O
debate sobre o Brasil moderno
Desde
pelo menos o século XIX, coloca-se o debate em torno à ideia de um “Brasil
moderno”. Essa ideia, reciclada pelos mais diferentes setores da sociedade ao
longo do século XX, aponta que o Brasil poderia avançar no sentido de se tornar
uma nação moderna e desenvolvida econômica e socialmente. Os positivistas
brasileiros, no século XIX, previam para o país, dentro de um processo de
evolução histórica linear, uma época mais “avançada”, a fase “positiva” de
desenvolvimento. Esse caminho passava pela modernização da economia e da
sociedade por meio da forte presença do Estado.
Contudo,
diante do sistema de escravidão, mesmo os defensores do republicanismo se
dividiam, havendo entre eles aqueles que procuravam justificativas o escravismo
como forma de exploração do trabalho e aqueles que defendiam sua abolição.
Propunha-se, em especial por parte dos positivistas, a busca pela “ordem” e
pelo “progresso”, que se materializava na realização de mudanças estruturais
que pudessem colocar o Brasil, no que se refere à produção de bens para
exportação, em patamar elevado, embora isso não significasse mudanças políticas
drásticas que fugissem ao controle das “elites”.
Para as
elites, o Brasil que emergia do século XIX não deveria ser uma nação de
capitalismo autônomo, como França e Estados Unidos, mas um país cuja economia
estaria atrelada à lógica e à dinâmica do mercado externo, ditado pelas grandes
potências, consolidando um desenvolvimento econômico subordinado “aos centros
estrangeiros de economia mundial e praticamente extorsivo quanto à massa da
população pobre e trabalhadora”.
Nesse
processo, coube às próprias “elites” brasileiras a necessidade de encabeçar a
independência do Brasil, buscando não sua autonomia econômica, mas apenas
jurídico. O objetivo dessa “autonomia” seria a possibilidade de avançar em
relações comerciais com a Inglaterra e outros países, livrando-se do vínculo
colonial que prendia o Brasil a Portugal.
Esses
temas são discutidos por diferentes intérpretes do Brasil. Florestan Fernandes,
partindo da compreensão de que a “revolução burguesa” noBrasil se deu como
processo lento e realizado desde cima, no qual as elites buscavam uma autonomia
relativa, mas não uma independência em relação ao imperialismo, aponta que se
difundiu desde o século XIX a ideia de que o desenvolvimento capitalista
poderia produzir, em qualquer país de origem colonial, resultados similares aos
dos países europeus e dos Estados Unidos. Para Florestan Fernandes, a difusão
dessa ideia “foi parte do processo de colonização, de transferência da
ideologia dominante nas nações capitalista hegemônicas”.
No
século XXI, não houve mudanças na essência das relações das classes dominantes
no Brasil com as burguesias europeias e estadunidense. Pelo contrário, parece
haver um aprofundamento no processo de dominação econômica e política do
Brasil, dada a presença de capital financeiro estrangeiro no país e o avanço da
desnacionalização da economia brasileira.
Observa-se
que, no Brasil,“a burguesia atinge sua maturidade e, ao mesmo tempo, sua
plenitude de poder sob a irrupção do capitalismo monopolista, mantidas e
agravadas as demais condições, que tornaram a sociedade brasileira
potencialmente explosiva, com o recrudescimento inevitável da dominação externa
da desigualdade social e do subdesenvolvimento”.
Embora
se tenha difundido expectativas de crescimento nos primeiros anos do governo
Lula, com a expansão da economia e a retomada de uma tímida retórica
desenvolvimentistas, observa-se a permanência ou mesmo o aprofundamento da
dominação imperialista no Brasil. Quando se fala de países em desenvolvimento,
pensa-se no PIB e em sua taxa de crescimento. O PIB é a expressão monetária do
que foi produzido dentro das fronteiras geográficas de um país, em determinado
período, independente da nacionalidade das unidades produtoras.
O
Brasil vem tendo uma grande oscilação na taxa de crescimento do seu PIB, com
picos de crescimento, como os 5,8% em 2004 ou os 6,1% em 2007, e cenários de
estatística negativa, como -3,5% em 2015 e 4,1% em 2020. O crescimento tem sido
abalado com facilidade pelas crises da economia mundial, como a mais recente,
potencializada pela pandemia da Covid-19. Nenhum dos grandes setores da
economia – agropecuária, serviços e indústria – mantém-se estável, conhecendo
momentos de ascensão, durante alguns anos, para logo em sequência ver-se em
crise, em alguns casos com índices negativos de crescimento.
