quarta-feira, 1 de abril de 2026

IA na saúde: sobre tecnologias e quem as controla

No fim do ano passado, tive a oportunidade de fazer de abertura, no IMS/UERJ, para uma oficina sobre “soberania popular em tecnologias em saúde” (uma realização do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio do Ministério da Saúde. Nela estavam inúmeras autoridades oficiais, acadêmicos e nomes históricos do movimento da reforma sanitária, mas sobretudo compareceram diversos representantes de movimentos sociais contemporâneos.

Na ocasião defendi três premissas. Tal como três passos atrás, o esforço foi de recuperar teoricamente conceitos fundamentais para os tempos de digitalização das práticas de cuidado e atenção à saúde.

A primeira premissa mencionada foi de que tecnologia não é sinônimo de instrumento ou ferramenta. A segunda de que não há – e nunca houve na história humana – práticas de cuidado e atenção à saúde que não tenham sido tecnológicas. E a terceira se referia à ideia de que não há possibilidades de efetivamente produzir saúde e bem-estar sem autodeterminação daqueles/as que praticam e recebem cuidado.

Nesta coluna, tomo a liberdade de reformular a fala daquela ocasião: neste mês resumo a primeira premissa, no mês que vêm, tratarei da segunda e, por fim, em maio, me dedicarei a terceira.

________________________________________

De pronto, pode-se dizer: “Nunca antes na história…” se tornou tão importante lembrar que tecnologia não pode ser reduzida a uma simples “coisa” que seguramos na mão, manipulamos, implementamos etc.

Embora tendamos a – quase que por metonímia – chamar de tecnologia todos os instrumentos/ferramentas, para darmos conta do seu conceito, é preciso dar uma complicada na questão. Para começar, podemos relembrar o clássico Ricardo Bruno Mendes-Gonçalves. Dizia ele que, se não é totalmente errado chamarmos um estetoscópio, uma máquina de Raio-X ou um smartphone de tecnologias – porque de fato elas são ferramentas que pegamos nas mãos –, essa é só a forma com a qual a tecnologia nos aparece no aqui e agora, é tão somente a sua forma acabada como artefato técnico.

Quando suspendemos essa imediatez prática à qual o quotidiano insiste nos prender, diz Ricardo Bruno é preciso considerar, todavia, que esse artefato não tem sentido, função e utilidade – “valor de uso” – antes ou fora das relações com as demais coisas, formas de vida e, sobretudo, com os sujeitos humanos e com as distintas organizações sociais das quais participa.

A rigor, não há qualquer dose de realismo se considerarmos uma tecnologia tão somente como uma coisa – fantasmagoricamente – isolada do objeto que ela pretende manipular ou transformar e das pessoas que executam a atividade – e da qual ela é um meio. Se um profissional não retirar o estetoscópio do pescoço e utilizá-lo para auscultar, o artefato técnico pouco ou nada será diferente de um colar. A tecnologia é sempre algo processual, relacional.

É por isso que Ricardo Bruno insistia que é no interior de um determinado arranjo com os objetos sobre os quais realizamos as nossas intervenções e as atividades propriamente ditas que encontramos o conceito de tecnologia. Em saúde, isso significa por exemplo que embora possamos nos referir ao estetoscópio, à máquina de Raio-X, ao prontuário eletrônico ou a um chatbot, todos como tecnologia, se faz necessário considerá-los arranjos tecnológicos. Os artefatos são apenas partes – nunca isoláveis – dos modos como nós organizamos uma consulta, um acolhimento, um campanha ou programa de saúde pública… Como organizamos um (ou mais) sistema(s) de saúde.

Isso significa que os artefatos nunca são neutros, estão sempre arranjados com o modo como concebemos, organizamos e executamos nossas práticas de cuidado e atenção à saúde. Inclusive na maneira como hierarquizamos saberes, profissões e práticas, reproduzimos dominações, opressões e explorações. São processos guiados por saberes específicos, com fins econômicos particulares, reprodutores de normas institucionais próprias, vetores de relações de poder e de diferentes formas de produzir cuidado.

Um exemplo simples e caro ao pensamento crítico da saúde coletiva são os protocolos clínicos: de um lado, podem apoiar decisões e reduzir erros, mas também podem padronizar de tal forma a consulta que esvazia a escuta do usuário, restringe a autonomia da equipe e subordina o cuidado a indicadores gerenciais definidos por poderes estranhos, alienados dos territórios. O mesmo artefato técnico, portanto, pode operar como suporte de uma prática reflexiva e emancipadora, ou como instrumento de controle e dominação – do profissional e do paciente.

Isolar a tecnologia – como um mero artefato – do conjunto de relações que lhe dá sentido e significado, seja político e econômico, seja cultural, socioambiental ou ético, seja clínico ou sanitário, é um erro brutal e com consequências destrutivas.

Um velho movimento artístico como o construtivismo russo, com suas esquisitices e brilhantismo, defendiam obras de arte na quais os processos de criação e produção não ficassem apagados, omitidos no artefato final. Eles queriam que a obra de algum modo se mostrasse como um momento de um processo mais amplo e complexo. Os contra relevos de Vladimir Tatlin, por exemplo, a madeira, metal e vidro eram deixados à mostra, com encaixes, cortes e sistemas de suspensão aparentes, de modo que a obra “final” não fosse apresentada como uma simples coisa, fechada e estanque, mas como um resultado parcial de uma montagem em criação.

A proposta vanguardista, importante registrar, não visava apenas nos lembrar do processo que já havia acontecido antes do aqui e agora com que entramos em contato com a coisa, isto é, o passado do artefato disposto em nossas mãos ou de fronte ao nossos olhos. O conceito estético não era só um antídoto ao fetichismo das mercadorias que nos faz esquecer como, porque e por quem foi produzido a coisa que utilizamos.

Além de nos lembrar dos corações, mentes e braços que ficam cristalizados nos artefatos, a ideia dos revolucionários russos era nos interpelar sobre o futuro, sobre as aberturas inscritas nos artefatos e defender a sua contínua recriação. Segundo Boris Arvatov, ao defender que o artefato é um momento de um complexo processo, nunca uma coisa isolada do seu antes e depois, tratava de (re)educar as pessoas para o pertencimento ao processo criativo. Daí a máxima de que todos somos construtores e criadores em uma rede cooperativa de re-design, na qual as coisas estão sempre à espera de serem (re)definidas como novos valores de uso. Consequentemente, tudo em um fluxo de (re)construção de redes de saberes, habilidades e vínculos entre os construtores.e mais como um “agente” que acompanha o caso junto ao paciente. Ao fim, como lembra Christina Kiaer, segundo os construtivistas russos, os artefatos também deveriam ser “camaradas”.

Se isso já valia para artefatos mecânicos e analógicos, imagine agora com os artefatos digitais conectado com as redes globais de computadores como uma IA?

<><> A IA e a adaptabilidade

Emprestemos uma ideia do filósofo Luciano Floridi. Para ele, a IA tem um diferencial totalmente novo enquanto artefato: a adaptabilidade. Tais tecnologias emergentes não apenas reagem ao ambiente, mas se reorganizam em algum medida diante dele. As chamadas IAs “generativas” são um exemplo dessa condição.

Pensemos em chatbots como o ChatGPT ou no que a própria literatura médica já denomina “agentes conversacionais”. Esses sistemas ajustam seus serviços de acordo com os inputs que recebem. Em cada interação, uma camada de seu funcionamento interno se adequa ao usuário. Assim, um paciente que se relaciona com uma IA de monitoramento de diabetes, no primeiro mês, receberá uma assistência mais ou menos igual a todos os demais usuários com os mesmo problema de saúde. Com os dias, meses ou anos de interação, longitudinalmente, todavia, o que vemos é a IA incorporando nossos dados clínicos, comportamentais, ambientais e preferências etc.

