quarta-feira, 1 de abril de 2026

Thiago Domenici: CIA - como agência americana impulsionou Marcha da Família com Deus pela Liberdade

A noite de 13 de março de 1964 caía sobre o Rio de Janeiro quando o presidente João Goulart (Jango), diante de uma multidão na Central do Brasil, anunciou medidas que alterariam o curso da história nacional. A fala de Jango sobre a limitação das remessas de lucro estrangeiro e a promessa de reforma agrária ecoaram não apenas nas ruas, mas também nos gabinetes de Brasília, nas sedes de corporações multinacionais e nos corredores de Washington, nos EUA.  Em Belo Horizonte, dias antes, o deputado federal Leonel Brizola, cunhado do presidente, havia sido impedido de discursar por um grupo de senhoras que empunhavam terços como escudos contra o que consideravam uma ameaça vermelha. “Rosários de fé não podem ser levantados contra o povo”, advertiu Goulart na Central do Brasil. A resposta a essa advertência viria menos de uma semana depois, não em orações silenciosas, mas no ruído de meio milhão de pessoas marchando sobre o asfalto de São Paulo, na tarde de 19 de março, dia de São José, padroeiro da família.

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade começou na Praça da República às 16 horas e seguiu rumo à Praça da Sé. Faixas empunhadas pelos manifestantes traziam dizeres que misturavam devoção religiosa e anticomunismo visceral: “Nossa Senhora Aparecida, iluminai os reacionários”, “Vermelho bom, só o batom”, “Verde, amarelo, sem foice nem martelo”. Mas o que parecia ser uma manifestação espontânea de fiéis preocupados era, na verdade, o resultado de uma engrenagem muito mais complexa, como explica a doutora em história Janaína Cordeiro, da Universidade Federal Fluminense (UFF), que pesquisa a atuação de grupos femininos conservadores no período do Estado de exceção. Segundo Janaína, o movimento não surgiu do nada, mas sim de um contexto de intensa polarização política. “A primeira marcha acontece em São Paulo e é concebida como uma marcha de desagravo ao Rosário, que teria sido ofendido pelo Jango ali no Comício da Central do Brasil no dia 13 de março”, explica. Ela detalha que essas mulheres, majoritariamente donas de casa e professoras primárias de classe média, organizaram-se rapidamente: “Essas mulheres são fundamentalmente donas de casa. Quando elas exercem profissões, elas são, em geral, ligadas ao cuidado, consideradas até na época femininas”.

A organização do evento durou apenas cinco dias e contou ainda com a articulação de figuras como o deputado federal Antônio Sílvio da Cunha Bueno, do PSD, e o vice-governador de São Paulo, Laudo Natel. O nome da marcha foi sugerido pela freira Ana de Lurdes, que a via como “um ato de fé, numa hora de trevas”. Nos bastidores, o governador de São Paulo, Ademar de Barros, recolhia fundos junto ao empresariado na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para equipar a Força Pública e garantir a ordem do evento.

Com base em documentos e no depoimento do ex-agente da Agência Central de Inteligência Americana (CIA), Philip Agee, a historiografia indica que a agência fornecia dinheiro ao Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Também teriam recebido contribuições da CIA e do empresariado para organizar a marcha, o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), a Camde (Campanha da Mulher pela Democracia), a FAUR (Fraterna Amizade Urbana e Rural) e a SRB (Sociedade Rural Brasileira).  Um documento sobre as “marchas da família”, organizado por Rodrigues Matias, obtido pela revista Caros Amigos em 2002, registra que “João Batista Leopoldo de Figueiredo, presidente do Ipes, foi uma das peças angulares da articulação do movimento”.

<><> “Padre da CIA”: religião como arma de Guerra Fria

A trajetória de um padre irlandês que acreditava ter sido salvo por um milagre também ajuda a explicar como a fé religiosa se transformou em instrumento de política externa americana. Patrick Peyton, membro da Congregação de Santa Cruz, havia contraído tuberculose durante sua formação sacerdotal nos Estados Unidos. Quando se recuperou, atribuiu sua salvação à intercessão de Nossa Senhora e do Rosário. A partir desse momento, Peyton dedicou sua vida a criar um movimento transnacional de devoção que se tornaria um dos instrumentos mais sofisticados de influência americana na América Latina durante a Guerra Fria. Peyton produzia filmes e programas de rádio que promoviam a devoção ao Rosário. Em 1962, quando chegou ao Brasil, sua Cruzada do Rosário em Família se transformaria em um vetor de mobilização política de proporções inesperadas, também impulsionando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

A doutora em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Isabella Villarinho Pereyra, descreve o papel dessa organização religiosa como fundamental para compreender o golpe de 1964. “As marchas eram meio que uma catarse coletiva daquele grupo de mulheres, que tinham uma agenda muito específica: salvar o Brasil do comunismo”, explica Pereyra. “E, naquele contexto, existia toda uma dinâmica de palavras que travavam uma batalha contra o comunismo, não apenas no âmbito físico dos militares, mas também na esfera espiritual”. O Rosário não era simplesmente um símbolo religioso. Era, na narrativa construída pela Cruzada, a única arma capaz de salvar o Brasil do comunismo. “As mulheres que marchavam acreditavam estar apelando a todos os tipos de ajuda possíveis, mobilizando não apenas a fé, mas também a mídia, as paróquias, as missas e a estrutura da Igreja Católica”, relata Pereyra.

A conexão entre a Cruzada do Rosário em Família e a CIA não foi acidental. Ela havia sido construída por Peter Grace, um grande empresário do ramo de exportações, amigo pessoal de Alan Dulles, então diretor da CIA. “O Peter Grace era um grande empresário do setor de exportações. E ele era muito católico”, descreve Pereyra. Grace havia conhecido o padre Peyton em uma viagem a navio para a Europa, onde ambos participavam de uma feira de inovações tecnológicas. Impressionado pelos filmes e programas de rádio de Peyton, Grace se tornou seu principal financiador e, mais importante, seu intermediário junto à inteligência americana. Grace foi quem propôs levar o movimento das Cruzadas para a América Latina. A ideia encontrou apoio tanto na CIA quanto no Vaticano, que tinha suas próprias preocupações com a região. A Igreja Católica enfrentava dois problemas na América Latina: um número reduzido de padres e clérigos e a crescente influência de movimentos de esquerda. A combinação de interesses religiosos institucionais com os objetivos geopolíticos dos EUA criou uma aliança. O financiamento viria de Washington, mas a face pública seria religiosa.

Quando a Cruzada do Rosário em Família se estabeleceu no Brasil, não foram homens de terno e gravata que fizeram a articulação inicial. Foram mulheres ligadas a grupos leigos católicos que criaram escritórios em Recife, no Rio de Janeiro, em Salvador, no Paraná e em Belo Horizonte. O clero católico, por meio de arcebispos e bispos, estabeleceu o primeiro contato com os fiéis, que se tornaram o braço direito da Cruzada. Essas mulheres, em sua maioria donas de casa e professoras primárias de classe média, ligadas à Igreja Católica, começaram a organizar-se em grupos que se multiplicaram rapidamente. Em São Paulo, a União Cívica Feminina (UCF) havia iniciado suas atividades em 1961, fundando núcleos no interior do estado, em Santos e outras cidades. No Rio de Janeiro, seis meses depois, foi fundada a Camde, que rapidamente expandiu seus núcleos para outros bairros e cidades da região. Mas havia um detalhe crucial: muitos dos maridos, irmãos e homens da família dessas mulheres eram militares, empresários ligados ao Ipes e ao Ibad, ou executivos de corporações multinacionais. Janaína Cordeiro ressalta que, embora as mulheres tivessem um papel de liderança muito forte e importante naquela conjuntura, essas outras organizações envolvidas também foram centrais. “Tinham o que eles chamavam, na época, de classes produtoras; tinham setores do empresariado; tinham alguns sindicatos organizados que também chamavam para a marcha; tinham outras igrejas para além da Igreja Católica.”

<><> ​A orquestração invisível

Segundo a pesquisa de Pereyra, a CIA determinava para onde as marchas do Rosário tinham de ir. “Sempre que eles chegavam no movimento, eram marcados jantares com empresários e a mídia local. Então, eles recebiam muitos empresários e associações comerciais e industriais e enviavam muitas cartas a essas pessoas”, detalha Pereyra. O financiamento não vinha apenas da CIA. Grandes corporações americanas, bem como empresários brasileiros ligados ao capital nacional, injetaram recursos para sustentar o movimento uma vez estabelecido nos estados brasileiros. A Aliança para o Progresso, programa de cooperação econômica americano, servia como um canal adicional de recursos. Havia uma narrativa que permeava todas as cruzadas, uma frase que aparecia em documentos da época: “A verdadeira revolução foi sua mãe que fez”. Essa construção narrativa permitia que as mulheres exercessem poder político sem que isso fosse reconhecido como tal. Permitia que a CIA operasse por meio de estruturas religiosas e familiares, evitando a aparência de intervenção externa. Segundo Janaína Cordeiro, a narrativa funcionou: “a mobilização legitimava o golpe, que era apresentado como resposta ao clamor das ruas”. Um dos documentos mais reveladores da pesquisa de Pereyra indica que Peter Grace menciona a necessidade de uma entrevista entre o Padre Peyton e a CIA, na qual se evidencia que a conexão entre a religião, o empresariado e a inteligência americana não era informal ou acidental.

<><> O legado de uma marcha funesta

Para compreender como as Cruzadas do Rosário em Família e, posteriormente, a própria Marcha da Família com Deus pela Liberdade encontraram terreno fértil no Brasil, é preciso considerar o contexto de polarização política que marcou o início dos anos 1960. O governo de Jango enfrentava uma poderosa coalizão de forças conservadoras e ultrarreacionárias.  As reformas de base propostas por Goulart desagradavam profundamente os setores conservadores. A limitação às remessas de lucro estrangeiro afetava as multinacionais. A reforma agrária aterrorizava os fazendeiros. A mobilização dos sindicatos e dos trabalhadores, coordenada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), assustava a burguesia. Nesse contexto de radicalização política, as Cruzadas do Rosário em Família ofereciam uma linguagem que permitia aos setores retrógrados expressar suas preocupações em termos religiosos e familiares, em vez de puramente econômicos ou políticos.

O historiador Boris Fausto, em entrevista para a Agência Pública em 2019, ressalta que a marcha demonstrou que o golpe possuía um lastro social significativo no meio urbano, especialmente nas classes média e alta, mas adverte que “daí a falar em ‘movimento representativo do conjunto da sociedade’ vai uma enorme distância”. A grande imprensa, com raras exceções, como o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, desempenhou um papel crucial na construção do clima de pânico, mobilizando à exaustão o tema do perigo vermelho. O Estado de S. Paulo, por exemplo, publicou em suas páginas o manifesto de convocação da marcha, alinhando-se abertamente aos conspiradores. “A ameaça imediata de implantação de um regime comunista não havia”, afirma Fausto. O que existia era uma radicalização política e uma disputa pelos rumos do desenvolvimento nacional. O golpe de 1964, longe de ser uma mera “quartelada”, foi uma articulação civil-militar-empresarial que surpreendeu as forças democráticas e se instalou com absoluta força. A ditadura que se seguiu evidenciou a verdadeira natureza do movimento.

Quando a Marcha da Família terminou no começo da noite de 19 de março e a Catedral da Sé realizava a última missa do dia, o destino do governo Jango estava selado. Doze dias depois, o golpe seria consumado. A marcha havia fornecido a chancela civil que os militares precisavam para agir. A primeira marcha em São Paulo serviu de rastilho de pólvora. No Rio de Janeiro, uma marcha foi planejada para 2 de abril, mas o golpe foi antecipado para 31 de março e efetivado em 1° de abril, transformando a manifestação em uma “Marcha da Vitória”. A que ocorreu no Rio reuniu cerca de 800 mil pessoas, segundo estimativas mais prudentes, enquanto São Paulo contabilizava 500 mil. Janaína Cordeiro pontua a dimensão dessa mobilização: “A marcha do Rio foi a maior que teve. A partir daí, essas marchas passaram a ser de comemoração”. Ela acrescenta que o fenômeno se espalhou pelo país: “ao que parece, o Brasil marchou até setembro”.

O ar daquele março de 1964 estava carregado de eletricidade, recordaria o historiador Jacob Gorender em entrevista sobre a véspera do golpe militar. A Operação Brother Sam, articulada por Washington, posicionou a Marinha e a Força Aérea americanas prontas para intervir no Brasil caso o golpe enfrentasse resistência armada ou resultasse em guerra civil. A intervenção direta não foi necessária, mas a presença da frota ao largo da costa brasileira serviu como garantia de que o projeto de deposição de Goulart não falharia. A derrubada do governo legítimo era uma prioridade na lógica da Guerra Fria, em que a retórica do “perigo vermelho” justificava a supressão das liberdades democráticas. Mas o entusiasmo de muitos participantes logo se transformaria em desilusão. Parcelas da sociedade que apoiaram a queda de Jango, acreditando em uma intervenção breve para “restaurar a ordem”, viram-se presas a um regime autoritário que duraria 21 anos. Em 1968, muitos dos que haviam marchado com terços nas mãos estariam nas ruas protestando contra a violência de Estado. A ditadura que se seguiu suprimiu as liberdades, fez uma limpeza no parlamento, perseguiu e torturou opositores, até matá-los, como retrataram os filmes “Eu ainda estou aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025).

¨      Marcha da Família com Deus pela Liberdade

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um movimento político-religioso que ocorreu no Brasil em 1964. Foi organizada por setores conservadores da sociedade civil em resposta ao que percebiam como uma ameaça comunista ao país. O movimento tinha como objetivo barrar o avanço comunista, preservando a democracia e os valores cristãos, enquanto defendia a intervenção militar para impedir as mudanças sociais. As causas defendidas incluíam a luta contra o comunismo, a proteção da propriedade privada e a defesa da moralidade cristã. Em São Paulo, a marcha reuniu cerca de 500 mil pessoas, simbolizando o apoio à intervenção militar, e, no Rio de Janeiro, uma grande manifestação ocorreu logo após o golpe, reforçando o apoio ao novo regime.

<><> Resumo sobre a Marcha da Família com Deus pela Liberdade

  • A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um movimento político-religioso que ocorreu no Brasil em 1964, organizado por setores conservadores da sociedade.
  • O objetivo principal da Marcha da Família com Deus pela Liberdade era barrar o avanço do comunismo no Brasil e impedir as reformas progressistas de João Goulart, defendendo a intervenção militar como uma forma de preservar a democracia e os valores cristãos.
  • A marcha de São Paulo, em março de 1964, reuniu cerca de 500 mil pessoas e foi um marco de oposição ao governo de João Goulart.
  • A marcha no Rio de Janeiro, em abril de 1964, ocorreu logo após o golpe militar, demonstrando o apoio ao novo regime.
  • A Igreja Católica teve papel central na mobilização da marcha, promovendo uma campanha anticomunista que incentivou a participação de fiéis e justificou a intervenção militar como defesa da moral cristã e da sociedade brasileira.
  • A marcha legitimou o Golpe Militar de 1964, e contribuiu para o estabelecimento de uma ditadura de 21 anos.

<><> O que foi a Marcha da Família com Deus pela Liberdade?

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um movimento político-religioso que ocorreu no Brasil em 1964. Foi organizada por setores conservadores da sociedade civil em resposta ao que percebiam como uma ameaça comunista ao país.

A marcha reuniu diversos grupos, incluindo membros da elite econômica, setores religiosos e militares, e foi caracterizada como uma grande manifestação pública que expressava oposição ao governo do então presidente João Goulart, que vinha implementando reformas sociais e políticas que desagradavam aos setores mais conservadores. A marcha teve como ponto alto um ato público de grande impacto em São Paulo que contou com a participação de centenas de milhares de pessoas. Além disso, ela é considerada um dos eventos que precipitaram o Golpe Militar de 1964, que depôs o presidente Goulart e deu início a uma ditadura militar que duraria até 1985. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi promovida como um movimento em defesa da democracia e dos valores cristãos, mas, na prática, apoiava a intervenção militar como forma de barrar o avanço das reformas progressistas propostas pelo governo.

<><> Objetivos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade

O principal objetivo da Marcha da Família com Deus pela Liberdade era barrar o avanço das reformas propostas pelo governo de João Goulart, que os organizadores do movimento associavam ao comunismo. A marcha tinha um caráter explicitamente anticomunista, e seus líderes se apresentavam como defensores da democracia, da família e dos valores cristãos. Para eles, as reformas estruturais que Goulart pretendia implementar, como a reforma agrária e a reforma urbana, ameaçavam a propriedade privada e a ordem social. Além disso, o movimento tinha como objetivo explícito mobilizar a sociedade civil para apoiar uma intervenção militar que restaurasse a ordem e impedisse o que consideravam ser um iminente golpe comunista. A marcha também buscou demonstrar a força e coesão dos setores conservadores, reafirmando os valores tradicionais da família, da pátria e da religião como pilares fundamentais da sociedade brasileira. Assim, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi não apenas uma manifestação popular mas também uma tentativa de legitimar a intervenção militar e de evitar mudanças estruturais na sociedade brasileira.

<><> Causas defendidas pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade

Entre as principais causas defendidas pela Marcha da Família com Deus pela Liberdade estavam o anticomunismo, a preservação da propriedade privada e a defesa dos valores cristãos tradicionais, como a família e a moralidade religiosa. O movimento se posicionava contra qualquer forma de socialismo ou comunismo, vistos como ameaças à ordem capitalista e à estabilidade social do país. A ideologia da marcha se baseava no medo de que as reformas propostas por João Goulart pudessem abrir caminho para um regime socialista semelhante ao de Cuba. A defesa da moralidade cristã e da família nuclear também era uma bandeira central da marcha, refletindo o papel importante da Igreja Católica na mobilização do evento.

Os organizadores argumentavam que o governo de Goulart estava promovendo a desordem social e moral, colocando em risco os valores fundamentais da sociedade brasileira. Assim, a marcha se colocou como um movimento de preservação das tradições e da identidade nacional, em oposição às mudanças propostas pela esquerda.

<><> As Marchas da Família com Deus pela Liberdade

A Marcha da Família com Deus pela Liberdade não foi um evento isolado. Além da grande marcha realizada em São Paulo, ocorreram outras marchas em diversas cidades do Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, mobilizando setores conservadores da sociedade em apoio à intervenção militar. Esses eventos contaram com a participação de diversos grupos religiosos, empresariais, políticos e militares, que viam nas marchas uma forma de pressionar o governo e de mostrar apoio às Forças Armadas.

  • São Paulo: realizado em 19 de março de 1964, foi o evento mais emblemático do movimento. Estima-se que 500 mil pessoas tenham participado da manifestação, que começou na Praça da Sé e percorreu as ruas do centro da cidade. Entre os participantes estavam figuras de destaque da elite paulista, líderes religiosos, políticos conservadores e membros das Forças Armadas. A marcha foi acompanhada por discursos inflamados contra o comunismo e em defesa da liberdade e da família. Esse evento foi um dos principais marcos que precipitaram o golpe militar que deporia João Goulart poucos dias depois.
  • Rio de Janeiro: realizada em 2 de abril de 1964, logo após o golpe militar, a marcha serviu como uma demonstração de apoio ao novo regime militar e à deposição de Goulart. No Rio, assim como em São Paulo, o evento contou com a participação de membros da classe média, religiosos e militares, que celebravam a “restauração da ordem” no país. A manifestação no Rio de Janeiro reforçou o caráter nacional do movimento e consolidou o apoio da sociedade civil ao regime militar recém-instalado. Também mobilizou milhares de pessoas.

<><> A Igreja e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade

A Igreja Católica desempenhou um papel fundamental na organização e mobilização da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Setores conservadores da Igreja se uniram ao movimento em uma cruzada contra o comunismo, que consideravam uma ameaça aos valores cristãos e à moralidade da sociedade brasileira. A hierarquia católica brasileira, especialmente a partir do final da década de 1950, estava fortemente engajada na luta anticomunista, e o apoio às marchas foi uma extensão dessa postura. Bispos, padres e freiras participaram ativamente das marchas, incentivando a adesão de seus fiéis e justificando a necessidade de uma intervenção militar para “salvar” o Brasil de uma suposta revolução comunista. Além disso, a Igreja Católica organizou orações e missas em prol do movimento, reforçando a ideia de que a marcha era não apenas uma manifestação política como também era uma defesa espiritual da nação. Para saber mais sobre, leia: A relação entre a Igreja Católica e a ditadura no Brasil.

<><> Consequências da Marcha da Família com Deus pela Liberdade

As consequências da Marcha da Família com Deus pela Liberdade foram profundas para a história política do Brasil. A marcha ajudou a legitimar o Golpe Militar de 1964, que depôs o presidente João Goulart e instaurou uma ditadura que duraria 21 anos. O movimento também contribuiu para fortalecer a aliança entre setores conservadores da sociedade civil e as Forças Armadas, criando uma base de apoio popular para o novo regime militar. No entanto, as consequências mais duradouras da marcha foram a repressão política e a supressão das liberdades democráticas no Brasil. Sob o regime militar, houve censura à imprensa, perseguição a opositores políticos, tortura e prisões arbitrárias. A marcha, promovida como uma defesa da liberdade, acabou se tornando um símbolo de apoio a um regime que violou sistematicamente os Direitos Humanos e restringiu a participação política. Embora o movimento tenha se dissipado após a consolidação do regime militar, seu legado é frequentemente revisitado nos debates sobre o papel das elites conservadoras, da Igreja Católica e das Forças Armadas na política brasileira.

 

Fonte: Agencia Pública/Brasil Escola

 

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