'Seus
países estão indo para o inferno': a visão de mundo de Trump em quase uma hora
de discurso na ONU
O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral
da ONU foi uma das exposições mais claras de
como ele enxerga o mundo — sua ideologia em sua forma mais pura.
Para seus apoiadores, vai ser visto como
trumpismo em estado bruto; para seus críticos, trumpismo fora de controle.
Durante quase uma hora, o presidente
dos Estados Unidos mirou em seus oponentes e em suas ideias, atacando
um por um enquanto fazia um "tour" pelo mundo.
Ele começou em casa, elogiando os EUA e a si
mesmo.
Disse que o país está vivendo uma "era
de ouro" e repetiu sua alegação, amplamente contestada, de que teria
encerrado pessoalmente sete guerras — algo
que, segundo ele, o faz merecedor de um
Prêmio Nobel da Paz.
Mas logo o presidente voltou a atenção para
os anfitriões.
Disse que a ONU não havia ajudado em seus esforços de pacificação.
Questionou o propósito da organização, dizendo que ela tem um potencial imenso,
mas não estava à altura dele.
Alegou que tudo que ela fazia era escrever
cartas com palavras fortes às quais não dava seguimento. Palavras vazias,
segundo Trump, não acabam com guerras.
Ele também atacou a ONU por ajudar
solicitantes de asilo que querem entrar nos EUA.
"A ONU deveria impedir invasões, não
criá-las ou financiá-las."
O presidente criticou a organização até mesmo
por uma escada rolante quebrada e um teleprompter com defeito que atrapalharam
sua visita e seu discurso.
Por um lado, ele tem um ponto.
Muitos analistas questionam a efetividade da
ONU na resolução de conflitos hoje em dia, apontando especialmente para o
impasse do Conselho de Segurança e a burocracia engessada da entidade.
Mas, por outro lado, Trump pode ser visto
como a causa e o sintoma da falta de eficácia da ONU.
Isso porque, ele acredita que crises globais
devem ser resolvidas por homem poderosos como ele, reunidos para fazer acordos
diretos — e não por meio de mecanismos multilaterais como a ONU, voltados à
construção de soluções coletivas.
Sob o governo Trump, os Estados Unidos
retiraram grande parte de seu financiamento à ONU, o que obrigou a organização
a cortar parte de seu trabalho humanitário ao redor do mundo.
<><> 'A Europa está em sérios
apuros'
O presidente talvez tenha guardado suas
críticas mais duras para os aliados europeus, atacando o continente por
investir em energia renovável e abrir suas fronteiras à imigração.
"A Europa está em sérios apuros. Foi
invadida por uma onda de imigrantes ilegais como nunca se viu antes...tanto as
ideias sobre imigração quanto as ideias suicidas sobre energia serão a morte da
Europa Ocidental", disse.
Sobre as mudanças climáticas, ele afirmou que
se tratava de "a maior farsa já imposta ao mundo" e que isso estava
impondo aos países europeus custos elevados de energia em comparação aos
combustíveis fósseis.
Ele criticou especialmente o governo do Reino
Unido por instituir novos impostos sobre o petróleo do Mar do Norte.
"Se vocês não se afastarem dessa farsa
de energia verde, seu país vai fracassar", declarou.
"Eu amo a Europa. Eu amo as pessoas da
Europa. E eu odeio vê-la sendo devastada pela energia e imigração. Esse monstro
de duas cabeças destrói tudo por onde passa... vocês querem ser politicamente
corretos e estão destruindo seu próprio patrimônio."
Note esse último ponto de Trump.
Ele ecoa o que já havia dito durante sua
visita ao Reino Unido na semana passada, quando falou da importância de
defender os valores do que ele chamou de "o mundo da língua inglesa".
Há um viés cultural nas críticas de Trump à
Europa, uma sensação de que ele acredita que a imigração descontrolada está
ameaçando o que ele vê como uma herança judaico-cristã da Europa.
Não é à toa que Trump é o líder de uma
administração que ostenta sua religião com firmeza.
"Vamos proteger a liberdade
religiosa", ele disse na ONU, "inclusive para a religião mais
perseguida do planeta atualmente, o cristianismo."
