Kennedy
Jr X Big Pharma: quem mata mais na Casa Branca?
A
dinastia Kennedy da Nova Inglaterra, como costumam ser as dinastias, tem gente
de todo tipo. Certamente, o seu membro mais estranho é o filho de Robert
Kennedy, Procurador Geral dos Estados Unidos assassinado em 1968. Robert F.
Kennedy Jr. (71 anos), quarto dos 11 filhos do falecido procurador e atual
Secretário (ministro) da Saúde do governo Trump, possui uma biografia muito
peculiar. Na adolescência e início da vida adulta foi viciado em heroína e
outras drogas ilegais, tendo sido preso por porte de heroína aos 29 anos e
internado por medida judicial para livrar-se da adição. Seu irmão imediatamente
posterior, David Anthony, morreu de uma overdose aos 29 anos, em 1984.
Superada
essa fase, o atual secretário abraçou a política e dedicou-se a uma pauta de
defesa do meio ambiente, em particular na luta contra a poluição da água
consumida pela população. Também defendeu os pescadores do Rio Hudson atacando
as indústrias que o poluíam prejudicando as atividades pesqueiras. Pode-se,
portanto, afirmar que em todo esse período suas causas estiveram alinhadas ao
campo progressista nos termos dos EUA. De resto, a dinastia Kennedy como um
todo esteve quase sempre alinhada com o Partido Democrata.
As
razões pelas quais esse alinhamento progressista se transformou numa pauta
conservadora e de apoio a um governo de corte autocrático não são de fácil
entendimento, mas arrisco a interpretá-la lançando mão da categoria
“antissistema”. Sua militância em defesa do meio ambiente o levou a acusar as
indústrias poluidoras, mas também os governos dos dois partidos e as instâncias
regulatórias por eles criadas e administradas.
Atualmente,
a categoria “antissistema”, tal qual o antigo rótulo “libertário”, tem sido
apropriada pelas correntes políticas de extrema direita e suas reflexões, até
certo ponto, assemelham-se àquelas dos luditas no início do século XIX. A chave
desse possível parentesco está em situar as instituições que regulam o
funcionamento das indústrias poluidoras no mesmo lugar em que os luditas
colocavam os teares durante a Revolução Industrial. E, considerando que as
instituições reguladoras nos EUA foram criadas por governos dos dois partidos,
o combate a elas exigiria um novo tipo de governo, ou melhor, um novo tipo de
regime político, que é o que Trump está produzindo. Essa hipótese explicaria
porque Kennedy Jr. abandonou a tradição da dinastia em apoiar o Partido
Democrata e foi aos braços de Trump.
O órgão
que gerencia a política ambiental nos EUA é a EPA – Environmental Protection
Agency, que não está na esfera da secretaria de Kennedy Jr. Ela é ligada
diretamente ao Presidente e a política ambiental é fortemente federalizada,
conferindo aos estados grande liberdade de ação. Suspeito que Kennedy Jr.
gostaria bastante de tê-la na sua órbita. Mas a ele estão subordinadas duas
outras agências que têm grande relevo em sua pauta antissistema. A que trata da
saúde pública (CDC – Center of Disease Control and Prevention), estabelece os
padrões de vigilância epidemiológica no país e as regras de vacinação. A outra
é o FDA (Food and Drug Administration), que aprova, entre outros produtos, os
medicamentos que podem ser comercializados nos EUA.
A
primeira tem sido alvo grande tensão, pois Kennedy Jr. desenvolveu algumas
ideias sobre vacinas que não se sustentam no estado da arte em que a ciência as
coloca atualmente. O ponto de vista que defende contra vacinas vem de longe,
tendo se iniciado com seu combate ao desinfetante tópico Mertiolate, presente
como preventivo de contaminação em algumas vacinas. Isso porque o produto
continha mercúrio. Atualmente, a maioria das vacinas, em particular as
infantis, não tem o Mertiolate em suas formulações. Mas, na verdade, o problema
de Kennedy Jr. com as vacinas parece ser ideológico e vai além. Sua última
proibição atingiu uma plataforma tecnológica relevante, que utiliza o RNA
mensageiro como uma espécie de vetor vacinal. Essa plataforma apareceu no bojo
da pandemia de COVID e é atualmente considerada o padrão-ouro na produção de
vacinas (e no futuro também medicamentos).
