quinta-feira, 25 de setembro de 2025

'Seus países estão indo para o inferno': a visão de mundo de Trump em quase uma hora de discurso na ONU

O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU foi uma das exposições mais claras de como ele enxerga o mundo — sua ideologia em sua forma mais pura.

Para seus apoiadores, vai ser visto como trumpismo em estado bruto; para seus críticos, trumpismo fora de controle.

Durante quase uma hora, o presidente dos Estados Unidos mirou em seus oponentes e em suas ideias, atacando um por um enquanto fazia um "tour" pelo mundo.

Ele começou em casa, elogiando os EUA e a si mesmo.

Disse que o país está vivendo uma "era de ouro" e repetiu sua alegação, amplamente contestada, de que teria encerrado pessoalmente sete guerras — algo que, segundo ele, o faz merecedor de um Prêmio Nobel da Paz.

Mas logo o presidente voltou a atenção para os anfitriões.

Disse que a ONU não havia ajudado em seus esforços de pacificação. Questionou o propósito da organização, dizendo que ela tem um potencial imenso, mas não estava à altura dele.

Alegou que tudo que ela fazia era escrever cartas com palavras fortes às quais não dava seguimento. Palavras vazias, segundo Trump, não acabam com guerras.

Ele também atacou a ONU por ajudar solicitantes de asilo que querem entrar nos EUA.

"A ONU deveria impedir invasões, não criá-las ou financiá-las."

O presidente criticou a organização até mesmo por uma escada rolante quebrada e um teleprompter com defeito que atrapalharam sua visita e seu discurso.

Por um lado, ele tem um ponto.

Muitos analistas questionam a efetividade da ONU na resolução de conflitos hoje em dia, apontando especialmente para o impasse do Conselho de Segurança e a burocracia engessada da entidade.

Mas, por outro lado, Trump pode ser visto como a causa e o sintoma da falta de eficácia da ONU.

Isso porque, ele acredita que crises globais devem ser resolvidas por homem poderosos como ele, reunidos para fazer acordos diretos — e não por meio de mecanismos multilaterais como a ONU, voltados à construção de soluções coletivas.

Sob o governo Trump, os Estados Unidos retiraram grande parte de seu financiamento à ONU, o que obrigou a organização a cortar parte de seu trabalho humanitário ao redor do mundo.

<><> 'A Europa está em sérios apuros'

O presidente talvez tenha guardado suas críticas mais duras para os aliados europeus, atacando o continente por investir em energia renovável e abrir suas fronteiras à imigração.

"A Europa está em sérios apuros. Foi invadida por uma onda de imigrantes ilegais como nunca se viu antes...tanto as ideias sobre imigração quanto as ideias suicidas sobre energia serão a morte da Europa Ocidental", disse.

Sobre as mudanças climáticas, ele afirmou que se tratava de "a maior farsa já imposta ao mundo" e que isso estava impondo aos países europeus custos elevados de energia em comparação aos combustíveis fósseis.

Ele criticou especialmente o governo do Reino Unido por instituir novos impostos sobre o petróleo do Mar do Norte.

"Se vocês não se afastarem dessa farsa de energia verde, seu país vai fracassar", declarou.

"Eu amo a Europa. Eu amo as pessoas da Europa. E eu odeio vê-la sendo devastada pela energia e imigração. Esse monstro de duas cabeças destrói tudo por onde passa... vocês querem ser politicamente corretos e estão destruindo seu próprio patrimônio."

Note esse último ponto de Trump.

Ele ecoa o que já havia dito durante sua visita ao Reino Unido na semana passada, quando falou da importância de defender os valores do que ele chamou de "o mundo da língua inglesa".

Há um viés cultural nas críticas de Trump à Europa, uma sensação de que ele acredita que a imigração descontrolada está ameaçando o que ele vê como uma herança judaico-cristã da Europa.

Não é à toa que Trump é o líder de uma administração que ostenta sua religião com firmeza.

"Vamos proteger a liberdade religiosa", ele disse na ONU, "inclusive para a religião mais perseguida do planeta atualmente, o cristianismo."

Em termos de políticas, o alerta mais substancial feito por Trump foi sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia.

Ele disse que a recusa do presidente Vladimir Putin em encerrar o conflito "não está fazendo a Rússia parecer bem".

Também afirmou que os EUA estavam preparados para "impor uma nova rodada de tarifas muito fortes" com o objetivo de pôr fim ao derramamento de sangue.

Mas criticou os países europeis por continuarem comprando energia da Rússia — alegando que só descobriu que alguns ainda estavam fazendo isso há duas semanas.

Na prática, a Hungria e a Eslováquia são os únicos compradores europeus relevantes de petróleo russo.

Diplomatas afirmam que Trump está se escondendo atrás desse fato para não ter que impor sanções secundárias à Índia e à China, que estão comprando quantidades enormes de energia russa barata.

Talvez, mais importante do que seu discurso na ONU seja uma publicação feita em sua rede social logo depois, na qual ele afirmou, pela primeira vez, que a Ucrânia poderia está em uma posição favorável para recuperar todo o seu território.

Sua desqualificação da Rússia como "um tigre de papel" e não como uma "verdadeira potência militar" vai afetar Putin, que é sensível a qualquer sugestão de que seu país não seja um ator global.

Diplomatas disseram que esse foi o exemplo mais recente da jornada de Trump rumo a uma posição mais crítica em relação à Rússia.

Mas é preciso sempre tratar as palavras de Trump com cautela.

Seu otimismo apareceu logo após se encontrar com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky na ONU. E ele disse que a Ucrância poderia reconquistar territórios com apoio da União Europeia e da OTAN; não houve menção ao envolvimento dos Estados Unidos.

Todos os indícios dos últimos anos apontam que essa é uma guerra de desgaste lento, e que a Ucrância não retomaria territórios da Rússia sem o apoio militar massivo dos EUA.

Portanto, este foi Trump, puro e sem filtros: uma defesa dos EUA e do Estadão-nação, um ataque ao multilateralismo e ao globalismo, um fluxo de consciência com afirmações questionáveis.

Seis anos trás, a plateia de Trump na ONU riu de suas declarações; este ano, ela ouviu grande parte em silêncio.

"Eu sou muito bom nisso", disse Trump aos líderes mundiais. "Seus países estão indo para o inferno."

¨       A mensagem central do discurso de Trump na ONU: ou é do meu jeito, ou nada feito

O discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (23/9) não apresentou exatamente uma visão global, mas palavras de alerta: sigam o exemplo dos EUA nas questões de imigração e energia, ou enfrentem a ruína.

A respeito da imigração, ele a chamou de "questão política número um do nosso tempo".

Trump disse que as nações ocidentais estavam sendo destruídas pela imigração e acusou a ONU de apoiar o movimento transfronteiriço de pessoas por meio de sua ajuda a refugiados.

Ele também afirmou que as pessoas que construíram grandes nações — que "derramaram sangue, suor e lágrimas pelo seu país" — estavam sendo forçadas a arcar com o fardo de apoiar os recém-chegados.

Se os comentários de Trump sobre imigração soaram familiares, suas observações sobre o meio ambiente se destacaram pelo intenso escárnio.

Ele chamou a teoria das mudanças climáticas causadas pelo homem de "fraude", "farsa" e "golpe". Afirmou que o verdadeiro objetivo dessa agenda era corroer a capacidade industrial das nações desenvolvidas.

"Se vocês não se afastarem dessa farsa verde, seu país vai fracassar", disse.

O presidente pareceu direcionar a maioria dos seus comentários à Europa, que ele disse amar.

Com muitos países europeus enfrentando o crescimento de movimentos populistas de direita, o discurso de Trump pode ser visto, antes de tudo, como uma tentativa de impulsionar as perspectivas de sua política no exterior.

"Vim aqui hoje estender a mão da liderança e da amizade americanas a qualquer nação nesta assembleia que esteja disposta a se juntar a nós na construção de um mundo mais seguro e próspero", disse Trump já na metade de seu discurso.

Uma versão mais concisa disso poderia ser simplesmente: 'ou é do meu jeito, ou nada feito'.

¨       Tecnologia teme sufoco com barreira de Trump ao visto de trabalho

Os últimos dias foram de tensão no Vale do Silício e em boa parte do setor de tecnologia dos Estados Unidos. Executivos e analistas ainda tentam dimensionar os efeitos da mais recente medida do presidente Donald Trump sobre o programa de vistos H-1B — mecanismo que, há décadas, sustenta parte fundamental da força de trabalho altamente qualificada da indústria americana.

Na sexta-feira, Trump anunciou que empregadores que desejarem contratar profissionais estrangeiros por meio do H-1B terão de desembolsar uma nova taxa de US$ 100.000 por visto. A medida caiu como uma bomba no ecossistema de startups e companhias de tecnologia, provocando medo de que a inovação americana perca competitividade para outros países mais abertos à atração de talentos.

“Precisamos que a American Little Tech vença — não pedágios de US$ 100 mil”, desabafou Garry Tan, CEO da Y Combinator, uma das aceleradoras mais influentes do mundo, em postagem nas redes sociais.

<><> O risco de um “desastre”

Especialistas afirmam que, embora algumas grandes empresas possam absorver os custos, startups e companhias emergentes correm o risco de serem as mais afetadas, incapazes de competir por talentos internacionais diante das barreiras financeiras.

“Resumindo, seria um desastre para a América, para as empresas americanas, para a competitividade americana, para a inovação americana”, afirmou Exequiel Hernandez, professor da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, em entrevista à CNBC.

A preocupação não é à toa. O programa H-1B tem um limite anual de 65 mil vistos, além de outros 20 mil para profissionais estrangeiros com diplomas avançados. Gigantes como Amazon, Microsoft, Meta, Apple e Google estão entre as que mais dependem do visto, e nomes de peso como Satya Nadella (Microsoft), Sundar Pichai (Google) e Elon Musk (Tesla) chegaram aos Estados Unidos inicialmente com um H-1B.

<><> Reações divididas

Se de um lado startups e especialistas soam o alarme, do outro há vozes do setor de tecnologia que enxergam benefícios na mudança. Reed Hastings, cofundador da Netflix, chamou a taxa de US$ 100 mil de uma “ótima solução”, defendendo que ela tornaria o processo mais previsível e voltado apenas a empregos de “altíssimo valor”.

Na mesma linha, Sam Altman, CEO da OpenAI, declarou em entrevista à CNBC que simplificar o processo e atrelar incentivos financeiros poderia tornar o sistema mais eficiente. “Precisamos reunir as pessoas mais inteligentes do país, e simplificar esse processo e também definir incentivos financeiros parece bom para mim”, afirmou.

<><> Esclarecimentos e novas propostas

A corrida por respostas foi imediata, já que a medida deveria entrar em vigor à 0h01 de domingo (horário do leste dos EUA). Porém, no sábado, a Casa Branca tentou amenizar os temores, esclarecendo que a taxa não será cobrada anualmente e se aplicará somente a novos vistos, não às renovações de trabalhadores que já estão no país sob o programa.

Ainda assim, novas mudanças estão a caminho. O governo apresentou uma proposta que altera o processo de seleção dos candidatos ao H-1B. Hoje, quando o número de pedidos ultrapassa o limite, a escolha é feita por meio de uma loteria aleatória. A regra sugerida prevê um sistema ponderado pelos níveis salariais, favorecendo quem recebe salários mais altos.

A proposta será publicada no Federal Register e passará por um período de consulta pública antes de qualquer decisão final.

A ofensiva de Trump sobre o H-1B expõe uma tensão que há anos acompanha o setor de tecnologia americano: como equilibrar a necessidade de atrair cérebros globais com a pressão política por medidas de restrição migratória.

Se, por um lado, grandes corporações podem adaptar-se e até apoiar algumas mudanças, startups e empresas menores temem perder sua principal vantagem competitiva: acesso rápido a talentos altamente especializados, muitas vezes indisponíveis no mercado interno.