Em termos de políticas, o alerta mais
substancial feito por Trump foi sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia.
Ele disse que a recusa do presidente Vladimir
Putin em encerrar o conflito "não está fazendo a Rússia parecer bem".
Também afirmou que os EUA estavam preparados
para "impor uma nova rodada de tarifas muito fortes" com o objetivo
de pôr fim ao derramamento de sangue.
Mas criticou os países europeis por
continuarem comprando energia da Rússia — alegando que só descobriu que alguns
ainda estavam fazendo isso há duas semanas.
Na prática, a Hungria e a Eslováquia são os
únicos compradores europeus relevantes de petróleo russo.
Diplomatas afirmam que Trump está se
escondendo atrás desse fato para não ter que impor sanções secundárias à Índia
e à China, que estão comprando quantidades enormes de energia russa barata.
Talvez, mais importante do que seu discurso
na ONU seja uma publicação feita em sua rede social logo depois, na qual ele
afirmou, pela primeira vez, que a Ucrânia poderia está em uma posição favorável
para recuperar todo o seu território.
Sua desqualificação da Rússia como "um
tigre de papel" e não como uma "verdadeira potência militar" vai
afetar Putin, que é sensível a qualquer sugestão de que seu país não seja um
ator global.
Diplomatas disseram que esse foi o exemplo
mais recente da jornada de Trump rumo a uma posição mais crítica em relação à
Rússia.
Mas é preciso sempre tratar as palavras de
Trump com cautela.
Seu otimismo apareceu logo após se encontrar
com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky na ONU. E ele disse que a
Ucrância poderia reconquistar territórios com apoio da União Europeia e da
OTAN; não houve menção ao envolvimento dos Estados Unidos.
Todos os indícios dos últimos anos apontam
que essa é uma guerra de desgaste lento, e que a Ucrância não retomaria
territórios da Rússia sem o apoio militar massivo dos EUA.
Portanto, este foi Trump, puro e sem filtros:
uma defesa dos EUA e do Estadão-nação, um ataque ao multilateralismo e ao
globalismo, um fluxo de consciência com afirmações questionáveis.
Seis anos trás, a plateia de Trump na ONU riu
de suas declarações; este ano, ela ouviu grande parte em silêncio.
"Eu sou muito bom nisso", disse
Trump aos líderes mundiais. "Seus países estão indo para o inferno."
¨
A mensagem central do
discurso de Trump na ONU: ou é do meu jeito, ou nada feito
O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral
da ONU nesta terça-feira (23/9) não apresentou
exatamente uma visão global, mas palavras de alerta: sigam o exemplo dos EUA
nas questões de imigração e energia, ou enfrentem a ruína.
A respeito da imigração, ele a chamou de
"questão política número um do nosso tempo".
Trump disse que as nações ocidentais estavam
sendo destruídas pela imigração e acusou a ONU de apoiar o movimento transfronteiriço de pessoas por
meio de sua ajuda a refugiados.
Ele também afirmou que as pessoas que
construíram grandes nações — que "derramaram sangue, suor e lágrimas pelo
seu país" — estavam sendo forçadas a arcar com o fardo de apoiar os
recém-chegados.
Se os comentários de Trump sobre imigração
soaram familiares, suas observações sobre o meio ambiente se destacaram pelo intenso escárnio.
Ele chamou a teoria das mudanças climáticas
causadas pelo homem de "fraude", "farsa" e
"golpe". Afirmou que o verdadeiro objetivo dessa agenda era corroer a
capacidade industrial das nações desenvolvidas.
"Se vocês não se afastarem dessa farsa
verde, seu país vai fracassar", disse.
O presidente pareceu direcionar a maioria dos
seus comentários à Europa, que ele disse amar.
Com muitos países europeus enfrentando o
crescimento de movimentos populistas de direita, o discurso de Trump pode ser
visto, antes de tudo, como uma tentativa de impulsionar as perspectivas de sua
política no exterior.
"Vim aqui hoje estender a mão da
liderança e da amizade americanas a qualquer nação nesta assembleia que esteja
disposta a se juntar a nós na construção de um mundo mais seguro e
próspero", disse Trump já na metade de seu discurso.
