'Drogômetro':
novo aparelho que será usado nas blitzes da Lei Seca vai pegar motorista que
toma remédio?
Autoridades
de trânsito brasileiras garantem que as novas regras para as blitzes da Lei
Seca — que preveem o uso do "drogômetro", um aparelho que detecta o
uso de substâncias psicoativas — não vão trazer nenhum prejuízo para motoristas
que fazem uso de remédios prescritos por um profissional da saúde.
Essa
dúvida surgiu a partir da publicação da Resolução 1.031/2026 pelo Conselho
Nacional de Trânsito (Contran), órgão vinculado ao Ministério dos Transportes,
em agosto.
Entre
uma série de atualizações, o documento regulamenta os procedimentos de
fiscalização e abre a possibilidade para o uso de testes capazes de identificar
a presença de drogas, como maconha, cocaína, anfetaminas e opioides, no
organismo do motorista.
Isso
gerou uma certa preocupação entre condutores que fazem tratamentos com
medicamentos que trazem algumas dessas substâncias em sua composição.
É o
caso, por exemplo, de terapias contra a dor, que podem requerer o uso de
opioides. Já alguns estimulantes usados no tratamento do transtorno de déficit
de atenção e hiperatividade (TDAH) podem ser derivados de anfetaminas. E
remédios com canabinoides também são utilizados para lidar com uma série de
condições de saúde.
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'Drogômetro': o que diz a nova resolução
Em
entrevista à BBC News Brasil, Adrualdo Catão, secretário nacional de Trânsito,
explica que a última resolução sobre o assunto havia sido publicada em 2013, e
havia a necessidade de fazer atualizações.
"O
objetivo da nova resolução e de toda Lei Seca não é criar situações em que o
cidadão pode ser punido caso não use, ou faça uso regular (como em remédios,
veja mais abaixo), dessas substâncias", esclarece ele.
"A
lei diz claramente que não é crime ter (pequenos) vestígios dessas substâncias.
Não é esse o problema, não é essa a infração."
Segundo
ele, a infração é dirigir sob efeito de substâncias que podem afetar a
capacidade psicomotora — o que representa um risco para o condutor, para os
passageiros e para os demais indivíduos que estão por perto.
Ou
seja: mesmo antes da resolução, já estava na lei que era uma infração conduzir
um veículo sob efeito não apenas do álcool, mas de outras drogas que afetam os
reflexos e a capacidade da pessoa fazer essa tarefa com segurança.
Mas, em
breve, é possível que os agentes de trânsito tenham à disposição não apenas o
popular "bafômetro", que avalia a presença de álcool no organismo,
mas também o "drogômetro", que detecta o uso de psicoativos.
Essa
tecnologia já é usada em outros lugares como Estados Unidos, Austrália e partes
da Europa.
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Como os 'drogômetros' funcionam?
Existem
diferentes modelos, mas em linhas gerais esses dispositivos são um pouco
diferentes do "bafômetro", em que basta assoprar num tubo plástico
acoplado ao aparelho que faz a medição.
A
tecnologia do drogômetro consegue detectar as substâncias psicoativas através
da saliva.
"A
amostra de saliva é coletada com um dispositivo bastante simples, basicamente
uma esponjinha embebida em ácido cítrico", detalha o médico Alvaro
Pulchinelli Jr., da Toxicologia Pardini, do Grupo Fleury.
O uso
do ácido cítrico aqui, composto que aparece na laranja e no limão, por exemplo,
serve pra estimular a produção de saliva e acelerar esse processo de coleta.
"A
esponjinha então é colocada no aparelho e vai fazer a leitura do material
coletado", complementa o especialista.
Nesse
contexto, o uso da saliva é necessário por uma característica química das
substâncias analisadas.
Ao
contrário do álcool, que é volátil, evapora com facilidade e pode ser
encontrado no "bafo" da pessoa, as moléculas de outras drogas não vão
parar com tanta facilidade assim no ar que a gente expira.
No
entanto, de acordo com a avaliação de Pulchinelli, a análise da saliva é um
método muito mais cômodo e menos invasivo do que os exames que exigem a coleta
de urina ou de sangue.
O
toxicologista compara alguns modelos do "drogômetro" aos testes
usados para diagnosticar a covid-19.
"Lembra
que, no teste de covid-19, tinha uma faixinha que aparecia, para dizer se o
resultado era positivo ou negativo? Alguns desses outros testes funcionam com
esse mesmo princípio: só que, em vez de procurar o vírus, eles detectam a
presença de substâncias ilícitas", diz ele.
A
estimativa é que o tempo de testagem — da coleta ao resultado final — demore
cerca de 15 minutos.
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E quem usa remédios prescritos pelo médico?
A nova
resolução do Contran não significa que os "drogômetros" já vão
comecar a ser usados a partir de agora nas blitzes. Segundo as autoridades,
ainda há um longo caminho pela frente.
Primeiro,
instituições acreditadas pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e
Tecnologia (Inmetro) vão precisar avaliar e certificar os aparelhos que poderão
ser comprados por órgãos como os departamentos estaduais de trânsito e a
polícia rodoviária.
Esse
trabalho será essencial porque vai determinar os limites usados para definir
quando o teste vai dar positivo ou negativo.
"Se,
durante essas avaliações, nós verificarmos que o equipamento está pegando
qualquer vestígio (pequeno) das substâncias, ele não será certificado",
promete Catão.
"A
Senatran [Secretaria Nacional de Trânsito] vai acompanhar isso junto com o
Inmetro e exigir que a certificação seja baseada naquilo que prevê a lei",
complementa ele.
Depois
da certificação dos aparelhos, as autoridades precisarão definir como será
feita a abordagem, e como os testes serão usados na prática, durante as blitzes
— afinal, o procedimento vai exigir pelo menos 15 minutos, o que pode ter um
impacto no fluxo de veículos.
Segundo
o secretário nacional de Trânsito, esse processo de estudos e planejamentos
pode demorar "alguns meses".
E isso,
para o representante da Senatran, servirá justamente para evitar mal-entendidos
e proteger os motoristas que precisam usar remédios para tratar certas
condições de saúde.
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Precisa de atestado médico?
De
acordo com Catão, não haverá necessidade de que esses condutores portem
atestado médico ou receita para comprovar o uso de medicamentos, uma vez que a
promessa é que esses testes estarão "calibrados" para dar um
resultado negativo nos casos em que o uso dessas substâncias é feito com a
orientação de profissionais da saúde e não traz prejuízos à capacidade
psicomotora.
"A
lei de trânsito não está procurando tráfico de drogas, não é esse o objetivo.
Nosso objetivo é a direção segura. Portanto, estamos preocupados se o motorista
teve sua capacidade alterada pelo uso de uma substância que causa
dependência", reforça Catão.
"Você
não pode ser abordado e punido porque consome um remédio de acordo com o que
seu médico orientou. Isso tem que ficar muito claro para toda a
população."
"Queremos
dar às pessoas mais um instrumento de segurança viária. Infelizmente, a gente
sabe que o problema não é quem toma medicamentos regulares. O problema são
aqueles que bebem e dirigem, que usam drogas e dirigem. Esse é realmente o
grave problema na segurança de trânsito que a gente precisa remediar",
complementa ele.
Pulchinelli
vê as mudanças e a futura chegada do "drogômetro" com bons olhos.
"Há
ainda um caminho a se percorrer para sabermos quais serão os aparelhos e como
serão feitos esses testes", pondera ele.
"Mas
vejo com bastante entusiasmo, porque isso amplia a segurança nas
estradas", conclui ele.
Fonte:
BBC News Brasil

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