segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Hugo Albuquerque: No tabuleiro do mundo, Venezuela sob cerco e Argentina implodindo

Enquanto uma poderosa armada americana se move lenta e ameaçadoramente para a costa da Venezuela, em um gesto de ousadia delirante de Donald Trump, a Argentina queima no caso de corrupção, com seu presidente de extrema direita, pela primeira vez, em apuros reais –embora a estocada contra Javier Milei esconda uma disputa política entre as direitas argentinas que, talvez, interesse também ao presidente americano.

Nesse sentido, Diego Spagnuolo é o nome da vez na Argentina. Ele foi gravado enquanto tocava um esquema de corrupção na Andis, a agência responsável por tocar políticas públicas para pessoas com deficiência no país. A conversa implica a poderosa – e onipresente – irmã de Milei, Karina, o que fez a história chegar em todos os principais jornais argentinos, mesmo o direitista Clarín.

Spagnuolo estava grampeado desde muito, se tornando uma grande isca humana. Coincidência ou não, a revelação vem depois que Milei rompeu com sua vice, Victoria Villaruel, filha e advogada de militares ligados à última ditadura argentina – e as eleições legislativas deste ano, embora remotamente fossem conceder a Milei maioria parlamentar, por outro lado, acabariam com a fragmentação das direitas a seu favor.

Voltando ao Caribe, enquanto Trump parece sem muitas opções para dobrar Vladimir Putin nas negociações sobre o futuro da Ucrânia, ameaçar ativos de Moscou com a Venezuela ou mesmo tarifar mais ainda a Índia parece ser o que Washington tem para hoje – e pode não ser o mais inteligente, embora no caso venezuelano pareça ser o caminho mais fácil. E não é coincidente que isso ocorra agora.

Na Argentina, Milei é uma figura bajuladora e histriônica que age como um interventor externo a serviço da banca, mas não é exatamente o homem de Trump em Buenos Aires, ao contrário do que o senso comum nos faz pensar – o ex-presidente Maurício Macri, amigo de Trump desde muito, é essa figura, e hoje estaria às voltas de perder protagonismo, caso as legislativas virassem uma polaridade entre Milei e o Kirchnerismo.

<><> A genealogia de Milei e a sombra do vampiro Macri

Com seus ternos muitíssimo bem cortados, Maurício Macri se parece com o estereótipo do aristocrata vampiro da Europa. Seu pai foi um influente magnata durante a derradeira ditadura militar argentina, mas nunca se envolveu diretamente com a política – teve e fez amizades poderosas pelo mundo, inclusive com Fred Trump, pai de Donald, razão pela qual Maurício o conhece desde muito.

Milei, muito pelo contrário, é apenas um quadro médio da burocracia argentina, cujo fervor ideológico e esotérico o tornaram o homem certo para ser o interventor de seu próprio país – tudo em favor da banca internacional e seus credores abutres. A ascensão de Milei se deu precisamente quando Joe Biden nomeou Marc Stanley, um poderoso quadro ligado ao sionismo, para a embaixada americana de Buenos Aires.

A vitória de 2023, contudo, não tornou Milei exatamente um soberano absoluto. Liderava, é verdade, sob um Congresso fragmentado e cuja figura de Macri nos bastidores era central. Hoje, seu partido, o A Liberdade Avança (LLA, em espanhol), parecia caminhar para monopolizar os votos da direita, relegando Macri para escanteio no jogo político argentino. 

Mas tudo só é eterno enquanto dura. E hoje a família Milei se tornou alvo, inclusive de uma imprensa direitista, incluindo o Clarín, que sempre o apoiou – mas agora não parece sequer disposta a abafar as denúncias contra ele, mesmo às vésperas de eleições legislativas na província de Buenos Aires e, em alguns meses, eleições legislativas nacionais, as quais podem ser vencidas pela temida oposição kirchnerista.

Os efeitos de curto prazo são imponderáveis, mas um deles é Milei perder o poder, por paralisia ou renúncia/deposição ou continuar sob controle das forças políticas lideradas por Macri – e novamente teríamos o cenário de Milei como uma marionete, dessa vez a serviço de um quadro mais confiável para Trump ou com a ultra-direita tradicional argentina de volta ao poder diretamente.

<><> E la nave va na Venezuela

Enquanto isso, sob a alegação tragicômica de realizar uma operação contra o crime organizado na Venezuela, Trump, que já declarou que os Estados Unidos poderiam ter conseguido todo o petróleo venezuelano não fosse pelos erros de Biden, despachou uma armada considerável – uma ameaça permanente no pior estilo das políticas do big stick do início do século 20.

Tudo vem na esteira de negociações com a Rússia na qual Trump, sem o muito o que oferecer ou com que pressionar Putin, saiu de mãos abanando sob a Ucrânia – uma fonte aparentemente infinita de problemas, que serve de constrangimento perpétuo para o presidente americano, eleito com a promessa de terminar com o conflito em 24 horas; mas já se passaram muitos dias.

Com isso, Trump manda um recado para os russos, mas também adverte a América Latina, de que nem ele nem seu gabinete de secretários escondem que se trata, apenas e tão somente, de um quintal. A Venezuela, para variar, age com altivez e bom humor, enquanto sua postura excepcionalmente resistente – só comparável à Cuba – fez o país resistir além do limite do imaginável.

Antes, Trump fazia acenos positivos sobre a Venezuela, precisando garantir o fluxo de petróleo do país para os Estados Unidos para, assim, evitar mais um foco de incêndio inflacionário – razão pela qual, possivelmente, Trump também se move para colocar fim ao conflito ucraniano, muito embora não ajude ao fazer tarifaços e ameaçar, paradoxalmente, a Venezuela a partir de agora.

A armada americana ainda posterga sua misteriosa chegada, em uma espécie de versão sombria do célebre E la nave va de Felini, um falso documentário sobre um navio luxuoso – aqui, temos uma invencível armada e sua surrealista operação farsesca, que ainda que venha se provar verdadeira o será por ser, mais ainda, uma grande mentira ancorada em um mar de tantas outras farsas e absurdos.

¨       Crise no governo Milei: Casa Rosada faz reunião de emergência para tratar de escândalo

Uma reunião de emergência foi convocada nesta sexta-feira (29) à noite na Casa Rosada para tratar da crise política aberta após a divulgação de áudios comprometedores envolvendo autoridades do governo argentino.

O encontro acontece em meio à expectativa de que novos materiais, possivelmente vídeos, venham a público nas próximas horas, aumentando a pressão sobre a gestão de Javier Milei.

Segundo a imprensa argentina, o clima é de extrema preocupação dentro do partido governista. Integrantes do gabinete e assessores de confiança se reuniram para coordenar uma estratégia de resposta, numa tentativa de conter o desgaste político e evitar que os vazamentos se tornem ainda mais danosos nos próximos dias.

Após o escândalo de corrupção que dominou a mídia argentina nos últimos dias, envolvendo supostos subornos em contratos de medicamentos da Agência Nacional de Deficiência (Andis) e o vazamento de um áudio que liga o caso à secretária-geral da Presidência e irmã do presidente, Karina Milei, e ao assessor Eduardo "Lule" Menem, amigo próximo de Milei, a desaprovação do governo atingiu 51,1%, enquanto a aprovação caiu para 43,8%, segundo pesquisa Atlas.

Em julho, o levantamento indicava desaprovação de 47,8%, com 45,1% de aprovação, o que mostra a deterioração da avaliação da gestão de Milei,

<><> Manifestação oficial

O porta-voz presidencial, Manuel Adorni, foi o primeiro a se manifestar oficialmente sobre o caso. Ele reagiu aos áudios atribuídos a Karina Milei, irmã do presidente, que teriam sido gravados dentro da Casa Rosada, na noite desta sexta. 

“Se forem verdadeiras, estamos diante de um escândalo sem precedentes. Seria a primeira vez na história da Argentina que uma autoridade seria gravada dentro da sede do governo”, declarou.

Adorni também afirmou que a divulgação dos áudios ocorre a apenas dez dias das eleições provinciais em Buenos Aires, o que reforçaria, segundo ele, um suposto caráter político da ação. “Tudo o que está acontecendo é uma operação de desinformação orquestrada e planejada, com o claro objetivo de desestabilizar o governo e influenciar maliciosamente o processo eleitoral”, acrescentou.

<><> Temos sobre divulgação de gravações 

As novas gravações reveladas pelo jornalista Mauro Federico incluem frases de Karina Milei pedindo união dentro do governo e descrevendo sua rotina de trabalho no Palácio. Embora não façam menção direta ao escândalo de corrupção na Agência Nacional de Deficiência, novos áudios devem ser divulgados nos próximos dias, aumentando o clima de incerteza.

O caso começou na semana passada, quando gravações de Diego Spagnuolo, ex-chefe da Andis e ex-advogado de Javier Milei, vieram à tona. Ele denunciava um suposto esquema de subornos ligados à compra de medicamentos e mencionava nomes próximos ao governo, incluindo Karina Milei.

¨       Movimentos cobram posicionamento do governo brasileiro contra ameaças dos EUA à Venezuela

Movimentos populares, sindicatos e grupos políticos vão protocolar, nesta sexta-feira (29/08), um pedido para que o governo brasileiro se posicione contra o deslocamento de navios militares estadunidenses no sul do Caribe. Em nota, as organizações afirmam que isso, somado às declarações do governo de Donald Trump, representam uma ameaça à Venezuela.

“Diante desse cenário, apelamos ao governo brasileiro para que, com base nos tradicionais laços de amizade que unem os dois povos e as duas nações, manifeste explicitamente seu apoio à Venezuela, reafirmando o compromisso com a paz, a cooperação e o respeito à soberania desse país irmão. A busca pela harmonia e o fortalecimento dos laços diplomáticos devem ser sempre as prioridades nas relações internacionais”, diz o comunicado.

O texto também lembra das acusações da Casa Branca de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, seria líder de uma suposta organização criminosa chamada Cartel dos Sóis, que levaria droga aos Estados Unidos. A existência desse grupo não foi provada pelo governo de Trump.

“A intensificação dessas ações provoca tensões na região por constituir uma ameaça de agressão a um país soberano. A Venezuela não deve ser alvo de provocações externas e ameaças, que visam a desestabilizar a sua ordem interna. Além disso, as recentes acusações feitas pelo presidente dos Estados Unidos contra o presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, são infundadas.”

Ao todo, 39 organizações assinaram o documento. Entre elas está o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Internacional Antifascista, a Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil (CTB) e a União Nacional dos Estudantes (UNE).

O texto afirma que essas declarações não apenas desrespeitam a soberania da Venezuela, como também “ignoram os princípios de convivência pacífica entre as nações” e reforçam uma “retórica beligerante” que não está de acordo com a diplomacia internacional.

“É evidente que essas ameaças militares têm como objetivo incitar tensões internas na Venezuela, favorecendo a instabilidade no país e na região. Uma política de agressão, como a promovida pelos Estados Unidos, só contribui para o agravamento de uma situação que deve ser resolvida com diálogo e respeito à soberania e autodeterminação dos povos”, afirma o texto.

A nota destaca que ações de intimidação afetam toda a América Latina e lembra que a região foi declarada como uma Zona de Paz pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em 2014.

O MST já havia declarado apoio à Venezuela na semana passada em meio a ameaças militares dos Estados Unidos. Segundo o grupo, a chegada de navios para a costa do país caribenho representa mais uma “ofensiva imperialista” contra os países latino-americanos.

<><> Submarino de propulsão nuclear

Brasil e Venezuela têm mantido contato para condenar as ameaças estadunidenses na região. A ideia da Venezuela é persuadir que o Brasil manifeste não só solidariedade ao país, como também denuncie a violação do Tratado de Tlatelolco, assinado no México em 1967 e ratificado pelos próprios Estados Unidos. Os países signatários concordaram em não testar, fabricar ou desenvolver qualquer arma nuclear.

Militares venezuelanos ouvidos pelo Brasil de Fato afirmam que o submarino estadunidense que está vindo para a região é um submarino de propulsão nuclear, ou seja, ele se desloca a partir da energia gerada pela quebra de núcleos atômicos. Ele pode, ou não, usar armas nucleares. A possibilidade de que ele carregue armas nucleares, no entanto, já foi suficiente para a denúncia venezuelana.

O governo brasileiro, no entanto, está reticente em denunciar, neste momento, uma violação deste tratado pelos Estados Unidos e entende que esse seria um passo a mais em uma relação já está conflituosa com Washington depois do tarifaço de Donald Trump.

Brasil de Fato solicitou posicionamento ao Ministério das Relações Exteriores, e ainda não houve retorno. O espaço segue aberto às manifestações.

<><> Ameaça dos EUA

A tensão aumentou na região na semana passada, depois que os Estados Unidos subiram o tom contra o governo Maduro. A porta-voz do governo de Donald Trump, Karoline Leavitt, afirmou que os Estados Unidos usariam “toda a força” contra a Venezuela. Antes, o Departamento de Estado havia aumentado a recompensa pela prisão de Nicolás Maduro para US$ 50 milhões e, sem apresentar provas, reiterou que o mandatário venezuelano seria chefe do Cartel dos Sóis, uma suposta organização criminosa, sobre a qual não há informações oficiais.

Depois disso, agências de notícias internacionais começaram a noticiar o envio de navios militares para a região. Ao todo, seriam três embarcações com 4 mil soldados estadunidenses que foram deslocados ao sul do Caribe para combater o tráfico de drogas. Na terça-feira (26), o cruzador de mísseis guiados USS Lake Erie e o submarino USS Newport News teriam sido incorporados à missão, além de uma nova tropa francesa, segundo a CNN.

Em resposta, o governo venezuelano anunciou que deslocaria uma tropa para o sul do Caribe e 15 mil soldados para a fronteira com a Colômbia. Além disso, o presidente Nicolás Maduro promoveu um alistamento em massa de voluntários à Milícia Nacional Bolivariana no último final de semana.

A milícia bolivariana é uma organização formada em 2009 composta por civis e militares aposentados em seus quadros. Eles recebem treinamento para defesa pessoal e fiscalização do território em diferentes contextos — urbano e rural. A milícia passou a compor uma das cinco Forças Armadas da Venezuela, que tem uma estrutura diferente do Brasil.

O governo reforçou a importância desse alistamento para a defesa da soberania nacional e disse que uma nova rodada de alistamento seria feita nesta sexta-feira (29/08) e sábado (30/08).

 

Fonte: Opera Mundi

 

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