Por
que animais 'sem carisma' correm mais risco de extinção
Ao
abrir uma caixa de madeira com um filhote de cascavel, quando tinha entre 10 e
12 anos, Breno Almeida não imaginava que ali também se abria seu próprio
destino.
Ele era
uma criança em Goiás com uma curiosa fascinação por serpentes. E cresceu
escutando que esses animais eram perigosos e que deveria ter medo — o que só
aumentava sua vontade de saber mais sobre eles.
Ao ir
para o zoológico fazer a entrega da cascavel resgatada pelo pai, Breno se
lembra de ter pensado: "Eu quero ter vários bichos desses para cuidar, e o
povo não matar, fazer uma espécie de zoológico de cobras".
Hoje,
ele é biólogo e diretor do Centro Amazônico de Herpetologia, no Pará, que tem
como uma de suas propostas mudar a visão negativa que as pessoas têm sobre
determinados animais, como as serpentes — algo que tende a prejudicar sua
conservação.
O
centro funciona como zoológico e recebe diferentes animais machucados que não
podem retornar para seu habitat, inclusive mamíferos e aves, mas o foco são as
serpentes e anfíbios. O espaço é também um criadouro comercial para venda de
veneno das serpentes.
Milena
Almeida, bióloga responsável técnica pelo centro e esposa de Breno, conta que
muitos visitantes chegam ao local com a visão de que todas as cobras são
peçonhentas, o que traz sensação de repulsa pelos animais. Por isso, o local
oferece visitas guiadas e interação sensorial com esses animais para quebrar
estigmas em relação a eles.
Almeida
explica que as serpentes fazem parte da chamada fauna não carismática, apelido
dado aos animais que não costumam ter muita simpatia da população — e atraem
pouco financiamento para pesquisas.
Espécies
carismáticas não têm sua conservação garantida e sua perpetuação pode enfrentar
diversos desafios, mas estudos mostram que animais que não detêm o apreço
público tendem a receber menos recursos, além de serem menos pesquisados e um
alvo mais comum da população.
Um
estudo publicado em 2025 na revista Proceedings of the National Academy of
Sciences (Pnas) mostra que a distribuição de financiamento da conservação de
espécies não costuma se basear na ameaça de extinção, e sim em seu carisma e
tamanho.
Os mais
beneficiados são os mamíferos de grande porte.
De US$
1,9 bilhão voltado para medidas de conservação, US$ 1,6 bilhão vai para os
animais vertebrados. Isso corresponde a 84% do total. Aos invertebrados, grupo
que inclui, por exemplo, insetos, aracnídeos, moluscos, restam 6,6%.
Entre
os vertebrados, de 70% a 85% dos recursos ficam restritos a pássaros e
mamíferos. Os répteis, grupo ao qual pertencem as cobras, receberam 5,8% do
total para os vertebrados.
A
distribuição de pesquisas científicas entre grupos de animais também apresenta
viés, mostra um artigo publicado na revista Nature em 2017. Conhecer as
espécies é parte fundamental para construção de medidas de conservação.
O
estudo dividiu 626 milhões de ocorrências no Sistema Global de Informação sobre
Biodiversidade (GBIF), portal de dados abertos sobre biodiversidade, em 24
grupos diferentes de animais.
O
trabalho concluiu que mais da metade das ocorrências eram sobre aves, embora
elas representem apenas 1% das espécies catalogadas no portal. Os aracnídeos
têm três vezes mais espécies, mas representaram apenas 2,17 milhões de
ocorrências, uma das menores dentro do GBIF.
Os
répteis, por sua vez, apareceram em 5 milhões de ocorrências, enquanto os
anfíbios, em 3,9 milhões. Os antozoários, que agrupam corais e anêmonas, foi o
grupo que menos apareceu, com 1 milhão de ocorrências.
Animais
não carismáticos também têm maiores chances de sofrerem atropelamentos.
Um
estudo brasileiro publicado em 2014 fez um experimento com aranhas, serpentes,
pintos e, no grupo de controle, folhas. Foram utilizados modelos de plásticos
realistas dos animais, que foram colocados em áreas com menor tráfego de três
rodovias diferentes.
As
taxas de atropelamento das aranhas e das serpentes foram maiores até do que das
folhas. Isso indica, segundo o estudo, que há certa intencionalidade no
atropelamento dos dois animais. Os pintos foram os únicos resgatados por
humanos.
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Anfíbios à beira de extinção
Quando
se fala em anfíbios, a visão negativa sobre eles resulta em maus-tratos e uso
desses animais em rituais e superstições, conforme estudo realizado pelo
professor Luis Felipe de Toledo Ramos Pereira, coordenador do Laboratório de
História Natural de Anfíbios Brasileiros da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp).
"Que
nem o caldeirão da bruxa, o que você vai pôr no caldeirão da bruxa? Não é asa
de morcego, pata de barata, perna de sapo?", pondera.
A
sensação de parte da sociedade em relação aos anfíbios é de nojo e medo.
O
estudo de Toledo, publicado em 2024, encontrou sapos-cururu mutilados e com a
boca colada ou costurada. As práticas não estavam ligadas a nenhuma religião em
particular.
