Os
consultores de namoro que ajudam milhões de solteiros na China a achar uma
mulher para casar
Dizer
que, na China, as mulheres são minoria seria eufemismo.
Com
impressionantes 30 milhões de homens a mais do que mulheres, a China — um dos
países mais populosos do mundo — tem uma enxurrada de homens solteiros.
A
probabilidade de que eles encontrem uma namorada é pequena, que dirá uma
esposa. E muitos se sentem pressionados por esta situação.
Para
piorar o quadro, encontrar alguém é ainda mais difícil se você for de uma
classe social mais baixa, segundo o coach de namoro chinês Hao.
Ele tem
mais de 3 mil clientes e "a maioria é da classe trabalhadora. Eles são
quem tem menos probabilidade de encontrar uma esposa."
Podemos
observar este fenômeno em detalhes no documentário The Dating Game (2025), da
diretora Violet Du Feng. Nele, podemos observar Hao e três dos seus clientes
por uma semana, em um curso de namoro.
Todos
eles, incluindo Hao, têm origens pobres na zona rural. Eles são da geração que
cresceu na China após os anos 1990, quando muitos pais deixaram seus filhos com
familiares e foram trabalhar nas cidades.
Os
membros daquela geração, agora, são adultos e eles próprios vão para as
cidades, tentar encontrar uma esposa e subir na escala social.
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Política dos anos 1980
Du Feng
mora nos Estados Unidos. O objetivo do seu filme é mostrar como é a vida das
gerações mais jovens no seu país natal.
"Em
uma época em que a desigualdade de gênero é tão extrema, particularmente na
China, [o documentário] destaca como podemos superar essa divisão e criar
diálogo", declarou ela à BBC.
Os três
clientes de Hao mostrados pelo documentário (Li, de 24; Wu, de 27; e Zhou, de
36 anos) enfrentam as dificuldades criadas pela política chinesa do filho
único.
Esta
política foi implementada pelo governo chinês em 1980, quando a população do
país se aproximava de um bilhão de habitantes. Havia o receio de que o excesso
de habitantes prejudicaria o crescimento econômico da China.
Mas a
tradicional preferência por filhos homens levou ao abandono de muitas meninas,
que eram colocadas em orfanatos, sofriam abortos seletivos ou até o
infanticídio feminino. O resultado é o enorme desequilíbrio de gênero que
existe atualmente no país.
A
China, agora, está preocupada com a imensa queda da sua taxa de natalidade e o
envelhecimento da população. O país encerrou a política em 2016 e promove
eventos regulares de formação de casais.
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'História universal'
Wu, Li
e Zhou querem que Hao os ajude a encontrar, pelo menos, uma namorada.
Eles
encontram no coach alguém em quem podem se inspirar. Hao já conseguiu encontrar
uma esposa, Wen, que também é coach de relacionamentos.
Os três
homens permitem que Hao prepare seus penteados e maquiagem, enquanto descreve
suas "técnicas" questionáveis para atrair mulheres, online e
pessoalmente.
Todos
eles dão o seu melhor, mas nem tudo sai conforme o planejado.
Hao
constrói uma imagem online para cada um dos homens, mas ultrapassa alguns
limites ao descrever os participantes. Para Zhou, aquilo parece
"fake".
"Eu
me sinto mal por enganar as pessoas", ele conta, claramente desconfortável
ao ser retratado fora da sua realidade.
Du Feng
acredita que esta questão é mais ampla.
"É
uma história característica da China, mas também é uma história universal de
como, neste cenário digital, todos nós enfrentamos o preço de sermos fake no
mundo online e, depois, o custo que precisamos pagar para sermos honestos e
autênticos", explica ela.
Hao
talvez seja um dos "coaches de namoro mais populares" da China, mas o
documentário mostra sua esposa questionando alguns dos seus métodos.
Inabalável,
ele manda seus protegidos encontrarem mulheres, borrifando desodorante nas suas
axilas e anunciando: "Está na hora do show!"
Os três
homens precisam encontrar possíveis namoradas em um shopping center lotado, à
noite, em Chongqing, no sudoeste da China — uma das maiores cidades do país.
Chega a
ser desolador observá-los pedindo às mulheres que se conectem com eles pelo
aplicativo de mensagens WeChat. Mas a experiência os ensina a buscar sua
confiança interior que, até então, era invisível.
Zheng
Mu, do Departamento de Sociologia da Universidade Nacional de Singapura, contou
à BBC como a pressão para se casar pode repercutir entre os homens solteiros.
"Na
China, geralmente ainda se espera do homem que ele se case, ou tenha a
possibilidade social e financeira de se casar como principal provedor",
afirma ela.
"Por
isso, a dificuldade para ser considerado apto para o casamento pode ser um
estigma social, que indica que eles não são capazes e merecedores daquele
papel, gerando grandes pressões e desgastes mentais."
Zhou
fica desanimado com o custo dos encontros, que incluem o pagamento de
casamenteiros, jantares e novas roupas.
"Ganho
apenas US$ 600 [cerca de R$ 3,2 mil] por mês", ele conta, destacando que
um encontro custa cerca de US$ 300 (cerca de R$ 1,6 mil).
"No
fim, a sociedade determina o nosso destino", destaca Zhou, ao decidir que
precisa "construir meu status".
Du Feng
explica que "esta é uma geração em que muitos desses homens que não
conseguem uma parceira são definidos como fracassados, devido à sua posição
econômica".
"Eles
são considerados a parte inferior da sociedade, a classe trabalhadora e o
casamento, de alguma forma, é outro indicador de que eles podem ter
sucesso."
Ficamos
sabendo que uma forma para os homens chineses "romperem as classes
sociais" é entrar para o exército. Podemos observar no filme um grande
evento de recrutamento.
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'Namorados virtuais'
Curiosamente,
o filme não mostra como é a vida dos homens gay na China.
Du Feng
concorda que a sociedade chinesa é menos receptiva para os homens gay. E Mu
destaca que "na China, a heteronormatividade, em grande parte, é
dominante".
"Por
isso, espera-se que os homens se casem com mulheres para atender aos
padrões", segundo ela, "para sustentar o núcleo familiar e
transformá-lo em famílias maiores, tendo filhos."
A
tecnologia também está presente no documentário, que examina a popularidade
cada vez maior dos namorados virtuais. Mais de 10 milhões de mulheres na China
adotaram os jogos de namoro online, segundo o filme.
Conseguimos
observar um namorado virtual em ação. Ele é compreensivo, pouco exigente e
inegavelmente bonito.
Uma
mulher afirma que namorar na vida real custa "tempo, dinheiro e energia
emocional". É muito cansativo.
Ela
destaca que "os homens virtuais são diferentes. Eles têm ótimos
temperamentos, são simplesmente perfeitos."
Mu
considera que esta tendência "indica problemas sociais" na China. Ela
menciona "longas horas de trabalho, cultura profissional ambiciosa e
ambiente competitivo, além das arraigadas expectativas de papéis de
gênero".
Para
ela, "os namorados virtuais, cujo comportamento pode ser mais alinhado aos
ideais esperados pelas mulheres, podem ser uma solução para que elas realizem
seu imaginário amoroso".
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'Solteiro a longo prazo'
Du Feng
destaca que "o que se indica universalmente é que as mulheres que têm
namorados virtuais acham que os homens chineses não são emocionalmente
estáveis".
Seu
filme mergulha no histórico de vida dos jovens, incluindo seus relacionamentos
muitas vezes fraturados com seus pais e suas famílias.
"Estes
homens vêm destas situações e existe muita pressão negativa sobre eles",
explica ela. "Como podemos esperar que eles sejam emocionalmente
estáveis?"
A
agência Reuters noticiou em 2024 que "permanecer solteiro a longo prazo,
gradualmente, está se tornando mais comum na China".
"Estou
preocupada com a forma como nos conectamos hoje em dia, especialmente a geração
mais jovem", afirma Du Feng.
"O
namoro é apenas um instrumento para podermos falar a este respeito, mas estou
realmente preocupada. Meu filme mostra como vivemos nesta epidemia de solidão,
com todos nós tentando encontrar conexões uns com os outros."
O
documentário tem muitos momentos engraçados, mas, no final, vemos todos os
homens em uma jornada de autodescoberta um pouco mais realista, incluindo Hao.
"Acho
que ele mostra o calor humano que eles encontram entre si, sabendo que esta é
uma crise coletiva, que todos estão enfrentando, e como eles ainda encontram
esperança", reflete Du Feng.
"Para
eles, é mais questão de se encontrarem e de conhecer alguém que possa dar um
tapinha nas suas costas, dizendo 'entendo você e existe uma forma de você
conseguir'."
Para
Allan Hunter, do portal Screen Daily, o filme é "sustentado pela
humanidade encontrada por Du Feng em cada um dos indivíduos que ela nos
apresenta e nos faz compreender um pouco melhor". Ele destaca que o
documentário, "em última análise, celebra a virtude de ser verdadeiro
consigo mesmo".
Hao
conclui que "quando você gosta de si próprio, é mais fácil fazer as
mulheres gostarem de você".
Fonte:
BBC Culture

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