Oriente
Médio estaria a caminho de ter uma "Otan islâmica"?
Não
havia muito o que o Catar pudesse fazer em relação aos mísseis balísticos que
Israel disparou em Doha no dia 9 de setembro, quando cerca de 10 caças
israelenses sobrevoaram o Mar Vermelho, sem cruzarem o espaço aéreo de nenhum
outro país, antes de colocarem a ação em prática. Um ataque considerado
"além do horizonte".
Mísseis
balísticos viajam até a atmosfera ou até mesmo ao espaço sideral antes de
voltarem à Terra. O alvo dos mísseis israelenses eram membros do grupo Hamas,
reunidos para discutir um possível cessar-fogo em Gaza, em um bairro nobre da
capital Doha. Seis pessoas foram mortas, embora, aparentemente, não fossem os
alvos de Israel.
Como os
mísseis surgiram inesperadamente, o Catar pouco pôde fazer para se defender. A
verdade é que uma das salvaguardas mais importantes do país contra Israel não
tem ligação com sofisticados sistemas de defesa antiaéreos. O maior aliado
israelense, os EUA, têm sua maior base regional no país e recentemente concedeu
ao Catar o status de "grande aliado não membro da Otan".
Mas nem
isso parece ter sido suficiente para impedir Israel de realizar seu primeiro
ataque conhecido a um Estado árabe do Golfo, uma ação sobre a qual os EUA
provavelmente teriam que saber.
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EUA são vistos como pouco confiáveis
"O
ataque israelense abala as premissas do Golfo sobre suas relações com os EUA, e
esses países se aproximarão ainda mais. Essas monarquias petrolíferas são muito
semelhantes… Um ataque tão direto à sua soberania e segurança é um anátema para
todas elas", escreveu Kristin Diwan, pesquisadora do Instituto dos Estados
Árabes do Golfo, em Washington, logo após o ataque.
Como
resultado, "os governantes dos países do Golfo buscam maior autonomia
estratégica e estão cada vez mais determinados a se proteger contra os riscos
de depender dos EUA", reiterou Sanam Vakil, diretora do programa do
Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, em um artigo publicado neste
mês no jornal britânico The Guardian.
Devido
a tudo isso, nas últimas semanas, tem-se falado cada vez mais sobre a formação
de uma "Otan islâmica", uma aliança de defesa entre países islâmicos
e árabes que poderia funcionar de maneira semelhante à Organização do Tratado
do Atlântico Norte.
Em uma
cúpula de emergência organizada na semana passada pela Liga Árabe e pela
Organização da Cooperação Islâmica, autoridades egípcias sugeriram a criação de
uma força-tarefa conjunta para as nações árabes, semelhante à Otan.
Durante
um discurso, o primeiro-ministro iraquiano, Mohammed Shia al-Sudani, também
pediu uma abordagem coletiva para a segurança regional. E os seis membros do
Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) – Bahrein, Kuwait, Omã, Catar, Arábia
Saudita e Emirados Árabes Unidos – disseram que ativariam uma cláusula de um
acordo conjunto de defesa, assinado pela primeira vez em 2000, que dizia que um
ataque a um Estado-membro era um ataque a todos – uma formulação semelhante ao
artigo 5.º da Otan.
Após a
cúpula emergencial, os ministros da Defesa dos Estados do Golfo realizaram
outra reunião em Doha e concordaram em aprimorar o compartilhamento de
informações e os relatórios sobre a situação aérea, bem como em acelerar a
criação de um novo sistema regional de alerta de mísseis balísticos. Também
foram anunciados planos para exercícios militares conjuntos.
Na
mesma semana, a Arábia Saudita anunciou um "acordo estratégico de defesa
mútua" com o Paquistão, declarando que "qualquer agressão contra um
dos dois será considerada uma agressão contra ambos".
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Início da "Otan islâmica"?
De
acordo com especialistas entrevistados pela DW, pode parecer, em um primeiro
momento, que o Golfo Pérsico está mesmo formando uma espécie de "Otan
islâmica" para combater Israel, mas a realidade é um pouco diferente.
"Uma
aliança no estilo da Otan não é realista porque envolveria os países do Golfo
em guerras que eles não consideram vitais para seus próprios interesses. Nenhum
governante do Golfo quer ser arrastado para um confronto com Israel em nome do
Egito, por exemplo", avalia Andreas Krieg, professor sênior da Escola de
Estudos de Segurança do King's College de Londres.
Os
observadores acreditam, no entanto, que as coisas estão mudando após o ataque
em Doha.
"A
segurança no Golfo tem se baseado há muito tempo em uma lógica tributária, [em
que] basicamente você paga alguém para cuidar da sua proteção. Após o ataque em
Doha, essa mentalidade está começando a mudar, mas apenas lentamente",
argumenta Krieg.
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"Formato 6+2"
Em vez
de uma "Otan islâmica", o que o mundo poderá ver é o chamado
"formato 6+2", explica Cinzia Bianco, especialista em países do Golfo
no think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR). A expressão
"6+2" refere-se aos seis países do CCG, mais a Turquia e o Egito.
Bianco
acredita que esse formato provavelmente é discutido nos bastidores da
Assembleia Geral das Nações Unidas nesta semana.
"No
entanto, não se trata realmente de um acordo como o Artigo 5. É mais provável
que se trate de coletivizar as posturas de segurança e defesa e, talvez o mais
importante, enviar uma mensagem de dissuasão a Israel", diz, alegando que
o compromisso dos Estados do Golfo com a defesa mútua não é tão sólido quanto o
dos membros da Otan.
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Ajuda militar de outros lugares
Conforme
Krieg, o "6+2" faz mais sentido do que uma "Otan islâmica"
porque a Turquia é "o parceiro não ocidental mais confiável para o Golfo,
com tropas já estacionadas no Catar desde 2017 e capacidade real de agir
rapidamente em caso de crise. O Egito, porém, é mais complicado. O país tem
força militar, mas sua confiabilidade é questionada em algumas capitais do
Golfo", argumenta.
E mesmo
que um formato "6+2" esteja nos planos, isso acontecerá de forma
lenta e discreta, observam Krieg e Bianco.
"A
maioria das mudanças significativas ocorrerá nos bastidores. Veremos
comunicados públicos, cúpulas e exercícios conjuntos. Mas o trabalho essencial,
como o compartilhamento de dados de radar, a integração de sistemas de alerta
precoce ou a concessão de direitos de base, permanecerá discreto", prevê
Krieg.
Também
é possível que os países do Golfo, que têm dependido amplamente dos EUA, tentem
expandir os laços de defesa com outros países.
"Há
outros atores, como Rússia e China, que estão dispostos a substituir os EUA.
Mas é improvável que qualquer ator externo substitua os americanos da noite
para o dia", afirma Sinem Cengiz, pesquisadora do Centro de Estudos do
Golfo da Universidade do Catar.
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Dependência americana
De
qualquer forma, não há como os Estados do Golfo quererem isso, acrescenta
Bianco. Eles continuam dependentes da tecnologia militar dos EUA. Por exemplo,
após o ataque a Doha, o Catar buscou garantias dos EUA de que eles ainda eram
seus parceiros.
"Uma
observação importante aqui é que os EUA nunca se opuseram abertamente a esse
tipo de regionalização da defesa. Na verdade, eles sempre incentivaram uma
arquitetura única de defesa antimísseis balísticos para os países do
Golfo", ressalta Bianco.
Na
verdade, uma maior integração militar no Golfo poderia significar mais presença
dos EUA, pois os sistemas americanos são a espinha dorsal da defesa na região,
explica Krieg.
"Mas
o significado político mudou. Washington não é mais vista como a garantia
máxima de segurança, mas como uma parceira cujo apoio é condicional e
transacional. Os líderes do Golfo estão se adaptando à ideia de que os EUA têm
interesses, em vez de aliados, e estão buscando um polo de segurança liderado
pelo próprio Golfo, um meio-termo entre Irã e Israel", conclui o
especialista.
Fonte:
DW Brasil

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