeos tem teor mais educativo, de orientar os fiéis, mas vemos
uma preocupação maior com justiça social, com soberania. E a gente sabe que
isso tem viés político hoje. Então, a gente pode entender que seria um
pensamento mais progressista nesse momento", avalia Landim.
O padre
jesuíta Luís Corrêa Lima, professor de teologia da PUC-Rio, avalia que as
frases ditas no vídeo "estão relacionadas com a doutrina social da Igreja
e com pronunciamentos de documentos recentes do papa Francisco e do papa Leão
14".
"Nesse
contexto eleitoral, ela pode favorecer um candidato ou outro. Mas esse
discernimento quem deve fazer são os fiéis", diz o padre professor.
Para
Landim, a ideia de que há um temor dessas lideranças católicas com a chegada de
Flávio Bolsonaro, que é evangélico, deve ser considerada, apesar de isso ser
apenas uma "interpretação".
"Jair
Bolsonaro, apesar de ser declaradamente católico, foi um dos maiores
porta-vozes das pautas evangélicas. Então, a gente pode compreender, sim, que
tenha esse temor da Igreja Católica diante desse espaço", avalia.
Mas
Landim diz ser importante notar que a Igreja Católica é muito diversa, com
várias correntes mais progressistas ou conservadoras.
Essa
disputa em torno da religião também apareceu na polêmica envolvendo Nossa
Senhora Aparecida, com novos contornos nesta sexta-feira.
Durante
a tarde, o ministro André Mendonça determinou a derrubada de publicações nas
redes sociais que associam Flávio Bolsonaro a uma suposta articulação para
retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Na
decisão, Mendonça determinou que as plataformas Meta, X, TikTok e YouTube
adotem medidas para impedir a disseminação das publicações.
O
tribunal já havia decidido, em análise preliminar, que não havia "suporte
fático mínimo" para a alegação de que Flávio Bolsonaro ou sua família
teriam promovido ou articulado uma iniciativa para retirar o título de Nossa
Senhora Aparecida.
Mais
cedo, a primeira-dama, Janja da Silva, havia postado nas redes sociais uma foto
do presidente Lula segurando a santa. Na legenda, ela escreveu: "Nossa
Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, olhai por nós!".
O
vice-presidente e candidato à reeleição na chapa de Lula, Geraldo Alckmin
(PSB), também gravou um vídeo dizendo ter recebido mensagens de católicos
"preocupados com os rumos do país".
Sem
mencionar diretamente a questão de Nossa Senhora Aparecida, ele prometeu que as
tradições religiosas estarão "protegidas e preservadas" em um
eventual novo governo.
Procurada,
a CNBB não se manifestou sobre o conteúdo dos vídeos que estão circulando.
Apenas informou que a mensagem da CNBB para o período eleitoral é a que foi
publicada aos fiéis em 18 de junho.
O texto
diz, entre outras coisas que "não podemos silenciar diante da escandalosa
desigualdade social, da corrupção, da compra de votos, da utilização indevida
dos recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake
news)".
A CNBB
diz também sobre a necessidade de "confiança nas instituições
democráticas", ao "Estado Democrático de Direito, à independência dos
Poderes e à liberdade de expressão".
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Católicos nas eleições
O bispo
Dom Francisco Lima avalia que o acirramento das eleições presidenciais tem
contribuído para o uso desses elementos religiosos agora.
"Cada
detalhe importa, porque agora a diferença que um ganha do outro é muito
pequena. E aí pode se querer buscar o detalhe dentro do religioso",
critica.
A
pesquisa de Landim feita no seu doutorado e livro mostra que a diferença do
voto entre o eleitor evangélico e católico tem ficado mais evidente no Brasil.
O
eleitor católico tende a votar mais no PT, enquanto o evangélico vai para o
lado do bolsonarismo. Isso faz com que campanhas possam se direcionar a grupos
que tenham mais afinidade, segundo Landim.
A
pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (24/9) também deixa evidente essa
divisão quando o assunto é religião. Entre os católicos, 45% afirmaram que
pretendem votar em Lula no primeiro turno, contra 33% que dizem preferir
Flávio. Entre os evangélicos, Flávio tem 47%, contra 27% de Lula.
"Hoje,
no Brasil, a gente sabe que religião é um determinante de voto do eleitor. Há
uma cisão muito clara. Por exemplo, na faixa das pessoas que recebem até dois
salários mínimos nas últimas três eleições, se a gente faz uma divisão entre
católicos e evangélicos, a votação no PT entre católicos aumentou e a entre
evangélicos diminuiu", comenta Landim.
Ou
seja, na mesma faixa de renda, o comportamento de voto muda muito a depender da
religião da pessoa.
Essa
diferença vem se consolidando desde 2010, segundo a pesquisa.
Foi ali
que o campo da direita de fato começou a utilizar a retórica religiosa com mais
força, na disputa entre José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT).
"Num
papel difícil para oposição com a popularidade em alta de Lula, Serra tentou a
retórica religiosa, com a pauta do aborto", explica o autor.
Isso
porque, em 2009, o governo Lula havia publicado um programa sobre direitos
humanos que trazia o tema da descriminalização do aborto.
Naquela
eleição, diz Landim, também houve envolvimento direto da CNBB, inclusive com
impressão de panfletos orientando os eleitores a não votarem em quem era
"favorável" ao aborto.
Em
2014, a atuação da CNBB foi mais discreta, promovendo apenas debates sobre a
pauta de costumes com Aécio Neves (PSDB) e Dilma.
Já em
2018, avalia o pesquisador, a religião teve papel importante na eleição entre
Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, mas pelos evangélicos, e não pela Igreja
Católica, que teve participação reduzida.
Em
2022, a CNBB chegou a emitir um comunicado desincentivando que os religiosos
participassem da campanha. Isso não quer dizer que membros não se manifestaram.
"A
gente não pode dizer que a Igreja Católica tem um posicionamento único. Isso
daí vai depender de qual é a corrente interna", diz Landim.
"Tem
religiosos ali com um pensamento mais progressista, como o padre Júlio
Lancelotti, e outros com pensamento mais conservador, como os movimentos
carismáticos, com uma tendência a escolherem candidaturas da direita."
Durante
a ditadura militar, especialmente a partir dos anos 1970, setores importantes
da Igreja Católica brasileira, como a CNBB, passaram a atuar fortemente em
direitos humanos, defesa dos pobres e redemocratização, o que pode levar a uma
interpretação de alinhamento a um campo mais progressista.
Mas a
própria entidade tem afirmado que não se identifica com nenhuma ideologia ou
partido político e justifica sua atuação política a partir da doutrina social
da Igreja.
Alexandre
Landim avalia ainda que as falas de líderes católicos como as dos vídeos serve
mais para animar o debate do que influenciar voto. Entre os católicos, diz,
essa transferência do que fala um líder religioso para a decisão é ainda menor
do que entre os evangélicos.
"Eu
não acredito que essas declarações vão mudar a orientação dos votos."
Segundo
ele, a estratégia de ativar o eleitor por meio da religião, entretanto, pode
funcionar. "Mas, pensando em projeto de país, é prejudicial, porque gera
animosidade religiosa", conclui.
Fonte:
BBC News Brasil

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