quarta-feira, 1 de abril de 2026

Paulo Renato Coelho Netto: O elo perdido entre a imprensa, a corrupção e outras tragédias brasileiras

Setecentos mil mortos da pandemia de Covid-19 no Brasil não são estatísticas ou números. Representam setecentas mil famílias destroçadas.

Quantas vítimas poderiam ser evitadas se a população fosse simplesmente orientada, sem controvérsias, a usar máscaras, higienizar as mãos com frequência, cumprir isolamento ou, simplesmente, manter distância de outras pessoas para evitar a contaminação?

Seis anos depois, a pauta sobre Covid pode ser retomada sob diferentes aspectos, pouco explorados. Entre eles: quantas pessoas foram infectadas e mortas por Covid no Brasil em 2025?

Como estão as campanhas de conscientização para a população se vacinar contra a doença? Qual a taxa de cobertura vacinal?

Houve negligência na condução da pandemia no país? O que resultou, de fato, do ponto de vista jurídico?

Como estão as vítimas que sofrem com sequelas físicas da contaminação? Quais sequelas psicológicas a pandemia causou? O que aconteceu com as crianças que perderam o pai e mãe na pandemia?

Normalizamos tragédias. Mortes diárias nas estradas, nas enchentes, por latrocínios e balas perdidas de fuzil que encontram cabeças de crianças nas escolas. Estatísticas.

A dor que a mãe vai levar até a morte, após enterrar o filho ou a filha, é resumida nas manchetes a mais uma criança morta durante tiroteio entre a polícia e traficantes no Rio de Janeiro.

É muitas vezes higiênico o papel da imprensa brasileira. Não fosse o trabalho de investigações e denúncias feitas por jornalistas, este país já teria afundado no caos econômico e social ou em regimes de exceção.

É nesse ponto que se forma um elo raramente explicitado: quando a corrupção é noticiada sem a tradução clara de suas consequências concretas, ela se distancia da vida real e perde sua dimensão humana.

Além de expor os esquemas que mantêm a corrupção brasileira, frequentemente apontada em estudos e análises como um problema estrutural, deveríamos fazer constar em cada matéria sobre desvio de dinheiro público o que foi extirpado do cidadão que paga impostos altíssimos.

Desvio é um eufemismo para apropriação indevida ou fraude. A palavra suaviza o que deveria ser dito com clareza: dinheiro público que seria destinado a uma escola, por exemplo, acabou no bolso de alguém.

O recurso do box, que praticamente sumiu dos textos publicados, era utilizado no jornalismo impresso para dar suporte à reportagem. Nele, reuniam-se, em poucas linhas, números importantes, dados-chave, contexto histórico e informações complementares que ajudavam o leitor a compreender o conteúdo com mais clareza.

Não adianta escrever para minorias e ignorar a parcela quase absoluta para quem escrevemos.

Segundo o IBGE (PNAD Contínua, ano base 2024), 5,3% da população com 15 anos ou mais é analfabeta, o equivalente a 9,1 milhões de pessoas.

De acordo com o INAF, edição 2024/2025, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são considerados analfabetos funcionais, ou seja, conseguem ler palavras ou frases simples, mas não são capazes de interpretar textos ou utilizar a leitura no cotidiano.

Isso significa que cerca de 71% da população possui ao menos habilidades básicas de leitura. Apenas uma parcela reduzida — estimada entre 12% e 15% — atinge níveis plenos de compreensão, sendo capaz de interpretar, analisar e refletir criticamente sobre textos.

Profissionais que não vivem da comunicação — médicos, arquitetos, advogados, entre outros — acreditam que escrever bem significa usar palavras rebuscadas ou frases complexas. É um erro clássico.

Escrever bem é o oposto: transformar uma ideia complexa em algo comum que qualquer pessoa, dentro ou fora do seu universo, consiga absorver e aplicar.

A complexidade exige clareza absoluta. Fora isso, todo trabalho apurado nas redações pode resultar, em muitos casos, em excelente material com enorme potencial para não ser compreendido.

É justamente essa ausência de tradução que transforma cifras em abstrações. E é nesse espaço que o elo perdido se estabelece: entre o dinheiro desviado, a forma como ele é comunicado e as tragédias que deixam de ser evitadas.

Para efeito de análise, consideramos hipoteticamente um desvio de R$ 52 bilhões, sem imputar responsabilidade a qualquer instituição específica ou agente público ou da iniciativa privada.

