Nos
200 anos da independência do Brasil, conheça mitos e verdades sobre o 7 de
setembro
O 7 de
setembro deste ano marca 202 anos da Independência do Brasil, proclamada em
1822 por Pedro de Alcântara, quarto filho do rei de Portugal, Dom João 6º, que
havia retornado a Portugal no ano anterior.
Pedro
de Alcântara foi deixado no Brasil como o Príncipe Regente. Em quadros e livros
de história, ele costuma ser retratado como um herói que bradou por liberdade
às margens do riacho Ipiranga.
“A
mitologia por trás do processo de independência foi importante para legitimar a
identidade nacional brasileira. Ao longo do século 19, principalmente, havia a
preocupação de elevar o Brasil em comparação às repúblicas vizinhas”, diz
Alberto Luiz Schneider, professor do Departamento de História da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), em entrevista à National
Geographic.
A
construção dessa mitologia vai desde detalhes, como o animal que D. Pedro
montava no dia da proclamação, até o passo a passo do próprio processo de
independência.
Porém,
mais de 200 anos depois, especialistas apontam o que provavelmente é mito e o
que pode ser verdade sobre a Independência do Brasil.
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O quadro Independência ou Morte! tem
mais ficção que realidade
"Independência
ou Morte!", a enorme tela a óleo de 4,15 metros de altura por 7,60 metros
de comprimento pendurada no Museu do Ipiranga, foi pintada pelo brasileiro
Pedro Américo. Até hoje, a obra é responsável por alimentar o senso comum sobre
a Independência do Brasil.
Pedro
Américo pintou D. Pedro montado a cavalo, com espada em punho, e rodeado por
uma comitiva que incluía integrantes da guarda real – todos também em seus
cavalos. Em um ato teatral, o príncipe regente proclama a independência de
forma heróica. Historiadores, no entanto, explicam que não foi bem assim que o
ato da separação oficial entre Brasil e Portugal aconteceu.
“Américo
pegou elementos dos relatos que aconteceram em 1822 e os usou como inspiração
para montar a cena, cuja função era elevar os símbolos da monarquia e da
proclamação da independência”, diz Schneider. Isso explica porque alguns
elementos da pintura diferem de fatos históricos.
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populares
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Grito de Independência: D. Pedro não montava cavalo
“O momento da proclamação acontece na volta de
uma viagem que D. Pedro fazia de São Paulo a Santos, na qual passava pela Serra
do Mar. Cavalos não seriam uma escolha apropriada para este terreno”, explica
Jorge Pimentel Cintra, engenheiro especializado em cartografia histórica da
Escola Politécnica e do Museu Paulista, em entrevista à reportagem.
Isso
porque, segundo estudos de Cintra, o trajeto de São Paulo à Baixada Santista,
na época, passava por um caminho de pedra conhecido como Calçada do Lorena, a
primeira ligação pavimentada entre São Paulo e o litoral paulista, construída
por rochas trabalhadas a mão.
“Por
não ser uma estrada plana, as mulas eram o meio mais seguro de subir a Serra do
Mar”, complementa o pesquisador. Relatos da época, segundo o historiador,
mencionam o uso de mulas para esse trecho e não indicam que a comitiva tenha
trocado de animais durante a viagem.
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Onde ocorreu a independência do Brasil?
Estudos
cartográficos recentes realizados por Cintra e uma equipe de pesquisadores do
Museu Paulista (instituição ligada à Universidade de São Paulo que se dedica a
pesquisas históricas sobre o estado) mostram que do local do chamado Grito do
Ipiranga, supostamente às margens do Ipiranga, talvez nem se pudesse ver o rio.
“Pedro
Américo avisou, à época (pintou o quadro 66 anos depois da proclamação), que a
cena real da proclamação da independência não era assim, mas julgou necessário
incluir o rio porque ficava mais bonito e era um símbolo relevante”, diz
Cintra.
A
localização mais exata vem de um estudo publicado por Cintra em dezembro de
2021, na revista Anais do Museu Paulista. O local exato da proclamação da
independência seria onde hoje fica a pista de skate do Parque do Ipiranga, a
405 metros do rio.
Para
encontrar a posição certa, Cintra examinou pinturas, fotos, relatos e mapas
antigos. Também foi a campo equipado com trena, bússola e GPS, para medir com
precisão a distância entre o riacho do Ipiranga, hoje canalizado, com o local
do Grito.
“Em 2
de julho de 1823, o ‘exército’ libertador, que havia expulsado os portugueses,
entrou vitorioso em Salvador. Por isso a data é comemorada na Bahia, até mais
do que o 7 de setembro. ”
por
Alberto Luiz Schneider
professor
do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
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D. Pedro realmente falou “Independência ou morte”?
A
famosa frase “Independência ou morte”, que teria sido dita por D. Pedro ao
bradar pela independência, é uma das citações históricas mais conhecidas no
Brasil. Mas será que realmente aconteceu?
Afinal,
em sua Carta Dirigida aos Paulistas (documento de 8 de setembro de 1822 em que
o príncipe fala sobre o episódio do dia anterior aos cidadãos da Província de
São Paulo), Pedro de Alcântara não deixou nenhum registro específico sobre o
que disse.
“Ao
contrário do que se imagina, a proclamação do príncipe na colina do Ipiranga
não teve repercussão no momento de sua ocorrência, (...) nem mereceu acolhida
especial da parte dos jornais que circulavam na Corte do Rio de Janeiro e em
outras regiões do então Reino do Brasil”, esclarece Cecília Helena Lorenzini de
Salles Oliveira, historiadora e pesquisadora do Museu Paulista, no artigo O
Museu Paulista da USP e a Memória da Independência.
Para
Jorge Cintra, apenas os relatos de quem estava lá podem atestar o que gritou o
príncipe. “Temos que recorrer a quem estava presente no momento do ‘grito’.
Como fontes principais, temos os documentos de homens de confiança de D. Pedro,
que o acompanhavam na comitiva”, diz Cintra.
Entre
essas declarações que o historiador menciona, está a do coronel Manuel
Marcondes de Oliveira e Melo, barão de Pindamonhangaba e comandante da guarda
de honra do príncipe. Seu relato teatral aparece no livro História do
Brasil-Reino e Brasil-Império, de 1871, do historiador Alexandre José de Mello
Moraes.
“Diante
da guarda, que descrevia um semicírculo, com a espada desembanhada [o Príncipe
Regente], bradou: ‘Amigos! Estão, para sempre, quebrados os laços que nos
ligavam ao governo português! E bradou ainda o príncipe: ‘Será nossa divisa de
ora em diante: Independência ou morte!’”, afirma o documento.
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O Brasil corria o risco de voltar a ser colônia de Portugal?
“A independência se deu por fatores
distendidos no tempo. Não temos como pensar só em 1822, muito menos só no 7 de
setembro”, afirma o professor Alberto Schneider, afastando a ideia de que o
objetivo principal do Grito do Ipiranga era o de evitar o controle do
território por Portugal após a saída de D. João 6° do Brasil.
Entretanto,
a insatisfação com os planos portugueses para o futuro da ex-colônia teve, sim,
um grande peso. “As cortes portuguesas queriam ter novamente o monopólio
comercial, tirando muitas vantagens que o Brasil tinha conquistado desde a
vinda da família real, em 1808, e a abertura dos portos para outras
nações", explica Schneider.
Para
ligar esse fato com a independência, no entanto, primeiro é preciso entender o
contexto da época. Em 1822, o Brasil tinha status de reino e era uma nação em
crescimento, principalmente pela possibilidade de comercializar, por exemplo,
com a Inglaterra, a grande potência comercial do mundo na época.
“As
medidas que criaram o Reino de Portugal, Brasil e Algarve também ajudaram a
reduzir ímpetos revolucionários em território brasileiro, que via muitos de
seus vizinhos latino-americanos (como México e Argentina) se separarem de suas
metrópoles”, diz Schneider.
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O que foi o Dia do Fico e sua relação com a independência do Brasil
Além
das influências independentistas de outras colônias europeias na América, a
presença da família real no Brasil começou a incomodar a elite portuguesa que
estava na Europa. “Em Portugal, acontece a Revolução Liberal do Porto, em 1820,
responsável por instaurar as Cortes Portuguesas. A partir daí, elas passaram a
exigir, de imediato, que o rei D. João 6° retornasse a Lisboa e que o monopólio
comercial fosse novamente instaurado no Brasil”, explica Schneider.
O rei
acabou voltando em 1821, mas cortes também exigiam que o príncipe retornasse,
algo que não agradava as elites no Brasil.
“Com
uma relação super desgastada, as elites brasileiras – que incluíam portugueses
que residiam no Brasil – organizaram um abaixo-assinado para que o príncipe
permanecesse”, conta Schneider.
Em 9 de
janeiro de 1822 – data conhecida como o Dia do Fico – D. Pedro anuncia
publicamente que desobedeceria a ordem das cortes portuguesas e permaneceria no
Brasil. Para Jorge Cintra, esse episódio já anunciava a separação efetiva entre
Brasil e Portugal.
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Quem primeiro proclamou a independência foi Maria Leopoldina
O
processo para o Brasil desvincular-se de Portugal teve mais fatores do que
apenas o momento no Ipiranga. O estopim, porém, está no que aconteceu em 7 de
setembro.
Segundo
Jorge Cintra, Pedro e seu séquito estavam em uma colina próxima ao riacho do
Ipiranga quando dois mensageiros chegaram com cartas vindas de Portugal e do
Rio de Janeiro.
“O
príncipe recebeu um conjunto de cartas. As mais importantes são as das cortes
portuguesas, a de sua esposa Maria Leopoldina – que no momento era princesa
regente interina – e a de José Bonifácio, assessor e ministro de D. Pedro”,
conta Cintra.
Nas
cartas, as cortes exigiam, “de forma injuriosa”, a volta de Pedro de Alcântara
a Portugal. “Nas cartas o chamavam de ‘rapazinho’, de ‘brasileirinho’, como uma
gozação, uma ofensa", afirma Cintra. "Isso causou uma irritação em D.
Pedro, que fez ele reagir como se dissesse: ‘Eles vão ver com quem estão
mexendo’.”
Em
resposta aos pedidos, a carta de Maria Leopoldina, arquiduquesa da Áustria e
primeira esposa de D. Pedro, informa que ela, como chefe interina, havia
presidido uma reunião do Conselho de Ministros e assinado o Decreto da
Independência, declarando o Brasil separado de Portugal. “Ainda era necessário
que D. Pedro sancionasse a resolução da esposa, mas, na teoria, o Brasil já era
independente ali”, destaca Cintra.
Já a
carta de Bonifácio para D. Pedro, preservada na íntegra no Museu Paulista,
mostra que o próprio Príncipe Regente dificilmente voltaria atrás no que já
havia sido decidido pelo Conselho. "Senhor. O dado está lançado: de
Portugal não temos a esperar senão escravidão e horrores. Venha Vossa
Excelência Real quanto antes e decida-se, porque irresoluções, e medidas d'água
morna, à vista deste contrário que não nos poupa”, diz um trecho do documento.
“Não
fosse a chegada das cartas naquele momento, talvez D. Pedro não tivesse
proclamado a independência. Mas pode-se dizer que elas foram, definitivamente,
a gota d’água”, comenta Cintra.
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A independência do Brasil não foi pacífica
De
acordo com Schneider, a ideia de uma independência sem conflitos foi construída
ao longo do tempo, mas a separação com Portugal gerou conflitos violentos antes
e depois do 7 de setembro.
“Essa
ideia faz parte da mitologia construída, principalmente para fazer frente às
repúblicas latino-americanas vizinhas que tiveram processos muito conflituosos
e se fragmentaram em vários países depois da separação de suas metrópoles”,
conta Schneider.
Um
exemplo é o Vice-Reino do Rio da Prata, que se dividiu entre a Argentina,
Paraguai e Uruguai depois dos processos de separação da Espanha.
Segundo
o historiador, por trás dessa aparente tranquilidade havia um raciocínio de
mostrar que a unidade nacional brasileira foi construída pacificamente por
conta da monarquia. Entretanto, existiram muitos conflitos, principalmente no
Norte e Nordeste do território brasileiro e, em especial, na Bahia”, diz
Schneider.
“A
Bahia tinha movimentação comercial quase tão grande quanto o Rio de Janeiro,
que era a capital do Brasil. E por ser mais próxima de Portugal em distância,
Salvador era uma cidade muito importante."
Quando
fica claro para as cortes portuguesas que a independência está a caminho,
tropas são direcionadas para a Bahia a fim de “salvar pelo menos uma parte do
território”, explica Schneider. É dessa forma que a situação evolui para um
conflito armado.
O
conflito na Bahia, que ficou conhecido como Guerras da Independência, envolveu
atores de todas as classes presentes no estado na época. “Senhores de engenhos,
grupos pobres intermediários, em geral mestiços e até mesmo escravizados foram
mobilizados numa guerra contra os portugueses”, afirma Schneider.
A
guerra durou um ano e cinco meses, e envolveu de 10 a 15 mil soldados de cada
lado, causando mais de duas mil mortes em combate. Seu fim, até hoje, é motivo
de comemoração no estado baiano.
“Em 2
de julho de 1823, o ‘exército’ libertador, que havia expulsado os portugueses,
entrou vitorioso em Salvador", diz ele. "Por isso a data é comemorada
na Bahia, até mais do que o 7 de setembro.”
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Há duas datas para a independência do Brasil
Dias
depois do Grito do Ipiranga, D. Pedro já estava no Palácio Real, no Rio de
Janeiro, onde foi dado continuidade ao processo de Independência.
“Mas a
independência formal mesmo não foi ali. Aconteceu todo um processo, desde a
convocação da Constituinte até a assinatura do tratado de reconhecimento por
Portugal”, conta Schneider. Logo após o rompimento em 7 de setembro, D. Pedro
começa a construir um polo de poder no Rio de Janeiro. “Seu primeiro passo foi
convocar uma assembleia nacional constituinte."
“A
ideia dessa assembleia era construir uma unidade nacional. Nesse momento, o
Brasil precisava de um governo centralizado e forte, que pudesse sufocar
possíveis movimentos separatistas”, conta Schneider, que ressalta a importância
de José Bonifácio nessa época. “A concepção da ideia de Brasil pode ser
atribuída a ele."
A
partir dessa assembleia, em março de 1824, D. Pedro outorga a primeira
Constituição do Brasil Império, já considerando o país como uma nação
totalmente independente. Entretanto, segundo Schneider, o Brasil só foi
reconhecido como tal em agosto de 1825.
“Esse
reconhecimento internacional só acontece depois de uma aliança feita entre o
Brasil, Portugal e Inglaterra, na qual a corte portuguesa aceita a
independência mediante alguns termos”, diz Schneider.
Portugal
assinou o acordo de reconhecimento mediante uma indenização de 2 milhões de
libras esterlinas e da concessão a D. João 6° do título de Imperador Honorário
do Brasil. “E esse valor será ‘emprestado’ pela Inglaterra, que trabalhou como
mediadora dessa relação entre a ex-colônia e a metrópole movida pelo interesse
comercial em um Brasil independente”.
Por
isso, em algumas historiografias, principalmente estrangeiras, a data de
independência do Brasil pode aparecer como 1825, ao invés de 1822. “Mas, do
ponto de vista brasileiro", defende Schneider, "o 7 de setembro
continua, é claro, como a data mais relevante.”
Fonte:
National Geographic Brasil

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