Cooperação
Sul-Sul agricultura: entre soberania alimentar e internacionalização do
agronegócio
A
Cooperação Sul-Sul agricultura se consolidou nas últimas décadas como um campo
de disputa política e econômica que envolve agricultura familiar, segurança
alimentar, biotecnologia e a expansão internacional de empresas ligadas ao
agronegócio.
No
centro desse debate está o Brasil, país que se apresenta como quarto produtor
mundial de alimentos, ao mesmo tempo em que enfrenta contradições internas
entre o fortalecimento da agricultura familiar e a concentração fundiária
promovida pelo agronegócio.
O
conceito de Cooperação Sul-Sul foi institucionalizado no sistema das Nações
Unidas a partir da segunda metade do século XX, mas ganhou centralidade no
Brasil sobretudo a partir dos anos 2000, quando a política externa buscou
diversificação de parcerias e maior protagonismo no Sul Global.
Na área
da agricultura, esse movimento se traduziu em projetos de cooperação técnica,
programas de combate à fome, transferência de tecnologia agrícola e também na
ampliação da presença de empresas brasileiras em países africanos,
latino-americanos e asiáticos.
<><>
Cooperação Sul-Sul agricultura: origem e significado
A
Cooperação Sul-Sul agricultura tem como fundamento a troca de experiências
entre países em desenvolvimento. Essa modalidade foi concebida como alternativa
ao modelo Norte-Sul, marcado por condicionalidades impostas por países
desenvolvidos.
Em
teoria, trata-se de uma cooperação horizontal, construída a partir de contextos
sociais, econômicos e ambientais semelhantes. No caso brasileiro, esse formato
se consolidou por meio de duas frentes principais:
• Exportação de políticas sociais e
programas de segurança alimentar, como o Programa de Aquisição de Alimentos
(PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
• Transferência de tecnologia agrícola,
principalmente através da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(Embrapa), com foco em biotecnologia, agricultura tropical, produção de
bioenergia e máquinas adaptadas para pequenos agricultores.
Essa
combinação posicionou o Brasil como referência internacional em políticas
públicas de combate à fome, mas também abriu espaço para a internacionalização
do agronegócio brasileiro.
<><>
O papel da Embrapa e a transferência de tecnologia
A
Embrapa se tornou um dos principais atores da Cooperação Sul-Sul agricultura.
Desde a criação da Embrapa África, em Gana, e da Embrapa Américas, no Panamá, a
instituição vem atuando na transferência de conhecimento técnico e científico
para países do Sul Global.
Entre
os projetos mais relevantes estão:
• Laboratórios de Experimentação (Labex)
em diferentes regiões, voltados à pesquisa e inovação.
• Parcerias na África para o
desenvolvimento de cultivos de mandioca, arroz e soja.
• Projetos de melhoramento genético animal
em cooperação com a Nigéria, envolvendo capacitação de pesquisadores e
disseminação de tecnologias tropicais.
A
Embrapa atua tanto no fortalecimento da agricultura familiar quanto na expansão
de cadeias ligadas ao agronegócio, o que revela a ambiguidade da cooperação
brasileira.
<><>
Programas sociais brasileiros como referência internacional
A
política externa brasileira transformou políticas sociais internas em
instrumentos de projeção internacional. A partir dos anos 2000, iniciativas
voltadas ao combate à fome e ao fortalecimento da agricultura familiar passaram
a ser apresentadas como exemplos a outros países do Sul Global. Essa estratégia
buscava mostrar que era possível enfrentar a fome sem depender de modelos
impostos por organismos financeiros internacionais.
Entre
os programas de maior impacto internacional estão o Programa de Aquisição de
Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o projeto
+Algodão que, ao serem adaptados para outros países, se tornaram símbolos da
Cooperação Sul-Sul agricultura.
<><>
PAA África: compras públicas como política de segurança alimentar
O
Programa de Aquisição de Alimentos foi adaptado para países africanos em
parceria com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a FAO.
• Países beneficiados: Moçambique, Malauí,
Senegal, Níger e Etiópia.
• Objetivo central: conectar governos a
pequenos agricultores, permitindo que os Estados comprassem alimentos
produzidos localmente e os destinassem a programas de combate à fome.
• Impactos: Criação de mercados estáveis
para agricultores familiares; Redução da dependência de importações de
alimentos básicos; Fortalecimento da economia rural com geração de renda em
comunidades camponesas.
A
lógica do PAA África se contrapunha ao modelo dominante de ajuda humanitária
baseado em importações de excedentes dos países do Norte. Em vez disso,
promoveu circuitos curtos de produção e consumo, alinhados ao princípio da
soberania alimentar.
<><>
PNAE internacionalizado: alimentação escolar como política de Estado
O
modelo do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) também foi levado
para outros países, em um processo coordenado pela FAO e pela Agência
Brasileira de Cooperação (ABC).
• Escala de implementação: 12 países da
América Latina e do Caribe receberam apoio para estruturar seus programas de
alimentação escolar.
• Alcance: mais de 1,6 milhão de
estudantes beneficiados.
• Mudanças legais: países como Bolívia,
Equador, Honduras, Guatemala e Paraguai aprovaram legislações nacionais de
alimentação escolar inspiradas no modelo brasileiro.
• Conexão com agricultura familiar: a
principal inovação foi a exigência de que parte dos alimentos da merenda
escolar fosse adquirida de pequenos agricultores, criando mercados
institucionais permanentes.
Esse
modelo não apenas combateu a fome estudantil, mas também ajudou a consolidar
redes de agricultura familiar nos países onde foi implementado.
<><>
O projeto +Algodão e a sustentabilidade na produção
O
projeto +Algodão, executado pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC),
Embrapa e FAO, também se destacou como uma das iniciativas mais relevantes da
Cooperação Sul-Sul agricultura.
• Mais de 10 mil agricultores e 3 mil
técnicos participaram de capacitações.
• Tecnologias adaptadas, como
colheitadeiras de uma linha e descaroçadoras de baixo custo, foram
desenvolvidas em parceria com a Embrapa Algodão.
• Países como Bolívia, Paraguai, Peru e
Colômbia aprovaram planos nacionais de algodão inspirados nesse projeto.
• Delegações de países africanos, como
Moçambique e Mali, conheceram experiências no Brasil, em especial o cultivo de
algodão colorido na Paraíba.
O
projeto + Algodão mostra como a cooperação pode gerar alternativas tecnológicas
adequadas às condições da agricultura familiar.
<><>
Agricultura familiar e governança fundiária
Outro
eixo estratégico foi a cooperação em governança fundiária. Em parceria com a
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o
Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Brasil
implementou projetos voltados para:
• Regularização da posse da terra.
• Criação de cadastros fundiários.
• Produção de estudos regionais sobre
administração de terras.
Essas
ações são fundamentais em países onde a concentração fundiária e os conflitos
agrários dificultam o fortalecimento da agricultura familiar.
<><>
Cooperação com a África
O
continente africano se tornou prioridade da política externa brasileira nos
anos 2000. Diversos projetos foram implementados em áreas como:
• Produção de mandioca no Quênia.
• Cadeia produtiva do caju em Gana.
• Horticultura comunitária em Cabo Verde.
• Programas de alimentação escolar em
Ruanda, Libéria e Níger.
Na
Nigéria, os acordos envolveram agricultura tropical e genética animal, com foco
em soja, arroz e mandioca.
Apesar
dos avanços, também surgiram críticas. O caso mais emblemático foi o ProSavana,
em Moçambique. O projeto, desenvolvido em parceria com Japão, previa a
concessão de milhões de hectares para grandes empresas agrícolas, voltadas para
monocultura de soja e milho. Movimentos camponeses denunciaram riscos de
expulsão de comunidades, impactos ambientais e ameaça à soberania alimentar.
O
ProSavana se tornou símbolo da crítica de que a Cooperação Sul-Sul agricultura
pode, em alguns casos, beneficiar empresas privadas em detrimento de
agricultores locais.
<><>
Cooperação na América Latina e no Caribe
A
Cooperação Sul-Sul agricultura não se limitou à África. Na América Latina e
Caribe, o Brasil consolidou projetos em diferentes áreas:
• Corredor Seco Centro-Americano: ações de
mitigação da seca em El Salvador, Honduras e Guatemala.
