terça-feira, 1 de outubro de 2024

Quem foi Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah morto por Israel?

Hassan Nasrallah, líder do movimento militante islâmico xiita Hezbollah do Líbano, foi uma das figuras mais conhecidas e influentes do Oriente Médio.

Ele não era visto em público há anos por medo de ser assassinado por Israel. E, neste sábado (28/9), o Hezbollah confirmou sua morte após um ataque das forças israelenses a Beirute.

Os ataques aéreos israelenses contra alvos do Hezbollah no sul do Líbano e em Beirute começaram em 21 de setembro.

Mas segundo as Forças de Defesa de Israel (IDF), um ataque na noite de sexta-feira (27) atingiu o quartel-general do grupo libanês em Beirute, onde, segundo as forças israelenses, Hassan Nasrallah estava.

Leia mais: Hezbollah confirma morte do líder Hassan Nasrallah após ataques de Israel

Líder religioso xiita, Nasrallah esteve à frente do grupo Hezbollah no Líbano desde fevereiro de 1992. Esse grupo é atualmente considerado um dos partidos políticos mais influentes no Líbano, que possui suas próprias forças armadas, juntamente com o Exército Nacional Libanês.

Nasrallah, popular tanto no Líbano quanto em outros países árabes, era considerado o principal rosto do Hezbollah e desempenhou um papel fundamental na virada histórica desse grupo para entrar na arena política e ganhar poder na estrutura do governo libanês.

Ele mantinha uma relação especial tanto com a República Islâmica do Irã quanto com seu líder, o aiatolá Ali Khamenei. Apesar de o Hezbollah ter sido incluído na lista de organizações terroristas pelos Estados Unidos, nem os líderes do Irã nem Nasrallah jamais esconderam sua relação próxima.

Hassan Nasrallah tinha tantos fãs apaixonados quanto inimigos ferrenhos. Por esse motivo, ele não aparecia em público há anos. No entanto, sua reclusão não privou seus seguidores de seus discursos, que ocorrem quase toda semana.

Esses discursos eram vistos, na verdade, como uma ferramenta importante de Nasrallah para exercer poder, e por meio deles, ele comentava diversas questões no Líbano e no mundo, buscando exercer pressão sobre seus adversários.

·        Infância e adolescência

Hassan Nasrallah nasceu em agosto de 1960 em um dos bairros pobres no leste de Beirute. Seu pai possuía uma pequena mercearia, e Hassan era o filho mais velho entre nove irmãos.

Ele tinha apenas cinco anos quando a guerra civil eclodiu no Líbano, um conflito devastador que mergulhou este pequeno país à beira do Mar Mediterrâneo em 15 anos de caos, durante os quais os cidadãos libaneses demarcaram fronteiras e lutaram uns contra os outros com base em sua religião e etnia.

O início da guerra levou o pai de Hassan Nasrallah a decidir deixar Beirute e retornar à sua aldeia ancestral no sul do Líbano: uma vila chamada "Al-Bazouriyeh", cujos habitantes eram xiitas, como muitas aldeias na cidade de "Tyre" (Sour) na província de "Al-Janub".

Ele passou anos importantes de sua educação primária e secundária no sul do Líbano, entre os xiitas. Esses xiitas acreditavam que, durante a era colonial das grandes potências como o Império Otomano e a França, enfrentaram discriminação e desigualdade. Esse sentimento persistiu durante o período de independência, quando as elites cristãs e sunitas ganharam poder.

Nesse período, os grupos militantes cristãos e sunitas foram acusados de receber ajuda de países estrangeiros para obter sucesso militar.

Ao mesmo tempo, a população xiita, que é a maioria no sul do Líbano, além do Vale de Beqaa no leste do Líbano, juntamente com um pequeno grupo de cristãos maronitas e ortodoxos, eram considerados a linha de frente das guerras de Israel nos longos anos de estabelecimento do domínio judeu na Palestina.

Nesse ambiente, Hassan Nasrallah não apenas se voltou para sua identidade xiita e raízes étnicas, mas, aos 15 anos, tornou-se membro do grupo político-militar xiita libanês mais importante da época: o Movimento Amal, um grupo influente e ativo fundado por um clérigo iraniano chamado Musa al-Sadr.

·        Retornando ao Líbano e à luta armada

Hassan Nasrallah emigrou para Najaf, no Iraque, aos 16 anos.

O Iraque era, naquela época, um país instável que vivenciara duas décadas de revoluções consecutivas, golpes sangrentos e assassinatos políticos. Nesse período, embora Hasan al-Bakr ainda estivesse oficialmente no poder, Saddam Hussein, o vice-presidente do Iraque na época, havia ganhado influência significativa.

Apenas dois anos após a presença de Hassan Nasrallah em Najaf, os líderes do Partido Ba'ath e, em especial, Saddam, chegaram à conclusão de que deveriam tomar medidas para enfraquecer ainda mais os xiitas. Uma de suas decisões foi expulsar todos os estudantes xiitas libaneses dos seminários iraquianos.

Embora Hassan Nasrallah tenha estudado em Najaf por apenas dois anos e depois tenha tido que deixar o país, sua presença em Najaf teve um profundo impacto na vida desse jovem libanês: ele conheceu outro clérigo chamado Abbas Mousavi em Najaf.