Ultimamente,
as ideias de Kennedy Jr. no CDC têm descambado para a truculência. A principal
executiva da agência foi demitida no final de agosto, menos de um mês após ser
confirmada pelo Senado e tomar posse. Em sequência, quatro altos funcionários
renunciaram em meio a crescentes tensões sobre políticas de vacinação e
diretrizes de saúde pública. A demissão decorre de mudanças nos esquemas
federais vacinação contra a COVID, retirando o acesso de gestantes e crianças e
foi seguida pela demissão de todos os membros do painel consultivo de
especialistas em vacinas do CDC, substituídos por consultores que incluem
ativistas antivacinas.
A outra
manifestação antissistema diz respeito ao FDA. Em resumo, ele afirma que a
indústria farmacêutica norte americana domina a agência e esconde da população
os riscos de muitos medicamentos aprovados. É muito provável que haja conflitos
de interesse com a indústria no FDA, mas eu penso que as mais importantes sejam
questões relacionadas ao mercado norte americano de medicamentos, como por
exemplo uma concessão de exclusividade no mercado muito estendida. No meu ponto
de vista, essa tensão entre ele e a agência pode ter uma repercussão política
considerável em sua trajetória como secretário.
Há uma
outra vertente na atuação de Kennedy Jr., que é o seu “ajuste” na maior agência
de fomento científico e tecnológico do mundo, que é o NIH (National Institutes
of Health). O orçamento do NIH para este ano é de cerca de 45 bilhões de
dólares e na proposta orçamentária de 2026 está previsto um corte de 40%. A
rigor, a proposta de um enxugamento no NIH foi construída durante o governo
Biden e, penso eu, destinava-se a enfrentar o grande salto dado pela China na
pesquisa biomédica, em particular no terreno da genômica e suas derivações.
Penso que essa dimensão geopolítica permanece nas determinações de Trump para
Kennedy Jr., mas a ela vem sendo somada outra, 100% ideológica, voltada para a
comunidade de pesquisa biomédica norte-americana, cujo objetivo é atingir o que
se denomina pensamento woke, amplamente disseminado e que valoriza a ênfase na
diversidade étnica, na equidade e na inclusão. Uma espécie de recado à máquina
de pesquisa dos EUA tentando alinhá-la à ideologia do novo regime político do
país. Daí os profundos cancelamentos de projetos de pesquisa que, ao lado de
atingir a atividade dos pesquisadores, chega às universidades onde ela se
desenvolve, pois parte importante dos orçamentos universitários advém de
overheads embutidos nos projetos apoiados pelo NIH.
A
atuação do governo Trump frente à Big Pharma é um item de grande importância
para o futuro de Kennedy Jr. como secretário, muito embora na minha percepção o
assunto esteja sendo até agora conduzido diretamente por Trump. As
farmacêuticas saíram bem descontentes de uma reunião com Trump em fevereiro.
Nela, o presidente anunciou a necessidade de reduzir preços de medicamentos,
exigiu a diminuição da influência da Big Pharma no FDA e reiterou sua política
industrial de retorno da produção de medicamentos para o território dos EUA.
Essa pauta foi atenuada com o acordo EUA/UE anunciado em julho, que reduziu as
tarifas sobre medicamentos para 15% e estabeleceu exceções com tarifa
praticamente zero para medicamentos genéricos e princípios ativos. Mesmo assim,
alguns países da União Europeia rotularam o acordo como uma “rendição”.
No meu
ponto de vista, essa relação entre Trump e a Big Pharma tende a ser o principal
ponto de atenção e possível fragilização de Kennedy Jr. no posto que ocupa
atualmente. Politicamente bem mais importante do que, por exemplo, a reforma do
NIH ou as tropelias no CDC. Isso porque as farmacêuticas e também as empresas
seguradoras e de prestação direta de serviços em saúde representam cerca de 18%
do PIB norte americano e detêm a primazia nas atividades de lobby no país.
Fonte:
Por Reinaldo Guimarães, em Outras Palavras

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