Como
a ciência tornou possível a gravidez após os 45 anos
Aos 48
anos, a apresentadora Maju Coutinho anunciou que está grávida do primeiro
filho. Aos 45, Sabrina Sato está no sexto mês de gestação do seu segundo filho,
enquanto a atriz Claudia Raia se tornou mãe aos 55 anos, em 2022. Casos como
esses chamam atenção por ocorrerem em uma fase da vida em que a fertilidade
feminina já sofreu uma queda acentuada e em décadas atrás era algo extremamente
raro de acontecer.
Mais do
que exceções, esses casos colocam em evidência o avanço da medicina
reprodutiva, que faz com que as mulheres possam contar com técnicas capazes de
ampliar as possibilidades de engravidar mesmo quando os ovários já não
funcionam tão bem como aos 20 ou 30 anos.
Porém,
é preciso cuidado para não se enganar com a impressão de que a idade deixou de
ser um obstáculo quando o assunto é gravidez. A medicina evoluiu, mas não
conseguiu interromper o envelhecimento do sistema reprodutivo. A quantidade e a
qualidade dos óvulos continuam diminuindo com o passar dos anos, e os riscos de
uma gestação aumentam com o avançar da idade.
A
diferença é que, atualmente, existem formas de contornar parte dessas
limitações. Congelamento de óvulos, fertilização in vitro, congelamento de
embriões e doação de óvulos são algumas das alternativas disponíveis.
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O envelhecimento dos óvulos
A
fertilidade feminina começa a diminuir de maneira mais perceptível a partir dos
30 anos e sofre uma queda acentuada depois dos 35. Isso acontece porque as
mulheres já nascem com uma quantidade limitada de óvulos e ao longo da vida
essa reserva vai diminuindo a cada mês.
Assim,
uma mulher pode continuar ovulando aos 45 anos e ainda assim ter uma chance
muito menor de engravidar do que tinha duas décadas antes. Mesmo quando a
fecundação acontece, cresce a probabilidade de o embrião apresentar alterações
cromossômicas, o que pode dificultar sua implantação, acarretar condições de
saúde para o bebê ou aumentar o risco de perda gestacional.
Por
isso, uma das principais dificuldades de uma gravidez tardia está no próprio
óvulo. "Nascemos com esses óvulos, que ficam sujeitos a doenças,
medicamentos, poluição, estresse e tudo que nós passamos ao longo da vida. Isso
significa uma alteração na energia celular. Então, ele vai sofrendo um impacto
com o tempo e perdendo essa capacidade de produzir energia para a célula. Com
isso, o óvulo passa a ter dificuldade de separar os pares de cromossomos para
formar um embrião e vêm as alterações", explica Fernanda Polisseni,
ginecologista da Associação Brasileira de Reprodução Assistida e professora da
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Já nos
homens o processo é diferente. Eles produzem novos espermatozoides ao longo da
vida, embora existam mudanças relacionadas à idade masculina que também
aumentam as chances desses espermatozoides apresentarem condições menos
favoráveis para uma fecundação.
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O congelamento muda parte dessa situação
O
congelamento de óvulos surge como uma opção para as mulheres preservarem seus
óvulos enquanto ainda não há essa queda acentuada de qualidade e quantidade
devido à idade. A técnica permite retirar óvulos dos ovários, congelá-los e
armazená-los para uma utilização futura através da FIV (fertilização in vitro).
A FIV é
uma técnica de reprodução assistida em que a fecundação do óvulo pelo
espermatozoide ocorre em laboratório, ou seja, fora do corpo da mulher. Após a
fecundação, o embrião formado é transferido para o útero na tentativa de
iniciar uma gestação.
"Entre
os 30 e 35 anos consideramos a idade ideal para fazer esse congelamento, porque
é a idade de quem que a mulher ainda tem uma boa quantidade de óvulos com
qualidade. É possível congelar depois dessa idade, mas é necessário ter em
mente que a chance de conseguir uma gravidez é ajustada de acordo com a idade
em que esses óvulos estão sendo congelados", acrescenta Polisseni.
Quando
uma mulher congela seus óvulos aos 30 anos e decide tentar engravidar aos 45,
por exemplo, são usados os gametas que foram preservados antes da queda mais
acentuada da qualidade ovocitária. Assim, mesmo que ela tenha quinze anos a
mais, seus óvulos mantêm a idade em que foram coletados e congelados.
Ao
manter essa qualidade de quando era mais jovem, aumenta-se as chances de uma
fecundação e consequentemente de uma gestação, no entanto, isso não é uma
garantia de gravidez, pois nem todos os óvulos descongelados sobrevivem ao
processo, são fecundados ou dão origem a embriões capazes de resultar em um
nascimento.
Para
mulheres nessa situação, que não possuem óvulos adequados para uma tentativa de
fertilização, ou que não fizeram o congelamento, existe ainda outra
possibilidade que é a doação de óvulos. Nesse caso, os óvulos de uma doadora
são fecundados em laboratório e o embrião formado é transferido para o útero da
mulher que pretende engravidar.
"Nesses
casos, conseguimos reduzir o impacto da idade sobre a qualidade genética do
óvulo, mas não eliminamos os efeitos do envelhecimento sobre o organismo da
mulher que irá carregar a gestação. Por isso, uma mulher de mais de 45 pode,
sim, chegar a uma gestação, mas estamos falando de uma situação muito diferente
de uma gravidez natural aos 48 ou 50 anos", diz Larissa Pires,
ginecologista e obstetra, especializada em reprodução humana e medicina fetal.
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Os riscos aumentam com a idade
Apesar
dos avanços da ciência, depois dos 40 anos, alguns problemas durante a gravidez
se tornam mais frequentes. Entre eles estão hipertensão, pré-eclâmpsia,
diabetes gestacional, alterações placentárias, parto prematuro e necessidade de
cesariana.
"Há
também os riscos fetais como aumento de taxa de aborto, aumento de risco
cromossômico e aumento do risco de restrição de crescimento fetal por uma
placentação inadequada", explica Karina Belickas, obstetra do Hospital e
Maternidade Santa Joana.
Isso
não significa que toda gravidez depois dos 45 anos será considerada de risco,
alto risco ou terá complicações, a idade é apenas um dos fatores avaliados
pelos médicos. O estado de saúde da mulher, doenças preexistentes, histórico
obstétrico e condições específicas da gestação também influenciam.
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Existe uma idade máxima para engravidar?
A
resposta, segundo os especialistas ouvidos pela DW, depende de como a gravidez
acontece. Naturalmente, a possibilidade de engravidar desaparece com a
menopausa, quando os ovários deixam de liberar óvulos regularmente. Mas a
medicina reprodutiva consegue, em determinadas circunstâncias, permitir uma
gestação depois desse período por meio de óvulos ou embriões previamente
preservados ou de óvulos doados.
No
Brasil, o Conselho Federal de Medicina estabelece regras para a reprodução
assistida e determina 50 anos como idade máxima para mulheres buscarem por
técnicas de reprodução assistida. A norma prevê exceções, desde que sejam
justificadas pelo médico e que não existam condições que representem risco
grave à saúde da paciente.
No caso
da atriz Claudia Raia, uma situação curiosa ocorreu, segundo ela. Claudia
tentava engravidar através da fertilização in vitro e tomou hormônios para o
procedimento. A tentativa inicial não deu certo e não resultou na formação de
embriões, mas os hormônios deram um impulso em seu organismo, fazendo com que
ela voltasse a ovular naturalmente mesmo estando na menopausa.
Segundo
a atriz, a gravidez ocorreu naturalmente após a tentativa de FIV.
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A medicina não apagou o relógio biológico
Os
avanços da reprodução assistida criaram uma possibilidade que não existia para
gerações anteriores e trouxe novas oportunidades para o planejamento da
maternidade. Mas especialistas alertam que o congelamento não deve ser
interpretado como uma garantia de gravidez no futuro, já que existe uma
diferença entre ter óvulos congelados e ter um bebê.
Entre
uma coisa e outra estão etapas como descongelamento, fecundação,
desenvolvimento embrionário, implantação no útero e evolução da gestação. Cada
uma dessas etapas possui possibilidades de falha.
"Também
não existe atualmente uma técnica capaz de transformar um óvulo de 45 anos em
um óvulo biologicamente equivalente ao de uma mulher de 25 ou 30 anos. É
justamente por isso que histórias de gestações tardias precisam ser
apresentadas com contexto. Elas mostram que a medicina ampliou as
possibilidades de maternidade, mas não eliminou os efeitos do envelhecimento
reprodutivo", acrescenta Pires.
Além
disso, é necessário ter em mente que apesar de o procedimento de fertilização
in vitro ser seguro, ele também tem riscos. "Gravidez obtida por FIV tem
muito mais riscos de abortamento, prematuridade, insuficiência placentária e
partos mais difíceis", diz Rosiane Mattar, presidente da Comissão Nacional
Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações
em Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
"Hoje,
a mulher tem que estudar, trabalhar, ajudar no sustento da família, quer
alcançar sucesso e viver um pouco a vida antes de ter filho, e os métodos
contraceptivos melhoraram, garantindo a ela a possibilidade de escolher. Mas é
importante que ela saiba que, ao deixar para depois, os riscos vão aumentando,
não tem jeito", acrescenta Mattar.
Fonte:
DW Brasil

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