Mousavi foi considerado um dos alunos de Musa al-Sadr no Líbano e, durante sua estadia em Najaf, foi fortemente influenciado pelas ideias políticas de Ruhollah Khomeini. Ele era oito anos mais velho que Nasrallah e assumiu rapidamente o papel de um professor rigoroso e mentor influente na vida de Hassan Nasrallah.

Após retornar ao Líbano, os dois se juntaram à luta na guerra civil. Desta vez, no entanto, Nasrallah foi para a cidade natal de Abbas Mousavi no Vale do Beqaa, onde estudou no seminário local.

·        A revolução iraniana e a fundação do Hezbollah

Um ano depois de Hassan Nasrallah retornar ao Líbano, ocorreu uma revolução no Irã. Ruhollah Khomeini, que havia angariado a admiração de clérigos como Abbas Mousavi e Hassan Nasrallah, assumiu o poder. Esse evento mudou profundamente a relação entre os xiitas do Líbano e o Irã. Além disso, a vida política e a luta armada dos xiitas libaneses foram significativamente influenciadas pelos eventos no Irã e pela ideologia do islamismo xiita.

Para Hassan Nasrallah, essa transformação profunda se deveu em grande parte a uma decisão de Ruhollah Khomeini. Em 1981, Nasrallah se encontrou com o então líder da República Islâmica do Irã em Teerã. Khomeini o nomeou como seu representante no Líbano para "cuidar dos assuntos de Hisbah e obter fundos islâmicos".

Posteriormente, Nasrallah começou a fazer viagens ocasionais ao Irã, estabelecendo relações com os mais altos níveis de tomada de decisões e poder dentro do governo iraniano.

Os islamistas xiitas no Irã deram grande importância ao registro histórico e aos laços religiosos com os xiitas libaneses.

O sentimento antiocidente era uma pedra angular da versão iraniana do islamismo xiita, propagada por Ruhollah Khomeini. A política de moldar as notícias no Oriente Médio tomou a forma do antissionismo, dando manifestação objetiva a essa postura. Consequentemente, a "causa palestina" tornou-se uma das principais prioridades na política externa do Irã revolucionário.

Nesse período, o Líbano, já cercado pela guerra civil e instabilidade, havia se tornado uma base significativa para combatentes palestinos. Eles tinham uma forte presença no sul do Líbano, além de Beirute.

Com a crescente instabilidade no Líbano, Israel atacou o país em junho de 1982, ocupando rapidamente partes significativas. Israel alegou que o ataque foi em resposta à agressão palestina.

Pouco depois da incursão de Israel, os comandantes militares do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica no Irã (IRGC), experientes em guerra convencional devido ao ataque do Iraque ao Irã, decidiram estabelecer um grupo miliciano no Líbano totalmente afiliado ao Irã. Eles escolheram o apelido pelo qual eram conhecidos no Irã como nome desse grupo: 'Hezbollah', que significa ‘Partido de Deus’.

Em 1985, o Hezbollah anunciou oficialmente sua fundação. Hassan Nasrallah e Abbas Mousavi, juntamente com alguns outros membros do movimento Amal, se juntaram a esse grupo recém-criado. Ele foi liderado por outra figura chamada Subhi al-Tufayli. Este grupo rapidamente marcou sua presença na política regional realizando ações armadas contra as forças americanas no Líbano.

·        Liderança

Quando Nasrallah se juntou ao grupo que viria a ser o Hezbollah, ele tinha apenas 22 anos e, segundo os padrões dos mulás xiitas, era considerado um novato. Na metade dos anos 80, à medida que a relação de Nasrallah com o Irã se aprofundava, ele decidiu se mudar para a cidade de Qom para continuar seus estudos religiosos.

Durante seu tempo no seminário de Qom, Nasrallah se tornou proficiente em persa e estabeleceu amizades próximas com muitos líderes político-militares no Irã.

Quando ele retornou ao Líbano, logo surgiu uma significativa discordância entre ele e Abbas Mousavi. Na época, Mousavi apoiava o aumento da atividade e influência síria no Líbano sob a liderança de Hafez Assad. Por outro lado, Nasrallah insistia que o grupo se concentrasse em ataques contra soldados americanos e israelenses.

Nasrallah se viu em minoria dentro do Hezbollah, e pouco depois foi nomeado como "representante do Hezbollah no Irã". Essa posição o levou de volta ao Irã e, ao mesmo tempo, o distanciou do Líbano.

Superficialmente, parecia que a influência do Irã sobre o Hezbollah estava diminuindo e, apesar do amplo apoio de Teerã, influenciar as decisões do Hezbollah se mostrava desafiador.

A tensão aumentou a ponto de, em 1991, Subhi al-Tufayli ser removido do cargo de Secretário-Geral do Hezbollah devido à sua oposição à afiliação do grupo com o Irã. Abbas Mousavi foi nomeado em seu lugar.

Após a remoção de Al-Tufayli, Hassan Nasrallah, cujas opiniões sobre o papel da Síria no Líbano aparentemente se ajustaram, voltou ao seu país e efetivamente se tornou o segundo no comando do grupo Hezbollah.

·        Comando do Hezbollah

Abbas Mousavi foi assassinado por agentes israelenses menos de um ano depois de ser eleito Secretário-Geral do Hezbollah. No mesmo ano, 1992, a liderança desse grupo caiu nas mãos de Hassan Nasrallah.

