O
relógio que começa a contar quando algo morre
Aquilo
deveria estar no esgoto em grande quantidade. Willard Libby tinha certeza
disso.
Em
meados dos anos 1940, o objetivo do químico americano (1908-1980) era encontrar
na natureza uma forma radioativa de carbono, o carbono-14.
Libby
havia descoberto que, se a substância estivesse ali, ela deixaria um rastro de
lento decaimento em plantas e animais mortos. Por isso, descobrir a quantidade
presente nos seus restos revelaria quando eles morreram.
Mas
Libby precisava provar que o carbono-14 existe na natureza em concentrações
condizentes com suas estimativas. Outros cientistas, antes dele, só haviam
detectado carbono-14 sintetizando a substância em laboratório.
Libby
imaginou que os animais vivos depositassem carbono-14 nos seus excrementos. Por
isso, ele recorreu ao esgoto. Mais precisamente, esgoto produzido pelas pessoas
de Baltimore, nos Estados Unidos.
Ali,
ele encontrou o que estava procurando.
Libby
não sabia na época, mas sua ideia de usar carbono radioativo (radiocarbono)
para datar objetos viria a ter todo tipo de aplicação no futuro.
Desde
meados do século 20, a datação por radiocarbono confirmou a idade de inúmeros
artefatos antigos. Ela também ajudou a resolver casos de pessoas desaparecidas,
colocou traficantes de marfim na cadeia e chegou a permitir que os cientistas
compreendessem as complexidades do clima no planeta.
A
datação por radiocarbono é uma das chaves que abrem as portas para entender o
nosso mundo. Mas como surgiu o carbono-14?
Libby
entendia que a substância é produzida constantemente por raios cósmicos que
atingiriam átomos de nitrogênio na atmosfera da Terra, alterando sua estrutura.
O átomo
de carbono-14 resultante se combina rapidamente com oxigênio, para produzir
dióxido de carbono (CO₂) radioativo.
De
volta ao solo, as plantas absorvem parte daquele CO₂ radioativo no ar à medida
que crescem, bem como os animais que se alimentam delas (incluindo os seres
humanos).
Enquanto
a planta ou o animal estiver vivo, ele continua reabastecendo seu estoque
interno de carbono-14. Quando morre, esse processo é interrompido.
Como o
radiocarbono se decompõe em velocidade conhecida, a medição da quantidade
restante no material orgânico irá revelar a sua idade.
Por
isso, o carbono-14 é um relógio que começa a contar no momento da morte.
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'Colocando tudo em ordem'
Quando
Libby confirmou a presença de carbono-14 no gás metano dos esgotos de
Baltimore, ele começou a detectar radiocarbono em muitos objetos diferentes, o
que permitiu que ele comprovasse a sua idade.
Estes
objetos incluíram, entre outros, o linho que envolvia os Manuscritos do Mar
Morto e um pedaço de um navio encontrado na tumba do faraó egípcio Sesóstris
3°, que viveu cerca de 4 mil anos atrás.
"O
problema é que você não vai contar a ninguém o que está fazendo. É maluco
demais", disse Libby posteriormente.
"Você
não pode dizer a ninguém que os raios cósmicos podem escrever a história
humana. Você não pode contar isso a eles. De jeito nenhum. Por isso, mantivemos
em segredo."
Mas,
quando Libby comprovou que funcionava, ele contou ao mundo. E, em 1960, ganhou
o Prêmio Nobel de Química.
Sua
técnica funciona com material orgânico com até 50 mil anos de idade. Acima
disso, existe muito pouco carbono-14 remanescente.
Atualmente,
a datação por radiocarbono é fundamental para entendermos a nossa história.
"Para
colocar tudo em ordem, em termos de podermos comparar diferentes regiões
específicas e compreender a velocidade da mudança, tem sido muito
importante", explica Rachel Wood.
Ela
trabalha em um dos mais renomados laboratórios de datação por radiocarbono do
mundo, a Unidade Aceleradora de Radiocarbono de Oxford, no Reino Unido.
Wood e
seus colegas datam materiais que incluem ossos humanos, carvão, conchas,
sementes, cabelos, algodão, pergaminhos e cerâmica, mas também algumas
substâncias mais estranhas.
"Fazemos
coisas realmente incomuns, como analisar urina de morcego fossilizada",
ela conta.
O
laboratório usa um aparelho chamado espectrômetro de massa acelerador, para
quantificar diretamente os átomos de carbono-14 em uma amostra. O processo é
diferente do usado por Libby, que só conseguia medir a radiação emitida e
deduzir, a partir dela, a quantidade de carbono-14 contida em uma amostra.
O
acelerador também pode datar amostras minúsculas, de apenas 1 miligrama em
alguns casos. Libby precisava de uma quantidade de material muito maior.
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Datação de esqueletos
A
retirada de contaminantes que contêm carbono pode levar semanas. Mas o
acelerador emite a idade estimada de uma amostra rapidamente em seguida.
"É
realmente emocionante poder observar os resultados imediatamente", afirma
Wood.
A
datação por radiocarbono já resolveu antigas disputas. O caso do esqueleto
humano descoberto em 1823 pelo teólogo e geólogo William Buckland (1784-1856)
no País de Gales é um exemplo.
Buckland
defendia que o esqueleto não tinha mais de 2 mil anos, mas ninguém conseguia
comprovar que ele estava errado.
Por
fim, a datação por radiocarbono demonstrou que, na verdade, os ossos tinham
entre 33 mil e 34 mil anos de idade. Trata-se dos mais antigos restos humanos
enterrados conhecidos no Reino Unido.
Restos
humanos bem mais recentes também revelaram seus segredos graças a esta
tecnologia.
Em
1975, uma menina de 13 anos de idade chamada Laura Ann O'Malley desapareceu em
Nova York, nos Estados Unidos. E, nos anos 1990, foram encontrados restos
humanos no leito de um rio na Califórnia, cuja origem foi atribuída a um túmulo
histórico.
Mas a
datação por radiocarbono demonstrou no início deste ano que eles pertenciam a
alguém nascido entre 1964 e 1967, que provavelmente morreu entre 1977 e 1984.
As
datas coincidem com a época do desaparecimento de O'Malley e análises de DNA
confirmaram que os restos humanos eram da menina.
Análises
forenses costumam fazer uso do "pulso de bomba". Este método de
datação por radiocarbono é possível devido às centenas de testes de armas
nucleares atmosféricas ocorridos durante os anos 1950 e 1960.
As
explosões emitiram no ar imensas quantidades de carbono-14. Mas esses níveis
artificialmente altos vêm caindo desde então.
Por
isso, ao comparar as medições de carbono-14 com esta curva de queda, é possível
datar materiais de meados do século 20 para cá com muita precisão — de até
cerca de um ano, em alguns casos.
"Não
conheço nenhuma outra técnica que chegue tão perto quanto esta", afirma
Sam Wasser, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos. "Sua
utilidade é extraordinária."
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'Prova concreta'
Wasser
analisou resultados de datação por radiocarbono de amostras de marfim, como
parte das tentativas para desmantelar o comércio ilegal.
Os
dados podem comprovar se os elefantes morreram antes ou depois da proibição da
venda de marfim, em 1989, independentemente das alegações dos traficantes.
Edouodji
Emile N'Bouke foi preso com base neste tipo de evidências. Ele foi condenado em
Togo, em 2014.
Os
testes de DNA não descobriram a origem geográfica do marfim objeto de tráfico,
mas a datação por radiocarbono mostrou exatamente quando os elefantes foram
abatidos.
Estas
duas linhas de evidência foram "a prova concreta, fundamental para levar
N'Bouke à justiça", segundo declarou posteriormente o Departamento de
Estado americano.
A mesma
técnica já revelou obras de arte como sendo fraudes.
Um
exemplo é a pintura de uma cena em uma aldeia, que um falsificador afirmava ter
sido produzida em 1866. A datação por radiocarbono confirmou que, na verdade,
ela foi pintada e envelhecida artificialmente nos anos 1980.
A
datação por radiocarbono também trouxe informações sobre as mudanças
climáticas. Ela ajuda os cientistas a compreender o efeito das emissões de
combustíveis fósseis para o clima do planeta.
Os
estudos de glaciares e ecossistemas antigos, por exemplo, passaram a ser muito
mais precisos, graças à tecnologia.
Estas
pesquisas foram empregadas em relatórios do Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês). O organismo recebeu o Prêmio
Nobel da Paz em 2007 (ao lado do ex-vice-presidente americano Al Gore) pelo seu
trabalho de disseminação de informações sobre as mudanças do clima.
A
datação por carbono-14 "também é muito útil para pessoas que desejam usar
modelos climáticos para prever qual será o possível clima no futuro",
explica Tim Heaton, da Universidade de Leeds, no Reino Unido.
Os
cientistas podem usar os registros de radiocarbono para determinar as mudanças
do clima da Terra ao longo do tempo e verificar os modelos climáticos em
comparação com estes resultados, para confirmar sua precisão.
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Diluição de carbono-14
Mas
existe outro relógio em funcionamento.
Os
combustíveis fósseis contêm imensas quantidades de carbono, mas não de
carbono-14. Os organismos que geraram o carvão, gás natural e petróleo morreram
há tanto tempo que o carbono-14 que eles continham desapareceu muito tempo
atrás.
Com
isso, as emissões de combustíveis fósseis estão diluindo o carbono-14 existente
na atmosfera da Terra, o que traz efeitos diretos sobre a quantidade de
radiocarbono que acaba nos organismos vivos.
Heather
Graven, do Imperial College de Londres, afirma que, no pior cenário, com
emissões extremamente altas no próximo século, a precisão da datação por
radiocarbono poderá desmoronar.
"Algo
recém-produzido terá a mesma composição [de radiocarbono] de algo que tenha,
talvez, 2 mil anos de idade", explica ela. E a datação por carbono-14 não
conseguiria diferenciar os dois materiais.
Rachel
Wood defende que estes problemas não irão surgir no futuro próximo. Mas a
professora emérita Paula Reimer, da Universidade Queen's em Belfast, no Reino
Unido, acredita que as emissões de combustíveis fósseis "amorteçam" a
datação por radiocarbono e, em última análise, ameaçam sua precisão.
Reimer
passou vários anos trabalhando para que a datação por carbono-14 ficasse mais
precisa. Ela realizou trabalhosas medições do radiocarbono encontrado nos anéis
das árvores, para revelar variações dos níveis de carbono-14 ao longo de
milênios.
Agora,
existem curvas extremamente precisas dos níveis de radiocarbono, que datam de
cerca de 14 mil anos atrás.
Mas as
emissões de combustíveis fósseis podem, um dia, trazer o fim desta era de
incrível precisão.
Fonte:
BBC Mundo

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