Trump
quer tratar a esquerda como terrorista para aumentar perseguição
A
obsessão de Donald Trump com os antifa voltou à tona na semana passada,
quando ele anunciou que estava declarando o difuso movimento político
antifascista como uma “grande organização terrorista”.
Essa
expressão não aparece nas leis e regulamentos federais dos EUA, mas as
sutilezas jurídicas não impediram Trump de fazer um pronunciamento quase idêntico durante os
protestos Black Lives Matter, em 2020.
Embora
não existam mecanismos jurídicos que permitam ao governo Trump classificar
diretamente um grupo terrorista interno, os especialistas alertam que eles
ainda poderiam tentar encontrar formas criativas de vincular os ativistas dos
EUA a grupos estrangeiros para levá-los a julgamento e colocar pressão
financeira sobre eles.
Trump e
seus aliados tentam usar o assassinato de Charlie Kirk para retratar os grupos de esquerda, sem vínculos com o
suposto assassino, como ameaças ao país. Mas o maior perigo pode resultar da
própria imprecisão do termo antifa, alerta Mark Bray, historiador e autor de
“Antifa: o Manual Antifascista”.
“Há uma
espécie de paradoxo. Porque, por um lado, como eles poderiam criar uma lei
classificando algo tão vago quanto antifa como organização terrorista? É uma
política ampla, não é uma organização específica”, diz Bray. “Por outro lado, a
amplitude e a falta de uma organização concreta e abrangente poderia permitir
que o governo Trump, ou juízes e promotores acabem classificando como antifa
qualquer pessoa de esquerda, especialmente a esquerda radical.”
A Casa
Branca não respondeu a um pedido de comentários.
Trump
já adotou uma interpretação extensiva dos antifa no passado, e até chegou a
chamar um homem de 75 anos que protestava contra o assassinato de George Floyd
de “provocador antifa”. O presidente
dos EUA insinuou que pretende perseguir qualquer pessoa suspeita de sequer
financiar o movimento.
Em sua
publicação nas redes sociais, Trump disse que iria “recomendar fortemente que
aqueles que financiam os ANTIFA sejam minuciosamente investigados segundo os
mais altos padrões e práticas jurídicos”.
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Classificando o terrorismo
Há
décadas, políticos de esquerda e de direita vêm pressionando por novas leis e
políticas que concedam ao governo federal o poder de classificar grupos
sediados em território americano como terroristas. Grande parte da
pressão tem sido puramente retórica, e as iniciativas engasgam diante da
preocupação com as liberdades civis.
A
legislação existente permite que os procuradores federais acusem as pessoas por
crimes específicos de terrorismo interno, mas ela é usada de forma restrita, em
comparação com os supostos terroristas estrangeiros, segundo uma análise feita
em 2019 pelo Intercept dos EUA. Em geral, os
procuradores preferem acusar os terroristas nacionais por outros crimes, que,
segundo eles, são mais fáceis de comprovar.
Após o
ataque de 6 de janeiro de 2021 contra o Capitólio, em Washington, houve novos apelos por uma lei que criminalizasse
grupos terroristas nacionais. Defensores das liberdades civis alertaram contra isso,
porque uma lei assim poderia ser usada para perseguir grupos políticos ou
minorias impopulares.
Mesmo
sem legislação criminalizando a participação em grupos terroristas nacionais,
no entanto, Trump pode tentar perseguir cidadãos americanos usando leis em
vigor que pretendem alcançar grupos estrangeiros, alerta Shayana Kadidal,
advogada da organização Centro de Direitos Constitucionais.
Por
exemplo, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros, OFAC, do Departamento
do Tesouro dos EUA, tem uma lista de mais de 17
mil nomes associados a alvos de sanções, o que dá ao governo muitas formas de tentar
vincular cidadãos dos EUA a estrangeiros na lista proibida.
“Se
você olhar de perto as normas, é possível que o governo classifique
organizações nacionais pelo crime de ter fornecido apoio a grupos estrangeiros
que já estão classificados”, explica Kadidal.
Kadidal
já representou um cidadão dos EUA que vivia no país e foi classificado como
“terrorista especialmente designado” a partir de supostos vínculos com o Hamas
na década de 1990. O cliente foi efetivamente
impedido de abrir uma conta bancária ou gastar dinheiro em despesas de
rotina. O Departamento do Tesouro retirou a classificação poucas semanas depois
que ele entrou com uma ação, em 2012.
Defensores
das liberdades civis também alertam que, em 2010, a Suprema Corte abriu caminho
para acusar cidadãos dos EUA pelo crime de apoio material a grupos terroristas
estrangeiros simplesmente por atos de fala. O tribunal
considerou que o mero aconselhamento ou a coordenação de comunicados de
imprensa com grupos estrangeiros poderia constituir apoio material –– algo que
o governo Trump poderia explorar.
“Há
alguns caminhos muito estreitos que eles podem tentar seguir”, diz Kadidal,
“para criarem problemas, se quiserem”.
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Efeito Paralisante
Um dos
riscos mais imediatos do gesto retórico de Trump pode ser o “efeito
paralisante”, diz Kadidal. O manifestante comum pode achar difícil compreender
as questões jurídicas relacionadas à classificação de terrorista, e preferir
ficar em casa.
Trump e
seus aliados também sinalizaram na semana após o assassinato de Kirk que estão
preparando um intenso ataque jurídico contra as instituições da esquerda. À medida que as
críticas ao posicionamento político de extrema direita de Kirk proliferavam na
internet, a procuradora-geral, Pam Bondi, declarou que pretendia apresentar
denúncias por “discurso de ódio”, pouco antes de voltar atrás diante da
reação da direita.
Como as
observações de Bondi, os críticos temem que o governo possa exagerar
drasticamente na suposta perseguição de Trump contra os antifa. Sua tentativa
de classificar o movimento político como ameaça terrorista poderia ser
aproveitada contra uma parte muito maior da esquerda do que os manifestantes
vestidos de preto pela rua.
No
passado, ele já agrupou informalmente o movimento com outras organizações de
centro-esquerda muito mais hierarquizadas.
“Trump
e pessoas como ele enxergam o que consideram ser a esquerda como uma hidra de
várias cabeças, que tem todo tipo de cabeça: tem a cabeça de George Soros, a
cabeça antifa, a cabeça Black Lives Matter”, diz Bray, o historiador que estuda
o antifascismo. “Para eles, tudo é o mesmo monstro, que eles tentam classificar
essencialmente como Partido Democrata. Isso, claro, embora a maioria das
pessoas que integram grupos antifa tenha muitas críticas ao Partido Democrata –
para dizer o mínimo.”
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Após Trump elogiar Lula, PL tenta conter ações de Eduardo
Bolsonaro nos EUA
Dirigentes
do PL pretendem pedir ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) que reduza
suas articulações nos Estados Unidos em defesa de novas sanções contra o
Brasil. A avaliação é de que a estratégia, até aqui, tem gerado mais prejuízos
do que ganhos. Segundo a coluna da jornalista Débora Bergamasco, da CNN
Brasil,
líderes partidários próximos a Jair Bolsonaro (PL) planejam encontros com
Eduardo nos próximos dias para tentar convencê-lo a recuar. O temor cresceu
após a aplicação da Lei Magnitsky contra Viviane Barci, advogada e esposa do
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
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Tensão interna no PL após sanções dos EUA
A
decisão estadunidense provocou forte reação em Brasília. Valdemar da Costa
Neto, presidente do PL, chegou a ser chamado às pressas ao STF após o episódio,
diante do risco de ruptura no diálogo institucional. Entre os integrantes do
partido, o consenso é de que a ofensiva internacional não rendeu resultados
práticos. Pelo contrário, teria fortalecido o discurso do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), que explora o tema da soberania nacional frente à
pressão dos EUA.
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Valdemar e a tentativa de preservar diálogo com o STF
Valdemar
percebeu que a nova sanção implodiu qualquer possibilidade de negociação
imediata com o Supremo. Ainda de acordo com a reportagem, a cúpula do PL passou
a avaliar que o movimento de Eduardo e aliados é um “tiro no pé”, ampliando o
desgaste da direita e dificultando a recomposição política no Congresso.
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Bolsonaro e aliados divergem sobre ofensiva internacional
Até
mesmo Jair Bolsonaro teria expressado preocupação com os efeitos da estratégia
no exterior. A percepção é de que o aumento da popularidade de Lula enfraquece
o campo bolsonarista.
A
inquietação ganhou força após o discurso do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, na ONU. Trump elogiou Lula e destacou a “boa química” com o
petista, gesto que causou apreensão entre bolsonaristas sobre o futuro do apoio
internacional.
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O papel de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo
Apesar
das pressões, Eduardo Bolsonaro e o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo
não demonstram disposição de recuar da articulação junto a integrantes do
governo Trump visando interferir no resultado do julgamento do ex-mandatário.
Jair Bolsonaro foi condenado pela Primeira Turma do STF a cumprir uma pena de
27 anos e três de prisão por planejar um golpe de Estado após sua derrota
eleitoral no pleito presidencial de 2022.
“Quem
quiser, venha conosco, quem não quiser, pode tomar o rumo que achar necessário.
A pressão vai aumentar. Os ministros ainda não sentiram a extensão dos efeitos
[das sanções]. Virão mais nomes. Outras medidas, outros países. A gente não
deve lealdade ou obediência a ninguém no Brasil”, disse Figueiredo à CNN
Brasil.
Questionado
sobre a insatisfação de Jair Bolsonaro, Figueiredo afirmou que “não chegou esse
recado, mas também não estamos muito preocupados com o contentamento ou
descontentamento do Bolsonaro. A opinião dele sobre estratégia é tão relevante
quanto a minha opinião sobre física quântica. É até pior. Se ele soubesse algo
de estratégia, não estaria onde está”.
Fonte:
Por Matt Sledge, em The Intercept/Brasil 247

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