Em uma
análise do PIB e sua taxa de crescimento em outros momentos da história do
Brasil, vê-se que sua complexidade vai além da simples enumeração de dados.
Durante as décadas de 1960 e 1970, os governos militares procuravam tornar o
país uma “potência emergente”, facilitando a entrada do capital externo, no
sentido de buscar acelerar e diversificar o crescimento do país. Entre 1968 e
1974, quando houve o chamado “milagre econômico”, o PIB crescia numa faixa
próxima a 10%, tendo atingido em 1973 a marca de 14%. Contudo, o país ficou
vulnerável às oscilações da economia externa, como diante da crise mundial do
petróleo, na década de 1970.
Em
1978, o Brasil sofreu as consequências da crise do petróleo, da recessão
internacional e do aumento das taxas de juros. Na década de 1980, quando a
economia ficou estagnada, os problemas da economia passavam pelo endividamento
externo e suas implicações, além da aceleração das taxas de inflação. Uma das
consequências da “década perdida”, como ficou conhecida, foi a redução das
fontes de financiamento vindas do exterior e uma inflação elevada. No período
entre 1981 e 1984, houve o momento mais severo da crise, com queda de 12% do
PIB per capita.
Na
década de 1990, houve um boom de investimentos de empresas multinacionais,
semelhante ao do período de “milagre econômico”. No conjunto da América Latina,
a partir da década de 1990, houve um fenômeno de ingresso de capitais
estrangeiros. Uma das características do período iniciado na década de 1990 foi
“a abertura desregrada das fronteiras nacionais com a drástica redução das
tarifas alfandegárias, ampliando a oferta de produtos importados”.
Nesse
momento, o governo exerceu papel ativo na atração de capitais externos, fazendo
aprovar leis que acabavam com o monopólio público em setores como
telecomunicações, petróleo e gás.
Em
2020, os investimentos externos estavam em sua maioria no setor de serviços,
que, concentrava 59% dos investimentos estrangeiros, especialmente nos serviços
financeiros (21%), seguido pelo setor industrial, com 30% dos investimentos, e
agricultura, pecuária e extração mineral, com 10% dos recursos investidos no
Brasil. No quadro do modelo econômico intensificado nas últimas décadas,
considerando os dados de 2014, o setor de mineração e siderurgia (21,4%),
comunicação (14,7%) e indústria automobilística e de autopeças (13,3%)
paulatinamente passaram a contar com uma grande participação dos investimentos
estrangeiros.
Na
relação com o mercado externo, muitas multinacionais assumiram a política de
contratar serviços e importar bens do exterior, se constituindo em uma espécie
de correia de transmissão. De um quadro de superávit comercial, em 1989, o
Brasil passou para uma situação em que (entre 1995 e 1999) as importações
superaram as exportações. Com raras exceções, esse déficit é uma marca
constante na econômica brasileira. Esse quadro se alterou um pouco depois de
1999, quando “as multinacionais se afirmaram como exportadoras importantes em
setores como automotivo, de telefones celulares, linha branca, máquinas
agrícolas e tantos outros”.
Com
isso, temos que o Brasil passou a ser “dependente das importações destas mesmas
empresas multinacionais nos segmentos mais intensivos em tecnologia, como no
caso dos componentes eletrônicos, da indústria farmacêutica, das máquinas e
equipamentos de vanguarda tecnológica e de boa parte da indústria química”.
Na
década de 1990, as multinacionais avançaram em setores de infraestrutura e do
setor de serviços, ficando o Estado apenas com a fatia das empresas
petrolíferas, de geração de energia e saneamento básico. Nesse período,
“cadeias produtivas inteiras foram desarticuladas, a dependência externa
aumentou e consolidou-se ainda mais. Outro aspecto dessa política foi a
desvalorização dos patrimônios nacionais”.
No
período, houve um avanço no processo de concentração de vários mercados sob a
liderança das multinacionais. Embora tenha permanecido com forte presença no
setor financeiro – diante de enorme crescimento do capital estrangeiro –, o
Estado vem se limitando à função de regulador das condições de mercado, sem que
tenha havido resultados consideráveis no que se refere a condições de trabalho
e geração de emprego.
Cabe
destacar que, nos países dominados, como é o caso do Brasil, o Estado se
constituiu no “elo mediador pelo qual uma revolução que deixou de ser feita por
decisão histórica está caminhando pela modernização dirigida e autocrática e
por transformação de estruturas previamente drenadas ou esterilizadas”.
O
Brasil se tornou um grande receptor de investimentos das empresas
multinacionais. Em 1998 observa-se um ápice da participação do Brasil nos
investimentos multinacionais, ocasião na qual o país respondeu por 4,2% dos IED
(Investimentos Externos Diretos) globais e por 35,2% do total investido na
América Latina. Esse fato não significou muita coisa no PIB, cujo crescimento,
em 1998 e 1999, foi inferior a 1%.
Os
fatores que mais contribuíram para esse ápice de investimentos foram as
privatizações de estatais, a estabilização da moeda e o avanço do Mercosul em
termos de volume de comércio. Embora tenha havido este ápice, nos anos
seguintes, em função de a economia mundial encontrar-se em um momento de
concentração nos países dominantes, por meio das fusões e aquisições, caiu a
participação do Brasil em relação ao IED.
Com o
avançado do processo de mundialização do capital, “observa-se uma nítida
tendência à marginalização dos países em desenvolvimento. Essa tendência esteve
marcada, nos anos 80, por um forte recuo dos IEDs e das transferências de
tecnologia destinados à grande maioria desses países, bem como por um início de
exclusão, do sistema de intercâmbio, de muitos países produtores de produtos
básicos”.
Entre
2001 e 2003, período de estagnação da economia brasileira, a participação do
país nos IEDs diminuiu, tanto no contexto global quanto no latino-americano: em
2003, a participação nos IEDs global era de 1,6% e no latino-americano, de
21,6%, enquanto o PIB voltava a crescer abaixo de 1%. Em 2004, houve um novo
aumento de investimentos externos, devido à compra de ações da Ambev pela
Interbrew. Contudo, essa movimentação de capitais nada mais significou que uma
transferência de ativos; nesse ano, os investimentos no Brasil ficaram em 2,8%
dos fluxos de IEDs globais e 27% do total investido na América Latina, com o
crescimento do PIB variando de 0,54%, em 2003, para 4,94%, em 2004.
Portanto,
nesse período, “a internacionalização da economia brasileira não foi capaz de
engendrar um novo modelo de crescimento, com ampliação das taxas de
investimento”, na medida em que as variáveis macroeconômicas “estiveram
submetidas a um processo de extrema instabilidade”.
Um
outro elemento a ser levado em consideração refere-se à quantidade de empregos
diretos gerados no país pelas multinacionais, que em 2000 foi de apenas 1,7
milhão (pouco mais de 2%) e não chegava a 800 mil em 2014. Porém, o quadro da
participação das multinacionais na economia do Brasil demonstra que, entre as
dez maiores empresas que atuam no país, seis eram estrangeiras; entre as
quinhentas maiores, 221 eram multinacionais.
Cabe
destaca também que, se tomarmos um conjunto que engloba as 100 maiores empresas
nacionais de capital privado, as 100 maiores estatais e as 100 maiores empresas
multinacionais, vê-se que estas tiveram participação de 38% no faturamento em
2004. Fica posto que a quantidade de vagas de emprego que as empresas
multinacionais proporcionam são desproporcionais se consideramos sua presença
dominante na economia do Brasil.
Quanto
à origem do capital investido no Brasil, observa-se uma evidente vantagem para
o capital estadunidense. Quanto aos blocos econômicos, a União Europeia tem uma
maior quantidade de investimentos, tendo os seus sete maiores investidores –
Espanha, Holanda, França, Alemanha, Portugal, Itália e Reino Unido – ampliado
sua participação de conjunto, entre 1995 e 2000, de 31% para 43%. Considerando
os dados entre 2003 e 2014, há maior presença estadunidense, seguido por Itália
e Reino Unido.
De
concreto, temos que o Brasil, embora com um PIB entre os maiores do mundo, não
tem essa produção voltada para o seu próprio desenvolvimento, em
infraestrutura, emprego e melhoria das condições sociais da população. Parte
considerável desse PIB, obviamente todo produzido no Brasil, tem os
investidores internacionais como “donos”. Portanto, a produção do Brasil
continua voltada prioritariamente para interesses de grupos ou empresas
estrangeiras, que se ocupam de transferir a maior parte possível dos ganhos
para a matriz.
Esse é
um traço fundamental de países dominados pelo imperialismo, conforme apontado
em estudo clássico acerca do tema: “O mercado interno no capitalismo, está
inevitavelmente ligado ao externo. O capitalismo, há muito, criou um mercado
mundial. E à medida que a exportação de capital foi crescendo e as relações com
o estrangeiro e com as colônias, bem como as “esferas de influência” das
maiores associações monopolistas, foram de expandindo, em todos os sentidos, o
caso “naturalmente” foi aproximando de um acordo mundial entre elas, da
constituição de carteis internacionais”.
Essa
relação orgânica entra as burguesias nativas e o imperialismo foi
exaustivamente debatida por pesquisadores brasileiros. Em um de seus principais
estudos, realizado na década de 1960, dizia Mario Pedrosa: “A classe gerencial
capitalista nacional, apesar de relativamente tenra em idade, já não encontra
nem gera perspectivas históricas pelas quais o País possa vislumbrar uma
situação socioeconômica em que a burguesia industrial alcance o estágio
culminante do poder impessoal, do poder institucionalizado, fundado num
território, numa civilização, numa cultura de uma nação completa”.
Essa
questão está intrinsecamente ligada ao processo de transformação histórica e
econômica do Brasil. Nesse sentido, pode-se afirmar, partindo-se das
contribuições de Fernandes, em estudo publicado na década de 1970: “A transição
estrutural e histórica para o padrão de desenvolvimento econômico inerente ao
capitalismo monopolista, nas condições assinaladas, requer alterações tão
profundas dos mecanismos de mercado, na organização do mercado financeiro e de
capitais, nas dimensões da produção industrial, e medidas correlatas tão
complexas (e, ao mesmo tempo, tão nocivas para vários grupos e classes sociais,
inclusive empresariais), referentes à política econômica e à aplicação de
incentivos que privilegiam as economias industriais de escala e a exportação,
que ela se torna impraticável sem um apoio interno decidido e decisivo, fundado
na base do poder real das classes possuidoras, dos estratos empresariais mais
influentes e do Estado”.
Percebe-se
que tal lógica, como parte de um processo iniciada há séculos, mas aprofundada
a partir da década de 1960, está mais aguda contemporaneamente, em função da
política econômica dos últimos governos, durante os quais “o grau de
dependência, seja do Estado, seja das empresas nacionais, em relação ao poder
das multinacionais, elevou-se de forma considerável”.
Nem
mesmo os governos Lula, apesar da tímida e eventual retórica
desenvolvimentista, e de suas políticas sociais, implementou ações que visasse
acabar com essa lógica. Pelo contrário, esses governos deram continuidade à
política econômica dos governos anteriores, mantendo “o legado de FHC,
aprofundando ainda mais o seu programa”.
Portanto,
a economia do Brasil está dominada pelo capital externo, cujos interesses são
os de suas matrizes. Cabe considerar também que o capital privado nacional está
ligado de forma íntima com o estrangeiro, sendo seu sócio menor, defendendo não
um projeto “nacional”, mas os interesses de seus aliados externos. Lenin
afirmava que “o capitalismo transformou-se num sistema mundial de opressão
colonial e sufocamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por
um punhado de países “avançados”. E a partilha desse “espólio” efetua-se entre
dois ou três predadores mundialmente poderosos, armados até os dentes (Estados
Unidos, Inglaterra, Japão), que arrastam toda a Terra para a sua guerra pela
partilha do seu espólio”.
Sem que
haja uma ruptura com a lógica do imperialismo, o Brasil, ao mesmo tempo que
pode ter um crescimento do PIB, aumentando ou diminuindo a taxa a cada ano,
necessariamente terá sua produção e o lucro dela decorrente voltados
prioritariamente para os interesses das empresas multinacionais. Diante dessa
situação, observa-se que todo seu potencial produtivo o Brasil é escoado para
os países imperialistas, sob controle do capital financeiro.
Portanto,
coloca-se como necessária a conquista de uma independência fato, a partir do
controle sobre seus recursos naturais e sobre a economia. Essas medidas somente
são possíveis por um governo dos trabalhadores que, apostando na mobilização
popular, aponte suas ações no sentido da superação do capitalista e da
construção do socialismo.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em A Terra é Redonda

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