Emilio
Cafassi: Argentina – a rua como resposta
Buenos
Aires não é, nessas linhas, a cidade da efervescência inesgotável nem a
província administrativa. É um espelho desmesurado onde o país se contempla com
suas misérias e suas mitologias. Uma espécie de cinturão que envolve – e
sufoca? – a capital antes de se abrir para vastas extensões onde a renda
fundiária diferencial e sua concentração atingem sua maior brutalidade. Precariedade
majoritária, desigualdade extrema e latifúndio se entrelaçam como as notas
dominantes daquele território. Abriga quase 40% do cadastro eleitoral, mas
também o coração simbólico da política argentina. Quem conquista sua geografia
pode reivindicar uma herança de poder; quem a perde recebe a marca indelével do
fracasso. Na eleição de 7 de setembro de 2025, esse espelho pendeu a balança
com uma força que nem mesmo o mais pessimista dos libertários havia imaginado:
mais de treze pontos a favor do peronismo – unidos no último minuto à cola do
terror – uma surra que rasga os véus das desculpas.
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O espelho de Buenos Aires
Os
números não apenas pintam um quadro de derrota, mas também revelam o pulso de
um eleitorado abalado. De acordo com as pesquisas mencionadas, seis em cada dez
moradores de Buenos Aires admitem ter cortado gastos nos últimos meses,
enquanto a queda da inflação parece ser a única conquista reconhecida do
governo, juntamente com uma rejeição quase equivalente aos cortes nas pensões. Essa
dupla abordagem – alívio parcial e punição profunda – significa que mais da
metade dos entrevistados já preveem votar contra o partido governista em
outubro. Esse panorama de um fenômeno é ainda mais preocupante para Javier
Milei: o voto da classe média-baixa, outrora a força motriz por trás de sua
ascensão, se afastou em massa, deixando “La Libertad Avanza” (LLA),
o partido dos irmãos Milei, com um eleitorado cada vez mais semelhante ao do
tradicional PRO (Partido Progressista) – o partido de Mauricio Macri.
A
magnitude do revés é eloquente: na província de Buenos Aires, a aliança LLA-PRO
caiu mais de 13 pontos atrás da Força Pátria (a organização que reúne os
partidos peronistas), com Axel Kicillof conquistando 74 dos 84 municípios que
governou – uma retenção de 88% – enquanto Javier Milei mal conseguiu manter 8
dos 12, uma perda relativa de 75%, mas uma perda absoluta significativa. O que
as consultorias descrevem como percentuais é percebido na região como abandono:
fábricas paralisadas e placas comemorativas da renúncia do Estado. O vencedor
indiscutível foi o governador Axel Kicillof, que não apenas derrotou Javier
Milei como também desafiou a liderança de Cristina Kirchner, dividindo as
eleições contra seu conselho e demonstrando que o kirchnerismo não é um cadáver
político, como sonhava o partido no poder, mas um espectro que se recusa a ser
enterrado. O peronismo portenho exibiu seus músculos territoriais e deixou
claro que o “último prego no caixão” prometido por Javier Milei era, na
realidade, um pedaço de metal enferrujado que se cravou em seu próprio pé.
Suspeito que ele não tenha tomado vacina contra tétano, o que agravará sua
condição. Mas o fato mais revelador não foi a vitória peronista, mas a ausência
de milhões de eleitores que haviam abraçado a fúria libertária em 2023; desta
vez, eles ficaram em casa, desencantados com o ajuste que transformou a
motosserra em guilhotina e com a suspeita de que a pureza anticasta era apenas
mais um disfarce para antigas práticas corruptas.
O
silêncio das urnas fala tanto quanto os próprios votos: não há mecanismo mais
eficaz para punir um governo do que a abstenção massiva daqueles que o apoiaram
ontem. Assim começou a queda do ex-presidente Fernando De la Rúa em 2001. A
derrota libertária em Buenos Aires não pode ser explicada apenas pela astúcia
peronista ou pela obstinação de Alex Kicillof. No lodo da política argentina,
onde ajustes e desconfianças se misturam, a indignação popular encontrou novos
motivos para manchar as urnas roxas. O ajuste, apresentado como uma cirurgia
virtuosa, transformou-se em carnificina: aposentados empobrecidos, pontes e
hospitais paralisados, médicos e cientistas transformados em inimigos dos
gastos.
