‘Demarcar
terras indígenas é uma política para combater mudanças climáticas’, diz
indígena
2025,
além de ser o ano da COP no Brasil, é um marco para a agenda climática
internacional. É quando todos os países signatários do Acordo de Paris,
assinado por 196 nações em 2015, precisam estabelecer novas metas para reduzir
suas emissões de gases do efeito estufa. Na prática, é quando se saberá o
quanto cada país está disposto a colaborar para evitar o colapso do planeta.
Como
anfitrião da COP30, o Brasil quis mostrar que fez o dever de casa e apresentou
as suas metas em novembro do ano passado. Elas são as chamadas NDC, ou
Contribuições Nacionalmente Determinadas, na linguagem das negociações
climáticas.
Mas
para contribuir, de fato, com uma mudança, os povos indígenas brasileiros
defendem que o país precisa fazer isso colocando a demarcação, regularização e
proteção dos territórios indígenas como uma política de mitigação climática.
Essa é
a principal reivindicação da NDC dos Povos Indígenas do Brasil, ou seja, a
lista do que os indígenas brasileiros querem ver como política contra o
aquecimento global.
O
documento foi lançado no começo deste mês, pela Articulação dos Povos Indígenas
do Brasil, a Apib, em conjunto com organizações de base locais. São 36
demandas, como a exigência do reconhecimento legal dos 86 registros de Povos
Indígenas em Isolamento Voluntário.
O
argumento dos indígenas é fortalecido pelos dados de desmatamento. Segundo o
Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, o RAD, apenas 1,3% de todo o
desmatamento registrado no Brasil em 2024 ocorreu em terras indígenas.
A NDC
indígena ressalta que a taxa de desmatamento em territórios indígenas
reconhecidos foi 87,5% menor que o registrado no país entre 2013 e 2023, de
acordo com dados do SEEG – principal plataforma de monitoramento de emissões de
gases de efeito estufa na América Latina.
As
metas dos indígenas, lançadas pela Apib na mesma semana em que o presidente
Lula sancionou com 63 vetos o PL da Devastação, se soma à Declaração política
dos povos indígenas da Bacia Amazônica e de todos os biomas do Brasil para a
COP30 na composição da NDC indígena, também liderada pela Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, a Coiab.
O
lançamento do documento ocorreu, não por acaso, durante a Conferência e Marcha
das Mulheres Indígenas realizadas em Brasília. É do Brasil a copresidência para
América Latina e Caribe no Caucus Indígena da Convenção-Quadro das Nações
Unidas sobre Mudança do Clima, o tratado internacional que objetiva reduzir a
emissão dos gases do efeito estufa.
O cargo
é ocupado por Sineia Wapichana, também conhecida como Sineia do Vale, nativa
das Terras Indígenas Raposa Serra do Sol e Serra da Lua, em Roraima. Como
gestora ambiental, Wapichana desenvolveu estudos inéditos sobre a crise
climática em territórios indígenas do seu estado, a partir da estruturação do
Departamento Territorial e Ambiental do Conselho Indigena de Roraima, o CIR,
onde formou agentes ambientais indígenas e formulou os primeiros Planos de
Gestão Territorial e Ambiental, os PGTAs, para enfrentamento das mudanças
climáticas.
Os
PGTAs são instrumentos de gestão e
planejamento participativo voltados à proteção das terras indígenas, que
respeitam a autonomia dos territórios. Atualmente os PGTAs são apontados como
mecanismos fundamentais para o combate às mudanças climáticas no Plano Clima, o
guia da política climática brasileira até 2035.
Por ser
considerada uma das vozes mais importantes do movimento indígena brasileiro na
arena internacional das mudanças climáticas, Wapichana foi nomeada “Cientista
Indígena do Brasil” pelo Planetary Guardians, coletivo que reúne pesquisadores
e ativistas que se destacam por estudos sobre ação climática e proteção de
comunidades vulneráveis. Também foi nomeada a enviada especial da COP30 para os
povos indígenas, sendo responsável por levar as demandas dos povos indígenas
para a presidência da conferência.
Em
entrevista ao Intercept Brasil, ela defendeu que um dos pontos mais relevantes
da NDC dos povos indígenas brasileiros é o financiamento direto para os povos,
sem intermediários e peneiras dos governos, destacando a existência de
mecanismos próprios, como os fundos indígenas, para captação e distribuição dos
recursos destinados às ações desenvolvida pelos povos, associações e
comunidades.
Wapichana
também falou sobre o que precisa ser feito para incluir os indígenas
brasileiros nas negociações da COP30. Nós perguntamos ao Governo Federal se as
demandas indígenas serão incorporadas à agenda brasileira de enfrentamento às
mudanças climáticas, mas até a publicação desta entrevista não tivemos retorno.
LEIA A
ENTEVISTA:
• Os povos indígenas lançaram metas e
contribuições para o enfrentamento às mudanças climáticas por meio da NDC
indígena. Quais pontos da NDC indígena são mais importantes para você? Existe,
de fato, a possibilidade de esses documentos serem anexados às metas do Brasil?
Sineia
Wapichana – Eu quero acreditar que sim e acho fundamental porque nestes
compromissos assumidos pelo Brasil, contidos na NDC [lançada em novembro de
2024], não está muito explícita a questão da demarcação das terras indígenas. E
enxergamos a demarcação das terras indígenas com uma política do clima.
Estamos
falando da questão do desmatamento, da proteção da biodiversidade e da proteção
territorial, que estão contidas nas propostas dos povos indígenas.
A gente
tem visto que se os países não estão cumprindo suas metas, a tendência é que
essa questão da temperatura aumente cada vez mais. Para nós, povos indígenas, a
questão da terra, do território, é a base de tudo. E nós temos feito todo esse
trabalho de conservação milenarmente falando. Os povos indígenas sempre
estiveram lá, nas florestas.
Atualmente
falamos muito de floresta em pé, da questão da água também, mas muitos não
consideram a sabedoria milenar dos povos indígenas como responsável pelo manejo
de toda essa floresta, o que garantiu a sua permanência.
• O que as contribuições dos povos
indígenas destacam sobre financiamento climático?
O
financiamento direto para os povos indígenas, sem intermediários, é um dos
pontos mais importantes da NDC indígena porque a gente precisa de recursos que
nos atendam rapidamente.
O que
ocorre hoje é que os recursos passam por várias peneiras dos governos e chega
muito pouco às comunidades. Precisamos dar respostas rápidas às diversas
emergências climáticas que ocorrem nos nossos territórios. Atualmente, temos
organização e os fundos indígenas estruturados, então existem plenas condições
para esse financiamento direto.
Além
desses fundos, temos elaborado os planos de gestão territorial e os planos
indígena de adaptação às mudanças climáticas. Então tudo isso são mecanismos
utilizados pelos povos indígenas para receber recursos de forma direta, para
aplicar nas comunidades naquilo que realmente precisam.
• O Brasil se propõe a liderar o combate
às mudanças climáticas, mas estamos presenciando polêmicas e contradições
internas importantes, como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a
aprovação no Congresso Nacional do PL da Devastação e o Marco Temporal. Como
esse cenário reverbera na atuação dos povos indígenas há poucos meses da
realização da COP30?
Para
nós, povos indígenas, o Marco Temporal tem que cair. Nós estamos,
legitimamente, nas nossas terras desde sempre. Não precisa vir um documento
dizer o que é terra indígena ou não, porque toda nossa vida cultural, social,
nosso trabalho sempre esteve atrelado ao território. Esse direito se baseia nas
nossas vivências e em todo o tempo que estamos nas terras.
Por
outro lado, sobre o projeto de lei conhecido como PL da Devastação, acho que as
pessoas não estão tendo consciência do quanto isso pode afetar diretamente a
vida de todos, não só dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Com esse
PL, nós vamos abrir as portas para o desmatamento e outros problemas que estão
sendo freados minimamente pelo licenciamento ambiental.
Quanto
ao petróleo, nós estamos falando que as altas temperaturas estão nos matando,
que temos um trabalho consistente no Brasil para diminuir a utilização de
combustíveis fósseis. Como a gente vai se contradizer?
A gente
precisa ter algum contraponto do governo que diga que não é isso, até mesmo
antes da COP. Nosso país detém a maior parte da floresta amazônica e a gente
tem também a maior bacia de água doce do mundo.
Essa
água não vai acabar, mas ela pode ser gravemente contaminada, e nós que estamos
diretamente conectados com a água e com a floresta vamos sentir primeiro. Mesmo
morando na beira d’água a gente não vai poder beber nem usar essa água. Todo
esse contexto vai impactar diretamente não só a vida dos povos indígenas e
comunidades tradicionais, estamos falando de riscos para o Brasil e o mundo
todo.
• As mulheres são as mais afetadas pelas
mudanças climáticas nos territórios tradicionais e são também as primeiras a
enfrentarem ameaças. Como é possível que elas participem de forma efetiva dos
debates e tomadas de decisão sobre o clima?
Desde
2011, estamos trabalhando em Roraima, aqui na Amazônia, os planos de
enfrentamento às mudanças climáticas ou planos de adaptação indígena. A gente
acompanha a rotina das mulheres e como elas estão sentindo diretamente o
impacto das mudanças climáticas na sua vida social, cultural e no trabalho.
As
mulheres são mais sensíveis às mudanças climáticas porque todos os dias elas
estão ali, fazendo a comida dos filhos, plantando, colhendo, pegando semente
para fazer o seu artesanato. Com tudo isso, elas vão percebendo como as coisas
têm mudado. Então, as mulheres têm um potencial muito grande para falar como
elas estão sendo impactadas.
Quando
a gente tem uma grande seca ou uma grande cheia, como tem sido recorrente nos
três últimos anos na Amazônia, elas nem se refizeram da última seca e já vem
outro impacto muito sério. Quando vem a cheia, elas perdem o direito dos filhos
irem à escola porque alagou. As roças e a mata também alagam.
Como é
que a gente se refaz disso rapidamente? Isso ocorre principalmente com mulheres
que estão fazendo todo esse trabalho, nesse contexto da sabedoria indígena, do
manejo com a água, com a floresta e tudo o que está envolvido.
Por
isso, cada vez mais as mulheres estão ocupando esses espaços, em nível
regional, nacional e internacional. Elas compreendem muito bem a dimensão do
que estamos enfrentando.
• Então, a articulação das mulheres
indígenas tem um grande potencial?
Sim.
Por isso estamos chamando atenção para o que foi essa 4ª Marcha das Mulheres
Indígenas. Estamos trabalhando para apresentar estratégias claras sobre o que
as mulheres gostariam de ter como políticas públicas que atendam suas demandas.
E
conseguimos realizar a 1ª Conferência de Mulheres Indígenas no Brasil. Isso,
pra mim, é um grande avanço na nossa articulação porque estamos combatendo a
nossa invisibilização.
É
também uma grande conquista estarmos em espaços de decisão internacionais, como
a COP30, levando nossas vozes, como ocorre no Caucus Indígena. Nesse fórum,
discutimos todos os temas da COP, como adaptação, mitigação, financiamento e
gênero. Temos pontos focais no Caucus que tratam de cada uma dessas pautas.
Também
temos, por exemplo, mulheres da África que são pastoras de gado e trazem todo o
contexto de seca, uma diversidade de situações. É muito importante a gente ver
mulheres indígenas do mundo inteiro participando, ecoando nossas vozes nesse
espaço.
• Quanto à COP30, como garantir que as
lideranças indígenas não sejam apenas ouvidas, mas também influenciem
diretamente as negociações climáticas?
A gente
vem conversando e nos reunindo com o movimento indígena, criando estratégias,
campanhas como “A resposta somos nós” e vamos levar essas estratégias para
dentro da COP. Sabemos que a COP no Brasil traz uma nova metodologia, que não
houve em nenhuma outra.
Por
exemplo, a participação dos enviados especiais. Estou enviada especial para a
questão dos povos indígenas. A criação do Círculo de Povos, que tem como
principal objetivo aumentar a escuta de demandas e contribuições de povos
indígenas, comunidades tradicionais e afrodescendentes junto à presidência da
COP30.
Então,
temos dinâmicas diferentes de participação. Temos que aproveitar esses espaços
para criar estratégias dentro da COP, nos espaços de decisão, mas também nos
espaços que não são ditos oficiais, mas que são considerados oficiais para os
povos indígenas. Toda a nossa luta, em qualquer lugar que estejamos, é oficial.
Sabemos
da importância dos espaços de decisão na COP, que é um espaço ONU, mas daremos
importância a todos os nossos espaços, como a COP indígena, a Cúpula dos Povos.
E estando lá dentro, vamos nos juntar para impulsionar política pública, como
financiamento, como a questão da adaptação, da mitigação e da demarcação das
terras indígenas.
• Há muita expectativa sobre a Cúpula dos
Povos por ocorrer na Amazônia e porque, em COPs anteriores, houve casos de
repressão [a quem tentou realizar mobilizações durante a conferência]. O que
podemos esperar da participação dos povos indígenas na Cúpula?
Todo
movimento é válido, importante e legítimo, e na Cúpula dos Povos se reúnem
sociedade civil, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e muitas outras
comunidades tradicionais. Queremos levar uma única voz pelos nossos direitos.
Cada um com as suas especificidades, mas a questão do direito ao território, à
vida e à conservação do planeta para todos é o que nos une nesse espaço.
Estamos
na luta para não ultrapassar um grau e meio [limite de aumento da temperatura
global, de acordo com meta estabelecida no Acordo de Paris], mas vimos muita
coisa acontecer nos últimos três anos. Então, quem tem contato diretamente com
a água, com a floresta, sente tudo muito mais rápido do que quem está na
cidade.
Quando
perdemos espécies de animais e plantas, como as medicinais, isso para nós é uma
perda enorme porque sabemos seu valor. É a farmácia viva indo embora, a água
secando… Então tudo isso influencia na vida de todos, povos indígenas,
comunidades tradicionais, ribeirinhos.
A gente
sabe que muitos ribeirinhos são pescadores e, com o aquecimento das águas dos
rios, muitos peixes regionais estão sumindo. Então, estamos todos juntos pelos
nossos direitos.
• Como o enfrentamento às mudanças
climáticas está influenciando a conexão entre conhecimentos tradicionais e
científicos?
É muito
importante trazer o conhecimento indígena para a academia e investigar como ele
se conecta com o conhecimento científico. Precisamos valorizar essa conexão
porque os conhecimentos precisam caminhar juntos.
Quando
recebi o Prêmio Cientista Indígena e, agora, ao concluir o mestrado em
sustentabilidade junto a povos e territórios tradicionais, tudo isso é fruto do
que vivenciei a minha vida toda: esse movimento que, na ida, leva nossas vozes
aos espaços de incidência nacionais e internacionais e faz o caminho de volta
para as comunidades.
Procuro
compreender como esse trabalho pode influenciar políticas públicas. O objetivo
é oferecer subsídio às políticas públicas conectando essas duas formas de
produção do conhecimento e mostrando que a sabedoria dos povos indígenas aponta
muitas soluções.
Por
meio do Conselho Indígena de Roraima, nós criamos, com as comunidades, todo um
trabalho de construção de planos de enfrentamento às mudanças climáticas ou
planos de adaptação indígena. São metodologias próprias nossas que também foram
apresentadas ao Ministério do Meio Ambiente para fazer parte do Plano Clima.
Esse é
o meu desejo com os planos de adaptação. Então, é fundamental unir os dois
conhecimentos para avançar no combate às mudanças climáticas, e acho que isso
está dando muito certo. Os resultados são benéficos para toda a sociedade.
Fonte:
Por Tatiana Ferreira Reis, EM The Intercept

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