Enquanto isso, outros países observam atentos — e prontos para receber os profissionais que os EUA podem estar afastando. O risco, dizem os especialistas, é que o “cérebro do futuro” escolha inovar em outro lugar.

<><> “Isso prejudica as startups”

Até agora, solicitar um visto H-1B custava às empresas algo entre US$ 2.000 e US$ 5.000, dependendo do porte do empregador, segundo o Immigration Law Group. Para startups com caixa limitado, o salto para US$ 100.000 representa um obstáculo quase intransponível.

“Você não encontrará muitas startups dispostas a pagar US$ 100.000 por H-1B, além do salário desse H-1B”, afirmou Adam Kovacevich, CEO da Chamber of Progress, associação comercial de tecnologia de viés progressista.

Mesmo as gigantes do setor não saem ilesas. Embora consigam absorver parte dos custos, podem ter que rever suas estratégias. “Uma grande empresa como a Microsoft ou o Google, mesmo que não seja o ideal para elas, tem soluções alternativas”, analisou Exequiel Hernandez, da Wharton. “Elas podem terceirizar empregos ou são elas que podem fazer aquisições.”

No entanto, para empresas em estágio inicial, a medida é devastadora. Garry Tan, CEO da Y Combinator, foi direto em um post no LinkedIn: “ela prejudica as startups” e representa um “presente enorme” para polos tecnológicos fora dos Estados Unidos. Ele acrescentou: “No meio de uma corrida armamentista de IA, estamos dizendo às construtoras para construírem em outros lugares. Precisamos que a Pequena Tecnologia Americana vença — não pedágios de US$ 100 mil.”

<><> Concorrência internacional ganha espaço

A mudança ocorre em um momento crítico: a corrida global pela inteligência artificial. Tanto gigantes quanto startups americanas disputam os mesmos profissionais altamente especializados que também estão na mira de Europa, Ásia e Canadá.

“O que isso faz é dar aos nossos concorrentes, outros países, lugares como Ásia, Canadá, Europa, a oportunidade de atrair esses funcionários para criar novas inovações”, explicou Steven Hubbard, cientista de dados do Conselho Americano de Imigração.

A China surge como o adversário mais agressivo. Há anos, o país busca rivalizar com os EUA em tecnologia, e recentemente ampliou a disputa na frente da IA. No início deste ano, a empresa chinesa DeepSeek mexeu com os mercados ao anunciar um chatbot avançado, construído por uma fração do custo dos modelos ocidentais. O feito levantou dúvidas sobre os bilhões que as companhias americanas vêm investindo para manter sua liderança no setor.

Especialistas alertam que restringir o acesso a talentos estrangeiros pode entregar a vitória à China — e também desestimular estudantes internacionais a se formarem nos EUA, já que as perspectivas de carreira pós-graduação ficariam nebulosas.

“Esses estudantes vão olhar para esse ambiente e ficar em casa”, disse Greg Morrisett, vice-reitor da Cornell Tech. “Isso está dando uma vantagem tanto para a China quanto para a Índia em termos de alimentar seus ecossistemas de startups.”

<><> “Limitar talentos é ilógico”

Para muitos, a medida compromete a maior vantagem histórica dos Estados Unidos: sua capacidade de atrair cérebros do mundo inteiro. Bradley Tusk, CEO da Tusk Venture Partners, foi categórico: “terríveis”. É assim que ele define as mudanças.

“A vantagem competitiva dos Estados Unidos sempre foi a capacidade de atrair os melhores talentos do mundo todo”, reforçou Tusk. “Limitar nossa capacidade de recrutar e competir é ilógico.”

Entre startups que lutam por sobrevivência e países rivais prontos para aproveitar qualquer brecha, o futuro da inovação americana parece estar diante de um divisor de águas. O que está em jogo não é apenas o custo de um visto, mas o lugar dos Estados Unidos na próxima era tecnológica.

 

Fonte: BBC News América do Norte/CNBC

 

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