O
ar de Manaus é o pior do mundo
A
fumaça tóxica das queimadas que encobre a região metropolitana de Manaus, nesta
quarta-feira (23), colocou a capital amazonense como cidade com a qualidade do
ar pior do mundo, ultrapassando o índice até então de Kinshasa, capital da
República Democrática do Congo, na região da África Central, de acordo com o
registro diário da plataforma IQAir, que classifica a poluição da atmosfera
como muito insalubre à saúde humana.
O
Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado
do Amazonas (UEA), registrou em tempo real a qualidade do ar, em Manaus,
como péssima para a saúde às 6h da manhã
com índice 324,1 µg/m³ (microgramas por metro cúbico).
Em
Kinshasa o índice foi 172.6 µg/m³, segundo a plataforma IQAir que registrou a
média da pior qualidade do ar hoje. Na capital do Congo, a poluição é resultado
da queima residencial de carvão vegetal e de lixo, que liberam imensas
quantidades de material particulado nocivo (PM2.5) na atmosfera.
A
Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece que a concentração anual média de
material particulado não deva ultrapassar o limite de 5 µg/m³ (microgramas por
metro cúbico) para minimizar riscos à saúde. A média de 24 horas para este
poluente é de 15 µg/m³.
Portanto,
com um índice de 324,1 µg/m³, Manaus está com a poluição atmosférica 20% a mais
do limite estabelecido pela OMS.
Conforme
a Amazônia Real publicou, a pesquisadora Karla Longo, do Instituto Nacional de
Pesquisas Espaciais (INPE), o Amazonas, que
está na estação seca, enfrenta um aumento das queimadas nas regiões
leste e nordeste da cidade, incluindo municípios. A fumaça também vem do estado
do Pará.
“O
cheiro de fumaça mais intenso durante a noite e nas primeiras horas da manhã
pode ser explicado pela combinação entre o horário predominante de ocorrência
das queimadas, o transporte da fumaça e as condições da atmosfera. As
observações de satélite indicam que as queimadas na região Norte ocorrem
principalmente durante a tarde, quando as temperaturas são mais elevadas e a
vegetação está mais seca. Essas condições favorecem a propagação do fogo e
podem facilitar a colocação do fogo, muitas vezes em áreas de difícil acesso
dentro da floresta”, disse a especialista em entrevista exclusiva à agência.
“Além
disso, durante o dia, o aquecimento da superfície aumenta a turbulência e faz a
camada limite atmosférica, a porção mais baixa da atmosfera diretamente
influenciada pela superfície, se expandir. Isso favorece a mistura e a
dispersão da fumaça. À noite, ocorre o processo inverso. Com o resfriamento da
superfície, a camada limite atmosférica fica mais baixa e estável, reduzindo a
mistura vertical do ar. Como consequência, a fumaça e os compostos responsáveis
pelo odor podem permanecer mais concentrados próximos à superfície”, explica a
pesquisadora.
O
aumento da poluição do ar na região metropolitana de Manaus e no interior do
estado acompanha a alta ocorrência de focos de queimadas no estado. Dados
atualizados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontam 3.240
focos de calor no Amazonas entre 1º e 23 de setembro.
No
acumulado de 2026, já são 5,7 mil focos, número 85% superior aos 3.113
registrados durante todo o ano de 2025. De acordo com o Inpe, os municípios que
registram os maiores índices de queimadas no Amazonas neste período são Autazes
e Manacapuru (que são da região metropolitana de Manaus), Apuí, Lábrea, Apuí, Manicoré e Novo Aripuanã.
À
fumaça se somam também as temperaturas extremas. Na terça-feira (22), Manaus
registrou a maior temperatura do ano, com 38,6°C, segundo o Instituto Nacional
de Meteorologia (Inmet), com sensação térmica que ultrapassa 40°.
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Fogo no parque
A
plataforma Selva vem registrando índices péssimos na qualidade do ar da capital
do Amazonas desde o início do mês de setembro: dia 8 com 48,5 µg/m³; 9 com 118
µg/m³; 13 com 182,7 µg/m³; e dia 17 com 129,5 µg/m³.
Contribuiu
para a fumaça que encobriu Manaus hoje um incêndio florestal, que iniciou no
sábado (19) e só foi amenizado na terça-feira (22), no bairro indígena Parque
das Tribos, território de contexto urbano,
que fica na região do Tarumã-Açu, na zona oeste da cidade. Lá, o Selva
registrou hoje a qualidade do ar péssima com um índice 209,6 µg/m³, às 6h36 da
manhã.
Segundo
relatos de moradores, o fogo avançou pela reserva florestal que fica no entorno
das residências, deixando a população apavorada. Nas redes sociais, uma das
lideranças, a professora Claudia Baré denunciou o avanço das chamas e a falta
de apoio do poder público para controlar o fogo. “Eles [Corpo de Bombeiros]
chegaram pela madrugada para amenizar o fogo. E ficou só aquela fumaça
cinzenta. Incomoda muito essa fumaça que ficou com a cinza. Ficou muito mais
quente do que já está. A preocupação é o fogo chegar, porque a fumaça já
chegou”, relatou Cláudia Baré à Amazônia
Real.
A
professora disse que a fumaça impactou a saúde das crianças, idosos e moradores
com diferentes comorbidades com doenças respiratórias. Outras pessoas sentiram
mal-estar e estresse. O Parque das Tribos tem uma população estimada em 5 mil
pessoas ou 860 famílias – sendo cerca
de 120 idosos e 400 crianças.
“No
Parque das Tribos tem pessoas que já vêm com sequelas da Covid e, quando chega
um momento desse, com bastante fumaça, incomoda bastante. As pessoas chegam a
passar mal com tanta fumaça”, disse Cláudia Baré.
Para
Yassí Baré, que mora na segunda etapa do Parque das Tribos, próxima à área de
floresta atingida pelo incêndio, os moradores mais vulneráveis à fumaça estão
entre as principais preocupações da comunidade, principalmente gestantes,
idosos, pessoas acamadas ou com deficiência e crianças.
“A
preocupação maior são com as gestantes, idosos e acamados que moram nessa
região próxima do fogo. Pessoas que não têm como se defender, crianças,
recém-nascidos. É preocupante demais. O fogo está se alastrando e o Tarumã-Açu
pede socorro”, alertou Yassí.
Ela
conta que presenciou animais mortos pelo fogo. “Hoje nos deparamos com alguns
animais mortos, como preguiças, jacurarus, cobras, infelizmente todos sem vida.
Nossa fauna está indo embora, nosso verde está sendo consumido. É muita
fumaça”.
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Crianças e idosos em risco
De
acordo com o pneumologista Mário Sérgio Fonseca, do Hospital Universitário
Getúlio Vargas (HUGV), a exposição à fumaça pode intensificar os sintomas de
pacientes com asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), e levar à
necessidade de atendimento de urgência.
“Nessa
situação pode ocorrer intensificação dos sintomas e exacerbação, caracterizado
por piora da falta de ar, tosse e desconforto respiratório. Se esses sintomas
não melhoram com as condutas medicamentosas já habituais dos pacientes, devem
procurar o serviço de urgência para avaliação”, explicou
A
fumaça também pode agravar sintomas em pessoas com doenças cardiovasculares,
segundo Fonseca. “Os cardiopatas também podem ter intensificação de seus
sintomas, inclusive os coronariopatas, podem evoluir com quadro de angina
devido a presença de monóxido de carbono na fumaça”.
O
epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, reforçou que crianças e
idosos estão entre os grupos mais impactados pela exposição contínua à fumaça
tóxica, associada a sintomas de inflamação pulmonar, tuberculose, rinite,
sinusite alérgica, bronquite e exacerbação de doenças cardiovasculares, como
insuficiência cardíaca.
No
entanto, segundo o pesquisador, é importante destacar que outras pessoas,
independente da idade, também podem ser negativamente afetadas e sofrer com
coceira e vermelhidão nos olhos, além de tosse e sensação de desconforto
respiratório.
“Também
não podemos ignorar que esse tipo de exposição pode afetar de forma
desproporcional outros subgrupos, como populações vulneráveis residentes em
municípios ou territórios com precária rede de atenção à saúde, quase todos do
interior do Amazonas, incluindo indígenas e ribeirinhos, os quais, muitas
vezes, sequer têm acesso oportuno e de qualidade aos serviços de saúde”, disse.
Dina
Galvão Baré, também moradora do Parque das Tribos, enfrenta os efeitos da
fumaça dentro de casa com a família. Ela vive próxima à área atingida pelo
incêndio desde o fim de semana e tem uma filha que sofre de asma, além de
outras duas crianças com sintomas de falta de ar e coriza.
“Estamos
há quatro dias inalando a fumaça. Nós temos crianças, temos pessoas acamadas.
Inclusive, eu tenho uma filha asmática dentro de casa, são duas crianças e
estamos muito próximos do fogo. Ficamos chocados e sensibilizados com a
situação da nossa comunidade”, relatou.
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O que dizem as autoridades
Apesar
das informações de pesquisadores do Inpe sobre os altos índices de queimadas no
Amazonas e dos registros de péssima qualidade do ar em Manaus, não há uma
reação por parte das autoridades públicas para combater os incêndios ou punir
os responsáveis em atear fogo em pastos ou florestas.
A rede
estadual de saúde do Amazonas registrou 132 atendimentos por queixas
respiratórias relacionadas à inalação de fumaça entre 1º de julho e 22 de
setembro, segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM). O dado foi
divulgado nesta quarta-feira (23), durante coletiva de imprensa no Centro
Integrado de Comando e Controle (CICC). Os atendimentos ocorreram
principalmente na rede de urgência e emergência, incluindo os Serviços de
Pronto Atendimento (SPAs).
Durante
a coletiva, o secretário-executivo de Assistência, Homero de Miranda Leão,
alertou para a maior vulnerabilidade de crianças, idosos e pessoas com doenças
respiratórias crônicas durante os períodos de concentração de fumaça, já que
esses são os grupos considerados mais suscetíveis a complicações decorrentes da
exposição aos poluentes.
Questionada
pela reportagem sobre um eventual aumento na procura por atendimento por
sintomas respiratórios relacionados à fumaça e dados atualizados de
atendimentos em setembro, a Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) não informou
se houve aumento nos atendimentos nem apresentou dados sobre o cenário atual na
rede municipal de saúde.
Em nota
publicada nesta quarta-feira (23), a Prefeitura de Manaus divulgou que monitora
a qualidade do ar e mantém ações de prevenção, fiscalização e monitoramento por
meio do Comitê de Prevenção às Queimadas.
Entre
as ações da Semmas estão campanhas educativas, fiscalização e monitoramento com
drones. Ainda de acordo com a prefeitura, a Guarda Municipal de Manaus (GMM)
atende denúncias de focos de incêndio 24 horas pelo telefone 153 ou pelo site.
Na
mesma nota, a Semsa orientou a população a reduzir a exposição à fumaça,
especialmente crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias
ou cardíacas. Outras recomendações incluem hidratação, proteção dos olhos e
nariz e uso de máscaras adequadas, como a N95. “Nos períodos de pior qualidade
do ar, devem ser evitados exercícios ao ar livre, principalmente caminhada,
corrida e ciclismo”, disse a pasta.
Em
casos relacionados a tosse, irritação ou dor de garganta, ardência e
lacrimejamento dos olhos, coriza, dor de cabeça, chiado no peito, falta de ar e
piora de crises, a orientação da Semsa é procurar uma unidade básica de saúde.
Para sintomas mais graves, deve-se buscar um serviço de pronto atendimento e,
em emergências, acionar o Samu pelo 192.
Mesmo
com o ar atingindo altos níveis de poluição e a presença intensa da fumaça na
capital neste mês, a Prefeitura de Manaus não suspendeu as aulas nas unidades
da rede municipal de ensino durante os dias mais críticos. Em Manaus, a rede
municipal de educação possui 519 unidades de ensino e atende mais de 244 mil
estudantes, segundo informações da Secretaria Municipal de Educação (Semed).
Em nota
enviada à reportagem no dia 17 de setembro, a Semed informou que as escolas
estão orientadas a adotar medidas preventivas para proteger os estudantes e
profissionais, especialmente durante os períodos de maior concentração de
fumaça. “Entre as recomendações estão evitar atividades físicas e outras
atividades ao ar livre, manter portas e janelas fechadas sempre que possível,
reforçar a hidratação e observar sinais de desconforto respiratório”, diz um
trecho da nota.
A
Secretaria disse ainda que acompanha as condições ambientais e mantém as
orientações às unidades escolares de acordo com as recomendações dos órgãos
competentes.
Fonte:
Por Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real

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