quarta-feira, 1 de abril de 2026

Como a China passou anos se preparando para uma crise mundial do petróleo e qual é o seu ponto fraco

A China se prepara há tempos para um possível choque no abastecimento de petróleo do Golfo Pérsico. Mas a interrupção da rota marítima estratégica que atravessa o Estreito de Ormuz, provocada pela guerra no Irã, está colocando esta resistência à prova.

As exportações de petróleo e gás do Oriente Médio foram interrompidas depois que o Irã ameaçou responder aos ataques americanos e israelenses com ataques próprios aos navios que atravessassem o estreito.

O bloqueio provocou uma escassez mundial de petróleo que atinge em cheio os países asiáticos que dependem das rotas do Golfo.

As Filipinas impuseram semanas de trabalho de quatro dias para economizar combustível e a Indonésia busca formas de evitar o esgotamento das suas reservas, suficientes para apenas algumas semanas.

E, como o maior importador de petróleo do mundo, a China também sente a mesma pressão.

Mas Pequim parte de uma posição mais sólida que a dos seus vizinhos, após anos de diplomacia e planejamento estratégico, voltados à preparação para uma crise energética global.

<><> Teste para a rede chinesa de energia

A economia mundial entrou em uma fase de turbulências, desde que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã, no final de fevereiro.

Os preços do petróleo dispararam nas últimas semanas, chegando perto dos US$ 120 por barril em alguns momentos.

Eles foram impulsionados pelos ataques contra navios e a infraestrutura de energia. Isso sem falar no fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, a rota marítima mais trafegada do mundo para transporte de petróleo.

Passam pelo estreito cerca de 20% do petróleo mundial, ou cerca de 20 milhões de barris diários, segundo estimativas da Administração de Informações de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês).

A escassez obrigou os países a procurar fornecedores alternativos fora do Golfo Pérsico, enquanto outros começaram a recorrer às suas próprias reservas estratégicas.

A China é o segundo maior consumidor de petróleo do mundo, depois dos Estados Unidos. O país asiático consome entre 15 e 16 milhões de barris por dia, segundo diversos analistas de mercado consultados pela BBC.

A maior parte se destina ao seu vasto sistema de transporte, composto por automóveis, caminhões e aviões. E grande parte do petróleo consumido vem do exterior.

Os países do Golfo são uma fonte importante do petróleo que chega à China. A Arábia Saudita e o Irã representam, cada um, mais de 10% das importações chinesas, segundo dados da EIA.

A maior parte do petróleo importado pela China procede do Irã e do Oriente Médio, através do mar do Sul da China. Ele é empregado como combustível para manter as atividades das fábricas e o transporte, especialmente na metade sul do país.

Já o norte depende principalmente do petróleo extraído dos campos petrolíferos em território chinês, além das importações por oleoduto da Rússia, que não foram afetadas pela guerra no Oriente Médio.

Enquanto muitos países asiáticos dependem, em grande parte, do petróleo dos países do Golfo, o petróleo russo representa cerca de 20% das importações chinesas. Com isso, Moscou passou a ser o maior fornecedor de petróleo de Pequim, mesmo com as sanções impostas pelos Estados Unidos e pela Europa.

O carvão segue sendo a principal fonte de geração de energia elétrica na China e é abundante no país. A China é o maior produtor mundial de carvão e concentra mais da metade da produção global.

O petróleo e o gás, por outro lado, representam pouco mais de 25% do conjunto da matriz energética chinesa, segundo estimativas publicadas na imprensa estatal. Este número indica que o país depende menos desses recursos que a Europa ou os Estados Unidos.

<><> Preparação para tempos difíceis

Pequim aproveita há anos os baixos preços do petróleo e a abundância de fornecimento proveniente dos países do Golfo para formar uma das maiores reservas do mundo, explica a chefe de estratégias de matérias-primas do Saxo Bank, Ole Hansen.

Somente entre janeiro e fevereiro deste ano, a China comprou 16% a mais de petróleo que no mesmo período do ano anterior, segundo a administração de alfândegas do país.

O petróleo do Irã sofre sanções dos Estados Unidos, mas a República Islâmica se transformou em um dos principais fornecedores de petróleo barato para a China. Diversos relatórios indicam que Pequim compra mais de 80% das exportações iranianas de petróleo.

Os dados de acompanhamento de navios coletados desde o início da guerra no Irã indicam que parte desse petróleo continua chegando à China, mas os analistas discordam sobre o tamanho exato das reservas petrolíferas chinesas.

Segundo o grupo de análises comerciais Kpler, mais de 46 milhões de barris de petróleo iraniano estão atualmente armazenados em petroleiros ao longo do mar do Sul da China. Eles são suficientes para cobrir o consumo de vários dias.

Hansen afirma que as estimativas indicam que a China acumulou reservas de cerca de 900 milhões de barris, o equivalente a pouco menos de três meses de importação.

Números da Universidade Columbia, mencionados pela imprensa estatal chinesa, elevam as reservas de petróleo do país para cerca de 1,4 bilhão de barris.

Também não se sabe ao certo quanta energia importada a China consome por dia e quanto é desviado para suas reservas estratégicas, destaca Hansen. Ainda assim, o volume total forma um "colchão substancial" em momentos de interrupção do fornecimento.

Apesar de contar com reservas consideráveis, Pequim demonstrou sinais de cautela para gerenciar seu abastecimento a curto prazo.

Existem informações de que as autoridades chinesas teriam ordenado que as refinarias do país suspendessem temporariamente a exportação de combustíveis, para tentar conter os preços internos.

A BBC consultou o governo chinês a este respeito, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

<><> A busca chinesa da autossuficiência

A China passou a ser líder mundial na produção de energia verde, com a instalação acelerada de parques eólicos e solares em todo o país.

O Escritório Nacional de Estatísticas de Pequim indica que a energia eólica, nuclear, solar e hidroelétrica gerou mais de um terço da eletricidade chinesa em 2025.

Desde então, a China ampliou consideravelmente sua rede de energias renováveis. Estimativas indicam que mais da metade da sua capacidade instalada procede atualmente de fontes limpas.

E, como resultado deste impulso às energias renováveis, o petróleo representou apenas cerca de 20% do consumo total de energia do país em 2024. E a demanda de petróleo dificilmente voltará a aumentar no futuro, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

O pesquisador em economia energética Roger Fouquet destaca que a "ambiciosa" transição da China rumo às energias renováveis não responde apenas a motivações ambientais. Ela também contribuiu para proteger sua economia contra riscos globais, como os observados no conflito no Irã.

"De certa forma, a China teve a sorte de ter iniciado seus investimentos em energia renovável 25 anos atrás", explica ele. "E, agora, está colhendo os frutos."

Os veículos elétricos representam pelo menos um terço dos automóveis novos vendidos no país. Eles também ajudaram a reduzir a dependência chinesa do petróleo, segundo Roc Shi, da Universidade de Tecnologia de Sydney, na Austrália.

"Isso significa que o proprietário de um veículo elétrico em Pequim simplesmente não sente o impacto na bomba de combustível quando aumenta a tensão no Oriente Médio", explica ele. "Seus custos de mobilidade não estão relacionados aos mercados internacionais de petróleo."

Mas isso não significa que a economia chinesa seja imune à interrupção do abastecimento de petróleo.

Para os donos de veículos elétricos, os custos do carregamento podem aumentar durante uma crise energética, se os preços dos combustíveis aumentarem.

Na semana passada, os preços da gasolina e do óleo diesel aumentaram, respectivamente, em 695 yuanes (cerca de US$ 100 ou R$ 525) e 670 yuanes (cerca de US$ 97 ou R$ 509) por tonelada, segundo o jornal estatal China Daily, mencionando um relatório oficial.

No caso das fábricas chinesas, o encarecimento do petróleo também pode aumentar os custos da enorme indústria petroquímica do país, responsável pela produção de plásticos, fertilizantes e outros produtos químicos.

A China, como maior importador de energia do mundo, pagará agora um preço mais alto por barril devido à guerra, segundo Shi. Mas não terá outra opção a não ser assumir esse custo adicional.

