Anistia
já! Mais para quem furta por fome, não para quem espanca democracia
A
maioria dos brasileiros (54%) é contra anistiar Jair Bolsonaro para livrá-lo da
cadeia, enquanto 39% são a favor disso, segundo pesquisa Datafolha. Ou seja, a
punição ao ex-presidente para que cumpra a condenação por tentativa de golpe de
Estado ultrapassou a polarização da sociedade entre direita e esquerda, com uma
parcela dos não-alinhados defendendo Justiça.
A
pesquisa também aponta que 61% são contra qualquer tipo de perdão aos
condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, enquanto 33% querem
anistia.
Desde
quinta (11), quando o STF fixou 27 anos e três meses a Bolsonaro, os seguidores
do ex-presidente, que representam o grosso desse terço das pesquisas,
descobriram a ideia de dosimetria de pena. E vem questionando publicamente o
tamanho da punição para algo que consideram insignificante.
Mas
quem já furtou comida ou bens de valores, aí sim, insignificantes tem outra
impressão: que a decisão sobre o tamanho da pena no Brasil e a forma do seu
cumprimento dependem sempre da cor da pele, da classe social e de ter poder.
Decisões
judiciais precisam ser cumpridas sempre, mas podem ser debatidas e
questionadas. Considero, portanto, a discussão sobre tamanho de penas válida.
Mas para que ela não seja hipócrita, precisamos debater o que acontece com
outros tipos de crimes para os quais parte dos autointitulados homens e
mulheres de bem não dá a mínima.
Pois há
uma parcela que acha injusto punir alguém por tentativa de golpe de Estado com
cadeia, mas aceita a pena de morte informal a quem furta algo de baixo valor.
A
diferença de tratamento não surpreende em uma sociedade em que a ideia de
“bandido bom é bandido morto” tem aderência. Com exceção de quem sonega
imposto. Aí, não, pois esse roubo é visto como heroísmo.
São
muitos os casos de pessoas condenadas e presas por roubar carne. Isso quando
não rola pena capital. Dois homens foram torturados por cinco seguranças do
supermercado UniSuper, em Canoas (RS), diante do gerente e do subgerente da
loja, após tentarem furtar duas peças de carne. Vítima das piores agressões, um
homem negro teve fraturas no rosto e na cabeça. E um tio e um sobrinho, que
furtaram carne de uma unidade do Atakadão Atakarejo, em Salvador, foram
encontrados mortos com sinais de tortura e marcas de tiro.
Homens
e mulheres de bem se refestelaram com as punições milicianas sofridas pelos
envolvidos nesses casos nas redes. Pelo perfil dos envolvidos, alguns deles são
os mesmos que hoje choram a decisão do STF.
Prender
alguém por conta de dois quilos de picanha não vai ajudar em sua reinserção
social ou mesmo evitar novos furtos. Mesmo a abertura de um processo é, a meu
ver, acintoso, pois força o Estado a gastar tempo, recursos humanos e dinheiro
em algo cuja solução não passa pela cadeia. Imagine se ao invés de um pedido de
pena privativa de liberdade, desde o começo, fossem propostas horas de
prestação de serviços à comunidade ou a obrigatoriedade de frequência em algum
curso.
Ninguém
está defendendo quem erra ou comete crimes. O que está em jogo aqui é que tipo
de Estado e de sociedade que estamos nos tornando ao acreditarmos que punições
severas para coisas ridículas (mesmo reincidentes) têm função pedagógica
enquanto defende-se impunidade para ataques à democracia. Desde quando a
República passou a valer mais do que acém com osso?
Sueli
foi condenada pelo roubo de dois pacotes de bolacha e um queijo minas em uma
loja. Valdete foi condenada a dois anos de prisão em regime fechado por ter
roubado caixas de chiclete. Maria Aparecida foi mandada para a cadeia por ter
furtado um xampu e um condicionador em um supermercado e perdeu um olho
enquanto estava presa.
O
princípio da insignificância pode ser aplicado quando o caso não representa
riscos à sociedade e não tenha causado lesão ou ofensa grave. Por exemplo,
carne, bolacha, queijo minas, chiclete, xampu e condicionador. Tipo de coisa
que não deveria ser punido com cadeia. Seja pela inutilidade da punição, pelo
seu custo ou mesmo pelo déficit de humanidade que isso representa.