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1. Rugido à corrosão
O povo,
que antes ria do rugido do Leão, começou a sentir os golpes da motosserra e as
mordidas do suborno em seus próprios corpos. Somando-se a essa ferida social,
estava o ácido da corrupção. As gravações de áudio de Diego Spagnuolo
discutindo subornos na Agência para Deficientes, o caso $Libra e os negócios
obscuros de associados presidenciais atingiram o cerne da narrativa anticasta. Como
sustentar o discurso contra privilégios quando a própria irmã do presidente e
seus confidentes são mencionados em esquemas de favores e propinas? A
motosserra, símbolo de redenção, passou a ser vista como uma espada mecânica de
dois gumes: ela corta subsídios para os pobres, mas também abre brechas por
onde podem se infiltrar negócios obscuros. O barro não é apenas material
eleitoral: é uma metáfora para um país onde o poder está afundando em sua
própria cova. Lá, a abstenção tornou-se a forma mais pura de protesto: milhões
decidiram não manchar as mãos com aquela lama contaminada, condenando o partido
no poder a uma derrota mais profunda do que qualquer diferença numérica.
A
corrupção não é um desvio esporádico da política argentina: é sua ferrugem
persistente, aquela crosta que se acumula nas engrenagens até travar a máquina
republicana. Javier Milei havia prometido lubrificar o sistema com a
honestidade do outsider, erradicando os vícios da “casta”. Mas as intrigas em
torno de Karina e dos Menem, entre outros escândalos, mostraram que a anticasta
também sabe enferrujar. Os analistas foram mordazes: o partido no poder reagiu
com o mesmo reflexo que denunciava em seus adversários, minimizando os eventos,
acusando os acusadores e recusando-se a exigir suas renúncias. Essa simetria
corrosiva apagou a distinção entre o novo libertarianismo e o antigo
kirchnerismo, afundando o primeiro no mesmo atoleiro moral do qual prometera escapar.
Em termos mais profundos, corrupção não é apenas suborno ou contratos
fraudulentos: é também a demonstração descarada de poder, as viagens luxuosas
do presidente enquanto os hospitais estão fechados, o desrespeito às formas
básicas de convivência e a violência verbal transformada em método. Tudo isso
constitui uma “corrosão da forma” tão grave quanto o roubo material, pois
corrói a confiança coletiva. A ferrugem, quando avança, não conhece cores ou
ideologias partidárias: infiltra-se em cada fresta e ameaça corroer a própria
legitimidade da democracia.
A
democracia argentina está mais uma vez à beira do abismo. As urnas de Buenos
Aires falaram com uma voz ambivalente: puniram o partido governista, mas sem
conceder um cheque em branco à oposição. Esse gesto permeia tanto a fúria
quanto a esperança. A fúria de quem sabe ter sido enganado pela motosserra que
prometeu cortar privilégios e acabou cortando direitos. A esperança de que
ainda possa haver um vislumbre de memória coletiva, em defesa do bem comum
contra a ganância privatizadora e a impudência corrupta. Assim, a província
volta a ser um espelho excessivo e um cinturão desconfortável: reflete o
desgaste de um governo corroído pela própria ferrugem e aperta todo o corpo da
nação até deixá-la sem fôlego. A abstenção ensurdecedora nas urnas, mais
eloquente do que qualquer slogan, alerta que o tempo da indulgência está se
esgotando. Talvez aí, nessa mistura de vazio e reflexão, esteja a chave:
resgatar a democracia do atoleiro não com novas máscaras, mas com um pacto
menos enferrujado, mais humano, capaz de romper o cerco e devolver o fôlego a
todo o país.
O plano
econômico de Javier Milei assenta num paradoxo: vangloria-se de ser uma âncora
de estabilidade, mas está a afundar-se em areia movediça. A premissa oficial
era clara – um dólar estável para conter a inflação – embora até os
especialistas admitam que a “solução otimista” seria uma desvalorização
ordenada e a solução pessimista, uma desvalorização com moratória. O que se
apresentava como uma cirurgia virtuosa tornou-se uma autópsia social: reservas
esgotadas, ciência demonizada e um país mergulhado na recessão e na paralisia
industrial. A estabilidade era apenas uma miragem adquirida ao preço de uma
depressão econômica e social devastadora. Após a derrota na Província de Buenos
Aires, a mística foi desfeita: Javier Milei deixou de ser o “imperador
invulnerável” como os seus acólitos o descreviam e tornou-se um líder
defensivo, assediado pelos mercados e pelos humores das ruas. A transmissão
nacional em que apresentou o orçamento buscou restaurar essa autoridade
perdida. O presidente pareceu solene, sem recorrer ao seu arsenal de insultos,
prometendo que um déficit zero é “inegociável” e que simultaneamente aumentará
as verbas da previdência social. Mas as letras miúdas do projeto revelam outra
conclusão: os números estão caindo em termos reais em comparação com 2023, e o
Artigo 30 elimina os limites legais que historicamente protegiam a educação, a
ciência e a defesa.