Na época, ele tinha 32 anos, e muitos consideraram sua escolha relacionada às suas conexões especiais com o Irã. Mesmo na perspectiva de muitos clérigos xiitas, ele carecia de educação religiosa suficiente, e por essa razão, ele retomou seus estudos simultaneamente.

Uma importante iniciativa de Hassan Nasrallah na época foi a nomeação de alguns filiados e membros do "Hezbollah" nas eleições libanesas. Um ano havia se passado desde que a Arábia Saudita mediou na guerra civil libanesa e em seu término. Nasrallah decidiu tornar o braço político do Hezbollah um ator sério no país, ao lado de seu braço militar.

Como resultado dessa estratégia, o Hezbollah conseguiu conquistar oito assentos no parlamento libanês.

Ao mesmo tempo, o grupo "Hezbollah" ainda era acusado de planejar e executar operações terroristas. O bombardeio do Centro Judaico AMIA na Argentina e o ataque à embaixada israelense na Argentina ocorreram durante esse período.

Enquanto isso, com base no Acordo de Taif, que encerrou a guerra civil libanesa, o Hezbollah foi autorizado a manter suas armas. Naquela época, Israel havia ocupado o sul do Líbano, e o Hezbollah, como organização que lutava contra a força de ocupação, permaneceu armado. Na prática, essas armas se tornaram legítimas e legais.

O apoio financeiro do Irã ao grupo Hezbollah do Líbano também permitiu a Nasrallah oferecer bem-estar e serviços sociais a muitos xiitas libaneses, formando uma rede complexa de escolas, hospitais e associações de caridade. Essa política, que continua até os dias de hoje, se tornou um dos aspectos importantes do movimento político-social dos xiitas no Líbano.

·        A retirada de Israel e a popularidade de Nasrallah

Em 2000, Israel anunciou que se retiraria completamente do Líbano, encerrando sua ocupação nas regiões do sul do país.

O grupo Hezbollah celebrou esse evento como uma grande vitória, e o crédito por essa conquista foi atribuído a Nasrallah.

Foi a primeira vez que Israel deixou unilateralmente o território de um país árabe sem um acordo de paz, e muitos cidadãos árabes da região consideraram isso uma conquista importante.

No entanto, desde então, a questão das armas do Líbano se tornou uma das questões importantes relacionadas à estabilidade e segurança do Líbano.

A retirada de Israel do Líbano justificou a legitimidade do Hezbollah permanecer armado, levando tanto grupos políticos rivais quanto potências estrangeiras a pedir o desarmamento do grupo - um pedido ao qual Nasrallah nunca concordou.

Posteriormente, Nasrallah chegou a um acordo de troca de prisioneiros durante negociações com Israel, resultando na libertação de mais de 400 prisioneiros palestinos, libaneses e cidadãos de outros países árabes.

Nesse momento, Nasrallah parecia mais poderoso e influente do que nunca, e seus rivais na política libanesa enfrentavam um sério desafio ao confrontá-lo e impedir a expansão de sua influência e poder.

·        O assassinato de Hariri e a retirada da Síria

Mas em 2005, após o assassinato de Rafic Hariri, o primeiro-ministro do Líbano na época, a opinião pública mudou. Hariri era considerado um dos políticos mais importantes próximos à Arábia Saudita, que havia feito extensos esforços para evitar o aumento do poder do Hezbollah.

A raiva pública foi direcionada ao grupo Hezbollah e seu principal apoiador militar dentro do Líbano, a Síria, que foram acusados de estar envolvidos no assassinato de Hariri. Como resultado de enormes manifestações da oposição em Beirute, a Síria anunciou que retiraria suas forças do país.

No entanto, quando as eleições parlamentares foram realizadas no mesmo ano, não apenas os votos do Hezbollah aumentaram, mas o grupo também conseguiu enviar dois de seus membros para o governo e assumir o controle de dois ministérios, aproveitando seus assentos parlamentares.

A partir daí, Nasrallah posicionou seu grupo como entidade nacionalista leal ao Líbano, pronto para fornecer um "mártir" pelo país e contra se submeter à dominação de outras potências.

No verão de 2006, militantes do Hezbollah invadiram Israel, matando um soldado e fazendo reféns dois outros. A resposta de Israel foi um ataque feroz que durou 33 dias, durante os quais quase 1.200 libaneses foram mortos.

O resultado dessa guerra foi o aumento da popularidade de Nasrallah, que foi retratado nos países árabes como a última pessoa resistindo a Israel.

Ao final da guerra, o Hezbollah ainda se recusou a se desarmar. Além disso, o grupo desempenhou um papel fundamental na reconstrução das ruínas deixadas pela guerra - um papel que, segundo os oponentes da República Islâmica no Irã, foi possibilitado pelo generoso apoio financeiro de Teerã.

·        Aumento de poder e consolidação da posição de Nasrallah

Com o aumento do poder do Hezbollah, os rivais — especialmente políticos sunitas libaneses — insistiam que o grupo havia formado um governo dentro do governo, afirmando que suas atividades enfraqueceriam a segurança e a economia do país.

Em 2007, após meses de conflito político, o governo libanês decidiu que o sistema de telecomunicações controlado pelo Hezbollah deveria ser desmantelado e que os assuntos de telecomunicações deveriam estar sob controle exclusivo do governo. Nasrallah não apenas rejeitou essa decisão, mas em pouco tempo, suas milícias tomaram o controle total de Beirute.

Essa ação de Nasrallah foi amplamente criticada pelos países ocidentais. No entanto, após negociações políticas, ele conseguiu aumentar o poder de seu grupo no gabinete libanês e, o que é mais importante, garantir o direito de veto nas decisões do gabinete.

Em 2008, apesar da redução no número de assentos do Hezbollah no parlamento libanês, Nasrallah conseguiu manter o direito de veto.

No mesmo ano, o gabinete libanês aprovou que o Hezbollah poderia manter suas armas.

A partir daí, Hassan Nasrallah se tornou uma figura que praticamente nenhum dos elites políticos libaneses conseguia remover do cenário ou diminuir seu poder.

Nem a renúncia dos primeiros-ministros que se opuseram a ele e nem mesmo a intervenção sem precedentes de Mohammed bin Salman, o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, conseguiram enfraquecê-lo.

Pelo contrário, ao longo desses anos, com o apoio da República Islâmica do Irã, Nasrallah conseguiu navegar por crises históricas como a Primavera Árabe, a guerra civil na Síria e a contínua crise econômica no Líbano.

Em 8 de outubro de 2023 - um dia após o ataque sem precedentes do Hamas a Israel, que desencadeou a guerra em Gaza - os combates anteriormente esporádicos entre o Hezbollah e as forças israelenses aumentaram.

O Hezbollah passou a disparar contra posições israelenses, em solidariedade aos palestinos.

Em um discurso em novembro, Nasrallah disse que o ataque do Hamas foi "100% palestino em termos de decisão e execução", mas que os disparos entre seu grupo e Israel eram "muito importantes e significativos".

O grupo lançou mais de 8.000 foguetes no norte de Israel e nas Colinas de Golã ocupadas por Israel. Também disparou mísseis antitanque contra veículos blindados e atacou alvos militares com drones explosivos.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) retaliaram com ataques aéreos e fogo de tanques e artilharia contra posições do Hezbollah no Líbano.

Em seu discurso mais recente, Nasrallah culpou Israel por detonar milhares de pagers e aparelhos de rádio usados ​​por membros do Hezbollah, um ataque que matou 39 pessoas e feriu milhares de outras, e disse que o país "cruzou todas as linhas vermelhas". Ele reconheceu que o grupo sofreu um "golpe sem precedentes".

Pouco depois, Israel intensificou dramaticamente os ataques ao Hezbollah, lançando ondas de bombardeios que mataram quase 800 pessoas.

 

Fonte: BBC News

 

Crime quer formular leis, diz Cármen Lúcia: “Cenário bastante grave”

A uma semana do primeiro turno, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Cármen Lúcia, demonstra preocupação com a tentativa do crime organizado de influenciar as eleições municipais. Em entrevista ao jornal O Globo, Cármen destaca que a Justiça está realizando um cruzamento de dados para identificar candidatos ligados a organizações criminosas. A democracia, ressalta a ministra, exige vigilância constante.

“Constituí um núcleo de especialistas do Ministério Público e da Polícia Federal para verificar, a partir dos pedidos de registro de candidatura, se havia pessoas envolvidas em processos relacionados a organizações criminosas. Isso nunca foi feito antes, mas, diante das notícias de possíveis infiltrações de organizações criminosas nos órgãos estatais, a Justiça eleitoral tomou o cuidado de realizar essa verificação com a ajuda de especialistas. Por um lado, existe o direito de votar e ser votado, e os casos de inelegibilidade são definidos pela lei. No entanto, a Justiça eleitoral não pode ignorar essas questões”, afirmou a presidente do TSE.

Para a ministra, esse cenário é “bastante grave”. “Especialmente considerando a ousadia do crime de querer ser o formulador de leis. Há um risco real de que esse comportamento se estenda às instâncias estaduais e até nacionais. É grave esse atrevimento criminoso”, ressaltou.

De acordo com ela, o TSE está implementando uma estratégia de segurança para o dia das eleições, com juízes designados em todos os municípios e apoio das Forças Armadas onde necessário. Em relação ao elevado número de casos de violência política registrados no país este ano, ela destaca a importância de entender as causas desses ataques e sugere uma reformulação nas abordagens para garantir um ambiente seguro.

“É preciso saber a causa: é só eleitoral ou houve um aumento da violência na sociedade? Os números são alarmantes. Precisamos de uma resposta diferente, pois as abordagens atuais têm se mostrado ineficientes. Essa situação requer uma reformulação institucional, procedimentos mais eficazes e mudanças na legislação. O Estado deve agir de forma a reduzir a violência, e isso deve ser comprovado estatisticamente”, defendeu.

Cármen Lúcia também critica a cultura de impunidade e a agressividade nos debates. A ministra lembra que cabe ao Estado garantir a pacificação social. “Se o Estado existe para garantir a pacificação social, como pode alguém que se apresenta de forma agressiva ser um pacificador quando assumir o cargo? A pessoa que trabalha o dia inteiro quer chegar em casa, assistir a um debate esperando ver propostas para sua cidade e aí assiste a um pugilato? Não é aceitável. A legislação pune toda forma de agressão. É preciso que essa legislação seja cumprida com rigor.”

Na entrevista ao Globo, concedida aos repórteres Mariana Muniz, Daniel Gullino e Thiago Bronzatto, Cármen também alerta para os perigos da desinformação e a necessidade de regulamentação para combater fraudes. “O corte descontextualiza e pode desinformar. Comprovada a desinformação, está na regra geral (que prevê punição). A novidade é o procedimento. Provavelmente, vamos ter que dar o tratamento específico para as próximas eleições. Foi o primeiro momento em que nós vimos isso acontecer. Sempre vai ter alguém com criatividade, e vem o Direito tentar contornar isso”, declarou.

 

¨      Marçal pode ficar inelegível por vender vídeo de apoio a candidatos, diz Márlon Reis

O candidato do PRTB à Prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal, publicou um vídeo no Instagram onde oferece apoio a candidatos a vereador que fizerem uma doação de R$ 5 mil via Pix para sua campanha. Os interessados devem preencher um formulário e, após a doação, receberão um vídeo para impulsionar suas campanhas. De acordo com o ex-juiz e advogado eleitoral Márlon Reis, o caso pode configurar abuso do poder econômico e resultar na inelegibilidade tanto do candidato que comprar o vídeo de apoio quanto de Marçal.

“Não pode de forma alguma fazer esse tipo de proposta”, diz Márlon, idealizador da Lei da Ficha Limpa. “Pode ser considerado abuso do poder econômico por parte dos que estão ‘comprando’ apoio político. E por participar da conduta, Pablo Marçal, assim como aquele que paga pela manifestação de apoio, pode ser declarado inelegível. A lei sanciona tanto o candidato beneficiado como todos que participaram do ato decorrente de abuso de poder”, explica o advogado ao Congresso em Foco.

No vídeo publicado nos stories do candidato do PRTB no Instagram nesse sábado (28), Marçal pergunta se alguém conhece candidatos que não sejam da esquerda e que queiram um vídeo seu. Ele orienta que, após a doação, o doador deve preencher um formulário para que sua equipe entre em contato.

“Quero te fazer uma pergunta: você conhece alguém que quer ser vereador e é candidato, que não seja de esquerda? De esquerda nem precisa avisar. Se essa pessoa é do bem e quer um vídeo meu para ajudar a impulsionar a campanha dela, você vai mandar esse vídeo e falar ‘olha que oportunidade’. Essa pessoa vai fazer um Pix de R$ 5 mil para minha campanha, como doação”, disse Marçal.

O formulário solicita o envio de comprovantes de transferência e autorizações para uso de dados pessoais, como telefone e e-mail, para futuras ofertas e comunicações políticas. O vídeo foi retirado do ar logo depois. Nele, o candidato alega que não utiliza dinheiro público em sua campanha. Até sexta-feira, ele havia declarado à Justiça eleitoral ter recebido R$ 5,9 milhões de doações privadas.

O PSB, da candidata Tabata Amaral, entrou com uma ação contra Marçal por abuso de poder econômico. O partido acusa o empresário de transformar as eleições em um “grande balcão de negócios”, usando seu prestígio em troca de dinheiro. Para o partido, o candidato pratica “fraude abjeta”, ao mercantilizar o processo eleitoral utilizando sua influência nas redes sociais para fins financeiros.

 

¨      Cícero Lucena responsabiliza adversários por prisão de esposa

Favorito na disputa à reeleição em João Pessoa, o prefeito Cícero Lucena (PP) reagiu à prisão de sua esposa, Lauremília Lucena, neste sábado (28) pela Polícia Federal. A assessoria do prefeito divulgou nota em que acusa os adversários de tramarem contra ele para tentar impedi-lo de vencer a eleição em primeiro turno. “O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, foi alvo de mais um ataque covarde e brutal, ardilosamente arquitetado por seus adversários às vésperas da eleição, envolvendo sua família”, diz o texto (veja a íntegra mais abaixo).

A prisão foi determinada por um mandado da Justiça eleitoral em uma investigação sobre aliciamento violento de eleitores e organização criminosa nas eleições municipais. Essa operação é a terceira fase da Operação Território Livre, conduzida pela Polícia Federal com apoio do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco). Além da prisão de Lauremília, mandados de busca estão sendo cumpridos em outros alvos.

A assessoria de Cícero Lucena classificou a prisão como “política” e alega que a primeira-dama tem residência fixa e jamais se recusaria a prestar depoimento. “Houve o uso de força desproporcional, já que ela sequer foi convocada para prestar depoimento. Claramente, os adversários de Cícero estão utilizando todos os meios para conquistar o poder a qualquer custo, sem respeito à sua família ou à cidade de João Pessoa“, ressalta a nota. “Lauremília tem uma vida limpa, é uma benfeitora na cidade e do estado”, continua.

A primeira-dama já tinha sido citada em documentos da Polícia Federal. Transcrições de conversas entre pessoas investigadas a mencionavam como uma pessoa influente nas nomeações de cargos na prefeitura de João Pessoa. De acordo com as investigações, esses cargos eram solicitados por indivíduos ligados a grupos que controlam comunidades na cidade, oferecendo em troca facilidades de acesso a essas áreas. Ex-senador e ex-governador, Cícero lidera as pesquisas de intenção de voto com vantagem que pode lhe garantir vitória já no próximo dia 6.

