quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Anvisa alerta para uso indiscriminado de remédios para disfunção erétil

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta sobre os riscos do uso recreativo de medicamentos para disfunção erétil, como sildenafila, tadalafila e vardenafila.

Segundo a agência, esses remédios, aprovados apenas sob prescrição médica, vêm sendo consumidos de forma indiscriminada, muitas vezes em suplementos, gomas e até em academias. O uso fora das indicações pode provocar efeitos graves, como infarto, Acidente Vascular Cerebral (AVC), perda de visão e dependência psicológica.

<><> Jovens na linha de frente do consumo

Para o urologista Mark Neumaier, membro da Sociedade Brasileira de Urologia, o fenômeno do “uso recreativo” tem crescido justamente entre os mais novos.

“Muitos jovens começam a usar por curiosidade ou insegurança. Há também a influência da pornografia, que cria expectativas irreais de desempenho. O problema é que, em pouco tempo, eles passam a acreditar que só funcionam com o comprimido, e isso gera dependência psicológica precoce”, afirma.

Urologista da Rede Total Care e membro da Associação Europeia de Urologia, Mauro Gasparoni reforça que esse comportamento pode ter consequências duradouras.

“Estamos vendo homens saudáveis, sem disfunção erétil, transformando o remédio em um ritual. Isso pode prejudicar a autoconfiança e, no futuro, levar até à disfunção erétil psicogênica — quando a dificuldade de ereção é causada pelo próprio medo de falhar sem a pílula”, explica.

<><> Riscos imediatos e mascaramento de doenças

Os efeitos colaterais mais comuns do uso de medicamentos para disfunção erétil sem prescrição incluem dor de cabeça, vermelhidão no rosto, congestão nasal, palpitações e queda de pressão arterial. Mas os especialistas alertam para complicações mais graves: priapismo (ereção prolongada e dolorosa), arritmias e até eventos cardiovasculares.

Segundo Gasparoni, mesmo em pessoas jovens e aparentemente saudáveis, há riscos:

“Em doses altas ou quando combinados com álcool, esses medicamentos podem provocar queda brusca da pressão arterial, desmaio e até complicações cardíacas. É um erro achar que por ser jovem o corpo vai aguentar sem consequências.”

Cardiologista da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Bruno Sthefan destaca que a associação com álcool e drogas recreativas torna o quadro ainda mais perigoso.

“O esforço físico da relação, somado ao efeito vasodilatador, pode precipitar um infarto ou um AVC. E quando há consumo de cocaína, êxtase ou até energéticos, a chance de arritmia e morte súbita aumenta muito”, alerta.

Outro ponto crítico é o mascaramento de doenças graves. A disfunção erétil pode ser o primeiro sinal de problemas como diabetes, hipertensão ou aterosclerose.

“Quando o paciente se automedica, perde a chance de investigar a verdadeira causa. Corrige apenas o sintoma e atrasa o diagnóstico de doenças que podem ser fatais”, afirma Sthefan.

<><> Diferenças entre os principais medicamentos para disfunção erétil

Todos os fármacos listados pela Anvisa pertencem à mesma classe: inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5). Eles atuam promovendo vasodilatação e aumentando o fluxo sanguíneo no pênis, o que facilita a ereção após estímulo sexual.

Apesar da ação semelhante, cada um tem particularidades:

Sildenafila (Viagra e genéricos)

•        Início de ação: 30 a 60 minutos.

•        Duração: até 4 horas.

•        Pode ter a absorção prejudicada por alimentos gordurosos.

Tadalafila (Cialis e genéricos)

•        Início de ação: em torno de 30 minutos.

•        Duração: até 36 horas.

•        Pode ser usada em dose diária baixa, inclusive para pacientes com sintomas de próstata aumentada.

Vardenafila (Levitra e genéricos)

•        Início de ação: cerca de 30 minutos.

•        Duração: até 5 horas.

•        Boa tolerância, mas também afetada pela ingestão de alimentos.

Udenafila

•        Menos disponível no Brasil.

•        Perfil parecido com a tadalafila, podendo ser usada em dose contínua.

Lodenafila

•        Desenvolvida no Brasil.

•        Início rápido de ação (cerca de 20 minutos).

•        Duração média de até 6 horas.

Importante: todos são medicamentos de uso controlado, vendidos apenas com prescrição médica. Nenhum deles tem indicação aprovada para aumento de desempenho físico, ganho de massa muscular ou uso recreativo.

<><> Mercado paralelo aumenta risco

Outro ponto levantado pelos médicos é a diferença entre comprar em farmácia, com prescrição, e recorrer a canais paralelos, como internet ou academias.

“O remédio vendido em farmácia é fiscalizado, tem dose garantida e procedência. Já no mercado paralelo pode estar adulterado, conter substâncias tóxicas ou doses irregulares. O risco é muito maior”, afirma Gasparoni.

Neumaier acrescenta que, além de perigoso, esse tipo de comércio é ilegal. “O paciente nunca sabe o que está tomando de fato. Pode ser uma dose maior que a indicada ou até outro composto disfarçado. É uma roleta-russa para a saúde”.

“Não é atalho para prazer”

A Anvisa reforça que esses remédios só devem ser usados com acompanhamento médico. Entre as recomendações estão: não consumir produtos não regularizados, não manipular fórmulas sem prescrição e denunciar comercializações ilegais.

Para Neumaier, a mensagem é clara: “A saúde sexual precisa ser tratada com seriedade. O uso recreativo não é um atalho para o prazer, mas sim um risco que pode custar caro à saúde”.

Gasparoni resume: “Não é um comprimido inofensivo. Ele pode trazer riscos sérios até para quem se acha saudável”.

E Sthefan conclui: “Esses medicamentos são seguros quando bem indicados. Mas usados sem avaliação clínica, podem custar uma vida”.

 

Fonte: g1

 

Nenhum comentário: