Washington
Araújo: Big techs perdem o escudo jurídico histórico — e a era da
irresponsabilidade chega ao fim
A
Justiça norte-americana acaba de atravessar uma linha que, por quase três
décadas, funcionou como blindagem estrutural das gigantes digitais. Em março de
2026, decisões judiciais em Los Angeles e no Novo México impuseram condenações
históricas à Meta Platforms e à Google, inaugurando um novo capítulo na
responsabilização das big techs.
Os
números são eloquentes e perturbadores. E põe perturbadores nisso.
Um júri
californiano considerou as empresas responsáveis pela deterioração da saúde
mental de uma jovem, fixando indenização de US$ 6 milhões. Dias antes, no Novo
México, a Meta foi condenada a pagar US$ 375 milhões por falhas graves na
proteção de menores, incluindo a facilitação de exploração sexual em suas
plataformas.
Não se
trata de episódios isolados, mas de sinais claros de uma inflexão institucional
que desloca o centro de gravidade do debate: da liberdade irrestrita à
responsabilidade mensurável.
Para
compreender a dimensão dessa mudança, é indispensável revisitar o alicerce
jurídico que sustentou a expansão da internet contemporânea. A Section 230 of
the Communications Decency Act, aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos em
fevereiro de 1996, nasceu num momento em que a rede ainda engatinhava como
espaço público. Seu propósito era inequívoco: proteger a inovação e evitar que
empresas emergentes fossem sufocadas por uma avalanche de litígios. A solução
encontrada foi cirúrgica — e histórica.
Esse
núcleo normativo ficou sintetizado em 26 palavras que, desde então, moldam a
economia digital global: “No provider or user of an interactive computer
service shall be treated as the publisher or speaker of any information
provided by another information content provider.”
Em
tradução precisa: “Nenhum provedor ou usuário de um serviço interativo de
computador deve ser tratado como editor ou autor de qualquer informação
fornecida por outro provedor de conteúdo.”
Essa
formulação estabeleceu uma fronteira jurídica inédita.
Plataformas
deixaram de ser equiparadas a editoras tradicionais e passaram a ocupar um
espaço híbrido, ao mesmo tempo técnico e social, no qual poderiam hospedar
conteúdos sem assumir responsabilidade direta por eles.
Que
fique bemclaro que foi essa arquitetura legal que permitiu a ascensão meteórica
de empresas como Meta e Google, convertendo-as em intermediárias centrais da
vida pública contemporânea.
O
problema, agora exposto com nitidez desconfortável, é que a neutralidade
presumida deixou de corresponder à realidade operacional dessas plataformas.
Algoritmos que selecionam, priorizam e amplificam conteúdos não são neutros;
são decisões empresariais codificadas.
É nesse
ponto que os tribunais norte-americanos começam a operar uma distinção
decisiva: não se julga mais apenas o que é publicado, mas como e por que
determinados conteúdos são impulsionados.
Essa
inflexão jurídica altera profundamente o campo de jogo. Ao reconhecer que o
design das plataformas — e não apenas o conteúdo — pode gerar dano, a Justiça
abre uma brecha que a Seção 230 nunca pretendeu cobrir. Trata-se de uma
reinterpretação que, se consolidada, redefine a própria noção de
responsabilidade no ambiente digital.
O que
salta aos olhos dos estudiosos das redes sociais, das big techs que a partir de
agora a engenharia do engajamento deixa de ser invisível e passa a ser passível
de escrutínio.
As
empresas, previsivelmente, resistem. Mas isso não surpreende nenhum metro de
cimento da rica California.
Recursos
já anunciados indicam que a batalha migrará para instâncias superiores, onde o
debate ganhará contornos constitucionais.
Mais de
2.400 ações semelhantes avançam em tribunais federais, enquanto outras milhares
se acumulam em cortes estaduais. O contencioso deixou de ser episódico e
assumiu dimensão estrutural.
As
consequências ultrapassam o universo das redes sociais. Plataformas como Roblox
Corporation também estão sob pressão judicial, sinalizando que o alcance dessa
reinterpretação pode abranger todo o ecossistema digital. A frase que ecoa
entre juristas — “a internet está sendo julgada” — já não soa como exagero, mas
como descrição literal de um processo em curso.
No
horizonte, a Suprema Corte dos Estados Unidos desponta como instância decisiva.
Até aqui, evitou enfrentar diretamente o alcance da Seção 230, mas sinais
internos indicam crescente disposição para revisitar seus limites. Quando esse
momento chegar — e ele se aproxima com rapidez — não estará em julgamento
apenas uma lei de 1996, mas o modelo de funcionamento de uma economia digital
que, por anos, operou com liberdade assimétrica.
O que
emerge dessas decisões não é um simples ajuste regulatório. É a tentativa de
reequilibrar uma equação que se tornou insustentável: inovação sem
responsabilidade, escala sem contenção, lucro sem consequência.
Ao
iluminar as 26 palavras que moldaram a internet, a Justiça americana começa,
finalmente, a perguntar se elas ainda são suficientes para explicar — e conter
— o poder que ajudaram a criar. Em poucas pavras: Big techs perdem o escudo
jurídico histórico — e a era da irresponsabilidade chega ao fim.
• As big techs no centro do poder político
mundial: decifra-me ou te devoro!. Por Samuel Pantoja Lima
Washington
D.C., 20 de janeiro de 2025. Uma imagem icônica correu o mundo: os bilhardários
das mega corporações de comunicação digital “tomam posse” no poder político dos
Estados Unidos, junto com Donald J. Trump. Além do dono da SpaceX, Tesla e
X/Twitter, Elon Musk, que ganhou um cargo no governo, estavam na foto o
fundador da Amazon, Jeff Bezos, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, o líder da
Apple, Tim Cook, e o diretor do Google, Sundar Pichai. Todos ocuparam assentos
de destaque na Igreja de St. John e aparecem lado a lado em fotos da posse.
Além dos que estão na foto, também foi ao evento o CEO do TikTok, Shou Chew. A
questão é: o que isso significa para o futuro do jornalismo, da democracia e da
humanidade?
A
filósofa Marilena Chauí, em recente entrevista à TV Brasil, nos indica um
caminho preciso, sensível: “Não houve uma mudança tecnológica, houve uma
mutação civilizacional, é um outro mundo, uma outra coisa. O mundo virtual é
outra coisa! E, em certa medida, ninguém estava preparado para uma mutação
deste calibre, de uma violência porque você tem a ilusão da autonomia, a ilusão
da liberdade. E onde está a servidão? O fato de que você é um usuário, você não
é um criador de nada daquilo, mas um simples usuário e o criador são os grandes
que controlam a sua mente, os seus sentimentos, o seu corpo, a sua vida. E é
por isso que o fake news é uma coisa desesperadora porque não é boato, não é
fofoca (…). Trata-se, portanto, “de uma mutação civilizacional, não houve uma
mudança tecnológica, mas uma mudança no modo vida”.
A
aliança das mega corporações de comunicação e informação – as chamadas “big
techs”, que não são, definitivamente, empresas de tecnologia – com as forças de
extrema-direita foi consolidada desde os eventos que culminaram na saída do
Reino Unido da União Europeia (Brexit, em junho de 2016) e na primeira eleição
de Trump (no começo de novembro do mesmo ano). Nestes dois eventos políticos, o
consórcio Cambridge Analytica/Facebook, usando ilegalmente dados de 87 milhões
de pessoas (“usuários”) traçou perfis psicográficos dos “persuasíveis” e – à
base de fake news, desinformação e fraude – construiu estreitas maiorias nas
duas eleições. O documentário “Privacidade Hackeada” (Karim Amer e Jehane
Noujaim, EUA, 2019) trata dos dois casos com precisão e profundidade, apontando
que o pleito nos EUA foi decidido por cerca de 70 mil pessoas (persuasíveis).
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A mentira como estratégia de poder
A volta
de Trump à Casa Branca robustece o poder político da indústria das fake news de
mãos dadas com o poder político mundial, com respaldo de um ator com o peso dos
EUA. Por isso, um dos primeiros atos do político estadunidense de
extrema-direita foi decretar “morte aos BRICS” – articulação liderada pelo
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, que hoje reúne algumas dezenas
de outros países parceiros e pode fazer frente ao novo projeto imperial, que
tem a mentira, a desinformação em escala planetária, como estratégia de poder.
Aliás, o uso da mentira como estratégia de poder é uma técnica conhecida nos
estudos de psicologia do conhecimento como “firehosing” (a estratégia de
disseminação de mentiras como propaganda política). No caso, trata-se de um
governo que, em seu início, lança mão de centenas de ordens de serviço,
decretos inconstitucionais e toda sorte de atos políticos e administrativos, o
que – até o momento, à exceção do senador Bernie Sanders – tem deixado a
oposição democrata perplexa e os movimentos sociais sem uma ação mais
expressiva de imediato.”
Sobre a
estratégia de disseminação de mentiras, desinformações, meias-verdades em
profusão, as pesquisadoras Tatiana Roque e Fernanda Bruno acrescentam:
“Tornou-se popular um documento da Rand Corporation apontando como central a
técnica de “firehosing” (apontar para o receptor uma mangueira com grande
intensidade de água, como a que é usada para apagar incêndios). A metáfora da
mangueira remete a um imenso volume de mensagens (falsas, acrescento) disparado
por diferentes canais, em ritmo rápido, contínuo e repetitivo. Trata-se de uma
técnica de disseminação usada para produzir credibilidade do conteúdo gerado.
Algumas características são essenciais, como a agilidade – chegar antes e criar
a primeira impressão. Esse imediatismo se contrapõe ao trabalho da imprensa,
que precisa checar e apurar os fatos que noticia. Estudos clássicos de
psicologia, como os de Stephan Lewandowsky (University of Western Australia),
mostram que uma informação tida inicialmente como válida continua a influenciar
o julgamento das pessoas mesmo se provada falsa” .
No
final de 2024, fiz uma rápida checagem nos números da indústria das fake news
(plataformas digitais ou “big techs”), cujo faturamento alcança a robusta casa
dos trilhões de dólares anuais, comparados à indústria mundial do petróleo. Das
20 maiores empresas de comunicação digital, 14 têm sede nos EUA, duas na China,
e as outras quatro (uma em cada país) na Alemanha, Holanda, Coreia do Sul e
Taiwan. Os dados são do site especializado Visual Capitalist: “As 20 maiores
empresas de tecnologia do mundo valem mais de US$ 20 trilhões no total. Para
colocar isso em perspectiva, isso é quase 18% do valor do mercado de ações
globalmente”. Só para fins de comparação, a Saudi Arabian Oil Co. (Saudi
Aramco), empresa estatal saudita, é a maior empresa petrolífera do mundo, que
responde por uma grande parcela das reservas de petróleo do país e seu valor de
mercado é US$ 1,8 trilhão, enquanto que Microsoft e Apple, são avaliadas em 3,3
trilhões de dólares. Na realidade, a empresa de petróleo saudita vale, no altar
do deus mercado, pouco mais que a Meta de Mark Zuckerberg – avaliada em 1,3
trilhões de dólares.
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Caça-níqueis, vício e sociabilidade virtual
Em
síntese, é fato inconteste que a sinergia entre o poder das mega corporações de
comunicação com forças políticas de extrema-direita, hoje articuladas em escala
mundial, fortalece sobremaneira uma sociabilidade virtual baseada na
desinformação, que conecta milhões de pessoas em escala global e produz um tipo
de representação da realidade profundamente desconectada da objetividade do
real, do mundo factual, das relações humanas presenciais, sem nenhum
compromisso com a verdade factual ou quaisquer outras noções de verdade. Dito
de outro modo, “a presença em peso dos chefões da tecnologia reforça o
bromance, expressão do inglês que se refere a um relacionamento íntimo entre
homens, entre os executivos e Trump”, com as repercussões profundas na América
Latina e Europa – até a Groenlândia, passando pelo Canal do Panamá, o Golfo do
México e o Canadá.
As
pesquisadoras Roseli Figaro e Cláudia Nonato avaliam esse cenário e sugerem um
papel decisivo para o Jornalismo, em artigo recente publicado no Correio
Braziliense: “A ação desses empresários que controlam boa parte da produção e
circulação de informações no mundo mostra uma mudança tática. As recentes
declarações tanto de Zuckerberg quanto de Musk apontam para uma atitude mais
direta e não dissimulada: governarão eles mesmos. Dessa maneira, para que os
interesses das big techs ocupem esse lugar de protagonismo nos rumos da
governança global, o jornalismo e a circulação de informações devem ser
cerceados. Pois a desinformação, defendida por essas empresas ao recusarem a
moderação de conteúdos, é um instrumento político que combate as forças
democráticas, impede o exercício dos direitos civis e o debate de ideias sem
discurso de ódio. O jornalismo, de outra parte, de modo geral, trabalha para a
circulação de informações devidamente apuradas e desenvolve mecanismos de
moderação de conteúdos e de checagem”.
Tenho
apontado, em diferentes espaços de debate acadêmico e entre lideranças de
movimentos sociais, a necessidade fundamental de entendermos e enfrentarmos uma
questão de fundo: como combater essa sociabilidade de novo tipo, construída num
mundo virtual das plataformas de mensageria (WhatsApp, Telegram etc.), que
impacta de crianças, de maneira mais profunda, pessoas da faixa etária adulta e
idosos, produzindo uma espécie de alienação jamais vista nos espaços sociais?
São centenas de milhares de grupos de “Zap” e outras plataformas de mensagens
que se articulam com base na mentira, na fraude e na manipulação, consolidando,
nos corações e mentes de milhões de pessoas, uma realidade ímpar – um universo
paralelo no qual as vacinas fazem mal à saúde (contra a Covid-19, trariam um
“chip chinês”) e a terra é plana. Não há simetria possível, no jogo democrático
formal da disputa de hegemonia das ideias na sociedade (que às vezes é nominada
de “opinião pública”, com todas as aspas). As regras ditadas pelos bilionários
das “redes antissociais” (para usar uma expressão do professor Eugênio Bucci,
USP) são baseadas na ausência total de transparência e na ditadura do
algoritmo. A “liberdade de expressão” defendida por Musk e Zuckerberg é o
direito de mentir, descaradamente, usar a desinformação em prol de sua visão de
mundo, caluniar, destruir reputações, fomentar o ódio e, em última análise,
fazer a apologia do crime, impunimente.
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Decifra-me ou te devoro!
O
jornalista Max Fisher publicou uma obra fundamental para ampliar nossos
horizontes e indica alguns caminhos para que as forças democráticas no mundo
inteiro se articulem para enfrentar o imperial poder global do “bromance”. Há
que se romper esse ciclo com uma sólida ação presencial e o desenvolvimento de
redes públicas que possibilitem às sociedades democráticas contemporâneas
mitigar os efeitos nefastos da sociabilidade da mentira representada pela
indústria das fake news. Fisher ouviu centenas de pessoas vítimas de crimes nas
redes sociais, investigou episódios nos quais houve mortes e ataques em função
das “fake news” e entrevistou dezenas de cientistas sociais, psicólogos e
neurocientistas. O resultado é a obra “Máquina do caos: como as redes sociais
reprogramaram nossa mente e nosso mundo” (Ed. Todavia, 2023).
Em
entrevista concedida aos jornalistas Daniel Bergamasco e Patrícia Campos Mello,
durante o Festival de Jornalismo da revista piauí, em 2023, ele explicou, com
detalhes o mecanismo: “Quando o pessoal do Vale do Silício começou a
desenvolver as redes sociais modernas, por volta de 2009 e 2010, queriam
torná-las deliberadamente viciantes. Eles diziam isso abertamente: ‘Queremos
imitar as máquinas de caça-níqueis, queremos imitar substâncias viciantes,
queremos criar um vício físico nos usuários, que voltarão à nossa plataforma
não porque ela oferece um bom serviço ou porque é uma boa fonte de notícias,
mas por compulsão física, por vício’. E havia todo um campo de investigação no
Vale do Silício muito importante sobre aprender com caça-níqueis em cassinos e,
se você reparar, seu celular lembra um caça-níqueis. Há luzes brilhantes que
piscam, as cores, o feedback tátil, quando o telefone vibra, que foi copiado
explicitamente dos caça-níqueis, e sabemos graças a pesquisas neurológicas mais
recentes que usar redes sociais cria um vício físico no cérebro exatamente como
uma substância aditiva. O cérebro se comporta da mesma maneira que o faz quando
consumimos álcool, drogas, nicotina. E, quando usamos as redes, liberamos muita
dopamina. E essa dopamina é liberada quando buscamos algo importante para nós,
como um sentido de conexão ou quando queremos nos informar. E o uso frequente
do app cria um vício que vemos no cérebro das pessoas como uma droga. E sabemos
que as drogas também mudam a nossa cognição, nosso comportamento, nossa forma
de pensar e de sentir. Então, pense nisso como uma afirmação: sabemos que as
mídias sociais mudam nossa química cerebral”.
O
mundo, como criação humana, parece ter chegado ao final do primeiro quarto do
século XXI ouvindo os ecos da Esfinge de Tebas, da mitologia grega, nos desvãos
das redes virtuais, hegemonizadas pela desinformação, pelo embuste, pela
mentira pura e simples. A Esfinge desafiava os viajantes que passavam pela
cidade a decifrar um enigma ou pagar com a vida: “decifra-me ou te devoro!”.
Fonte:
Brasil 247/Observatório da Imprensa

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