Mais
saúde e mais universidades são anunciadas, mas menos é consagrado. A epopeia
televisiva e a revista Excel se contradizem como um espelho refletindo uma
imagem invertida. E enquanto se recitam elogios à austeridade, o país se vê
sobrecarregado com quase mil projetos de obras públicas abandonados na
província de Buenos Aires, lembretes de um ajuste que não é abstrato, mas de
tijolos descascando e hospitais inacabados. Hoje, essa tensão transbordou para
o Congresso e para as ruas. A Câmara dos Deputados precisa se pronunciar sobre
os vetos presidenciais à restauração do financiamento universitário, aos
serviços de emergência pediátrica e aos programas para pessoas com deficiência.
Lá fora, sindicatos, organizações estudantis e organizações sociais se mobilizam
para exigir o respeito a esses direitos básicos. Se o partido governista se
refugia em tecnicismos, as ruas nos lembram que a fome, a doença ou a exclusão
não esperam pelo balanço final.
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2. O Orçamento, ruas e cadernos
Ao
mesmo tempo, a política revela suas fissuras mais obscuras, mas não caminha
sozinha: do outro lado do balcão, aparecem os verdadeiros cúmplices da máquina
corrupta. O caso “Cadernos” – um dossiê monumental iniciado em 2018 com base
nas anotações de um motorista sobre o sistema de propina em obras públicas –
voltou ao centro das atenções. Inclui não apenas ex-funcionários, mas também
CEOs de grandes construtoras (como Techint, IECSA, Roggio etc.), banqueiros e
magnatas que financiaram a lubrificação do poder com malas de dólares. Quase
cinquenta deles tentaram extinguir seus casos oferecendo US$ 25 milhões, como
se a responsabilidade corporativa pudesse ser resolvida com um cheque. O
Ministério Público e a Unidade de Inteligência Financeira rejeitaram a
tentativa com uma declaração contundente: “Neste Ministério Público, a
impunidade não está à venda”. O que foi apresentado como “reparações integrais”
foi, na realidade, a compra coletiva de absolvições. Porque a corrupção não se
sustenta apenas na política: ela requer a cumplicidade ativa do capital, de
conselhos de administração que fazem do suborno apenas mais um item em seus
balanços.
Um país
sujeito a ajustes também não precisa de um mercado negro para a inocência: essa
“impunidade à la carte” é outra forma de corrupção, tão corrosiva
quanto o próprio suborno. O paradoxo se completa com a liberdade de imprensa. O
juiz suspendeu a censura prévia – aquela aberração jurídica que abordamos
recentemente – às gravações de áudio de Karina Milei, a pedido da própria
interessada. Assim, enquanto as contas de universidades e hospitais são
fechadas, uma rachadura se abre na esfera pública. A liberdade é concedida,
ironicamente, não como uma conquista, mas como uma permissão. O partido no
poder se vê preso entre dois cenários contraditórios: a defesa de um orçamento
que ajusta com supostas luvas de pelica e a tentativa de salvar empresários e
funcionários amigos por meio de pagamentos redentores. E, no meio, uma
sociedade que já experimentou o poder da punição silenciosa nas urnas de Buenos
Aires. O espelho revela a ferrugem do poder: ajuste sem futuro, promessas sem
apoio e moral sem fundamento. O risco não é apenas econômico: é o esvaziamento
da confiança democrática, o único fio tênue em que se apoia a forma
representativa liberal-fiduciária, indulgentemente chamada de democracia. O
país volta a se olhar em seu espelho desmesurado, e o que reflete não é apenas
uma derrota eleitoral, mas um plano econômico que range, um orçamento que
promete com uma mão o que tira com a outra, e uma justiça cuja imagem iludiu os
empresários com a possibilidade de comprar absolvições de quem pagasse mais. A
rua, por sua vez, fala no plural diante do silêncio ensurdecedor das urnas:
onde o voto estava ausente, o corpo agora está presente. Nessa encruzilhada, a
democracia não pede milagres, apenas um respiro menos enferrujado que nos
permita romper o cinto sufocante sem cair no atoleiro do cinismo. O desafio é
se desta vez a ferrugem será definitiva ou se ainda há mãos dispostas a polir o
metal para que o reflexo no espelho finalmente devolva um rosto um pouco menos
desfigurado. Ali, na rebelião como exercício de revogação, pode estar a única
saída: arrancar o cinismo para que ele respire novamente como no já distante
ano de 2001.