Tudo de modo a se tornar cada vez mais adaptada, produzindo uma espécie de customização dinâmica. Funcionando menos como um glicosímetro tradicional e mais como um “agente” que acompanha o caso junto ao paciente. A cada conversa, a cada dado novo, ela vai se ajustando, “aprendendo” um pouco mais sobre aquela pessoa e mudando os serviços que oferece. Ofertando assistência digital que se adapta em tempo real em acordo com a interação e o histórico.

Essa adaptabilidade coloca em questão algo nada trivial na história humana: ao interagir com uma IA, não consumimos um artefato acabado como um medicamento ou equipamento médico tradicional. O momento de uso – consumo – do artefato é também um dos momentos em que ele está sendo produzido. Quando um usuário – profissional ou paciente – utiliza o artefato, alimentando-o com dados, ele participa de um processo no qual consumo e produção se confundem. O artefato é montado, desmontado e remontando continuamente com a participação do usuário. Embora tecnicamente há distintos níveis de atualização dos sistemas, o certo é que nunca há uma versão final da IA.

O segredo é que a interface com a qual interagimos, a coisa com que lidamos, é apenas um terminal: a ponta visível de uma imensa indústria em rede espalhada – desigualmente – pelo planeta Terra, disposta em uma complexa e gigantesca anatomia. Para que haja adaptabilidade, para que a IA alcance uma customização razoável e em tempo real na prestação de serviços, ela depende necessariamente do funcionamento dessa indústria global. Não há valor de uso possível de uma IA nas práticas de cuidado e atenção à saúde sem a relação que ela, enquanto mero artefato, estabelece ininterruptamente com outros artefatos e outros “construtores” – que, por sinal, nunca estão no aqui e agora que o usuário se vale do serviço.

Os serviços oferecidos por uma IA dependem de uma ampla infraestrutura que está operando em muitos lugares. Dependem de data centers que devoram água com impactos socioambientais e sanitários dramáticos, redes elétricas que colocam cidades e equipamentos de saúde em apagões, além de um exército global de trabalhadores fantasmas sem condições mínimas de trabalho – adoecendo.

Hoje, cada vez mais vemos profissionais da ponta sendo treinados para manusear IAs de modo eficaz, vemos cursos para introduzi-las nos processos formativos dos novos profissionais, vemos gestores correndo para incorporá-las nas performances administrativa, vemos recém-formados sonhando com um nova healthtech comprada por milhões de algum capital estrangeiro etc. (Afinal, como dizem, a roda não pode parar!)

Ao mesmo tempo, raros ou mesmo inexistentes têm sido os espaço onde nos perguntamos: tais arranjos tecnológicos envoltos na chamada “saúde digital” atual estão levando o SUS para onde? As novas tecnologias incorporadas ou implementadas como novos instrumentos estão (re)construindo arranjos com que(m) e para que(m)? As escolhas que tem sido feitas nos municípios, estados e união resultarão em qual SUS daqui 1, 5, 10… 40 anos? Ou ainda, envoltos numa acelerada e crescente indústria da IA, qual o processo de saúde-doença-cuidado que estamos decidindo hoje enfrentar amanhã?

Quando falamos nas novas tecnologias, portanto, estamos falando por definição de artefatos que são eles mesmos terminais de uma rede permanente de (re)construções. Certamente que não se trata das redes de construtores idealizadas pela vanguarda artística dos soviéticos, cujo horizonte era o da emancipação – em outras palavras, da “ponte para uma outra civilização”. Mas, talvez a Arte devolva o que o olhar cansado de anos de gerencialismo e tecnocracia esqueceu de refletir e sentir: para além das resoluções de problemas no aqui e agora, o movimento da reforma sanitária tem a responsabilidade com os antes e depois que os artefatos escondem, dissimulam e fetichizam.

 

Fonte: Por Leandro Modolo, em Outra Saúde

 

Nenhum comentário: