Antidepressivos
podem ajudar a combater dores crônicas?
Este
artigo foi publicado um pouco mais tarde do que o havia planejado. No dia em
que eu deveria escrever sobre a conexão entre dor crônica e antidepressivos,
minhas mãos e pulsos doíam tanto que eu não conseguia digitar por mais de
alguns minutos. Ah, a ironia...
Felizmente,
a dor diminuiu bastante ao longo de um fim de semana. No passado, quando
digitar, ou qualquer atividade que envolvesse o uso das mãos, se tornou quase
impossível, precisei me ausentar do trabalho durante semanas.
A
origem dessa dor, no entanto, é um mistério que nenhum dos muitos médicos que
consultei ao longo dos anos conseguiu resolver.
O meu
caso é comum. Embora não saibamos o número exato de pessoas que vivem com dor
crônica em todo o mundo, estima-se que no Ocidente cerca de 20% dos adultos
lidem com esse problema, segundo uma estimativa da Associação Internacional
para o Estudo da Dor (Iasp).
A Iasp
define dor crônica como "uma condição na qual um indivíduo sente dor na
maioria dos dias ou durante todos os dias por mais de três meses".
Se a
dor afeta significativamente sua vida diária, como quando você não consegue
mais cozinhar, praticar seu esporte favorito ou escrever um artigo, isso se
enquadra na classificação da Iasp como "dor crônica de alto impacto".
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Dor crônica nos leva a tentar quase tudo
Se você
ou alguém que você ama faz parte deste clube, é provável que já tenha se
encontrado no ponto em que eu cheguei há cerca de um ano. Eu estava disposta a
fazer quase tudo para que a dor desaparecesse.
Fiz
várias radiografias e ressonâncias magnéticas dos pulsos, braços, coluna
cervical e torácica, além de um teste de reumatismo, todos com resultado
positivo. Experimentei vários tipos de fisioterapia, osteopatia e acupuntura,
mas nenhum desses métodos ajudou muito.
Foi
assim que, em uma manhã de setembro de 2024, acabei sentada em frente a uma
terapeuta da dor, concordando enfaticamente com a cabeça ao ser perguntada:
"você consideraria experimentar antidepressivos?".
Esta é
uma pergunta que, para muitos, não cai bem.
"Muitos
pacientes se sentem insultados", disse Tamar Pincus, reitora da Faculdade
de Ciências Ambientais e da Vida da Universidade de Southampton, no Reino
Unido, em entrevista à DW. "Eles acham que o médico está sugerindo que a
dor estaria apenas na mente deles."
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"Para que antidepressivos se não estou deprimida?"
Pincus
disse que, com o tempo, os analgésicos comuns tendem a parar de funcionar. Isso
fez com que ela e outros pesquisadores da área buscassem soluções alternativas.
Há
várias razões lógicas para eles terem considerado os antidepressivos como uma
alternativa aos analgésicos convencionais. Uma delas é que a dor crônica pode
afetar o humor ou a saúde mental de uma pessoa.
"Uma
grande proporção das pessoas que convivem com dor crônica, cerca de 40%, fica
de mau humor", disse Pincus. "Elas não estão clinicamente deprimidas,
mas se sentem culpadas por não se esforçarem no trabalho ou em casa, e muitas
vezes não conseguem fazer o que querem ou amam fazer."
Os
antidepressivos, disse Pincus, podem ajudar com isso, além de também ajudar com
a dor em si. As substâncias químicas que os antidepressivos regulam no cérebro,
como a serotonina e a noradrenalina, afetam tanto o humor quanto a dor.
"As
áreas que envolvem o processamento da dor em nosso cérebro são próximas às que
processam as emoções negativas", disse Pincus.
Portanto,
faz sentido pensar que os mesmos medicamentos usados para tratar a depressão
também podem aliviar a dor crônica. Mas a pesquisa de Pincus e colegas parece
não apoiar essa ideia.
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Ensaios clínicos não são conclusivos
Em
cooperação a rede global de revisão de dados de saúde Cochrane, pesquisadores
da Universidade de Southampton analisaram os resultados de 176 ensaios clínicos
sobre antidepressivos e dor crônica. Os ensaios envolveram cerca de 30.000
pacientes e 27 antidepressivos diferentes.
A
análise dos resultados foi preocupante: os ensaios sobre o efeito de
antidepressivos na dor crônica pareciam insignificantes e produziam dados tão
escassos entre os ensaios, que eles se sentiram confiantes quanto à eficácia de
apenas um dos 27 antidepressivos testados, a duloxetina.
Outro
medicamento, a amitriptilina, não passou no teste, embora seja justamente o
antidepressivo mais comumente prescrito para dor crônica nos EUA, Reino Unido e
Alemanha – e é um dos dois medicamentos que tomo há quase um ano.
Nenhum
dos ensaios com amitriptilina analisados pelos especialistas envolveu um número
suficiente de participantes para pudessem ser considerados confiáveis.
Isso
não significa que a amitriptilina seja totalmente ineficaz contra a dor
crônica. Durante a entrevista, contei a Pincus que meus sintomas começaram a
melhorar drasticamente depois de tomar amitriptilina por cerca de quatro
semanas e que também estava dormindo muito melhor. Ela não ficou nem um pouco
surpreso ao ouvir isso.
"Trabalhamos
com evidências baseadas em grupos", disse a especialista. "Não
podemos prever como um indivíduo reage ao medicamento. A amitriptilina, um tipo
de medicamento chamado antidepressivo tricíclico, pode ter efeitos colaterais
bastante desagradáveis, como causar sonolência."
Para
mim, como indivíduo, a amitriptilina funcionou bem – talvez eu tenha tido
sorte. Mas, na análise de grupo, os pesquisadores encontraram baixa eficácia
geral e alta probabilidade de efeitos colaterais para o medicamento. Isso não é
bom quando se tenta avaliar se um medicamento pode oferecer um bom tratamento
para um número maior de pessoas.
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O melhor conselho: "viva a vida ao máximo"
Mesmo a
duloxetina, que pareceu de fato reduzir a dor e aumentar a capacidade das
pessoas de retornar às atividades cotidianas, mostrou eficácia apenas a curto
prazo. E havia poucos dados sobre quaisquer efeitos colaterais ou os danos que
o medicamento possa causar – se de fato causar– quando tomado a longo prazo.
"Os
resultados foram promissores, mas [a falta de informações sobre possíveis
danos] me preocupa", disse Pincus.
Ao
encerrarmos a conversa, a especialista, que tem experiência própria com dor
crônica, me deu um conselho sobre o que talvez seja a alternativa mais natural
à medicação.
"Viva
a vida ao máximo que puder", disse ela. "Seja aventureira com sua
criatividade. Quando você faz isso, as sinapses no seu cérebro mudam. Qualquer
tipo de atividade que lhe traga alegria ajuda você a conviver com a dor
crônica."
Fonte:
Por Carla Bleiker, em DW Brasil

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