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Por que Milei precisou pedir ajuda aos EUA para lidar com
crise econômica na Argentina?
Em
um momento crítico para seu governo, o presidente da
Argentina, Javier Milei, recebeu um impulso
econômico e político de Donald Trump após uma reunião entre os dois em Nova
York. "Ele tem feito um trabalho fantástico", disse Trump ao lado do
presidente argentino. Quando repórteres lhe perguntaram se ele iria
"resgatar" a economia argentina, Trump respondeu que os argentinos
não precisam disso. "Nós vamos ajudá-los", disse ele.
Trump
se referia à ajuda financeira que seu governo ofereceu à Argentina na
segunda-feira (22/9), por meio de mensagens publicadas pelo secretário do
Tesouro, Scott Bessent, no X, pouco antes da abertura do pregão de Wall Street.
O secretário afirmou que os EUA estão prontos para fazer "o que for
necessário" para apoiar a Argentina e que "todas as opções estão
sobre a mesa". O recado dado aos mercados foi interpretado como a
possibilidade de os EUA concederem um empréstimo ao governo de Milei. As opções, destacou
Bessent, "podem incluir, mas não se limitam a" ferramentas como a
linha de swap cambial, compras diretas de moeda estrangeira e compras de dívida
pública denominada em dólares pelo Fundo de Estabilização do Tesouro (ESF, na sigla
em inglês) — um fundo emergencial.
Se a
oferta for aprovada, será uma medida bastante incomum. O presidente Bill
Clinton emprestou quase US$ 20 bilhões do ESF ao México no final de 1994,
quando o país vizinho sofreu a recessão econômica do chamdo Efeito Tequila — em
meio a uma forte desvalorização do peso e uma enorme fuga de capitais. Paralelamente,
nesta terça-feira (23/9), o Banco Mundial, do qual os EUA são o maior
acionista, acelerou seu apoio econômico ao governo de Milei, prometendo
desembolsar US$ 4 bilhões de um pacote de ajuda de US$ 12 bilhões nos próximos
meses. A era eufórica — em que Milei recebia aplausos dos investidores por
cortar gastos públicos e o déficit fiscal, reduzir a inflação, impulsionar
crescimento e garantir um acordo de US$ 20 bilhões com o Fundo Monetário
Internacional (FMI) — começou a se dissipar em meados deste ano. Dúvidas
surgiram nos mercados financeiros sobre a eficácia de seu plano quando ficou
claro que as reservas do Banco Central estavam praticamente no vermelho e que o
apoio político ao seu partido estava diminuindo.
Nos
últimos dias, os investidores começaram a demonstrar sinais de desconfiança e,
sob crescente pressão do mercado, o Banco Central do país tomou uma medida
emergencial, alocando mais de US$ 1 bilhão de suas escassas reservas para
estabilizar o mercado de câmbio. Em meio a essa situação, muitos se perguntam
como a economia argentina se deteriorou tanto — e em apenas alguns meses — a
ponto de Trump ajudar Milei.
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Esses foram alguns dos motivos:
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1. Escassez de dólares
Quando
Milei assumiu o poder em dezembro de 2023, "ele começou bem", diz a
economista Marina Dal Poggetto, diretora executiva da empresa Eco Go
Consultores.
Naquele
momento, o Banco Central se concentrou em comprar grandes quantias de dólares e
reduzir o déficit fiscal, diminuindo o risco que o país representava para os
investidores — e recebendo um voto de confiança dos mercados. Com essa
abordagem pragmática, a economista disse à BBC News Mundo, serviço em espanhol
da BBC, que o presidente argentino conseguiu manter a governabilidade. "Milei
está amarrado à taxa de câmbio para baixar a inflação", ou seja, ele
coloca um teto para o dólar para que a cotação da moeda não suba muito, explica
Dal Poggetto.
O
governo conseguiu obter mais dólares e, em abril deste ano, o FMI garantiu um
empréstimo que deu um respiro à economia argentina. Esse modelo, segundo ela,
começou a falhar quando o país começou a ficar sem dólares. O país se
comprometeu, entre outras coisas, a refinanciar os vencimentos da dívida
pública em moeda local e estrangeira, mas não acumulou dólares suficientes para
garantir os pagamentos. A escassez de dólares levou a uma espécie de aperto
monetário com altas taxas de juros que prejudicaram o crescimento econômico.
Em
julho, a situação não parecia boa. O Banco Central não havia acumulado as
reservas esperadas e, como uma bola de neve, a desconfiança do mercado vinha
crescendo. Em setembro, quando o governo sofreu uma derrota eleitoral na
província de Buenos Aires, sua posição estava enfraquecida aos olhos dos
investidores. As tensões diminuíram nesta semana, quando o governo americano
ofereceu assistência financeira à Milei, após as mensagens de apoio de Trump. Também
nesta semana, o governo argentino anunciou a suspensão das chamadas
"retenções de grãos" — os impostos que o governo impõe às exportações
agrícolas, com o objetivo de obter recursos em meio às tensões cambiais. Essa
suspensão temporária de impostos se estenderá apenas até 31 de outubro, cinco
dias após as eleições legislativas, com o objetivo de aumentar a circulação de
dólares no curto prazo.
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2. Contexto político
As
expectativas do mercado eram de que Milei faria ajustes fiscais e acumularia
dólares e que seu partido venceria uma série de pleitos até a eleição
presidencial de 2027. Os ajustes fiscais foram feitos, mas as questões do
acúmulo de dólares e do apoio dos eleitores parecem estar afetando o governo de
Milei. A combinação de derrota eleitoral com recentes escândalos de corrupção
não ajudou.
Seu
partido perdeu para a oposição peronista nas eleições legislativas na maior
região eleitoral do país, a província de Buenos Aires, que o próprio presidente
havia dito que seria um teste crucial para sua administração em nível nacional,
disparando alarmes sobre a confiança do mercado. E houve um escândalo de
corrupção com a divulgação de gravações de áudio ligando Karina Milei, irmã do
presidente Javier Milei, a supostos subornos. Isso teve um impacto
significativo. Esses vários fatores geraram "uma combinação de tensão
financeira, cambial e política", afirma Lorenzo Sigaut Gravina, economista
da consultoria Equilibra. Com minoria no Congresso, o governo teve vários de
seus principais projetos rejeitados, enquanto os governadores exigem recursos
para suas províncias em troca do apoio às reformas. Além disso, os índices de
aprovação de Milei caíram, o que também está deixando os investidores nervosos.
Um dos desafios do presidente argentino neste momento é chegar ao final de
outubro sem novos contratempos e, a partir daí, encontrar maneiras de construir
acordos políticos para sustentar seus planos além dessa data.
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3. Peso supervalorizado
Vários
economistas concordam que o peso argentino está supervalorizado. Alguns dizem
que a moeda está entre 20% e 30% acima do nível normal. Mauricio Monge,
economista sênior para a América Latina da Oxford Economics, disse à BBC News
Mundo que essa supervalorização é uma das principais causas da turbulência
financeira dos últimos dias. Como é necessário construir confiança nos mercados
e garantir os pagamentos aos detentores de títulos com vencimento nos próximos
meses, o economista sustenta que "o que o país realmente precisa é de uma
desvalorização cambial". Existem diferentes maneiras de fazer isso. Por
exemplo, liberalizar completamente a taxa de câmbio, o que "não é o mais
aconselhável", aponta Monge. Outro caminho é modificar os limites das
faixas (teto e piso) dentro das quais a taxa de câmbio se move para cima ou
para baixo. Em outras palavras, expandir os limites de movimentação do dólar.
A
Argentina precisa gerar um fluxo constante de dólares. No momento, isso não
está acontecendo e as exportações não estão crescendo nos níveis esperados. A
ideia seria reduzir as importações e aumentar as exportações para que mais
dólares entrem no país. Isso criaria um superávit comercial maior (mais
exportações do que importações) para que o Banco Central e o Tesouro possam
acumular reservas.
Milei
enfrentará um teste eleitoral crucial em outubro, quando cerca de metade do
Congresso argentino será eleito — o que determinará o apoio político à sua
agenda econômica. Se ela não alcançar os resultados esperados, analistas
acreditam que haverá um impacto nos mercados. E, mesmo que os EUA tenham lhe
dado apoio, as perspectivas de longo prazo podem se tornar mais desafiadoras. Por
enquanto, não se sabe quanto a equipe econômica de Trump poderia emprestar ao
governo de Milei, nem em que condições. Da mesma forma, há grande incerteza
sobre o que a Casa Branca receberia em troca de um hipotético resgate
financeiro. Todas essas incógnitas devem ser resolvidas nas próximas semanas.
Fonte:
BBC News Mundo/A Terra é Redonda

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