Uma versão mais concisa disso poderia ser
simplesmente: 'ou é do meu jeito, ou nada feito'.
¨
Tecnologia teme sufoco
com barreira de Trump ao visto de trabalho
Os últimos dias foram de tensão no Vale do
Silício e em boa parte do setor de tecnologia dos Estados Unidos. Executivos e
analistas ainda tentam dimensionar os efeitos da mais recente medida do
presidente Donald Trump sobre o programa de vistos H-1B — mecanismo que, há
décadas, sustenta parte fundamental da força de trabalho altamente qualificada
da indústria americana.
Na sexta-feira, Trump anunciou que
empregadores que desejarem contratar profissionais estrangeiros por meio do
H-1B terão de desembolsar uma nova taxa de US$ 100.000 por visto. A medida
caiu como uma bomba no ecossistema de startups e companhias de tecnologia,
provocando medo de que a inovação americana perca competitividade para outros
países mais abertos à atração de talentos.
“Precisamos que a American Little Tech vença
— não pedágios de US$ 100 mil”, desabafou Garry Tan, CEO da Y Combinator, uma
das aceleradoras mais influentes do mundo, em postagem nas redes sociais.
<><> O risco de um “desastre”
Especialistas afirmam que, embora algumas
grandes empresas possam absorver os custos, startups e companhias emergentes
correm o risco de serem as mais afetadas, incapazes de competir por talentos
internacionais diante das barreiras financeiras.
“Resumindo, seria um desastre para a América,
para as empresas americanas, para a competitividade americana, para a inovação
americana”, afirmou Exequiel Hernandez, professor da Wharton School, da
Universidade da Pensilvânia, em entrevista à CNBC.
A preocupação não é à toa. O programa H-1B
tem um limite anual de 65 mil vistos, além de outros 20 mil para
profissionais estrangeiros com diplomas avançados. Gigantes como Amazon,
Microsoft, Meta, Apple e Google estão entre as que mais dependem do visto, e
nomes de peso como Satya Nadella (Microsoft), Sundar
Pichai (Google) e Elon Musk (Tesla) chegaram aos Estados Unidos
inicialmente com um H-1B.
<><> Reações divididas
Se de um lado startups e especialistas soam o
alarme, do outro há vozes do setor de tecnologia que enxergam benefícios na
mudança. Reed Hastings, cofundador da Netflix, chamou a taxa de US$
100 mil de uma “ótima solução”, defendendo que ela tornaria o processo mais
previsível e voltado apenas a empregos de “altíssimo valor”.
Na mesma linha, Sam Altman, CEO da
OpenAI, declarou em entrevista à CNBC que simplificar o processo e atrelar
incentivos financeiros poderia tornar o sistema mais eficiente. “Precisamos
reunir as pessoas mais inteligentes do país, e simplificar esse processo e
também definir incentivos financeiros parece bom para mim”, afirmou.
<><> Esclarecimentos e novas
propostas
A corrida por respostas foi imediata, já que
a medida deveria entrar em vigor à 0h01 de domingo (horário do leste dos EUA).
Porém, no sábado, a Casa Branca tentou amenizar os temores, esclarecendo que a
taxa não será cobrada anualmente e se aplicará somente a novos
vistos, não às renovações de trabalhadores que já estão no país sob o programa.
Ainda assim, novas mudanças estão a caminho.
O governo apresentou uma proposta que altera o processo de seleção dos
candidatos ao H-1B. Hoje, quando o número de pedidos ultrapassa o limite, a
escolha é feita por meio de uma loteria aleatória. A regra sugerida prevê um
sistema ponderado pelos níveis salariais, favorecendo quem recebe salários
mais altos.
A proposta será publicada no Federal
Register e passará por um período de consulta pública antes de
qualquer decisão final.
A ofensiva de Trump sobre o H-1B expõe uma
tensão que há anos acompanha o setor de tecnologia americano: como equilibrar a
necessidade de atrair cérebros globais com a pressão política por medidas de
restrição migratória.
Se, por um lado, grandes corporações podem
adaptar-se e até apoiar algumas mudanças, startups e empresas menores temem
perder sua principal vantagem competitiva: acesso rápido a talentos altamente
especializados, muitas vezes indisponíveis no mercado interno.
Enquanto isso, outros países observam atentos
— e prontos para receber os profissionais que os EUA podem estar afastando. O
risco, dizem os especialistas, é que o “cérebro do futuro” escolha inovar em
outro lugar.
<><> “Isso prejudica as startups”
Até agora, solicitar um visto H-1B custava às
empresas algo entre US$ 2.000 e US$ 5.000, dependendo do porte do
empregador, segundo o Immigration Law Group. Para startups com
caixa limitado, o salto para US$ 100.000 representa um obstáculo
quase intransponível.
“Você não encontrará muitas startups
dispostas a pagar US$ 100.000 por H-1B, além do salário desse H-1B”,
afirmou Adam Kovacevich, CEO da Chamber of Progress,
associação comercial de tecnologia de viés progressista.
Mesmo as gigantes do setor não saem ilesas.
Embora consigam absorver parte dos custos, podem ter que rever suas
estratégias. “Uma grande empresa como a Microsoft ou o Google, mesmo que não
seja o ideal para elas, tem soluções alternativas”, analisou Exequiel
Hernandez, da Wharton. “Elas podem terceirizar empregos ou são elas que podem
fazer aquisições.”
No entanto, para empresas em estágio inicial,
a medida é devastadora. Garry Tan, CEO da Y Combinator, foi direto em um
post no LinkedIn: “ela prejudica as startups” e representa um “presente enorme”
para polos tecnológicos fora dos Estados Unidos. Ele acrescentou: “No meio de
uma corrida armamentista de IA, estamos dizendo às construtoras para
construírem em outros lugares. Precisamos que a Pequena Tecnologia Americana
vença — não pedágios de US$ 100 mil.”
<><> Concorrência internacional
ganha espaço
A mudança ocorre em um momento crítico: a
corrida global pela inteligência artificial. Tanto gigantes quanto startups
americanas disputam os mesmos profissionais altamente especializados que também
estão na mira de Europa, Ásia e Canadá.
“O que isso faz é dar aos nossos
concorrentes, outros países, lugares como Ásia, Canadá, Europa, a oportunidade
de atrair esses funcionários para criar novas inovações”, explicou Steven
Hubbard, cientista de dados do Conselho Americano de Imigração.
A China surge como o adversário mais
agressivo. Há anos, o país busca rivalizar com os EUA em tecnologia, e
recentemente ampliou a disputa na frente da IA. No início deste ano, a empresa
chinesa DeepSeek mexeu com os mercados ao anunciar um chatbot
avançado, construído por uma fração do custo dos modelos ocidentais. O feito
levantou dúvidas sobre os bilhões que as companhias americanas vêm investindo
para manter sua liderança no setor.
Especialistas alertam que restringir o acesso
a talentos estrangeiros pode entregar a vitória à China — e também desestimular
estudantes internacionais a se formarem nos EUA, já que as perspectivas de
carreira pós-graduação ficariam nebulosas.
“Esses estudantes vão olhar para esse
ambiente e ficar em casa”, disse Greg Morrisett, vice-reitor da Cornell
Tech. “Isso está dando uma vantagem tanto para a China quanto para a Índia em
termos de alimentar seus ecossistemas de startups.”
<><> “Limitar talentos é ilógico”
Para muitos, a medida compromete a maior
vantagem histórica dos Estados Unidos: sua capacidade de atrair cérebros do
mundo inteiro. Bradley Tusk, CEO da Tusk Venture Partners, foi categórico:
“terríveis”. É assim que ele define as mudanças.
“A vantagem competitiva dos Estados Unidos
sempre foi a capacidade de atrair os melhores talentos do mundo todo”, reforçou
Tusk. “Limitar nossa capacidade de recrutar e competir é ilógico.”
Entre startups que lutam por sobrevivência e
países rivais prontos para aproveitar qualquer brecha, o futuro da inovação
americana parece estar diante de um divisor de águas. O que está em jogo não é
apenas o custo de um visto, mas o lugar dos Estados Unidos na próxima era
tecnológica.
Fonte:
BBC News América do Norte/CNBC

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