¨      Trump se rende à China e admite que o socialismo funciona e entrega melhores resultados

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu ao elogiar abertamente a China e reconhecer a eficiência de seu modelo econômico, afirmando que o país alcança resultados impressionantes mesmo adotando um sistema que, segundo a visão tradicional ocidental, não deveria funcionar. As declarações foram feitas durante o Future Investment Initiative Priority Summit, em Miami, conforme noticiado pelo portal Ommcom News com base em informações da IANS.

Em um discurso marcado por comparações entre os modelos econômicos, Trump destacou o desempenho produtivo chinês e demonstrou respeito pelo país asiático. Ao comentar o tema, afirmou: “Tenho que dizer que respeito a China, porque é incrível que, com um sistema que, em teoria, não deveria funcionar — você sabe, nós vamos à escola, frequentamos as melhores escolas de negócios, nos saímos bem nelas e lemos sobre empreendedorismo livre, lemos sobre todas essas coisas diferentes”.

Na sequência, o presidente dos Estados Unidos aprofundou o contraste entre a formação econômica ocidental e os resultados alcançados pela China, ressaltando a escala da produção industrial chinesa. Segundo ele: “Mas, se você olhar para a China, como eles vão bem, o quanto produzem. Quero dizer, eles produzem tantos carros que, na verdade, têm competitividade sobre quem consegue produzir menos carros, porque têm carros demais.”

<><> Reconhecimento da força produtiva chinesa

As declarações de Trump indicam um reconhecimento explícito da capacidade produtiva da China, frequentemente associada a um modelo de desenvolvimento com forte presença do Estado e planejamento estratégico — características centrais do socialismo com características chinesas.

Ao final de sua fala, Trump reforçou o tom de respeito ao desempenho do país asiático, independentemente de divergências políticas ou ideológicas. Segundo ele: “É preciso ter grande respeito pela China pelo trabalho que fazem. Goste você deles ou não, é preciso respeitá-los.”

A afirmação ganha relevância no contexto das tradicionais críticas de Trump à China ao longo de sua trajetória política, especialmente em temas comerciais e tecnológicos. Desta vez, no entanto, o presidente adotou um tom distinto, destacando resultados concretos da economia chinesa.

<>< Contradição com discurso tradicional dos EUA

O reconhecimento feito por Trump chama atenção por contrastar com o discurso predominante nos Estados Unidos, que historicamente valoriza o livre mercado e critica modelos econômicos baseados em forte intervenção estatal.

Ao mencionar que o sistema chinês “em teoria não deveria funcionar”, Trump sinaliza essa contradição entre a doutrina econômica ensinada nas escolas de negócios ocidentais e a realidade observada na prática. Sua fala sugere que os resultados da China desafiam paradigmas consolidados do pensamento econômico liberal.

<><> Debate sobre modelos de desenvolvimento

As declarações do presidente norte-americano reacendem o debate global sobre diferentes modelos de desenvolvimento econômico. A China, que combina planejamento estatal, controle estratégico de setores-chave e abertura seletiva ao mercado, tem apresentado crescimento consistente e expansão industrial nas últimas décadas.

Ao reconhecer a eficiência desse modelo, Trump contribui para ampliar a discussão sobre os limites e as potencialidades do sistema capitalista tradicional, especialmente diante do avanço econômico chinês.

<><> Impacto político e simbólico

O elogio público à China por parte de Trump tem também um peso simbólico relevante, considerando sua posição como presidente dos Estados Unidos e sua influência no debate internacional. Suas palavras podem ser interpretadas como um reconhecimento pragmático da nova correlação de forças na economia global.

Ao afirmar que é necessário respeitar a China “goste você deles ou não”, Trump sintetiza uma mudança de tom que reflete a crescente centralidade do país asiático no cenário mundial, tanto em termos produtivos quanto tecnológicos.

A fala, feita em um fórum internacional de investimentos, reforça a percepção de que o desempenho econômico chinês deixou de ser apenas um fenômeno regional para se tornar um elemento incontornável nas discussões sobre o futuro da economia global.

 

Fonte: BBC News Mundo/Brasil 247

 

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