<><> Veja a íntegra da nota divulgada pela assessoria de Cícero Lucena:

“O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, foi alvo de mais um ataque covarde e brutal, ardilosamente arquitetado por seus adversários às vésperas da eleição, envolvendo sua família.

Com sua liderança consolidada em todas as pesquisas, que indicam vitória já no primeiro turno, seus opositores, nos últimos dias, disseminaram boatos pela cidade sobre uma nova operação. A operação realizada hoje, portanto, já era prevista e foi recentemente denunciada no plenário da Câmara dos Deputados pela deputada federal Eliza Virgínia, que alertou publicamente sobre o uso político de instituições com o objetivo de influenciar a campanha eleitoral em João Pessoa.

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Na imprensa, nossos adversários divulgaram versões fantasiosas e inverdades com o intuito de manchar a honra de uma mulher íntegra, respeitada e querida pelo povo paraibano. Lauremília não teme as investigações e, na justiça, demonstrará que é vítima de uma grave perseguição política, orquestrada pelos adversários de Cícero, que claramente utilizam sua influência para esse fim.

Trata-se de uma prisão política. Lauremília tem residência fixa e jamais se recusaria a prestar depoimento ou esclarecer quaisquer fatos. Houve o uso de força desproporcional, já que ela sequer foi convocada para prestar depoimento. Claramente, os adversários de Cícero estão utilizando todos os meios para conquistar o poder a qualquer custo, sem respeito à sua família ou à cidade de João Pessoa.

Lauremília tem uma vida limpa, é uma benfeitora na cidade e do Estado. Ela provará sua inocência, sendo mais uma vítima de injustiça, assim como Cícero também foi.

João Pessoa não pode e não vai retroceder. As injustiças que, mais uma vez, atingem Cícero e sua família não ficarão impunes. A campanha continuará nas ruas para mostrar que nenhuma força política está acima de Deus e da vontade soberana do povo.”

 

¨      Farra com o dinheiro público: Candidatos já receberam R$ 4,4 bilhões em recursos públicos, mostra parcial

Entre recursos públicos e privados, os candidatos a vereador e prefeito em todo o país já declararam ter recebido R$ 5,37 bilhões. Esse dinheiro, contudo, não chegou a todas as candidaturas. De acordo com levantamento do Congresso em Foco em parceria com a plataforma 72horas, só 58,5% dos postulantes a algum cargo eletivo informaram o recebimento de doações até o momento. Ou seja, 271.563 pessoas. Por lei, os candidatos precisam declarar o montante recebido em até 72 horas. Os números, no entanto, são parciais e devem sofrer alterações nos próximos dias.

Os recursos públicos predominam no financiamento das campanhas, com R$ 4,4 bilhões. Ao todo, R$ 4,3 bilhões do chamado fundo eleitoral foram repassados aos candidatos. De acordo com os números atualizados na última sexta-feira, 30,7% das candidaturas tinham recebido essa quantia. Outros R$ 90,5 milhões também tiveram origem pública, por meio do fundo partidário, que abasteceu apenas 1,13% dos concorrentes. Para este ano, estão reservados R$ 4,9 bilhões do fundo eleitoral e R$ 1,1 bilhão do fundo partidário. Isto é, R$ 6 bilhões em dinheiro público. Esses recursos devem ser usados no primeiro e no segundo turno onde houver.

Também foram aplicados R$ 916,9 milhões em recursos privados, com doações de pessoas físicas, autodoações e financiamento coletivo. Ao todo, 40,3% das campanhas declararam ter recebido alguma doação dessa natureza.

<><> Homens e brancos

O destino do dinheiro até agora às candidaturas é majoritariamente branco e masculino. De acordo com o levantamento, R$ 3,2 bilhões (60,39%) foram enviados para candidatos brancos. Pardos ficaram até agora com R$ 1,6 bilhão (30,73%). Pretos receberam R$ 428 milhões (7,9%). Indígenas, R$ 19,9 milhões (0,37%), mesmo montante destinado aos candidatos autodeclarados amarelos. Esta é a segunda campanha municipal em que o número de concorrentes negros (pretos e pardos) é predominante. Candidatos autodeclarados negros somam 52%. Brancos são 45,6%. Na eleição de 2016, 51,45% dos nomes registrados se autodeclaravam brancos. Mesmo em maioria, os candidatos negros receberam até agora 38,63% dos recursos declarados.

Em relação ao gênero, a distorção também prevalece. Os homens, que representam 66% das candidaturas, receberam R$ 3,9 bilhões (73,65%) até o momento. E as mulheres, que somam 34% das candidaturas, ficaram até agora com R$ 1,4 bilhão (26,35%).

Para Amanda Brito, estrategista e relações institucionais do 72horas, as distorções na distribuição dos recursos são promovidas pelos próprios partidos políticos.

“As candidaturas sempre nos questionam sobre quanto e quando receberão o valor do fundo eleitoral. A distribuição entre as candidaturas é definida pela regra criada pelo partido, respeitando a resolução. No entanto, de acordo com a estratégia político-eleitoral adotada pelo partido, pode ser que algumas candidaturas principalmente femininas e de pessoas negras não recebam nada ou uma quantia irrisória”, avalia. “O fato de a candidatura ter preenchido o formulário de solicitação para recebimento do fundo eleitoral não significa que será aprovado”, acrescenta.