• Rede de Alimentação Escolar Sustentável
(RAES): criada em 2018, conecta 22 países em torno da troca de práticas e
políticas públicas de alimentação escolar.
• Sistemas públicos de abastecimento:
fortalecimento da Rede de Sistemas Públicos de Abastecimento e Comercialização
de Alimentos (SPAA), envolvendo 18 países e contando com aporte de 500 mil
dólares do governo brasileiro.
Essas
iniciativas reforçam a imagem do Brasil como referência em políticas públicas
de combate à fome e de fortalecimento da agricultura familiar.
<><>
Diplomacia popular: o MST e a China
Além da
cooperação oficial entre Estados, também emergiram iniciativas de diplomacia
popular. Em 2025, uma delegação de parlamentares e lideranças do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) esteve na China para discutir parcerias em
agroecologia.
Entre
os temas debatidos estavam:
• Produção de bioinsumos derivados de
resíduos urbanos.
• Estratégias de enfrentamento da crise
climática.
• Abertura do mercado chinês para produtos
da agricultura familiar brasileira, como mel, cafés especiais e frutas nativas.
Esse
episódio mostra que a Cooperação Sul-Sul agricultura pode ser construída também
por meio de movimentos sociais e não apenas por governos.
<><>
As três agendas em disputa
A
análise da Cooperação Sul-Sul agricultura mostra que não há um único projeto em
curso. Pelo contrário, coexistem três agendas que disputam espaço e
financiamento:
1.
Segurança alimentar
• Defendida por organismos multilaterais
como FAO, FIDA e PMA.
• Prioriza o aumento da oferta de
alimentos em quantidade e qualidade, garantindo acesso das populações
vulneráveis.
• Projetos como a Rede de Alimentação
Escolar Sustentável (RAES) e o PAA África são exemplos dessa agenda, voltados à
redução imediata da fome e à criação de mercados institucionais estáveis.
2.
Soberania alimentar
• Pauta levantada por movimentos
camponeses e organizações da sociedade civil, como La Via Campesina e o MST.
• Defende o direito dos povos de decidir o
que e como produzir, priorizando agroecologia, biodiversidade e culturas
alimentares locais.
• Esse eixo se fortalece em iniciativas
como a Declaração de Porto Alegre, que reafirmou em 2025 que 80% da produção
mundial de alimentos vem da agricultura familiar, exigindo políticas
específicas para mulheres e jovens rurais.
3.
Agronegócio globalizado
• Impulsionado por empresas privadas e
elites políticas.
• Baseado na expansão de monoculturas e
commodities como soja, milho, carne e biocombustíveis.
• Projetos como o ProSavana, em
Moçambique, exemplificam essa lógica, ao prever a concessão de milhões de
hectares para monocultura de exportação em parceria com corporações brasileiras
e japonesas.
O
Brasil atua simultaneamente nessas três frentes. Exporta políticas sociais que
fortalecem a agricultura familiar, apoia projetos agroecológicos em parceria
com movimentos populares, mas também promove a internacionalização do
agronegócio. Essa ambiguidade explica tanto o reconhecimento internacional
quanto as críticas recorrentes à sua atuação no campo da Cooperação Sul-Sul
agricultura.
<><>
Conclusão
A
Cooperação Sul-Sul agricultura se tornou uma arena de disputas em escala
global. O Brasil aparece como ator central, exportando políticas sociais e
tecnologias adaptadas à agricultura familiar, mas também favorecendo a expansão
do agronegócio.
Projetos
como o PAA África e o +Algodão demonstram o potencial transformador dessa
cooperação quando orientada para a segurança e a soberania alimentar. Ao mesmo
tempo, experiências como o ProSavana revelam os riscos de transformar a
cooperação em instrumento de concentração fundiária e reprodução de
desigualdades.
O que
está em jogo é a definição de qual modelo de desenvolvimento será fortalecido:
a agricultura familiar, que garante diversidade alimentar e reduz
desigualdades, ou o agronegócio, que concentra terras e mercantiliza a produção
de alimentos.
A
Cooperação Sul-Sul agricultura, ao transpor para o cenário internacional as
contradições da agropecuária no Brasil, mostra que a luta pela soberania
alimentar não é apenas nacional, mas global.
Fonte:
ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário