Turismo
sustentável em países da América Latina: entre economia, meio ambiente e
justiça social
O
turismo sempre esteve associado ao lazer, ao deslocamento e ao consumo
cultural. Na América Latina, porém, ele ganhou novas camadas de significado. O
debate sobre turismo sustentável AL cresceu nas últimas décadas e se consolidou
como pauta central para governos, organismos multilaterais, comunidades e até
empresas privadas.
A noção
de o que é turismo sustentável vai além de reciclagem, trilhas em áreas
preservadas ou hospedagens com painéis solares. Trata-se de um modelo que
considera os impactos sociais, econômicos e ambientais das viagens. Na prática,
significa que o turismo só pode ser sustentável se gerar benefícios para as
comunidades, proteger o território e reduzir desigualdades.
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O que é turismo sustentável
De
acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), o turismo sustentável é
aquele que atende às necessidades da indústria, dos visitantes, do meio
ambiente e das comunidades anfitriãs, levando em conta impactos atuais e
futuros. Isso envolve três dimensões:
• Econômica: fortalecer cadeias produtivas
locais e reduzir a dependência de corporações internacionais.
• Ambiental: preservar ecossistemas,
reduzir emissões e evitar sobrecarga em destinos turísticos.
• Social: incluir populações
historicamente excluídas, respeitar culturas locais e promover trabalho decente
Essa
definição ganha força na América Latina, onde estão algumas das maiores
reservas de biodiversidade do planeta, além de comunidades indígenas,
quilombolas e afrodescendentes que mantêm modos de vida próprios. O turismo
sustentável na região não é apenas prática ambiental, mas também projeto
político e disputa de soberania.
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Países da América Latina e o protagonismo no turismo sustentável
A
América Latina foi classificada em relatórios internacionais como a região com
maior potencial para turismo e investimentos sustentáveis. Esse destaque tem
relação com:
• A presença de biomas únicos, como a
Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, os Andes e o Caribe.
• A diversidade cultural de povos
indígenas e comunidades tradicionais.
• A pressão de acordos multilaterais
ligados à Agenda 2030 da ONU e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
(ODS).
Governos
latinos passaram a usar o turismo sustentável como vitrine internacional. Em
encontros da Cepal, por exemplo, foram discutidas estratégias regionais para
combater as mudanças climáticas e reforçar a cooperação Sul-Sul. A América
Latina se apresentou não só como destino turístico, mas como espaço de
experimentação de políticas públicas de sustentabilidade.
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Turismo sustentável no Brasil: legislação e políticas públicas
O
turismo sustentável no Brasil ganhou visibilidade em fóruns da ONU Turismo. O
país apresentou sua Lei Geral do Turismo (2024) como modelo legal que alia
crescimento econômico e sustentabilidade. Entre os pontos debatidos:
• Incentivo a práticas ambientais
responsáveis.
• Mecanismos de inclusão social e
diversidade.
• Ordenamento territorial sustentável para
evitar a exploração predatória.
Além da
lei, o país tem programas como o Bandeira Azul, que certifica praias e marinas
com práticas ambientais. O Brasil lidera a América do Sul nesse quesito, com
dezenas de certificações ativas.
Nos
fóruns internacionais, autoridades brasileiras destacaram ainda experiências de
turismo acessível e comunitário. Exemplos incluem o Camping Acessível no Rio
Grande do Sul e as Rotas Negras, voltadas para o afroturismo. Essas iniciativas
mostram que o turismo sustentável também é instrumento de democratização do
lazer e valorização cultural.
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Casos de referência na América Latina
O
turismo sustentável nos países da América Latina não segue um modelo único.
Cada governo, comunidade e iniciativa local construiu estratégias próprias para
equilibrar preservação ambiental, economia e inclusão social. Esse mosaico de
experiências ajuda a projetar a região como espaço de inovação no cenário
global. Além das políticas nacionais, certificações internacionais e prêmios
reforçam o protagonismo latino-americano no debate sobre sustentabilidade.
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Costa Rica: economia verde e política de Estado
A Costa
Rica é um dos modelos mais citados mundialmente. O país conseguiu ampliar sua
cobertura florestal para cerca de 60%, revertendo décadas de desmatamento.
Quase toda a energia consumida vem de fontes renováveis e aproximadamente um
quarto do território é protegido. Essa combinação transformou a Costa Rica em
referência global. Mais do que iniciativas isoladas, trata-se de uma política
de Estado de longo prazo, que alia conservação, bem-estar social e turismo
sustentável.
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Colômbia: biodiversidade e certificações
A
Colômbia possui dezenas de destinos certificados como sustentáveis. O governo
aposta no turismo como ferramenta para reconstruir territórios afetados por
conflitos armados, ampliando renda em áreas rurais. O país também é membro
fundador da Future of Tourism Coalition, reforçando compromissos com padrões
sustentáveis e distribuição justa de renda.
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Chile: turismo de aventura aliado à sustentabilidade
O Chile
concentra alguns dos principais destinos de turismo de aventura. Regiões como
Torres del Paine e o Deserto do Atacama abrigam hotéis sustentáveis
reconhecidos internacionalmente, como o EcoCamp Patagonia e o Tierra Atacama
Hotel & Spa. O país alia a preservação das paisagens com uma infraestrutura
turística planejada para reduzir impactos ambientais.
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Peru: preservação em Machu Picchu
No
Peru, Machu Picchu é exemplo de como conciliar turismo de massa e conservação.
Políticas de controle de fluxo de visitantes foram implementadas para reduzir
impactos no sítio arqueológico. No Vale Sagrado dos Incas, iniciativas
comunitárias mantêm práticas agrícolas e culturais vivas ao mesmo tempo em que
recebem visitantes interessados em ecoturismo.
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República Dominicana: políticas públicas com apoio internacional
Na
República Dominicana, programas governamentais apoiados pela ONU investem em
eficiência energética, redução do uso de plásticos e combate à poluição
marinha. O país busca integrar práticas de sustentabilidade à hotelaria e à
promoção internacional de seus destinos.
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Brasil: certificações e prêmios internacionais
O
Brasil se consolidou como referência regional em turismo sustentável por meio
de certificações e premiações. O Programa Bandeira Azul é exemplo: em 2024/25,
o país liderou a América do Sul em número de praias e marinas certificadas.
Essa conquista coloca destinos brasileiros em posição de destaque em rankings
internacionais de sustentabilidade.
O país
também vem sendo reconhecido por iniciativas premiadas no exterior. No Prêmio
de Turismo Responsável da WTM Latin America, projetos brasileiros receberam
destaque: a Biofábrica de Corais, em Porto de Galinhas, mobiliza jangadeiros e
comunidades locais na restauração de recifes. Além disso, o estado de Mato
Grosso do Sul foi premiado em fóruns internacionais por práticas de governança,
uso de tecnologia e projetos de descarbonização, como o Bonito Carbono Neutro.
Esses
exemplos mostram como o turismo sustentável na América Latina vai além de boas
práticas ambientais. Ele envolve disputas por reconhecimento internacional,
certificações que funcionam como moeda simbólica e iniciativas que revelam
tanto o potencial quanto os limites desse modelo.
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Iniciativas comunitárias e inclusivas
O
turismo sustentável não se resume a grandes políticas de Estado. A região é
marcada por projetos comunitários e experiências locais que colocam
trabalhadores e comunidades como protagonistas.
• Afroturismo no Brasil: rotas que
resgatam a memória negra, valorizam quilombos e geram renda.
• Turismo indígena: iniciativas apoiadas
por organizações internacionais que garantem autonomia aos povos originários.
• Costa Magia no México: operadora
comunitária que une turismo, monitoramento ambiental e ciência cidadã.
Esses
exemplos mostram como a sustentabilidade também passa pela justiça social. São
práticas que reforçam a ideia de que o turismo pode ser uma ferramenta de
resistência cultural e econômica.
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Certificações e prêmios internacionais
O
reconhecimento internacional tem sido central para consolidar a imagem da
América Latina no turismo sustentável.
• O Prêmio de Turismo Responsável WTM
Latin America 2025 premiou projetos em categorias como mudanças climáticas,
diversidade, turismo indígena e valorização do patrimônio histórico.
• Entre os vencedores, destaque para a
Biofábrica de Corais (Brasil), que restaura recifes em Porto de Galinhas, e a
Costa Magia (México), que combina turismo comunitário e conservação.
• O Programa Bandeira Azul consolidou o
Brasil como líder em certificações ambientais na América do Sul.
Esses
selos e premiações funcionam como moeda simbólica no mercado global de turismo,
mas também levantam debates sobre quem define os padrões de sustentabilidade e
quais interesses estão por trás dessas certificações.
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Perfil do viajante latino-americano
Pesquisas
realizadas por plataformas de reservas mostraram que viajantes
latino-americanos são os que mais valorizam práticas sustentáveis. Alguns
dados:
• 94% consideram fundamental que as
viagens sejam sustentáveis.
• 75% reconhecem o impacto econômico do
turismo nas comunidades.
• Destinos como Bonito (Brasil), Bogotá
(Colômbia), Córdoba (Argentina), Puebla (México) e San José (Costa Rica) se
destacam por acomodações certificadas.
Esses
números revelam que há demanda concreta para o turismo sustentável, não apenas
retórica institucional. O comportamento do viajante é parte central dessa
transformação.
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Turismo sustentável e Agenda 2030
Nos
fóruns da Cepal e da ONU Turismo, a Agenda 2030 foi apontada como referência
para políticas públicas na América Latina. Entre os compromissos assumidos:
• Reduzir emissões de carbono.
• Proteger 30% do planeta até 2030.
• Fortalecer a diversidade no setor.
• Promover inclusão social por meio do
turismo.
O
turismo foi tratado como estratégia de enfrentamento às mudanças climáticas e
como setor capaz de estimular justiça social. A América Latina busca se
consolidar como região de liderança nesse processo.
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Desafios e contradições
Apesar
dos avanços, o turismo sustentável na América Latina enfrenta obstáculos
estruturais:
• Pressão da especulação imobiliária sobre
áreas costeiras.
• Conflito com agronegócio, mineração e
empreendimentos de grande escala.
• Persistência de desigualdades sociais
que limitam a participação de comunidades locais.
• Turistificação que transforma modos de
vida em mercadoria.
Essas
contradições mostram que o turismo sustentável é, antes de tudo, um campo de
disputa. Ele pode tanto reforçar a lógica de mercado quanto abrir caminho para
alternativas baseadas em solidariedade, inclusão e soberania.
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Conclusão
O
debate sobre turismo sustentável AL revela como a atividade turística está no
centro de questões econômicas, sociais e ambientais. Na América Latina, esse
modelo se conecta a disputas históricas por território, à luta de comunidades
tradicionais e às pressões internacionais por sustentabilidade.
O
Brasil, com sua legislação e certificações, a Costa Rica, com sua política
ambiental de Estado, e países como Colômbia, Chile, Peru e República
Dominicana, cada um a seu modo, buscam projetar-se como exemplos. O continente
se apresenta como espaço de experiências que combinam resistência cultural,
preservação e inovação.
Mais do
que tendência de mercado, o turismo sustentável na América Latina é expressão
de um embate político sobre como viajar, quem se beneficia e quais caminhos
podem garantir justiça social e ambiental para a região.
Fonte:
ICL Notícias

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