O
Supremo Tribunal Federal vem desconsiderando muitos furtos de pequeno valor
como crime. Essa conduta não gera uma obrigação a todos os juízes e
desembargadores de instâncias inferiores, mas sinaliza o que pode acontecer com
o caso se ele subir ao STF. E é uma tentativa da corte de mostrar que não são
apenas os ricos e que têm acesso a advogados que conseguem decisões favoráveis
no tribunal.
Contudo,
a mesma Suprema Corte também já deu decisões desfavoráveis a quem cometeu
furtos insignificantes. Por exemplo, o ministro Luiz Fux que nos presenteou com
um gigantesco voto absolvendo Jair Bolsonaro manteve a prisão de um homem
condenado a um ano e nove meses de reclusão pelo furto de um pacote de 18 latas
de cerveja avaliado em R$ 35 há dois anos.
A
Defensoria Pública da União, alegando o princípio da insignificância, havia
pedido um habeas corpus para liberá-lo. O máximo que Fux fez foi transferi-lo
ao regime semiaberto.
Em, em
maio, o ministro negou habeas corpus para uma pessoa que furtou uma peça de
carne de R$ 90. O alimento sequer chegou a ser levado do local de onde foi
furtado, em Minas Gerais, quatro anos atrás, segundo a Defensoria.
Mas não
só ele. Dois homens furtaram um macaco velho de carro, dois galões de plástico
vazios e menos de um litro de óleo diesel e foram condenados, um a 10 meses e
20 dias, outro a 2 anos e 26 dias de prisão. A 1ª Turma do STF, a mesma que
condenou os líderes da conspiração golpista, rejeitou, em 2023, a aplicação do
princípio da insignificância aos dois em itens avaliados em R$ 100 e manteve as
condenações.
Na
época, eu reclamei aqui neste espaço, mas não há registro de protestos de que a
extrema direita enrolou-se em uma bandeira dos Estados Unidos contra a decisão.
Normalmente,
a justificativa dada é que o indivíduo envolvido não era réu primário. O que,
convenhamos, na maioria dos casos, isso é uma bobagem sem tamanho.
As
redes sociais extremistas foram bem transparentes ao afirmarem que Gabriel
mereceu ter seu CPF cancelado porque era ladrão, o que negou a ele a empatia de
muita gente. Não há pena de morte no Brasil e ninguém estava em risco na
unidade do Oxxo assaltada, mesmo assim o policial militar Vinicius de Lima
Britto achou que que podia abraçar a função de promotor, juiz e carrasco e dar
11 tiros nas costas do rapaz em novembro passado.
Cheguei
a encontrar mensagens que felicitavam o PM por um “ladrãozinho negro” a menos
em uma rede social que mandou a moderação do ódio às favas.
Diante
de uma polícia com baixo índice de resolução de crimes, casos como a execução
de Gabriel são vistos como uma forma de vingança. Miliciana, violenta e
injusta, claro.
Claro
que, novamente, escolhe-se o bandido com quem sentir solidariedade. Pois, fazer
parte da invasão e depredação das sedes dos Três Poderes para ajudar em um
plano de golpe de Estado e, portanto, espancar a democracia, é muito mais
grave.
Mas por
aqui quem tenta golpe de Estado, surrupia joias dadas ao Brasil e é leniente à
morte de 700 mil durante a pandemia é premiados com gritos de “mito” e
promessas de amor eterno por muitas das mesmas pessoas que sapatearam no corpo
de Gabriel.
Anistia
já. Mas para quem furta bife, não para quem rouba a democracia.
• "Anistia é uma pauta fictícia para
alimentar os bolsonaristas", diz Rogério Correia
O
deputado Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo Lula (PT) na Câmara dos
Deputados, classificou a proposta de anistia a Jair Bolsonaro (PL) como
“inócua” e sem base jurídica, mesmo diante da mobilização de aliados do
bolsonarismo, informa Paulo Cappelli, do Metrópoles.
Correia
ressaltou que a mobilização da base bolsonarista em torno da pauta não encontra
amparo na Constituição e não deve avançar no Parlamento. “A anistia é uma pauta
fictícia. A Constituição é muito clara no artigo 5º: direitos individuais e
coletivos são cláusula pétrea, só outra constituinte pode mudar, nem emenda
constitucional altera. Atentado contra o Estado democrático de direito não pode
ser perdoado, ter indulto nem anistia. Por mais que a extrema-direita insista
com a pauta da anistia, ela é inócua, fictícia, para alimentar a base
bolsonarista”, afirmou.
Play
Video
<><>
Congresso deve barrar proposta
O
deputado destacou que a Câmara dos Deputados não deve dar andamento ao tema e,
caso a oposição tente aprovar pedido de urgência, a base do governo trabalhará
para barrar a votação. Ele acrescentou ainda que no Senado a possibilidade é
inexistente. “Em todos os casos, no Senado, Davi Alcolumbre não vai pautar algo
tão inconstitucional. E o presidente da CCJ do Senado, Otto Alencar, também
disse que não vai pautar. Então, a anistia não vai prosperar na Câmara ou no
Senado. Isso é passado”, frisou.
<><>
Prioridades do governo até o fim do ano
Segundo
Correia, a agenda do governo federal está voltada para medidas econômicas e
sociais que impactam diretamente a população. Ele listou como prioridades a
implementação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o
fim da escala de trabalho 6×1 e a ampliação dos programas sociais. “Vamos focar
agora no que interessa ao povo. Com a extrema-direita, deixamos as pautas
fictícias, como a invasão dos EUA ao Brasil, anistia e o resto”, concluiu.
• Ainda é pouco diante de tudo que ele
fez. Por Julimar Roberto
O
Brasil acaba de assistir a um momento histórico. Pela primeira vez, um
ex-presidente da República é condenado por tentar destruir a democracia. Jair
Bolsonaro foi sentenciado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de
prisão por crimes que vão desde tentativa de golpe de Estado até formação de
organização criminosa e deterioração de patrimônio público. É uma decisão que
entra para os livros de história — e que precisa ser compreendida em toda sua
dimensão.
Bolsonaro
não foi um coadjuvante arrastado pela onda golpista. Ele foi o maestro da
orquestra que tentou enterrar o Estado Democrático de Direito. Como bem disse a
ministra Cármen Lúcia, ele não foi tragado pelos acontecimentos, pelo
contrário, foi o causador. Usou a presidência da República para disseminar
mentiras, corroer a confiança no sistema eleitoral, mobilizar as Forças Armadas
e insuflar boa parte da população contra as instituições. Um plano frio,
calculado e criminoso, que agora encontra resposta na Justiça.
Mas
sejamos francos. Os crimes pelos quais Bolsonaro foi condenado — e que, por si
só, já são gravíssimos — ainda não chegam perto do tamanho da tragédia que ele
impôs ao povo brasileiro. A tentativa de golpe foi um ataque direto ao coração
da democracia; sua omissão, descaso e sabotagem no enfrentamento à pandemia
foram um ataque direto à vida de centenas de milhares de brasileiros e
brasileiras. Negou vacinas, incentivou aglomerações, debochou das mortes e
naturalizou o luto. Esse é o peso moral que nenhuma sentença judicial será
capaz de medir.
E não
parou aí. Bolsonaro também deixou como herança a devastação ambiental com o
desmonte da fiscalização e a explosão do garimpo ilegal; o ataque sistemático à
cultura e à educação; a diplomacia ridícula que transformou o Brasil em pária
internacional; a corrupção escancarada, das rachadinhas da família aos
escândalos do gabinete paralelo da saúde; e o discurso de ódio permanente
contra mulheres, negros, indígenas, quilombolas e a comunidade LGBTQIA+. Seu
governo foi um projeto de destruição em todos os níveis, da vida, da natureza,
das instituições e da convivência democrática.
É claro
que a decisão do STF é um marco. Mostra que a democracia brasileira, mesmo
ferida, tem anticorpos. Mostra que ninguém, por mais alto que tenha chegado,
está acima da lei. Mas também revela o quanto ainda precisamos avançar para que
a justiça alcance a totalidade das responsabilidades.
A
condenação de Bolsonaro, portanto, não é apenas um recado a ele e aos seus
cúmplices. É um recado a qualquer aventureiro autoritário que sonhe em rasgar a
Constituição: o Brasil não aceita mais golpes. O povo brasileiro sabe o preço
que se paga quando a democracia é destruída. E sabe também o preço que se paga
quando vidas humanas, a floresta e os direitos fundamentais são tratados como
descartáveis.
Bolsonaro
terá muito tempo atrás das grades para refletir sobre as escolhas que fez. Já o
Brasil deverá seguir adiante, curando suas feridas, reconstruindo sua confiança
nas instituições e, acima de tudo, honrando a memória daqueles que não
sobreviveram às escolhas criminosas de seu governo.
No fim
das contas, 27 anos de prisão podem até parecer muito — mas diante de tudo que
Bolsonaro causou, ainda é bem pouco.
Fonte:
Por Leonardo Sakamoto, no UOL/Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário