Hugo
Albuquerque: No tabuleiro do mundo, Venezuela sob cerco e Argentina implodindo
Enquanto
uma poderosa armada americana se move lenta e ameaçadoramente para a costa da
Venezuela, em um gesto de ousadia delirante de Donald Trump, a Argentina queima
no caso de corrupção, com seu presidente de extrema direita, pela primeira vez,
em apuros reais –embora a estocada contra Javier Milei esconda uma disputa
política entre as direitas argentinas que, talvez, interesse também ao
presidente americano.
Nesse
sentido, Diego Spagnuolo é o nome da vez na Argentina. Ele foi gravado enquanto
tocava um esquema de corrupção na Andis, a agência responsável por tocar
políticas públicas para pessoas com deficiência no país. A conversa implica a
poderosa – e onipresente – irmã de Milei, Karina, o que fez a história chegar
em todos os principais jornais argentinos, mesmo o direitista Clarín.
Spagnuolo
estava grampeado desde muito, se tornando uma grande isca humana. Coincidência
ou não, a revelação vem depois que Milei rompeu com sua vice, Victoria
Villaruel, filha e advogada de militares ligados à última ditadura argentina –
e as eleições legislativas deste ano, embora remotamente fossem conceder a
Milei maioria parlamentar, por outro lado, acabariam com a fragmentação das
direitas a seu favor.
Voltando
ao Caribe, enquanto Trump parece sem muitas opções para dobrar Vladimir Putin
nas negociações sobre o futuro da Ucrânia, ameaçar ativos de Moscou com a
Venezuela ou mesmo tarifar mais ainda a Índia parece ser o que Washington tem
para hoje – e pode não ser o mais inteligente, embora no caso venezuelano
pareça ser o caminho mais fácil. E não é coincidente que isso ocorra agora.
Na
Argentina, Milei é uma figura bajuladora e histriônica que age como um
interventor externo a serviço da banca, mas não é exatamente o homem de Trump
em Buenos Aires, ao contrário do que o senso comum nos faz pensar – o
ex-presidente Maurício Macri, amigo de Trump desde muito, é essa figura, e hoje
estaria às voltas de perder protagonismo, caso as legislativas virassem uma
polaridade entre Milei e o Kirchnerismo.
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A genealogia de Milei e a sombra do vampiro Macri
Com
seus ternos muitíssimo bem cortados, Maurício Macri se parece com o estereótipo
do aristocrata vampiro da Europa. Seu pai foi um influente magnata durante a
derradeira ditadura militar argentina, mas nunca se envolveu diretamente com a
política – teve e fez amizades poderosas pelo mundo, inclusive com Fred Trump,
pai de Donald, razão pela qual Maurício o conhece desde muito.
Milei,
muito pelo contrário, é apenas um quadro médio da burocracia argentina, cujo
fervor ideológico e esotérico o tornaram o homem certo para ser o interventor
de seu próprio país – tudo em favor da banca internacional e seus credores
abutres. A ascensão de Milei se deu precisamente quando Joe Biden nomeou Marc
Stanley, um poderoso quadro ligado ao sionismo, para a embaixada americana de
Buenos Aires.
A
vitória de 2023, contudo, não tornou Milei exatamente um soberano absoluto.
Liderava, é verdade, sob um Congresso fragmentado e cuja figura de Macri nos
bastidores era central. Hoje, seu partido, o A Liberdade Avança (LLA,
em espanhol), parecia caminhar para monopolizar os votos da direita, relegando
Macri para escanteio no jogo político argentino.
Mas
tudo só é eterno enquanto dura. E hoje a família Milei se tornou alvo,
inclusive de uma imprensa direitista, incluindo o Clarín, que
sempre o apoiou – mas agora não parece sequer disposta a abafar as denúncias
contra ele, mesmo às vésperas de eleições legislativas na província de Buenos
Aires e, em alguns meses, eleições legislativas nacionais, as quais podem ser
vencidas pela temida oposição kirchnerista.
Os
efeitos de curto prazo são imponderáveis, mas um deles é Milei perder o poder,
por paralisia ou renúncia/deposição ou continuar sob controle das forças
políticas lideradas por Macri – e novamente teríamos o cenário de Milei como
uma marionete, dessa vez a serviço de um quadro mais confiável para Trump ou
com a ultra-direita tradicional argentina de volta ao poder diretamente.
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E la nave va na
Venezuela
Enquanto
isso, sob a alegação tragicômica de realizar uma operação contra o crime
organizado na Venezuela, Trump, que já declarou que os Estados Unidos poderiam
ter conseguido todo o petróleo venezuelano não fosse pelos erros de Biden,
despachou uma armada considerável – uma ameaça permanente no pior estilo das
políticas do big stick do início do século 20.
Tudo
vem na esteira de negociações com a Rússia na qual Trump, sem o muito o que
oferecer ou com que pressionar Putin, saiu de mãos abanando sob a Ucrânia – uma
fonte aparentemente infinita de problemas, que serve de constrangimento
perpétuo para o presidente americano, eleito com a promessa de terminar com o
conflito em 24 horas; mas já se passaram muitos dias.
Com
isso, Trump manda um recado para os russos, mas também adverte a América
Latina, de que nem ele nem seu gabinete de secretários escondem que se trata,
apenas e tão somente, de um quintal. A Venezuela, para variar, age com altivez
e bom humor, enquanto sua postura excepcionalmente resistente – só comparável à
Cuba – fez o país resistir além do limite do imaginável.
Antes,
Trump fazia acenos positivos sobre a Venezuela, precisando garantir o fluxo de
petróleo do país para os Estados Unidos para, assim, evitar mais um foco de
incêndio inflacionário – razão pela qual, possivelmente, Trump também se move
para colocar fim ao conflito ucraniano, muito embora não ajude ao fazer
tarifaços e ameaçar, paradoxalmente, a Venezuela a partir de agora.
A
armada americana ainda posterga sua misteriosa chegada, em uma espécie de
versão sombria do célebre E la nave va de Felini, um falso
documentário sobre um navio luxuoso – aqui, temos uma invencível armada e sua
surrealista operação farsesca, que ainda que venha se provar verdadeira o será
por ser, mais ainda, uma grande mentira ancorada em um mar de tantas outras
farsas e absurdos.
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Crise no governo Milei: Casa Rosada faz reunião de
emergência para tratar de escândalo
Uma
reunião de emergência foi convocada nesta sexta-feira (29) à noite na Casa
Rosada para tratar da crise política aberta após a divulgação de áudios
comprometedores envolvendo autoridades do governo argentino.
O
encontro acontece em meio à expectativa de que novos materiais, possivelmente
vídeos, venham a público nas próximas horas, aumentando a pressão sobre a
gestão de Javier Milei.
Segundo
a imprensa argentina, o clima é de extrema preocupação dentro do partido
governista. Integrantes do gabinete e assessores de confiança se reuniram para
coordenar uma estratégia de resposta, numa tentativa de conter o desgaste
político e evitar que os vazamentos se tornem ainda mais danosos nos próximos
dias.
Após o
escândalo de corrupção que dominou a mídia argentina nos últimos dias,
envolvendo supostos subornos em contratos de medicamentos da Agência
Nacional de Deficiência (Andis) e o vazamento de um áudio que liga o caso
à secretária-geral da Presidência e irmã do presidente, Karina Milei, e ao
assessor Eduardo "Lule" Menem, amigo próximo de Milei, a desaprovação
do governo atingiu 51,1%, enquanto a aprovação caiu para 43,8%,
segundo pesquisa Atlas.
Em
julho, o levantamento indicava desaprovação de 47,8%,
com 45,1% de aprovação, o que mostra a deterioração da avaliação da
gestão de Milei,
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Manifestação oficial
O
porta-voz presidencial, Manuel Adorni, foi o primeiro a se manifestar
oficialmente sobre o caso. Ele reagiu aos áudios atribuídos a Karina Milei,
irmã do presidente, que teriam sido gravados dentro da Casa Rosada, na noite
desta sexta.
“Se
forem verdadeiras, estamos diante de um escândalo sem precedentes. Seria a
primeira vez na história da Argentina que uma autoridade seria gravada dentro
da sede do governo”, declarou.
Adorni
também afirmou que a divulgação dos áudios ocorre a apenas dez dias das
eleições provinciais em Buenos Aires, o que reforçaria, segundo ele, um
suposto caráter político da ação. “Tudo o que está acontecendo é uma
operação de desinformação orquestrada e planejada, com o claro objetivo de
desestabilizar o governo e influenciar maliciosamente o processo eleitoral”,
acrescentou.
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Temos sobre divulgação de gravações
As
novas gravações reveladas pelo jornalista Mauro Federico incluem frases de
Karina Milei pedindo união dentro do governo e descrevendo sua rotina de
trabalho no Palácio. Embora não façam menção direta ao escândalo de corrupção
na Agência Nacional de Deficiência, novos áudios devem ser divulgados nos
próximos dias, aumentando o clima de incerteza.
O caso
começou na semana passada, quando gravações de Diego Spagnuolo, ex-chefe da
Andis e ex-advogado de Javier Milei, vieram à tona. Ele denunciava um suposto
esquema de subornos ligados à compra de medicamentos e mencionava nomes
próximos ao governo, incluindo Karina Milei.
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Movimentos cobram posicionamento do governo brasileiro
contra ameaças dos EUA à Venezuela
Movimentos
populares, sindicatos e grupos políticos vão protocolar, nesta sexta-feira
(29/08), um pedido para que o governo brasileiro se posicione contra o deslocamento de navios militares
estadunidenses no sul do Caribe. Em nota, as organizações afirmam que isso,
somado às declarações do governo de Donald Trump, representam uma ameaça à
Venezuela.
“Diante
desse cenário, apelamos ao governo brasileiro para que, com base nos
tradicionais laços de amizade que unem os dois povos e as duas nações,
manifeste explicitamente seu apoio à Venezuela, reafirmando o compromisso com a
paz, a cooperação e o respeito à soberania desse país irmão. A busca pela
harmonia e o fortalecimento dos laços diplomáticos devem ser sempre as
prioridades nas relações internacionais”, diz o comunicado.
O texto
também lembra das acusações da Casa Branca de que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, seria
líder de uma suposta organização criminosa chamada Cartel dos Sóis, que
levaria droga aos Estados Unidos. A existência desse grupo não foi provada pelo
governo de Trump.
“A
intensificação dessas ações provoca tensões na região por constituir uma ameaça
de agressão a um país soberano. A Venezuela não deve ser alvo de provocações
externas e ameaças, que visam a desestabilizar a sua ordem interna. Além disso,
as recentes acusações feitas pelo presidente dos Estados Unidos contra
o presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro, são infundadas.”
Ao
todo, 39 organizações assinaram o documento. Entre elas está o Movimentos dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Partido Comunista Brasileiro (PCB), a
Internacional Antifascista, a Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do
Brasil (CTB) e a União Nacional dos Estudantes (UNE).
O texto
afirma que essas declarações não apenas desrespeitam a soberania da Venezuela, como também
“ignoram os princípios de convivência pacífica entre as nações” e reforçam uma
“retórica beligerante” que não está de acordo com a diplomacia internacional.
“É evidente que essas ameaças
militares têm como objetivo incitar tensões internas na Venezuela, favorecendo a
instabilidade no país e na região. Uma política de agressão, como a promovida
pelos Estados Unidos, só contribui para o agravamento de uma situação que deve
ser resolvida com diálogo e respeito à soberania e autodeterminação dos povos”,
afirma o texto.
A nota
destaca que ações de intimidação afetam toda a América Latina e lembra que a
região foi declarada como uma Zona de Paz pela Comunidade de Estados
Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em 2014.
O MST
já havia declarado apoio à Venezuela na semana passada em meio a
ameaças militares dos Estados Unidos. Segundo o grupo, a chegada de navios para a
costa do país caribenho representa mais uma “ofensiva imperialista” contra os
países latino-americanos.
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Submarino de propulsão nuclear
Brasil
e Venezuela têm mantido contato para condenar as ameaças estadunidenses na
região. A ideia da Venezuela é persuadir que o Brasil manifeste não só
solidariedade ao país, como também denuncie a violação do Tratado de
Tlatelolco, assinado no México em 1967 e ratificado pelos próprios Estados
Unidos. Os países signatários concordaram em não testar, fabricar ou
desenvolver qualquer arma nuclear.
Militares
venezuelanos ouvidos pelo Brasil de Fato afirmam que o
submarino estadunidense que está vindo para a região é um submarino de
propulsão nuclear, ou seja, ele se desloca a partir da energia gerada pela
quebra de núcleos atômicos. Ele pode, ou não, usar armas nucleares. A
possibilidade de que ele carregue armas nucleares, no entanto, já foi
suficiente para a denúncia venezuelana.
O
governo brasileiro, no entanto, está reticente em denunciar, neste
momento, uma violação deste tratado pelos
Estados Unidos e
entende que esse seria um passo a mais em uma relação já está conflituosa com
Washington depois do tarifaço de Donald Trump.
O Brasil
de Fato solicitou posicionamento ao Ministério das
Relações Exteriores, e ainda não houve retorno. O espaço segue aberto às
manifestações.
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Ameaça dos EUA
A
tensão aumentou na região na semana passada, depois que os Estados Unidos subiram
o tom contra o governo Maduro. A porta-voz do governo de Donald Trump,
Karoline Leavitt, afirmou que os Estados Unidos usariam “toda a força” contra a
Venezuela. Antes, o Departamento de Estado havia aumentado a recompensa pela
prisão de Nicolás Maduro para US$ 50 milhões e, sem apresentar provas, reiterou
que o mandatário venezuelano seria chefe do Cartel dos Sóis, uma suposta
organização criminosa, sobre a qual não há informações oficiais.
Depois
disso, agências de notícias internacionais começaram a noticiar o envio de
navios militares para a região. Ao todo, seriam três embarcações com 4 mil
soldados estadunidenses que foram deslocados ao sul do Caribe para combater o
tráfico de drogas. Na terça-feira (26), o cruzador de mísseis guiados USS Lake
Erie e o submarino USS Newport News teriam sido incorporados à missão, além de
uma nova tropa francesa, segundo a CNN.
Em
resposta, o governo venezuelano anunciou que deslocaria
uma tropa para o sul do Caribe e 15 mil soldados para a fronteira com a
Colômbia. Além disso, o presidente Nicolás Maduro promoveu um alistamento em
massa de voluntários à Milícia Nacional Bolivariana no último final de semana.
A
milícia bolivariana é uma organização formada em 2009 composta por civis e
militares aposentados em seus quadros. Eles recebem treinamento para defesa
pessoal e fiscalização do território em diferentes contextos — urbano e rural.
A milícia passou a compor uma das cinco Forças Armadas da Venezuela, que tem
uma estrutura diferente do Brasil.
O
governo reforçou a importância desse alistamento para a defesa da soberania
nacional e disse que uma nova rodada de alistamento seria feita nesta
sexta-feira (29/08) e sábado (30/08).
Fonte:
Opera Mundi

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