De
acordo com trabalho do Pnas, os anfíbios receberam 2,5% do financiamento
recente de conservação entre os vertebrados. Isso representa uma queda de 4% em
comparação com a década de 90.
Mas 40%
de suas espécies estão em risco de extinção, como mostra um levantamento
publicado na revista Nature de 2023 — o que os coloca como a classe de
vertebrados mais ameaçada.
Perda
de habitat, doenças e mudanças climáticas estão entre as principais causas para
o desaparecimento dos anfíbios.
Toledo
conta que alguns fatores os tornam mais vulneráveis a pressões antrópicas
(decorrente das interferências causadas pela ação humana sobre o meio
ambiente). Por exemplo, anfíbios passam a vida na água e na terra.
"Com
qualquer impacto no ambiente terrestre ou no aquático, você está afetando a
mesma espécie", diz.
A
permeabilidade da pele também os deixa mais expostos à poluição.
Com o
intuito de aumentar a valorização e a visibilidade desses animais, Toledo
articulou a tramitação de dois Projeto de Lei (PL) na Câmara dos Deputados sob
autoria do deputado Nilto Tatto (PT-SP).
O PL
2585/2024 institui o dia 7 de maio como o Dia Nacional dos Anfíbios e, desde
maio de 2025, está na Comissão da Cultura. Já o PL 5977/2023 põe o sapo-cururu
como o Anfíbio Nacional do Brasil e aguarda designação de relator na Comissão
de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) desde de julho de 2024.
O
professor avalia que os PLs estão parados porque, apesar da simplicidade das
matérias, questões ambientais no Brasil não são prioridade no Congresso
Nacional.
Para
Toledo, um dos pontos que atrasa a conservação dos animais não carismáticos é o
menor financiamento privado. Ele pondera que, para investimento público, o que
importa é o rigor técnico do projeto, mas na iniciativa privada o carisma da
fauna têm maior peso.
Apesar
da conservação dos animais carismáticos também ser importante, os recursos
destinados são desproporcionais.
"Está
para nascer um corajoso para financiar um projeto de anfíbios com bastante
dinheiro que nem eles fazem com onça", acrescenta.
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Desigualdade entre os mamíferos
Entre
mamíferos, os de grande porte representam um terço das espécies da classe em
algum nível de ameaça de extinção, mas recebem 86% do financiamento.
Os
morcegos, junto com roedores e ouriços, são o lado oposto dessa disparidade.
A
pesquisadora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Elizabete
Lourenço, coordenadora adjunta do projeto Morcegos na Praça, diz que o
desconhecimento sobre os morcegos, somado aos hábitos noturnos do animal, geram
um desconforto nas pessoas.
Também
há a associação de morcegos a doenças, o que já acontecia em razão da raiva —
da qual o morcego pode ser o transmissor —, mas cresceu com a covid-19.
A visão
negativa sobre esses animais propicia que eles sejam mortos ao causar um
simples incômodo, como barulho nos telhados das casas.
Para
reduzir o estigma, o projeto Morcegos na Praça vai até diferentes praças e
salas de aula do país para explicar que os morcegos ajudam na dispersão de
sementes, no controle de pragas e que podem, sim, ser "fofinhos".
As
pessoas também têm a chance de tocar em morcegos empalhados levados pelos
pesquisadores.
O
projeto, que começou em 2013, já foi para Ceará, São Paulo e Goiás, e criou até
mesmo um mascote, chamado Arturitus — baseado na espécie real Artibeus
lituratus, comum em parte do Rio de Janeiro — para gerar simpatia pelo animal.
Lourenço
conta que a mudança do pensamento das pessoas sobre os animais com o projeto é
perceptível. Nem todos passam a ver os morcegos como bonitos, mas ao menos
passam a entender a importância do animal.
"Realmente,
as pessoas têm medo, e o medo não é algo racional, não é um medo baseado em
fatos. É um medo associado a essa percepção ambiental cultural de animais que
são desconhecidos", analisa.
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Usar ou não outras espécies carismáticas para proteger as demais?
Uma das
estratégias usadas para reduzir o estigma de certas espécies é se valer da
popularidade e da atração do público da fauna carismática para preservar o
habitat do restante dos animais.
Luis
Felipe de Toledo Ramos Pereira, entretanto, rejeita a estratégia. O professor
argumenta que as causas que ameaçam as espécies tendem a não ser as mesmas e
precisam de diferentes remédios.
"Se
você não fizer nada contra o aquecimento global, você não está ajudando os
anfíbios", exemplifica.
Milena
Almeida, do Centro Amazônico de Herpetologia, concorda que focar em animais
carismáticos para proteger os demais tem limitações. Mas pondera que há uma
diferença entre o ideal e o possível.
Muitas
pessoas vão ao centro, cuja parte significativa da receita vem de ingressos,
com a intenção de conhecer os mamíferos e as aves, mas se deparam com os
répteis.
A
reação inicial dos visitantes com esses animais tende a ser de medo e rejeição,
mas ela conta que após as explicações e a interação sensorial, que permite aos
visitantes tocarem no animal, as pessoas acabam mudando de visão.
Fonte:
BBC News Brasil

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