Ricardo
Nêggo Tom: O Brasil sob o fascismo evangélico
Desde
que passei a compreender o real propósito por trás do “avivamento” evangélico
no país, comecei a pesquisar as suas raízes, influências, e modo de operação na
nossa sociedade. A partir desta pesquisa, aliada à minha experiência e vivência
cristã católica desde a infância – algo que hoje não faz mais parte da minha
crença e espiritualidade – passei a observar com atenção o comportamento, não
apenas dos líderes religiosos ligados ao projeto de poder neopentecostal, mas,
sobretudo, o dos seus liderados. Os crentes. As “ovelhas”, como recentemente se
referiu André Valadão aos fiéis da Igreja Batista da Lagoinha - uma das muitas
instituições financeiras que atuam no país sob a alcunha de “igreja” - ao pedir
“perdão” por possíveis erros cometidos por sua gestão. Um baita negócio dos EUA
trazido para o Brasil no final dos anos 1970, cuja bênção do deus capitalismo
tem feito prosperar divina e corruptamente.
Da
minha pesquisa, e também da minha inquietação com relação ao tema, nasce a
ideia de escrever um livro que fala sobre todo esse processo de “investigação”
e denuncia a formação de uma máquina teológico-política que, sob o disfarce da
fé, busca capturar a esfera pública, submeter o Estado laico e reorganizar a
vida nacional segundo a lógica do medo, da obediência, da guerra moral e de uma
suposta batalha espiritual do bem contra o mal. Se observarmos atentamente, ou
iremos identificar a lógica bolsonarista contida neste discurso religioso, ou
tal discurso religioso inserido na lógica bolsonarista. O que corrobora a tese
que defendo há tempos, de que a igreja evangélica brasileira é o grande
sustentáculo do bolsonarismo e do discurso da extrema direita no país. E que se
inclua também movimentos católicos fundamentalistas, como a Canção Nova e o
Centro Dom Bosco, entre outros, como pilares desta sustentação política.
O
avanço do neopentecostalismo no país denota total afinidade com ideologias
autoritárias, e mostra uma clara associação com o capitalismo predatório e
opressor dos mais pobres. Algo que o afasta do jesuismo e de sua mensagem de
amor e compaixão pelo próximo. Digo jesuismo, por entender que o que conhecemos
hoje por cristianismo não contempla, e nunca contemplou, de fato, os
ensinamentos do Cristo. Tornando-se uma religião sistêmica, cujo poder está
centralizado em homens ditos moralmente superiores e pretensamente ungidos por
uma divindade onipotente, que se julgam capazes de reger o mundo inteiro
baseado em seus “valores”, crenças e verdades absolutas. Outro ponto letal
desse avanço, é a sua ofensiva sobre a educação, a cultura, a política e o
imaginário popular. Uma parte do projeto que visa desconstruir tudo aquilo que
não se encaixa na sua ideologia de controle, e impor a obediência e submissão
diante daquilo que eles consideram agradável a Deus: Eles mesmos.
Quando
ouvimos um louvor gospel cuja frase diz: “Todo joelho se dobrará e toda língua
proclamará que Jesus Cristo é o senhor”, estamos diante de um mantra religioso
cuja mensagem subliminar é fascista e exalta o poder do homem sobre o homem.
Que ninguém creia, de fato, que quando a apóstolo Paulo escreveu em Filipenses,
2:10-11 que “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, e na
terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é Senhor,
para glória de Deus Pai”, ele estava se referindo a salvação que o cristianismo
prega que Jesus oferece. Paulo estava propondo que todos, cristãos ou não,
dobrassem seus joelhos diante daquilo que ele acreditava e tinha como verdade
inquestionável. O que implicaria submeter toda a sociedade da época aos seus
caprichos religiosos sob forma de autoridade espiritualmente constituída. É o
mesmo que o projeto de poder neopentecostal pretende fazer no Brasil nos dias
de hoje.
Um
domínio teocrático como regime religioso, subverte o conceito de liberdade
natural de pensamento, de ação, de movimento e de sentimento do indivíduo,
fazendo com que ele anule a própria existência em nome de algo “maior”,
salvífico, que o conduzirá a uma vida plena e eterna. Mesmo que não haja
nenhuma comprovação fática de que ele a viverá. É o uso da fé alheia em
benefício dos interesses do projeto religioso de poder. Um domínio teocrático
como regime político, impõe legalmente a ausência de liberdade, de pensamento,
de ação, de movimento e de sentimento do indivíduo como um conceito de
sociedade, anulando – até mesmo fisicamente - a existência de todos aqueles que
não dobrarem os seus joelhos diante de tal domínio, e não confessarem que seus
líderes são os seus senhores. Isso se chama fascismo. E ainda que se apresente
com um verniz evangélico e cristão, é fascismo.
No que
tange a ofensiva contra a cultura e o imaginário popular, o combate à
misoginia, por exemplo, representa um obstáculo para tal projeto de poder
fundamentalista religioso. Alicerçado sob uma estrutura patriarcal, onde Deus é
pai, e a mulher foi a responsável por introduzir o pecado no mundo – conforme o
livro de Gênesis – e por isso teria sido condenada por Deus a ter dores durante
o parto, e a ser eternamente submissa ao homem, para os fundamentalistas
imaginar um mundo sem misoginia, sem machismo e sem violência contra a mulher,
é imaginar um mundo antinatural e “antimasculino”, como publicou Eduardo
Bolsonaro em seu perfil no “X”, reagindo a aprovação da lei que criminaliza a
misoginia. Não por coincidência, a extrema-direita e a bancada evangélica se
posicionaram majoritariamente contra o projeto. Afinal, como manter as
pregações que reduzem a mulher a uma costela do homem, e a submetem a sua
obediência em nome de Deus, segundo a inferiorização feminina que a Bíblia
defende?
Livrar
o país de um domínio teocrático, é evitar que demônios fundamentalistas e
imperialistas controlem toda a nossa sociedade. No meu livro “Domínio
teocrático: o Brasil sob o fascismo evangélico”, já disponível em pré-venda no
site da editora Kotter com 30% de desconto(
https://kotter.com.br/loja/pre-venda/dominio-teocratico-o-brasil-sob-o-fascismo-evangelico/
), eu escrevo contra a anestesia e desmonto a fantasia de que estamos diante
apenas de “excessos religiosos” ou de meras excentricidades de púlpito. O que
está em jogo, é a disputa pelo país: por suas instituições, por sua memória,
por sua linguagem, por sua cultura, por sua pluralidade de crenças, por sua
educação e por sua ideia de cidadania. Um alerta para quem deseja compreender
uma das forças mais agressivas e menos inocentes do Brasil contemporâneo. Jesus
te ama, mas eles não.
• Conferência Antifascista encerra com
proposta de frente global contra extrema direita
A I
Conferência Internacional Antifascista encerrou as atividades na noite deste
domingo (29/03) com a participação de diversas personalidades de mais de 40
países, com 11 painéis propostos pelo Comitê Organizador, 150 atividades
autogestionadas e a Feira de Artesanato Bella Ciao. Reunidos em Porto Alegre,
os presentes afirmaram uma “unidade na diversidade” com um objetivo comum:
fortalecer a organização internacional contra o avanço do fascismo, da extrema
direita e do imperialismo. O encontro ocorre em meio a uma onda global de
mobilizações, que inclui protestos massivos na Argentina contra a gestão de
Javier Milei, atos antifascistas no Reino Unido e a manifestação “No Kings” nos
Estados Unidos, reunindo milhões contra Donald Trump.
A
declaração final da conferência defende que o sistema capitalista vive uma
“profunda crise e decadência econômica, social e moral”, cuja resposta tem sido
o fomento ao fascismo, a imposição de políticas neoliberais e o aumento das
agressões militares. Entre os efeitos listados estão a retirada de direitos, a
precarização do trabalho, o avanço do desemprego estrutural e políticas de
austeridade que “eliminam todo e qualquer investimento social”.
O
documento também destaca como a extrema direita canaliza o descontentamento
popular contra grupos vulneráveis, promovendo racismo, xenofobia, misoginia e
LGBTQI+fobia, além da disseminação do ódio e da desinformação. Ao mesmo tempo,
denuncia o caráter cada vez mais agressivo do imperialismo, citando o genocídio
em Gaza e a atuação do governo de Benjamin Netanyahu, com apoio dos Estados
Unidos. Como resposta, aponta a necessidade da construção de uma frente
internacional ampla, capaz de articular diferentes forças sociais e políticas.
Entre os eixos centrais estão a defesa dos direitos democráticos, o
fortalecimento do mundo do trabalho, a luta contra o ecocídio e a promoção de
uma reforma agrária como caminho para a soberania alimentar. A carta também enfatiza
a necessidade de “ações concretas” e cooperação global permanente.
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Veja a carta da I Conferência Internacional Antifascista:
CARTA
DE PORTO ALEGRE
UNIDADE
CONTRA O FASCISMO E PELA SOBERANIA DOS POVOS
Reunidos
em Porto Alegre – cidade símbolo das lutas internacionais, de importantes
tradições e aspirações democráticas – milhares de ativistas de mais de quarenta
países dos cinco continentes, celebrando nossa unidade na diversidade, buscando
avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a
extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva.
Nessa
mesma semana, ocorreu o comboio Nuestra America a Cuba, tivemos mais de um
milhão de pessoas nas ruas da Argentina, lutando pela memória e contra Milei;
houve centenas de milhares na convocação antifascista do Reino Unido e
especialmente a grande e histórica manifestação “No Kings” nos Estados Unidos
que com milhões de estadunidenses reunidos em centenas de cidades, declarando
uma vez mais Trump como inimigo da humanidade.
O
sistema capitalista-imperialista vive uma profunda crise e uma acentuada
decadência econômica, social e moral. A resposta das potências imperialistas ao
seu declínio tem sido o fomento do fascismo em toda parte, a imposição de
políticas neoliberais, agressões militares às nações mais fracas e a sua
recolonização.
Em cada
país, as ameaças fascistas e neoliberais assumem formas particulares, mas têm
pontos em comum: a eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos
direitos trabalhistas, a explosão do desemprego estrutural, o desmantelamento
da previdência social, a repressão às entidades sindicais e populares, a
privatização dos serviços públicos, políticas de “austeridade” que eliminam
todo e qualquer investimento social, o negacionismo científico e climático, a
expropriação dos camponeses em benefício da agroindústria, o deslocamento
forçado das populações originárias para promover o extrativismo desenfreado,
políticas migratórias ultra-restritivas e enorme aumento de despesas militares.
A
extrema direita e as forças neofascistas desenvolvem uma ampla ofensiva, que
instrumentaliza o descontentamento com as consequências desastrosas do
neoliberalismo para acelerar essas políticas. Para isso, à semelhança do
fascismo clássico, procuram direcionar esse descontentamento contra os grupos
oprimidos e despossuídos: migrantes, mulheres, pessoas LGBTQ+, beneficiários de
programas de inclusão, pessoas racializadas e minorias nacionais ou religiosas.
O nacionalismo exacerbado, o racismo, a xenofobia, o sexismo, a LGBTQI+fobia, a
incitação ao ódio e a banalização da crueldade acompanham o avanço da extrema
direita em cada etapa, de acordo com as peculiaridades de cada país.
A
vontade de acumular riqueza nas mãos do capital, a busca desenfreada pelo lucro
máximo que sustenta as políticas da extrema direita, também se manifesta pela
intensificação das agressões imperialistas para monopolizar recursos e explorar
populações.
O
imperialismo torna-se cada vez mais desenfreado, agressivo e belicista,
atropela o Direito Internacional, a Carta da ONU e a autodeterminação dos
povos, sanciona, ataca e bombardeia as nações que não se submetem aos seus
ditames, sequestra e assassina seus Chefes de Estado.
Isso
vai de par com a perpetuação de situações coloniais que no caso da Palestina
assume a forma de um genocídio explicito em Gaza, orquestrado pelo Estado
sionista de Israel, apoiado incondicionalmente pelos Estados Unidos, com a
cumplicidade dos demais países imperialistas. Além disso, Israel acaba de
invadir e bombardear de forma criminosa o Líbano e afirma que anexará o sul do
país.
Lutamos
contra todos os imperialismos e apoiamos a luta dos povos por sua
autodeterminação, por todos os meios necessários.
A
extrema direita, além da cumplicidade com o governo genocida de Netanyahu, tece
laços internacionais, realiza congressos, think tanks, declarações conjuntas,
apoio mútuo nos processos eleitorais, colaboração e programas de propaganda e
desinformação. Além do apoio direto (ou velado) das chamadas Big Techs,
desestabilizando governos que resistem ao império e potencializando a
propaganda reacionária nos meios digitais.
As
forças que combatem a ascensão da extrema direita são diversas e apresentam
diferentes análises, estratégias e táticas, programas e políticas de aliança. A
experiência nos ensina que embora reconhecendo essas diferenças, é essencial
articular de forma unitária a luta contra os nossos inimigos. Essa convergência
deve incluir todas as forças dispostas a defender as classes trabalhadoras, os
camponeses, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQ+, as pessoas
racializadas, as minorias nacionais ou religiosas oprimidas e os povos
indígenas; a defender a natureza contra o capitalismo ecocida; a combater as
agressões imperialistas e coloniais, independentemente da sua origem; lutar
pelo fim da OTAN e a apoiar a luta dos povos e governos que resistem. É urgente
compartilhar análises, fortalecer laços e realizar ações concretas.
Além de
resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases
para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários. Para
combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos
democráticos com base na participação popular, desde o local até o nacional e
nos organismos internacionais. Afirmamos a relevância do mundo do trabalho,
propomos impulsionar iniciativas conjuntas para organizar a resistência global
contra as violências fascistas e a precarização neoliberal. A defesa de um
futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio promovido pelo
capitalismo e por governos de extrema direita, que tratam a natureza como
mercadoria e desmontam a proteção ambiental em nome do lucro. Destacamos a
importância Reforma Agrária como a saída necessária para soberania alimentar.
Nunca
como hoje a luta contra o imperialismo e o fascismo foi tão atual e necessária.
Essa luta precisa ser articulada internacionalmente. A Conferência Antifascista
e pela soberania dos povos compromete-se a continuar a luta sem descanso e como
espaço de construção de unidades contra a ascensão da extrema direita e as
agressões imperialista. Diante da barbárie, levantamos a bandeira da
solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista,
ecológico, democrático, feminista e antirracista.
Propomos:
* O
Comitê Internacional, articuladamente com o Comitê e nação local, fica
responsável por: organizar o planejamento da próxima Conferência; propor
critérios e iniciativas para inclusão de novas organizações.
* Tendo
em conta a existência de inúmeras organizações e associações voltadas à luta
contra o fascismo e o imperialismo, propomos a constituição de uma mesa de
articulação internacional para unificar globalmente essa luta e o incentivo à
realização de conferências regionais e nacionais antifascistas e
anti-imperialistas, com o propósito de realizar uma 2ª Conferência
Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos.
* Todas
as organizações participantes desta Conferência, desde que não se manifestem em
contrário são automaticamente, participes dessa carta.
*
Apoiar a construção de uma conferência latino-americana na Argentina, em data e
formato a serem propostos pela delegação e organizações argentinas, em diálogo
com o comitê internacional.
*
Apoiar uma conferência regional na América do Norte envolvendo organizações do
México, Estados Unidos, Canadá, Caribe e América Central.
* Apoio
a Flotilha Nova Global Sumud Flotilha, que novamente busca romper o cerco e
denunciar o genocídio de Gaza. A luta do povo Palestino- em Gaza e na
Cisjordânia- é a causa da humanidade. Apoiamos a solidariedade ativa
materializada em espaços e movimentos como o BDS.
*
Solidariedade à Cuba contra o criminoso bloqueio promovido pelos Estados
Unidos, ameaçada de agressão à sua soberania. Apoio à todas as iniciativas de
solidariedade, como foram as recentes iniciativas de flotilha para a ilha.
*Repúdio
à invasão da Venezuela e ao sequestro e prisão do presidente Nicolas Maduro e
da deputada Cilia Flores e apoio à luta pela sua libertação.
*Repúdio
ao ataque militar ao Irã pelos Estados Unidos e Israel. Respeito à
autodeterminação do povo iraniano, fim das sanções unilaterais.
*
Defesa da independência e autodeterminação e soberania de todos os territórios
sob ocupação colonial e imperialistas.
*Denunciar
a interferência estrangeira no Haiti, apoiando a luta do seu povo.
*Apoio
à luta da Frente Polisário pela independência do Shara Ocidental, direito
reconhecido pela ONU.
*Apoio
à luta do povo porto-riquenho pela autodeterminação e independência.
*Apoio
ao encontro anti-OTAN na Turquia em 2026.
*Apoio
a Contra-cúpula do g7 na França e Suíça em junho de 2026.
*Apoiar
as iniciativas contra o negacionismo climático, como as jornadas e encontros
ecossocialistas que estão se organizando.
*Apoiar
e construir o próximo Fórum Social Mundial no Benin, em agosto de 2026.
DERROTAR
OS FASCISMOS E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA ÉPOCA
Fonte:
Brasil 247

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