Esse valor é dinheiro suficiente para operar transformações significativas na infraestrutura brasileira, um dos maiores gargalos do país.

Aqui vão alguns exemplos do que, hipoteticamente, poderia ser feito com R$ 52 bilhões:

Dados de referência do DNIT (ano base 2025) indicam que o custo médio por quilômetro de rodovia é de aproximadamente R$ 10 milhões, permitindo asfaltar 5.200 km, distância de São Paulo até Lima, no Peru.

Daria para fazer uma rodovia duplicada, ida e volta, de primeiro mundo, ligando Campo Grande (MS) a Salvador (BA).

Com base nos parâmetros do SINAPI e do Ministério da Saúde (ano base 2025), seria possível implantar 17.300 unidades básicas de saúde (UBS) com cobertura praticamente universal.

Segundo estimativas do FNDE (ano base 2025), a construção de 6.500 escolas públicas teria custo médio entre R$ 6 e R$ 12 milhões por unidade, atendendo cerca de 3,2 milhões de estudantes.

Conforme dados do FNDE (ano base 2025), aproximadamente 17.300 creches poderiam ser construídas para atender 1,4 milhão de crianças.

Parâmetros do programa Minha Casa Minha Vida (ano base 2025) indicam que seria possível construir com R$ 52 bilhões cerca de 346 mil moradias populares, beneficiando aproximadamente 346 mil famílias.

Somente no setor da construção civil, para atender ao Minha Casa Minha Vida, ao longo de dois anos contínuos, o mesmo valor proporcionaria centenas de milhares de empregos diretos a pedreiros, serventes, eletricistas, engenheiros, mestres de obra, ajudantes e ainda impulsionaria as indústrias do cimento, do aço e de tijolos.

Além disso, criaria demandas diretas para o transporte, para o comércio, o agronegócio e o setor de serviços, conforme multiplicadores tradicionais do setor.

Com R$ 52 bilhões seria possível recuperar integralmente a Baía de Guanabara, revertendo décadas de degradação ambiental e transformando um dos principais cartões-postais do Brasil em um ativo econômico, social e turístico de escala global.

Segundo estimativas históricas de projetos de saneamento (anos 2000–2020), despoluir o Rio Tietê demandaria algo em torno de R$ 20 a 50 bilhões.

A iniciativa envolveria a expansão de redes coletoras em áreas urbanas, ligação de milhões de residências ao sistema, construção e ampliação de Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e aumento da capacidade de tratamento para níveis próximos de 100%.

A despoluição atenderia o controle de águas pluviais, combate a ligações clandestinas, retirada de sedimentos contaminados, limpeza de resíduos sólidos e recuperação de afluentes.

De quebra, entre os benefícios, o paulistano poderia nadar no Tietê que corta o município, usar o local como ponto turístico para passeios e até pescar nas margens para aliviar a tensão de morar na maior cidade da América Latina, que está entre as seis maiores do mundo.

Falhamos quando a linguagem falha.

•        A imprensa, a delação de Vorcaro e quem era quem na rede de proteção do Master. Por Carlos Wagner

Ao ver se desfazer a rede de proteção que havia montado para blindar as atividades ilegais do Banco Master, o seu ex-dono Daniel Vorcaro, 42 anos, começou a negociar uma delação premiada com a Justiça. Isso me lembrou uma reportagem que fiz no início dos anos 90 sobre o poder dos banqueiros do jogo do bicho nas cidades gaúchas. Não foi fácil. Investiguei a história por mais de meio ano. Lembro-me que não existia “papel”, uma gíria que os repórteres usavam quando queriam dizer não havia inquéritos policiais sobre o assunto que pudessem nortear o trabalho jornalístico. Descobri que os bicheiros montaram ao redor dos seus negócios uma rede de proteção muito semelhante à de Vorcaro. Eles usavam o nome de autoridades e pessoas influentes para passar a quem tivesse intenção de acabar com as suas atividades ilegais o seguinte recado: “Olha quem são os meus amigos”. Meu primeiro trabalho foi separar o que era verdade da “conversa fiada” e saber quem era quem na rede de proteção dos bicheiros. Descobri que muitas autoridades nem sabiam que os seus nomes estavam sendo usados. Gastei muita sola de sapato. Mas no final dos primeiros dois meses de apuração já conhecia o modo de operar dos 12 maiores bicheiros gaúchos.

Há uma corrente respeitável de pesquisadores da violência no Brasil que defende a ideia de que foram os bicheiros que começaram o crime organizado no país. O fato é que a rede de proteção criada por Vorcaro para proteger as suas atividades no Master é muito parecida com a dos chefões do jogo do bicho. Claro, a de Vorcaro é mais sofisticada, com festas, seminários, jatinhos particulares e ostentações de todos os calibres. Mas o objetivo era passar o mesmo recado: “Não se metam comigo, olhem de quem eu sou amigo!”. Vorcaro montou sua rede de proteção no “andar de cima”, transitando entre gente poderosa. No andar de baixo, seus capangas operavam no velho estilo: espionando e ameaçando pessoas que julgavam ser “inimigas da operação do Master”. Entre estes capangas estava Luiz Phillipi Machado Mourão, 43 anos, conhecido como Sicário, como são chamados os pistoleiros de aluguel dos cartéis de droga do México. Preso pela Polícia Federal, suicidou-se na sua cela – há um inquérito investigando a morte. O escrivão de polícia Marilson Roseno, aposentado da PF, 56 anos, fazia o trabalho de espionagem. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, 50 anos, operava a lavagem de dinheiro. Além desses, há outros cujos nomes ainda são desconhecidos da PF. O novo advogado do banqueiro, o experiente José Luis de Oliveira Lima é quem negocia a delação premiada. As conversas ainda estão no início. Se tudo der certo, saberemos quem é quem no sistema de proteção montado por Vorcaro ao redor das suas operações no Master, que deram um prejuízo de R$ 50 bilhões para os clientes e o sistema bancário.

Há colegas que estão comparando o caso Master com a Operação Lava Jato (2014 – 2021). É forçar a barra. A Lava Jato foi uma operação grandiosa, que teve 80 fases (operações autorizadas pela Justiça), e a maioria dos julgamentos aconteceu na Terceira Vara da Justiça Federal de Curitiba (PR), na época comandada pelo então juiz federal Sérgio Moro, 53 anos, atualmente senador – a polêmica envolvendo Moro e a Lava Jato está disponível na internet. Para a imprensa, a Lava Jato foi um divisor de águas. Aprendemos muito nesta cobertura. Lembro-me que fui um dos repórteres que advertiu os colegas que estávamos sendo usados por Moro para divulgar a sua versão de justiça. Ele soube usar com maestria a concorrência entre os jornalistas para “vender o seu peixe”. É do jogo. Aprendemos que é importante “ficar alerta” para as cascas de banana no caminho. Portanto, seja lá no que der a delação de Vorcaro, os jornalistas estão mais capacitados para separar o joio do trigo do que estavam na Lava Jato. Um colega me lembrou que 2026 é ano eleitoral. Disse a ele que não se trata apenas de mais um ano eleitoral. Este é diferente. Por quê? Simples. Entre o final de 2022 e 8 de janeiro de 2023 o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL) e um grupo de 37 pessoas criaram uma organização criminosa e tentaram dar um golpe de estado. Estão todos presos, cumprindo pena, além de mais de mil outros seguidores do ex-presidente que em 8 de janeiro de 2023 se envolveram na destruição do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF). A eleição presidencial está polarizada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 44 anos, que é filho do ex-presidente e o substitui na disputa. Mais ainda. Tanto Lula quanto Flávio estão apostando muito para fazer uma bancada significativa no Congresso. Não interessa quem for eleito presidente. Vai dar as cartas quem tiver maioria na Câmara dos Deputados e no Senado. Vou lembrar um fato histórico. Em 1961, o presidente Jânio Quadros (1917 – 1992) renunciou ao cargo apenas sete meses após tomar posse, alegando que “forças terríveis” o impediam de governar. As “forças terríveis” eram a maioria da oposição no Congresso. Ele apostou que o povo o levaria de volta à Presidência com poder para “enquadrar” a oposição. Nada disso aconteceu. Ao contrário, a renúncia de Jânio plantou as sementes do golpe militar que aconteceria em 1964 e duraria 21 anos, como tratei no post “O Agente Secreto” contou aos quatro ventos a história dos horrores de 1964.

Para arrematar a nossa conversa. Seja qual for o conteúdo da delação premiada de Vorcaro, a imprensa brasileira nunca esteve tão bem informada sobre quem é quem na disputa eleitoral, sobre o que aconteceu entre as quatro paredes da tentativa de golpe de 2023 e sobre a nova conjuntura mundial projetada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos, que usa o imenso poder econômico e militar americano para escrever a História ao seu modo.

 

Fonte: Observatório da Imprensa

 

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