O
que 3 episódios históricos podem indicar sobre rumos da guerra no Irã
A
guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã um mês atrás parece
ter se tornado previsível, dentro da sua imprevisibilidade.
Também
não surpreende que as postagens do presidente americano, Donald Trump, nas
redes sociais aparentemente amplifiquem a crise e abalem os mercados globais,
mesmo que por breves períodos.
Mas os
comentários de Trump não são o único fator que direciona esta guerra. A
história também parece ter grande influência.
Nas
semanas que se passaram desde o início do conflito, especialistas vêm
recorrendo cada vez mais ao passado para tentar compreender as convulsões e
prever para onde elas se dirigem.
E,
nestas tentativas, existem três importantes episódios históricos que se
destacam.
1. A
crise de Suez (1956)
O
ataque com mísseis a Israel realizado pelos houthis do Iêmen, apoiados pelo
Irã, na semana passada — o primeiro desde o início da guerra — abriu uma nova
frente no conflito.
A
entrada do poderoso aliado iraniano aumenta o temor de maiores transtornos para
a economia mundial, já que o grupo detém a capacidade de atacar navios no mar
Vermelho, particularmente no canal de Suez.
Os
houthis, na verdade, não conseguem bloquear totalmente aquela rota fundamental,
por onde passam normalmente 30% do tráfego mundial de contêineres e cerca de
15% do comércio global de mercadorias. Mas eles podem prejudicar seriamente o
acesso ao canal.
Acrescente-se
a isso a turbulência causada pelo Irã no Estreito de Ormuz e especialistas
afirma que os impactos à economia global são potencialmente catastróficos.
Contra
tudo isso, os analistas indicam a crise de Suez, 70 anos atrás, como uma lição
sobre as ramificações maiores da guerra atual no Oriente Médio.
Quando
o então presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser (1918-1970), nacionalizou o
canal de Suez em 1956 — que até então era administrado por interesses
britânicos e franceses —, ele assumiu o controle de uma das principais vias de
transporte de petróleo do mundo. Em resposta, a França, o Reino Unido e Israel
tentaram retomar a sua posse, sem sucesso.
Para
Trump e seu velho aliado, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, a
história oferece sensatas reflexões a este respeito.
"Mais
do que qualquer outra coisa, a crise marcou o fim da era do Reino Unido como
potência mundial", afirma o editor de internacional da BBC, Jeremy Bowen.
"O
país tinha o domínio imperial no Oriente Médio desde a Primeira Guerra Mundial
(1914-1918) e o episódio também foi o início do fim desse domínio."
A
tática atual de Teerã e dos houthis, de restringir o acesso a artérias
econômicas vitais para a economia global, traz reminiscências da reação de
Nasser.
Quando
as forças anglo-francesas desembarcaram no norte do canal de Suez, Nasser havia
afundado dezenas de navios, bloqueando o canal e interrompendo uma corda de
segurança disponível entre a Europa e seus campos petrolíferos no Golfo
Pérsico, indica o historiador americano Alfred W. McCoy.
O então
presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower (1890-1969), temia a
abertura de uma frente crescente e perigosa na Guerra Fria (1947-1991) contra a
União Soviética. Por isso, ele interveio na questão, forçando o Reino Unido e a
França a se retirarem.
"Naquela
época... o Reino Unido havia sofrido sanções da ONU, sua moeda estava à beira
do colapso, sua aura de potência imperial havia se evaporado e seu império
global caminhava rumo à extinção", escreve McCoy.
Mas os
paralelos com o conflito atual não são exatos, segundo Bowen.
"Não
estou necessariamente comparando o poderio atual dos Estados Unidos com o que o
Reino Unido detinha após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945)", destaca
ele. "O que estou dizendo é que todas as nações poderosas têm altos e
baixos."
"E,
com os Estados Unidos enfrentando o crescimento da China, se, no futuro, as
pessoas começarem a observar o declínio americano, os historiadores podem
descrever este episódio como uma etapa nesta direção; uma guerra que foi
iniciada sem que se pensasse muito nas consequências."
E, para
compreender melhor os possíveis efeitos do conflito, vale a pena observar
outras lições oferecidas pela história nos últimos 70 anos.
2. O
choque do petróleo (1973)
Nas
décadas que se seguiram, outras importantes artérias econômicas foram
bloqueadas para causar o máximo de danos possível. Novas ocorrências como essas
são totalmente previsíveis nos dias de hoje, segundo os observadores.
Um dos
exemplos mais claros veio pouco menos de 20 anos após a desastrosa campanha de
Suez.
"Em
1973, houve uma guerra entre Israel, o Egito e a Síria", conta Bowen.
"Foi um ataque surpresa a Israel pelos egípcios e sírios, a chamada Guerra
do Yom Kippur."
"Os
americanos abasteceram Israel com armas. Em seguida, o mundo árabe
contra-atacaria impondo um embargo, que elevou massivamente o preço do
petróleo, causando muito prejuízo para a Europa ocidental."
O então
ministro do Petróleo da Arábia Saudita, o xeque Ahmed Zaki Yamani (1930-2021),
mostrou explicitamente, em 1973, como recursos como o petróleo, com seu impacto
sobre os mercados globais, poderiam ser usados como ferramenta de influência.
Ele
descreveu o controle significativo da produção pelo mundo árabe como "arma
do petróleo", que poderia levar rapidamente "ao colapso" as
economias globais.
O
embargo durou cinco meses, mas os especialistas afirmam que ele foi sentido por
uma década.
A
inflação, por exemplo, disparou nos Estados Unidos e em outros países,
altamente dependentes do petróleo para suas indústrias. E, com a alta dos
preços, subiram também as taxas de juros, com os bancos centrais lutando para
conter o crescente custo de vida.
de
batalha, mas também nos mercados internacionais de petróleo
Atualmente,
o petróleo como commodity não tem a mesma dominância global de mais de 50 anos
atrás. A parcela da demanda global é menor do que naquela época e vêm crescendo
os investimentos para desenvolver fontes mais diversificadas de energia,
particularmente no Ocidente.
Mas o
petróleo ainda é um recurso crítico e os eventos de 1973 oferecem lições
fundamentais para Donald Trump.
Os
Estados Unidos, agora, produzem mais energia do que consomem, ao contrário de
meio século atrás. Mas o país ainda importa volumes significativos de petróleo
bruto e é vulnerável ao custo do petróleo comercializado no mercado global.
Isso acabaria atingindo os consumidores americanos.
O país
também poderá sofrer impactos indiretos devido às tensões aos seus principais
parceiros na Ásia, que não contam com fontes de energia tão diversificadas e
vêm sofrendo o maior impacto da atual escassez de petróleo.
"O
que está acontecendo [agora] não é que os sauditas, os Emirados etc. dizem que
não irão vender seu petróleo para os seus clientes na Europa", explica
Bowen. "Mas o Irã e, potencialmente, também os houthis estão dificultando
muito sua chegada ao mercado."
"O
petróleo é muito importante. E, se você interromper esses fornecimentos,
causará muitas perturbações globais."
3. A
Guerra Irã-Iraque (1980-1988)
Os
historiadores afirmam que a guerra entre o Irã e o Iraque, que dominou grande
parte dos anos 1980, oferece a Donald Trump exemplos históricos mais recentes e
irrefutáveis de como os adversários de Washington podem bloquear artérias
econômicas vitais.
Nos
últimos anos daquele conflito, os navios no Estreito de Ormuz eram atacados
tanto por Teerã, quanto por Bagdá. Analistas afirmam que aquela foi uma
tentativa de chamar as potências mundiais para o conflito.
Em
meados para o fim dos anos 1980, os ataques foram tão graves que o Kuwait pediu
ajuda internacional para que seus navios navegassem através do estreito.
Washington concordou, para não ser ultrapassado por Moscou, seu adversário na
Guerra Fria.
Chamada
de Operação Earnest Will ("Vontade Sincera", em inglês), a escolta de
tanques começou em julho de 1987. Mas ela logo se tornou um grande
constrangimento para os Estados Unidos, quando minas iranianas atingiram o
navio Bridgeton (que deveria estar sendo protegido pelos americanos), que se
dirigia ao Kuwait.
Especialistas
indicam que o incidente destacou como as capacidades de varredura de minas de
Washington no estreito eram inadequadas, uma questão que continuou prejudicando
a operação.
Se
compararmos o episódio com o conflito atual e a recente convocação de Trump em
busca do apoio operacional de outros países para manter aberto o Estreito de
Ormuz, fornecendo escoltas navais, os paralelos são óbvios.
Mas o
desafio atual é ainda maior para Washington, segundo os analistas. Afinal, as
ferramentas de guerra passaram a incluir, por exemplo, drones, e o Irã não
enfrenta mais uma guerra prolongada contra o Iraque.
A
história oferece muitas lições para as partes envolvidas na guerra atual no
Oriente Médio, principalmente para os seus protagonistas. A forma como eles
observam estas lições provavelmente irá influenciar a direção e a duração do
atual conflito de alcance global.
• Nova lei em Israel prevê pena de morte a
palestinos envolvidos em ataques fatais
O
Parlamento israelense aprovou uma lei que torna a pena de morte a sentença
padrão para palestinos condenados por ataques terroristas letais. Críticos
descreveram a nova lei como discriminatória e diversas nações europeias alertam
que ela corre o risco de minar os "princípios democráticos".
A nova
lei foi aprovada em sua terceira e última leitura no Knesset, o Parlamento de
Israel, por 62 votos a 48 na segunda-feira (30/03). O primeiro-ministro
israelense, Benjamin Netanyahu, votou a favor.
O
projeto de lei estipula que palestinos condenados em tribunais militares
israelenses por realizar ataques letais considerados "atos de
terrorismo" serão executados por enforcamento em até 90 dias, com um
possível adiamento de até 180 dias.
Em
teoria, os israelenses judeus também poderiam ser executados sob a lei — mas,
na prática, isso quase certamente não aconteceria, já que a pena de morte só
poderia ser aplicada quando a intenção do ataque fosse "negar a existência
do Estado de Israel".
A
legislação foi fortemente impulsionada pela direita radical, com o ministro da
Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, como sua principal força motriz. Após a
votação, ele postou no X: "Fizemos história!!! Prometemos.
Cumprimos."
Uma
integrante do partido de Ben-Gvir, Limor Son-Har-Melech, que sobreviveu a um
ataque de homens armados palestinos no qual seu marido foi morto, argumentou
que a lei era necessária, citando o exemplo de como um dos assassinos de seu
marido foi posteriormente libertado e participou dos ataques de 7 de outubro de
2023 contra Israel.
Durante
o debate no Knesset, ela disse: "Por anos, suportamos um ciclo cruel de
terror, prisão, libertação em acordos irresponsáveis e o retorno desses
monstros humanos para assassinar judeus novamente."
Mas
Yair Golan, líder do partido de oposição Democratas, criticou a legislação e
disse que ela levaria a sanções internacionais.
"A
lei da pena de morte para terroristas é uma legislação desnecessária, criada
para dar mais curtidas a Ben-Gvir", disse ele. "Ela não contribui em
nada para a segurança de Israel."
Na
véspera da votação, o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Itália expressaram
sua "profunda preocupação", afirmando que o projeto de lei corria o
risco de "minar os compromissos de Israel com relação aos princípios
democráticos".
A
Autoridade Palestina, que administra a Cisjordânia, condenou a adoção da lei,
dizendo que ela "busca legitimar execuções extrajudiciais sob o pretexto
de legislação".
E o
Hamas, que controla Gaza, disse em um comunicado na noite de segunda-feira que
a aprovação do projeto de lei "ameaça a vida" dos prisioneiros
palestinos em prisões israelenses e pediu à comunidade internacional que
"garanta a proteção de nossos prisioneiros".
A
Anistia Internacional instou as autoridades israelenses a revogarem a nova lei.
"Israel está descaradamente se dando carta branca para executar
palestinos, ao mesmo tempo que elimina as salvaguardas mais básicas de um
julgamento justo", disse Erika Guevara-Rosas, diretora sênior de pesquisa,
defesa, política e campanhas do grupo de direitos humanos.
A
Associação para os Direitos Civis em Israel já entrou com uma petição na
Suprema Corte do país contra a lei.
"A
lei é inconstitucional, discriminatória por natureza e — para os palestinos da
Cisjordânia — promulgada sem autoridade legal", afirmou em um comunicado.
A
Suprema Corte agora terá que considerar se aceitará o recurso contra o projeto
de lei.
Israel
executou apenas duas pessoas condenadas à pena de morte em sua história - uma
delas o infame oficial nazista Adolf Eichmann, que desempenhou um papel
importante na perpetração do Holocausto.
Fonte:
BBC News

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