Dono do maior eleitorado do país, o estado de São Paulo é responsável por 19,79% dos recursos recebidos pelos candidatos até agora. Pouco mais de R$ 1 bilhão foram destinados a candidaturas paulistas. As candidaturas mineiras receberam R$ 496 milhões, as fluminenses, R$ 434 milhões, as baianas, R$ 316 milhões, e as paranaenses, R$ 306 milhões.

<><> Campeões em financiamento

As campanhas mais caras, de acordo com as declarações prestadas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até o momento, são as dos candidatos à prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos (Psol) e Ricardo Nunes (MDB), postulante à reeleição. Boulos informou ter recebido R$ 50,6 milhões. Nunes, R$ 44 milhões. Em terceiro lugar aparece o candidato a prefeito do Rio de Janeiro Alexandre Ramagem (PL), com R$ 26 milhões. Ele é seguido pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), com R$ 21,3 milhões.

Nome controverso da disputa em São Paulo, Pablo Marçal (PRTB) não figura entre as campanhas mais caras, segundo declaração ao TSE. Marçal informou ter recebido até agora R$ 5,9 milhões. Todos de doações privadas.

Os candidatos à reeleição ficaram com 20,4% dos recursos até agora. Isso representa R$ 1,1 bilhão. As candidaturas a prefeito já receberam ao menos R$ 3 bilhões. Desse total, R$ 2,5 bilhões foram para homens.

<><> Fundos eleitoral e partidário

O Fundo Especial de Assistência Financeira aos Partidos Políticos, conhecido como fundo partidário, tem como finalidade auxiliar nas despesas cotidianas das legendas. Ele é formado por multas e penalidades financeiras, conforme estabelecido pelo Código Eleitoral e outras legislações pertinentes, além de recursos designados por lei. Também inclui doações de pessoas físicas realizadas diretamente em contas específicas e dotações orçamentárias da União. Neste ano, os partidos têm à sua disposição R$ 1,1 bilhão.

Conforme a legislação vigente, 5% do total do fundo partidário devem ser distribuídos igualmente entre todos os partidos com estatutos registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Os restantes 95% são repartidos proporcionalmente de acordo com os votos recebidos por cada partido na última eleição geral para a Câmara dos Deputados, respeitando as exigências da cláusula de desempenho.

O fundo eleitoral, ou Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), foi criado pelas Leis nº 13.487/2017 e 13.488/2017. Com a proibição das doações de pessoas jurídicas, determinada pelo Supremo Tribunal Federal, o fundo eleitoral se tornou uma das principais fontes de recursos para as campanhas eleitorais dos partidos. Neste ano, é composto por R$ 4,9 bilhões.

Os recursos do fundo eleitoral vêm de dotações orçamentárias da União em anos eleitorais. Eles são distribuídos da seguinte forma:

  • 2% igualmente entre todos os partidos;
  • 35% entre os partidos que têm pelo menos um deputado;
  • 48% entre os partidos, conforme o número de deputados;
  • 15% entre os partidos, proporcionalmente ao número de senadores.

<><> Veja a distribuição do fundo eleitoral entre os partidos este ano:

Partido – Valor
PL – R$ 886,8 milhões
MDB – R$ 404,3 milhões
PSD – R$ 420,9 milhões
PP – R$ 417,2 milhões
Republicanos – R$ 343,9 milhões
Podemos – R$ 236,6 milhões
PDT – R$ 173,9 milhões
PSB – R$ 147,6 milhões
PSDB – R$ 147,9 milhões
Psol – R$ 126,8 milhões
Cidadania – R$ 60,2 milhões
PCdoB – R$ 55,9 milhões
PV – R$ 45,2 milhões
Rede – R$ 35,9 milhões
Novo – R$ 37,1 milhões
Solidariedade – R$ 88,5 milhões
Avante – R$ 72,5 milhões
PRD – R$ 71,8 milhões
Democracia Cristã – R$ 3,4 milhões
Agir – R$ 3,4 milhões
Mobiliza – R$ 3,4 milhões
PCB – R$ 3,4 milhões
PCO – R$ 3,4 milhões
PMB – R$ 3,4 milhões
PRTB – R$ 3,4 milhões
PSTU – R$ 3,4 milhões
UP – R$ 3,4 milhões

Fonte: TSE

 

Fonte: Congress em Foco

 

A idade da turbulência: A família com adolescentes

A adolescência é uma fase de reconhecida vulnerabilidade para as famílias.

A família funcional, em princípio, terá capacidade em lidar com a adolescência dos filhos. No entanto, se se instala uma crise que poderá ser de ordem muito diversa, tal como a perda de alguém significativo ou o surgimento de uma doença grave incapacitante, o equilíbrio instável em que vive pode desmoronar-se.

A família é um espaço privilegiado onde o adolescente pode experimentar viver com o coração desarmado, sem necessidade de concorrer com os outros, e perceber que não perde nada com isso. A escola poderia também funcionar como um espaço onde esta aprendizagem fosse possível. Infelizmente, nem sempre consegue desempenhar esse papel.

Há quem compare a família à sinalização da estrada em dia de nevoeiro. Quando percorremos uma estrada já nossa conhecida, em dia claro, nem reparamos na sinalização. No entanto, ao percorrermos essa mesma estrada em dia de nevoeiro, quando o piso está escorregadio e não vemos dois palmos à frente do nariz, quanto agradecemos a sua presença!

As famílias vivem em equilíbrio precário entre os agentes stressantes e tensões, por um lado, e as suas capacidades e recursos, por outro. Ao longo da vida, com maior ou menor dificuldade, a família vai sendo capaz de se adaptar às múltiplas tensões e ao stress do dia a dia através dos próprios recursos e da capacidade em lidar com as situações difíceis, reencontrando sucessivamente novos equilíbrios. No entanto, quando uma crise se instala, há um desequilíbrio dos pratos da balança para o lado dos agentes stressantes. Voltar a reequilibrar a balança irá passar pelo reforço das capacidades.

Os técnicos de saúde poderão contribuir de um modo decisivo para esse reajuste, ajudando a encontrar um novo ponto de equilíbrio. No entanto, o técnico de saúde revela por vezes alguma dificuldade em passar de uma ótica individual para uma ótica familiar. Da nossa experiência, há situações complexas em que a utilização de modelos menos clássicos de intervenção, onde a ótica individual é substituída pela ótica familiar, se tem revelado bastante eficaz.

É incontestável que a maneira de educar afeta o desenvolvimento do adolescente. Importa que os pais concordem entre si no estilo educacional que pretendem para os seus filhos. O que os pais fazem é importante, mas também é importante o modo como o fazem. Os pais necessitam e desejam linhas orientadoras que os ajudem na tarefa de educar. O desafio está em descobrir maneiras de ajudar os pais a educarem com autoridade sem serem autoritários. Para educar é necessária uma tolerância firme que permita ir de encontro às necessidades reais do adolescente. A falta de limites não permite respeitar o outro como pessoa e dificulta o crescimento.

De que modo é que a família pode ser um fator protetor para o desenvolvimento do adolescente? Promovendo a autoestima, abolindo o discurso negativista, deixando que os sentimentos se expressem, para permitir dar espaço a que o adolescente descubra qual é o tipo de adulto que gosta para si. Se a uma reação agressiva do adolescente respondermos também de modo agressivo, gera-se um ciclo difícil de quebrar. Se, por outro lado, houver demasiada tolerância, sem definição de regras e limites, o adolescente vê-se privado de linhas orientadoras, o que irá prejudicar o seu desenvolvimento. Se o adulto conseguir não abdicar das suas responsabilidades parentais e procurar manter essa tolerância firme, o adolescente sairá beneficiado desta regulação.

Na sociedade atual, dada a grande diversidade de atitudes e valores parentais, será possível definir o que é uma boa prática em termos de modelo parental? Haverá modos de educar melhores do que outros?

Steinberg classificou os estilos parentais em quatro tipos de acordo com a sua distribuição por quatro quadrantes definidos em função de dois eixos, o eixo do grau de envolvimento parental e o da capacidade em estabelecer regras e limites.

1 – Estilo Autoritário, quando os pais estabelecem limites com firmeza, mas são desligados e distantes;

2 – Estilo Com Autoridade, quando são predominantemente afetivos e conectados, mas simultaneamente firmes e consistentes no estabelecimento e reforço das linhas orientadoras e dos limites;

3 – Estilo Permissivo, quando também são afetivos mas os limites são ténues e inconsistentemente definidos;

4 – Estilo Desligado, quando predominam a falta de laços, o distanciamento e os limites são mal definidos.

Há evidência, baseada em múltiplos estudos longitudinais, que os adolescentes beneficiam em serem educados segundo um modelo com autoridade, que se associa a melhores resultados psicossociais, torna mais fácil o processo de autonomização, permite melhores resultados escolares, uma autoestima e saúde mental mais estáveis e positivas. Adolescentes educados segundo este modelo revelaram resultados mais positivos em todos os indicadores psicológicos de saúde estudados.

Tudo indica também que os pais cujo estilo educacional predominante é o ‘com autoridade’ têm expectativas mais adequadas face ao adolescente e encorajam-no a desenvolver as suas próprias opiniões, colocando-o assim em melhor posição para uma real autonomia psicológica. No outro extremo, os adolescentes que tenham experienciado modelos parentais desligados, inconsistentes e ativa ou passivamente hostis estão no máximo de risco para problemas escolares, comportamentos problemáticos, consumo de álcool e outras drogas, delinquência e funcionamento psicológico global mais precário.

Ao conduzirmos a entrevista clínica em Medicina do Adolescente tentamos sempre perceber com quem é que o adolescente vive, como são as relações no seio da família, se existem relações particularmente conflituosas, quem é a pessoa de referência. De seguida, procede-se à delineação do problema, análise das soluções já tentadas, definição da mudança concreta a efetuar e formulação e aplicação de um plano para obter a mudança.

Em termos de prevenção primária, temos essencialmente dois objetivos: ajudar a família a entrar numa fase nova do ciclo de vida e ajudar o adolescente a realizar as tarefas da adolescência.

Na prevenção secundária, temos como objetivos fazer a deteção precoce de quadros psicopatológicos e proceder a um encaminhamento e seguimento adequados.

É um desafio para os cuidados de saúde sermos capazes de construir um modelo mais flexível e maleável em que o relacionamento com a equipa seja construído em função das necessidades reais do adolescente e da família. Urge descobrir abordagens inovadoras que nos permitam ir ao encontro das reais necessidades das famílias.

 

Fonte: Pela pediatra Helena Fonseca, em 7Margens