quarta-feira, 1 de abril de 2026

Sérgio Ferrari: Da Palestina ao Irã e tantas outras regiões, a indústria bélica impõe um mundo de guerras

A conjuntura mundial dança ao ritmo da grande indústria de armamentos, que define suas próprias leis, impõe suas vendas e coopta a política exterior de muitos Estados. Atualmente, o planeta está sediando cerca de 60 conflitos bélicos. Desses, mais de uma dezena de particular explosividade e que, por outro lado, não poderiam existir se não estivessem por trás deles as multinacionais que produzem e distribuem equipamentos, armas, munições e tecnologia especializada. Do Irã ao Líbano, passando pelo Sudão, pela Ucrânia ou pela fronteira afegã-paquistanesa...

<><> Mais armas a cada dia

No período de 2021 a 2025, o fluxo global de armamentos aumentou quase 10% em comparação com o período de cinco anos anterior. Esse aumento corresponde, fundamentalmente, às maiores transferências para a Europa, em particular para a Ucrânia. Dentro desse cenário, o Velho Mundo se consolida como um paraíso para a grande indústria de guerra ao triplicar suas importações. Essa tendência crescente, segundo analistas, é explicada pela percepção de uma maior ameaça russa, agravada pela maior incerteza sobre o compromisso dos Estados Unidos com a defesa de seus aliados europeus, os membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Nesse mesmo período de cinco anos, as exportações totais dos Estados Unidos, que continuam sendo o maior fornecedor mundial de armamentos, aumentaram 27% em nível global e 217% para fortalecer o arsenal europeu, conforme documentado em março pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz (SIPRI), sediado em Estocolmo. A partir de 1950, o SIPRI tem sido a principal fonte de informações sobre o volume (não necessariamente o valor financeiro) das transferências internacionais de armas (incluindo vendas, "doações" e produção licenciada) entre Estados, organizações internacionais e grupos não estatais.

Como esse volume pode variar significativamente de ano para ano, o SIPRI publica números quinquenais, garantindo assim uma medida mais estável das tendências em jogo. Entre 2021 e 2025, os Estados Unidos foram responsáveis por 42% das transferências internacionais de armas (em 2016-2020 foram 36%). Exportou material de guerra para 99 estados: 35 na Europa, 18 na América Latina e Caribe, 17 na África, 17 na Ásia e Oceania e 12 no Oriente Médio. E, pela primeira vez em duas décadas, a maior parte das exportações dos EUA foi para a Europa (38%) e não para o Oriente Médio (33%). No entanto, seu principal destinatário foi a Arábia Saudita, com 12%. 

Segundo o SIPRI, os Estados Unidos consolidaram ainda mais seu domínio como fornecedor de armas em um mundo cada vez mais multipolar. Seu estudo, atualizado no final de 2025, alega que importadores de armas dos EUA preferem essas armas devido às suas avançadas capacidades tecnológicas e, além disso, porque contribuem comercialmente para fomentar boas relações com aquele país. Como o SIPRI enfatiza, para os Estados Unidos, as exportações de armas são "uma ferramenta de política externa e uma forma de fortalecer sua indústria armamentista, como, de novo, deixa claro a nova Estratégia de Transferência de Armamentos América em Primeiro Lugar da administração Trump". Uma realidade que se torna a principal chave para interpretar a pressão que, desde seu primeiro dia como presidente, Donald Trump exerceu sobre seus aliados da OTAN para que aumentem significativamente seus próprios orçamentos de defesa. Após essa disputa, e já no horizonte, novos e frutíferos negócios para as multinacionais estadunidenses da indústria de guerra. Atualmente, 39 das 100 maiores multinacionais são norte-americanas.

<><> As outras potências armamentistas

O SIPRI classifica a França como o segundo maior fornecedor de armas, respondendo por 9,8% das exportações mundiais, representando um aumento de 21% nos últimos cinco anos. A França exportou armas para 63 Estados, e seus maiores mercados foram a Índia (24%), o Egito (11%) e a Grécia (10%). Por outro lado, seus embarques para países europeus aumentaram mais de cinco vezes. 

Por sua vez, a Alemanha superou a China, tornando-se o quarto maior exportador de armas: 5,7% do total mundial. Quase um quarto desse volume foi para a Ucrânia.

A Itália aumentou suas exportações de armas em 157%, subindo do décimo para o sexto lugar. Mais da metade de suas vendas foi para o Oriente Médio, 16% para a Ásia e 13% para a Oceania.

Israel, o sétimo maior fornecedor de armas, aumentou suas exportações de 3,1% durante o período 2016–20 para 4,4% nos últimos cinco anos e, pela primeira vez, superou o Reino Unido (3,4%). Esse aumento ocorreu em paralelo à guerra em Gaza e aos ataques ao Irã, Líbano, Catar, Síria e Iêmen. A indústria de exportação de armas de Israel foca principalmente em sistemas de defesa aérea, que são altamente demandados mundialmente, enquanto seu exército continua importando quantidades significativas de equipamentos e materiais.

A Rússia é o único exportador entre os 10 maiores com vendas menores do que em anos anteriores (-64%). Seus principais compradores são a Índia (48%), a China (13%) e a Bielorrússia (13%).

<><> Custos da nova guerra

Um artigo recente no jornal espanhol El País calcula, com base em fontes do Pentágono, que o custo dos primeiros seis dias da guerra contra o Irã foi de 11,3 bilhões de dólares. E comenta que, no início dessa guerra, os Estados Unidos, o país com o maior orçamento militar do mundo (901 bilhões de dólares, em 2026), já tinham um déficit de fundos para aquisição de munição. O serviço internacional de radiodifusão alemão Deutsche Welle corrobora esse número, que cita do New York Times, e esclarece que "ainda está incompleto e promete ser ainda maior". O jornal britânico The Guardian também concorda com esse valor, embora o considere subvalorizado porque não inclui os custos de implantação ou substituição de equipamentos militares danificados ou destruídos.

O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, sigla em inglês), uma organização independente sediada em Washington, D.C., baseada nas estimativas financeiras mencionadas, publicou em março uma análise com números tão grandes quanto alarmantes: durante as primeiras 100 horas de sua guerra contra o Irã, ou seja, em apenas quatro dias, os Estados Unidos gastaram pelo menos 3,7 bilhões de dólares.

No entanto, a estimativa do Departamento de Guerra dos EUA aponta para um nível de gastos muito maior: quase 1,9 bilhão de dólares por dia durante os primeiros seis dias do conflito. Outras fontes recentemente citadas pelo New York Times e Washington Post acreditam que, somente nos dois primeiros dias da guerra, incluindo os ataques às altas cúpulas iranianas, foram alocados 5,6 bilhões de dólares em gastos militares.

Por outro lado, a Casa Branca anunciou em 19 de março que solicitará mais 200 bilhões de dólares para financiar a guerra no Irã. Argumenta que precisa reabastecer munições e outros suprimentos que foram esgotados pela ajuda anterior a outros países. Naquele dia, Donald Trump disse que "este é um mundo muito volátil". E que querem ter grandes quantidades de munição, já que seus estoques diminuíram por "dar tanto à Ucrânia". Segundo a BBC, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, não confirmou diretamente o número, mas disse: "É preciso dinheiro para matar os vilões".

Também para Israel, a guerra representa um custo considerável em meio a um conflito de alta intensidade contra o Irã, enquanto mantém a máxima pressão militar contra o Hezbollah, no Líbano. Segundo o CSIS, suas operações contra o Irã podem custar a Israel entre 200 milhões e 700 milhões de dólares por dia. Para a agência suíça Heidi.News, grande parte desses custos corresponde ao uso massivo de munições de precisão em operações aéreas com aeronaves F-35, F-15 ou F-16, mas, acima de tudo, com o sistema de defesa antimísseis. Israel possui um sistema de defesa multicamadas (Cúpula de Ferro, Funda de Davi e Flecha) tão sofisticado quanto caro, projetado especificamente para interceptar foguetes, mísseis balísticos e drones. Um míssil interceptador pode custar várias centenas de milhares de dólares, e até mais, como no caso dos mísseis balísticos. Cada vez que o Irã lança drones e mísseis, o custo da defesa aérea para somente para Israel pode, rapidamente, chegar a dezenas de milhões de dólares por dia.

<><> Armas e pobreza

Segundo o SIPRI, as receitas da venda de armas e serviços militares das 100 maiores empresas produtoras de armas aumentaram 5,9%, em 2024, atingindo um recorde de US$ 679 bilhões. Transações estimuladas, principalmente, pelas guerras na Ucrânia e em Gaza, pelas tensões geopolíticas globais e regionais e pelo aumento constante dos gastos militares globais.

Enquanto isso, a maioria das empresas estadunidenses dessa lista viu seus lucros crescerem 3,8%, cerca de US$ 334 bilhões. Cinco das seis empresas mais importantes do mundo são estadunidenses: Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman, General Dynamics e Boeing. (O quarto lugar desse grupo é ocupado pela britânica BAE System). Um relatório das Nações Unidas publicado em setembro de 2025 indica que os gastos militares globais em 2024 aumentaram quase 10% em comparação com 2023, atingindo um recorde de 2,7 bilhões de dólares, equivalente a 334 dólares para cada uma das mais de 8 bilhões de pessoas do planeta. Se a tendência continuar, esse valor atingirá 6,6 bilhões de dólares, em 2035.

Segundo o mesmo relatório, com 93 bilhões de dólares, ou menos de 4% dos 2,7 bilhões destinados aos gastos militares, a fome pode ser erradicada até 2030. Com pouco mais de 10% desse valor, todas as crianças do mundo poderiam ser vacinadas, e com 5 bilhões poderíamos financiar doze anos de educação de qualidade para crianças em países de baixa e média-média baixa.

Por outro lado, das receitas superlativas das multinacionais de armamentos, surge o rosto crescente da marginalidade planetária. Uma realidade que revela a ilógica da civilização humana hoje, com uma indústria armamentista que se torna a principal beneficiária da multiplicação da guerra e da expansão dos conflitos ao redor do mundo. Arsenais crescem junto com os pavios dos detonadores em um caminho onde a autodestruição da humanidade, resultante de uma Terceira Guerra Mundial generalizada, deixa de ser uma imagem futurista da ficção científica para se tornar uma possibilidade assustadoramente próxima.

¨      Trump distorce crise iraniana para reforçar retórica imperialista

Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, afirmou recentemente que o Irã estaria "sendo dizimado" e buscando um acordo com Washington.

Essa declaração, publicada pela Al Jazeera, deve ser analisada com cautela, dada a complexidade das relações entre os dois países.

Trump, conhecido por suas táticas de comunicação agressivas, frequentemente utiliza tais declarações para desviar a atenção de questões internas.

O Irã, por outro lado, tem resistido à pressão dos EUA, mantendo sua soberania e fortalecendo alianças com outras nações do Sul Global. A narrativa de que o Irã busca um acordo pode ser vista como uma tentativa de enfraquecer a imagem de resistência iraniana e justificar uma postura mais agressiva dos EUA na região.

Historicamente, a relação entre Irã e Estados Unidos é marcada por desconfiança e conflitos desde a Revolução Islâmica de 1979. As sanções econômicas impostas pelos EUA têm sido uma ferramenta de pressão, visando minar a economia iraniana e forçar mudanças de regime.

Apesar disso, o Irã tem demonstrado resiliência, buscando parcerias econômicas e militares com potências emergentes como a China e a Rússia. Essas alianças desafiam diretamente a hegemonia dos EUA na região, reforçando a ideia de um mundo multipolar.

Além disso, a retórica de Trump ignora os esforços diplomáticos do Irã para estabilizar a região. O país tem atuado como mediador em conflitos locais, buscando soluções pacíficas para as tensões no Oriente Médio.

Para o Brasil e outras nações do Sul Global, compreender essas nuances é fundamental. A postura de Trump reflete uma mentalidade imperialista que distorce fatos para justificar ações unilaterais.

Manter-se informado sobre as verdadeiras intenções por trás de tais declarações é crucial para defender a soberania e a autodeterminação das nações.

Em suma, a declaração de Trump sobre o Irã deve ser vista com ceticismo. Ela busca manipular a percepção pública e serve a uma política externa agressiva que ameaça a paz global.

O mundo caminha para um equilíbrio multipolar, e o Irã, com sua resistência e alianças estratégicas, é um ator central nesse novo cenário. Cabe aos países do Sul Global manterem-se vigilantes e unidos na defesa de suas soberanias e interesses.

¨      "Trump está sem saída no Irã", diz Pepe Escobar

O analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está “sem saída” diante da escalada militar contra o Irã, num cenário que combina impasse estratégico, turbulência nos mercados e risco de aprofundamento da crise global. A declaração foi feita em seu programa Pepe Café, publicado no YouTube, no qual ele analisa os efeitos militares, econômicos e geopolíticos do confronto no Golfo.

Ao longo da análise, Escobar sustenta que a Casa Branca perdeu margem de manobra. Segundo ele, o adiamento de cinco dias de um ultimato ao Irã não representou força, mas sinal de fraqueza diante da reação do mercado financeiro e das possíveis consequências de uma guerra de grandes proporções.

<><> Impasse militar e pressão dos mercados

De acordo com Pepe Escobar, Trump recuou temporariamente porque foi confrontado com o impacto potencial de uma escalada total sobre a economia dos próprios Estados Unidos. Em sua leitura, a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano mostrou que Washington não teria condições de sustentar ao mesmo tempo o custo financeiro da dívida e uma guerra de grandes proporções no Oriente Médio.

O analista afirma que esse movimento revelou um ponto central da crise: qualquer passo mais agressivo contra o Irã pode produzir efeitos devastadores sobre os mercados globais, especialmente no petróleo, no gás, no câmbio e nas cadeias produtivas. Para ele, o problema de Trump é justamente esse: recuar enfraquece sua posição política, mas avançar militarmente pode acelerar uma convulsão econômica global.

<><> Pepe Escobar vê blefe e ausência de negociação real

No programa Pepe Café, Escobar também afirma que não houve negociação direta real entre Washington e Teerã até aquele momento. Segundo ele, o discurso americano sobre supostas conversas em andamento foi desmentido por autoridades iranianas, enquanto os contatos efetivos estariam ocorrendo por canais indiretos, com mediação de países como Paquistão, Turquia e Egito.

Sua avaliação é de que a tentativa de abrir uma frente diplomática ocorre em meio a bombardeios contínuos e exigências consideradas inaceitáveis pelo Irã. Por isso, ele argumenta que a estratégia de Trump chegou a um beco sem saída.

<><> Documento dos EUA exigiria rendição iraniana

Escobar diz ainda que os Estados Unidos apresentaram ao Irã, por meio de intermediários, um documento com 15 pontos que equivaleria, na prática, a uma rendição disfarçada. Entre as exigências mencionadas estariam o fim do enriquecimento de urânio, o desmantelamento de instalações nucleares e o envio de material enriquecido para fora do país.

Para o analista geopolítico, esse tipo de proposta demonstra que Washington não oferece uma negociação real, mas uma capitulação. Na sua visão, isso explica por que Trump está sem saída: não consegue impor seus termos integralmente e também não apresenta uma alternativa viável de desescalada.

<><> Estreito de Ormuz no centro da crise

Outro ponto central da análise de Pepe Escobar é o estreito de Ormuz, que ele define como o grande eixo da guerra. Segundo ele, o Irã alterou as regras do jogo na região e passou a exercer controle estratégico sobre uma das passagens marítimas mais importantes do planeta.

Na leitura do analista, esse fator aumenta ainda mais a dificuldade dos Estados Unidos. Qualquer tentativa de reabrir completamente o estreito por meios militares, afirma, implicaria custos humanos e materiais elevadíssimos. Isso reforçaria o impasse de Trump, que estaria preso entre a necessidade de demonstrar poder e a incapacidade de garantir uma vitória rápida e limpa.

<><> Crise energética e impacto global

Pepe Escobar argumenta que o conflito já ultrapassou a esfera regional e se converteu num choque econômico global. Em sua análise, a instabilidade no Golfo afeta diretamente o mercado de petróleo e gás, amplia pressões inflacionárias e eleva o risco de desorganização das economias centrais e periféricas.

O analista também relaciona esse cenário à disputa em torno do sistema internacional de pagamentos e ao enfraquecimento da centralidade do dólar em determinadas transações energéticas. Para ele, a guerra vem produzindo mudanças estruturais que favorecem a aproximação entre Irã, Rússia e China, ao mesmo tempo em que expõem a vulnerabilidade da estratégia americana.

<><> Guerra sem saída

Ao final de sua análise no Pepe Café, Escobar sustenta que a escalada atual não oferece solução visível no curto prazo. Em vez de estabilização, ele vê a continuidade de uma “máquina infernal” movida por ultimatos, bombardeios, pressões econômicas e rearranjos geopolíticos profundos.

É nesse contexto que formula sua principal conclusão: Trump está sem saída no Irã. Para Pepe Escobar, o presidente dos Estados Unidos se encontra diante de uma equação insolúvel, em que qualquer movimento aprofunda a crise e acelera a perda de controle de Washington sobre uma guerra que já produz consequências mundiais.

 

Fonte: Brasil 247/O Cafezinho

 

Nenhum comentário: