quarta-feira, 1 de abril de 2026

Ricardo Nêggo Tom: O Brasil sob o fascismo evangélico

Desde que passei a compreender o real propósito por trás do “avivamento” evangélico no país, comecei a pesquisar as suas raízes, influências, e modo de operação na nossa sociedade. A partir desta pesquisa, aliada à minha experiência e vivência cristã católica desde a infância – algo que hoje não faz mais parte da minha crença e espiritualidade – passei a observar com atenção o comportamento, não apenas dos líderes religiosos ligados ao projeto de poder neopentecostal, mas, sobretudo, o dos seus liderados. Os crentes. As “ovelhas”, como recentemente se referiu André Valadão aos fiéis da Igreja Batista da Lagoinha - uma das muitas instituições financeiras que atuam no país sob a alcunha de “igreja” - ao pedir “perdão” por possíveis erros cometidos por sua gestão. Um baita negócio dos EUA trazido para o Brasil no final dos anos 1970, cuja bênção do deus capitalismo tem feito prosperar divina e corruptamente.

Da minha pesquisa, e também da minha inquietação com relação ao tema, nasce a ideia de escrever um livro que fala sobre todo esse processo de “investigação” e denuncia a formação de uma máquina teológico-política que, sob o disfarce da fé, busca capturar a esfera pública, submeter o Estado laico e reorganizar a vida nacional segundo a lógica do medo, da obediência, da guerra moral e de uma suposta batalha espiritual do bem contra o mal. Se observarmos atentamente, ou iremos identificar a lógica bolsonarista contida neste discurso religioso, ou tal discurso religioso inserido na lógica bolsonarista. O que corrobora a tese que defendo há tempos, de que a igreja evangélica brasileira é o grande sustentáculo do bolsonarismo e do discurso da extrema direita no país. E que se inclua também movimentos católicos fundamentalistas, como a Canção Nova e o Centro Dom Bosco, entre outros, como pilares desta sustentação política.

O avanço do neopentecostalismo no país denota total afinidade com ideologias autoritárias, e mostra uma clara associação com o capitalismo predatório e opressor dos mais pobres. Algo que o afasta do jesuismo e de sua mensagem de amor e compaixão pelo próximo. Digo jesuismo, por entender que o que conhecemos hoje por cristianismo não contempla, e nunca contemplou, de fato, os ensinamentos do Cristo. Tornando-se uma religião sistêmica, cujo poder está centralizado em homens ditos moralmente superiores e pretensamente ungidos por uma divindade onipotente, que se julgam capazes de reger o mundo inteiro baseado em seus “valores”, crenças e verdades absolutas. Outro ponto letal desse avanço, é a sua ofensiva sobre a educação, a cultura, a política e o imaginário popular. Uma parte do projeto que visa desconstruir tudo aquilo que não se encaixa na sua ideologia de controle, e impor a obediência e submissão diante daquilo que eles consideram agradável a Deus: Eles mesmos.

Quando ouvimos um louvor gospel cuja frase diz: “Todo joelho se dobrará e toda língua proclamará que Jesus Cristo é o senhor”, estamos diante de um mantra religioso cuja mensagem subliminar é fascista e exalta o poder do homem sobre o homem. Que ninguém creia, de fato, que quando a apóstolo Paulo escreveu em Filipenses, 2:10-11 que “para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai”, ele estava se referindo a salvação que o cristianismo prega que Jesus oferece. Paulo estava propondo que todos, cristãos ou não, dobrassem seus joelhos diante daquilo que ele acreditava e tinha como verdade inquestionável. O que implicaria submeter toda a sociedade da época aos seus caprichos religiosos sob forma de autoridade espiritualmente constituída. É o mesmo que o projeto de poder neopentecostal pretende fazer no Brasil nos dias de hoje.

Um domínio teocrático como regime religioso, subverte o conceito de liberdade natural de pensamento, de ação, de movimento e de sentimento do indivíduo, fazendo com que ele anule a própria existência em nome de algo “maior”, salvífico, que o conduzirá a uma vida plena e eterna. Mesmo que não haja nenhuma comprovação fática de que ele a viverá. É o uso da fé alheia em benefício dos interesses do projeto religioso de poder. Um domínio teocrático como regime político, impõe legalmente a ausência de liberdade, de pensamento, de ação, de movimento e de sentimento do indivíduo como um conceito de sociedade, anulando – até mesmo fisicamente - a existência de todos aqueles que não dobrarem os seus joelhos diante de tal domínio, e não confessarem que seus líderes são os seus senhores. Isso se chama fascismo. E ainda que se apresente com um verniz evangélico e cristão, é fascismo.

No que tange a ofensiva contra a cultura e o imaginário popular, o combate à misoginia, por exemplo, representa um obstáculo para tal projeto de poder fundamentalista religioso. Alicerçado sob uma estrutura patriarcal, onde Deus é pai, e a mulher foi a responsável por introduzir o pecado no mundo – conforme o livro de Gênesis – e por isso teria sido condenada por Deus a ter dores durante o parto, e a ser eternamente submissa ao homem, para os fundamentalistas imaginar um mundo sem misoginia, sem machismo e sem violência contra a mulher, é imaginar um mundo antinatural e “antimasculino”, como publicou Eduardo Bolsonaro em seu perfil no “X”, reagindo a aprovação da lei que criminaliza a misoginia. Não por coincidência, a extrema-direita e a bancada evangélica se posicionaram majoritariamente contra o projeto. Afinal, como manter as pregações que reduzem a mulher a uma costela do homem, e a submetem a sua obediência em nome de Deus, segundo a inferiorização feminina que a Bíblia defende?

Livrar o país de um domínio teocrático, é evitar que demônios fundamentalistas e imperialistas controlem toda a nossa sociedade. No meu livro “Domínio teocrático: o Brasil sob o fascismo evangélico”, já disponível em pré-venda no site da editora Kotter com 30% de desconto( https://kotter.com.br/loja/pre-venda/dominio-teocratico-o-brasil-sob-o-fascismo-evangelico/ ), eu escrevo contra a anestesia e desmonto a fantasia de que estamos diante apenas de “excessos religiosos” ou de meras excentricidades de púlpito. O que está em jogo, é a disputa pelo país: por suas instituições, por sua memória, por sua linguagem, por sua cultura, por sua pluralidade de crenças, por sua educação e por sua ideia de cidadania. Um alerta para quem deseja compreender uma das forças mais agressivas e menos inocentes do Brasil contemporâneo. Jesus te ama, mas eles não.

•        Conferência Antifascista encerra com proposta de frente global contra extrema direita

A I Conferência Internacional Antifascista encerrou as atividades na noite deste domingo (29/03) com a participação de diversas personalidades de mais de 40 países, com 11 painéis propostos pelo Comitê Organizador, 150 atividades autogestionadas e a Feira de Artesanato Bella Ciao. Reunidos em Porto Alegre, os presentes afirmaram uma “unidade na diversidade” com um objetivo comum: fortalecer a organização internacional contra o avanço do fascismo, da extrema direita e do imperialismo. O encontro ocorre em meio a uma onda global de mobilizações, que inclui protestos massivos na Argentina contra a gestão de Javier Milei, atos antifascistas no Reino Unido e a manifestação “No Kings” nos Estados Unidos, reunindo milhões contra Donald Trump.

A declaração final da conferência defende que o sistema capitalista vive uma “profunda crise e decadência econômica, social e moral”, cuja resposta tem sido o fomento ao fascismo, a imposição de políticas neoliberais e o aumento das agressões militares. Entre os efeitos listados estão a retirada de direitos, a precarização do trabalho, o avanço do desemprego estrutural e políticas de austeridade que “eliminam todo e qualquer investimento social”.

O documento também destaca como a extrema direita canaliza o descontentamento popular contra grupos vulneráveis, promovendo racismo, xenofobia, misoginia e LGBTQI+fobia, além da disseminação do ódio e da desinformação. Ao mesmo tempo, denuncia o caráter cada vez mais agressivo do imperialismo, citando o genocídio em Gaza e a atuação do governo de Benjamin Netanyahu, com apoio dos Estados Unidos. Como resposta, aponta a necessidade da construção de uma frente internacional ampla, capaz de articular diferentes forças sociais e políticas. Entre os eixos centrais estão a defesa dos direitos democráticos, o fortalecimento do mundo do trabalho, a luta contra o ecocídio e a promoção de uma reforma agrária como caminho para a soberania alimentar. A carta também enfatiza a necessidade de “ações concretas” e cooperação global permanente.

<><> Veja a carta da I Conferência Internacional Antifascista:

CARTA DE PORTO ALEGRE

UNIDADE CONTRA O FASCISMO E PELA SOBERANIA DOS POVOS

Reunidos em Porto Alegre – cidade símbolo das lutas internacionais, de importantes tradições e aspirações democráticas – milhares de ativistas de mais de quarenta países dos cinco continentes, celebrando nossa unidade na diversidade, buscando avançar na organização para a resistência e o combate aos variados fascismos, a extrema direita e o imperialismo em sua fase mais agressiva.

Nessa mesma semana, ocorreu o comboio Nuestra America a Cuba, tivemos mais de um milhão de pessoas nas ruas da Argentina, lutando pela memória e contra Milei; houve centenas de milhares na convocação antifascista do Reino Unido e especialmente a grande e histórica manifestação “No Kings” nos Estados Unidos que com milhões de estadunidenses reunidos em centenas de cidades, declarando uma vez mais Trump como inimigo da humanidade.

O sistema capitalista-imperialista vive uma profunda crise e uma acentuada decadência econômica, social e moral. A resposta das potências imperialistas ao seu declínio tem sido o fomento do fascismo em toda parte, a imposição de políticas neoliberais, agressões militares às nações mais fracas e a sua recolonização.

Em cada país, as ameaças fascistas e neoliberais assumem formas particulares, mas têm pontos em comum: a eliminação das liberdades democráticas, a destruição dos direitos trabalhistas, a explosão do desemprego estrutural, o desmantelamento da previdência social, a repressão às entidades sindicais e populares, a privatização dos serviços públicos, políticas de “austeridade” que eliminam todo e qualquer investimento social, o negacionismo científico e climático, a expropriação dos camponeses em benefício da agroindústria, o deslocamento forçado das populações originárias para promover o extrativismo desenfreado, políticas migratórias ultra-restritivas e enorme aumento de despesas militares.

A extrema direita e as forças neofascistas desenvolvem uma ampla ofensiva, que instrumentaliza o descontentamento com as consequências desastrosas do neoliberalismo para acelerar essas políticas. Para isso, à semelhança do fascismo clássico, procuram direcionar esse descontentamento contra os grupos oprimidos e despossuídos: migrantes, mulheres, pessoas LGBTQ+, beneficiários de programas de inclusão, pessoas racializadas e minorias nacionais ou religiosas. O nacionalismo exacerbado, o racismo, a xenofobia, o sexismo, a LGBTQI+fobia, a incitação ao ódio e a banalização da crueldade acompanham o avanço da extrema direita em cada etapa, de acordo com as peculiaridades de cada país.

A vontade de acumular riqueza nas mãos do capital, a busca desenfreada pelo lucro máximo que sustenta as políticas da extrema direita, também se manifesta pela intensificação das agressões imperialistas para monopolizar recursos e explorar populações.

O imperialismo torna-se cada vez mais desenfreado, agressivo e belicista, atropela o Direito Internacional, a Carta da ONU e a autodeterminação dos povos, sanciona, ataca e bombardeia as nações que não se submetem aos seus ditames, sequestra e assassina seus Chefes de Estado.

Isso vai de par com a perpetuação de situações coloniais que no caso da Palestina assume a forma de um genocídio explicito em Gaza, orquestrado pelo Estado sionista de Israel, apoiado incondicionalmente pelos Estados Unidos, com a cumplicidade dos demais países imperialistas. Além disso, Israel acaba de invadir e bombardear de forma criminosa o Líbano e afirma que anexará o sul do país.

Lutamos contra todos os imperialismos e apoiamos a luta dos povos por sua autodeterminação, por todos os meios necessários.

A extrema direita, além da cumplicidade com o governo genocida de Netanyahu, tece laços internacionais, realiza congressos, think tanks, declarações conjuntas, apoio mútuo nos processos eleitorais, colaboração e programas de propaganda e desinformação. Além do apoio direto (ou velado) das chamadas Big Techs, desestabilizando governos que resistem ao império e potencializando a propaganda reacionária nos meios digitais.

As forças que combatem a ascensão da extrema direita são diversas e apresentam diferentes análises, estratégias e táticas, programas e políticas de aliança. A experiência nos ensina que embora reconhecendo essas diferenças, é essencial articular de forma unitária a luta contra os nossos inimigos. Essa convergência deve incluir todas as forças dispostas a defender as classes trabalhadoras, os camponeses, os migrantes, as mulheres, as pessoas LGBTQ+, as pessoas racializadas, as minorias nacionais ou religiosas oprimidas e os povos indígenas; a defender a natureza contra o capitalismo ecocida; a combater as agressões imperialistas e coloniais, independentemente da sua origem; lutar pelo fim da OTAN e a apoiar a luta dos povos e governos que resistem. É urgente compartilhar análises, fortalecer laços e realizar ações concretas.

Além de resistir ao fascismo e ao imperialismo, almejamos também construir as bases para avançar, em nossas convergências em aspectos centrais e unitários. Para combater o autoritarismo, é preciso resgatar, ampliar e aprofundar os direitos democráticos com base na participação popular, desde o local até o nacional e nos organismos internacionais. Afirmamos a relevância do mundo do trabalho, propomos impulsionar iniciativas conjuntas para organizar a resistência global contra as violências fascistas e a precarização neoliberal. A defesa de um futuro sustentável passa pelo enfrentamento direto ao ecocídio promovido pelo capitalismo e por governos de extrema direita, que tratam a natureza como mercadoria e desmontam a proteção ambiental em nome do lucro. Destacamos a importância Reforma Agrária como a saída necessária para soberania alimentar.

Nunca como hoje a luta contra o imperialismo e o fascismo foi tão atual e necessária. Essa luta precisa ser articulada internacionalmente. A Conferência Antifascista e pela soberania dos povos compromete-se a continuar a luta sem descanso e como espaço de construção de unidades contra a ascensão da extrema direita e as agressões imperialista. Diante da barbárie, levantamos a bandeira da solidariedade internacional, da luta dos povos e de um futuro socialista, ecológico, democrático, feminista e antirracista.

Propomos:

* O Comitê Internacional, articuladamente com o Comitê e nação local, fica responsável por: organizar o planejamento da próxima Conferência; propor critérios e iniciativas para inclusão de novas organizações.

* Tendo em conta a existência de inúmeras organizações e associações voltadas à luta contra o fascismo e o imperialismo, propomos a constituição de uma mesa de articulação internacional para unificar globalmente essa luta e o incentivo à realização de conferências regionais e nacionais antifascistas e anti-imperialistas, com o propósito de realizar uma 2ª Conferência Internacional Antifascista e pela Soberania dos Povos.

* Todas as organizações participantes desta Conferência, desde que não se manifestem em contrário são automaticamente, participes dessa carta.

* Apoiar a construção de uma conferência latino-americana na Argentina, em data e formato a serem propostos pela delegação e organizações argentinas, em diálogo com o comitê internacional.

* Apoiar uma conferência regional na América do Norte envolvendo organizações do México, Estados Unidos, Canadá, Caribe e América Central.

* Apoio a Flotilha Nova Global Sumud Flotilha, que novamente busca romper o cerco e denunciar o genocídio de Gaza. A luta do povo Palestino- em Gaza e na Cisjordânia- é a causa da humanidade. Apoiamos a solidariedade ativa materializada em espaços e movimentos como o BDS.

* Solidariedade à Cuba contra o criminoso bloqueio promovido pelos Estados Unidos, ameaçada de agressão à sua soberania. Apoio à todas as iniciativas de solidariedade, como foram as recentes iniciativas de flotilha para a ilha.

*Repúdio à invasão da Venezuela e ao sequestro e prisão do presidente Nicolas Maduro e da deputada Cilia Flores e apoio à luta pela sua libertação.

*Repúdio ao ataque militar ao Irã pelos Estados Unidos e Israel. Respeito à autodeterminação do povo iraniano, fim das sanções unilaterais.

* Defesa da independência e autodeterminação e soberania de todos os territórios sob ocupação colonial e imperialistas.

*Denunciar a interferência estrangeira no Haiti, apoiando a luta do seu povo.

*Apoio à luta da Frente Polisário pela independência do Shara Ocidental, direito reconhecido pela ONU.

*Apoio à luta do povo porto-riquenho pela autodeterminação e independência.

*Apoio ao encontro anti-OTAN na Turquia em 2026.

*Apoio a Contra-cúpula do g7 na França e Suíça em junho de 2026.

*Apoiar as iniciativas contra o negacionismo climático, como as jornadas e encontros ecossocialistas que estão se organizando.

*Apoiar e construir o próximo Fórum Social Mundial no Benin, em agosto de 2026.

DERROTAR OS FASCISMOS E O IMPERIALISMO É TAREFA URGENTE DE NOSSA ÉPOCA

 

Fonte: Brasil 247

 

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