segunda-feira, 1 de setembro de 2025

EUA são o país mais orgulhoso da própria ignorância; bloqueio a Cuba não faz sentido, diz ex-CIA

Para Fulton Armstrong, relação Cuba-EUA é de mão única: Havana fez concessões, mas Washington insiste no bloqueio e em apostar no colapso do sistema cubano

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Os Estados Unidos nunca abandonaram — talvez com exceção de um breve período — o objetivo de promover uma mudança de regime em Cuba desde a Revolução. Nesse processo, acabaram criando um “Frankenstein” interno, uma força obcecada com essa meta, dentro de uma política bilateral marcada pela rigidez. Como resume o especialista e ex-oficial de inteligência Fulton Armstrong, o único que demonstrou real disposição para a mudança foi Havana, e não Washington.

Armstrong tem larga experiência na área: foi oficial de inteligência nacional para a América Latina, diretor de assuntos interamericanos no Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, atuou por cerca de três anos no Departamento de Estado — em grande parte em Havana —, foi assessor do Comitê de Relações Exteriores do Senado sob o então senador John Kerry e, atualmente, é acadêmico na American University. Em entrevista ao jornal La Jornada, ele comentou a conjuntura da relação entre Estados Unidos e Cuba.

LEIA A ENTREVISTA:

·        São mais de seis décadas da mesma política estadunidense em relação a Cuba, que não conseguiu atingir o objetivo de derrubar o governo. Por que insistem na mesma estratégia?

Fulton Armstrong – Como podemos manter a mesma política depois de quase 70 anos? Acho que somos tão orgulhosos de nossa ignorância quanto vocês [nos EUA]. Talvez sejamos até os primeiros nesse quesito. Nunca respeitamos Cuba nem a América Latina: só nos relacionamos com elites que, em muitos casos, são subordinadas, falam inglês, frequentemente são brancas. Somos o país mais orgulhoso da própria ignorância no mundo. Isso ajuda a explicar por que nossa política para Cuba não faz sentido.

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Barack Obama merece crédito por tentar não apenas renovar a forma como se formula a política para Cuba, mas também por modificar os objetivos. Já não se tratava mais de promover uma mudança de regime, mas de repensar a relação, inclusive em seus propósitos. Porém, a burocracia da política externa acabou bloqueando essa transformação. E, evidentemente, a chegada de Donald Trump enterrou de vez essa tentativa.

·        Mas isso se deve apenas aos burocratas?

Não. Desde a invasão da Baía dos Porcos e, sobretudo, durante o governo de Ronald Reagan, os EUA ajudaram a criar entidades como a Fundação Nacional Cubano-Americana, liderada por Jorge Mas Canosa, inspirada no modelo do AIPAC (grupo de lobby sionista). Assim se construiu um Frankenstein cada vez mais poderoso. Os burocratas de Washington sempre responderam a esse poder, argumentando que não era possível mudar a política por causa da influência dos cubano-estadunidenses e seus aliados no Congresso.

Esse “monstro” passou a ditar a agenda: foi ele que acabou revertendo a mudança proposta por Obama. No governo Biden, pouco foi feito além de medidas simbólicas e, em muitos casos, cínicas — anúncios que se traduziam em nada ou em muito pouco.

·        O que caracteriza a atual conjuntura da relação?

Não vejo diferença entre o que faz a equipe do atual presidente e o que havia antes. Estamos retornando ao primeiro mandato de Trump porque, primeiro, Biden não fez nada, e segundo, porque essa é a política preferida da burocracia, fiel à Doutrina Monroe. Ela se baseia na crença de que os EUA têm um direito divino de impor sanções a quem não se submete. A política atual para Cuba é manter o status quo.

O financiamento continua fluindo para TV e Rádio Martí, apesar dos cortes em outras regiões. São entre 25 e 30 milhões de dólares anuais destinados a programas de mudança de regime, mesmo após a quase eliminação da USAID (A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Alguns dizem que Washington não aplica “pressão máxima”, mas não vejo sinais de que vá reduzi-la. Não há reuniões com autoridades cubanas, nem mesmo sobre migração, que é um pilar da relação. Também não se vislumbra nada criativo para fomentar o setor privado cubano, justamente porque sabem que isso poderia estimular mudanças graduais. O que se busca é o colapso total do sistema, na expectativa de que daí surja um governo pró-democrático, pró-EUA e pró-Miami.

·        Nada novo, então?

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O que vemos são apertos graduais: sanções adicionais, restrições de vistos, limitação de licenças para viagens acadêmicas e de ONGs. Nada muito dramático, mas pressão máxima é pressão máxima. E deixar de realizar reuniões migratórias é um mau sinal, tanto para os habitantes da ilha quanto para a comunidade cubano-estadunidense. Diante da grave crise econômica de Cuba, as sanções funcionam como fósforos: não equivalem a bombardeios, mas ainda assim podem ser incendiárias.

·        E quais são os planos concretos?

Ninguém sabe. Não há sequer conversas migratórias porque, em Havana, sabem que as portas estão fechadas. Existe um cenário pouco provável, mas de grande impacto, aventado ainda no governo Bush-Cheney: repatriações forçadas para provocar uma reação das forças armadas cubanas, que são frágeis. Isso poderia abrir espaço para o que em Miami chamam de “Território Cubano Liberado pela força”. É improvável, mas não impossível. E, com a retórica do Comando Sul sobre supostas ameaças chinesas e russas em Cuba, alguns “cowboys” em Washington poderiam se animar com essa ideia.

·        Como se formula, de fato, a política para Cuba?

Esse governo [Trump] é volúvel, carece de pensamento estratégico e não se apoia no interesse nacional. Tudo gira em torno do presidente e de seus interesses pessoais, talvez até financeiros. Não existe um processo claro de formulação de políticas. O Conselho de Segurança Nacional está desestruturado e o Departamento de Estado sequer tem um diretor para assuntos hemisféricos.

·        E quanto ao futuro imediato?

O cinismo de Trump e, antes, o de Biden, convence os cubanos de que os EUA não estão dispostos a mudar a relação. Cuba aceitou o desafio da normalização, mas Washington não. Havana fez concessões: permitiu acesso à internet, abriu o setor privado, libertou presos políticos e cooperou em temas como drogas e migração. Fez mais do que lhe cabia. O que mais os EUA querem? A única resposta tem sido: “desmantela-te”. Mas é preciso ter cuidado com esse desejo. O que se persegue agora não é apenas a rendição, mas a destruição total. Isso, conclui Armstrong, não serve ao interesse nacional estadunidense.

¨       Repressão avança no Peru e mobilização popular reage ao projeto autoritário de Boluarte

A repressão e criminalização dos protestos e a exclusão social não são fenômenos isolados no Peru atual, e sim os pilares de um modelo de governo ditatorial que se mantém no poder desde o golpe contra Pedro Castillo, em 2022. Enquanto a presidenta Dina Boluarte enfrenta denúncias por graves violações de direitos humanos, setores populares se reagrupam em novas alianças políticas às vésperas das eleições do próximo ano e nas ruas, em um contexto em que a militarização cresce no ritmo do extrativismo e da impunidade.

O recente anúncio de Pedro Castillo, ex-presidente deposto em 2022 e atualmente preso, sobre a criação da aliança eleitoral Juntos com o Povo confirma que a disputa pelo funcionamento democrático no Peru segue em aberto. Paralelamente, três legisladores de esquerda foram denunciados por “ofender” Boluarte durante seu discurso no Congresso. O motivo? Recordar em voz alta as vítimas fatais da repressão após a destituição de Castillo. Este fato condensa uma tensão de fundo: o confronto entre um governo que avança na securitização do Estado por meio de negócios com grandes empresas privadas transnacionais e uma sociedade que resiste a ser silenciada.

Desde que assumiu a presidência em dezembro de 2022, Boluarte aprofundou uma guinada autoritária que combina repressão, negação de direitos e blindagem institucional (política, midiática e judicial). Os números são contundentes: mais de 50 mortos durante as manifestações de 2022 e 2023, mais de 1.400 feridos, 4.902 homicídios registrados em menos de três anos de governo, e uma ofensiva legal inédita contra organizações sociais. A presidenta de fato se recusou todo esse tempo a renunciar, projetando seu mandato até 2026 e prolongando um ciclo de ilegitimidade que continua erodindo a frágil democracia.

A repressão estatal não é apenas física. Ela também se expressa em leis, discursos e políticas. Em julho deste ano, o governo ignorou uma ordem da Corte Interamericana de Direitos Humanos e avançou com uma lei de anistia que pode beneficiar militares acusados de violações de direitos humanos, além de libertar o ex-presidente Fujimori, responsável pela esterilização forçada de mais de 2 mil mulheres camponesas e de povos originários — um crime contra a humanidade. A aprovação de uma nova norma contra organizações não governamentais, o controle do financiamento externo e a censura à mídia fazem parte de uma estratégia de disciplinamento que busca reduzir a margem de ação de toda voz crítica.

Esse modelo de controle interno tem seus correlatos externos. A recente visita ao país de Erik Prince, fundador da empresa de segurança privada (mercenários – nota da edição) Blackwater, hoje transformada em Academi, não é um dado menor. Acompanhado por setores patronais da mineração e figuras do establishment econômico, Prince ofereceu “soluções” de segurança inspiradas em modelos como o do Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), em El Salvador. A militarização voltada para o lucro privado de um reduzido grupo de empresários é exportada e vendida como salvação, enquanto o Estado abdica de sua responsabilidade de garantir direitos básicos.

A mobilização popular não ocupa as primeiras páginas da mídia hegemônica, mas tem sido permanente ao longo desses anos. No sul andino, a Confederação Nacional de Pequena Mineração e Mineração Artesanal do Peru (Confemin) lidera uma luta pela formalização de mais de 50 mil trabalhadores excluídos. As manifestações mineradoras, que combinam bloqueios de estradas, marchas e piquetes, denunciam o caráter elitista de um modelo econômico que marginaliza aqueles que sustentam parte importante do PIB nacional. A mineração representa 10% do produto interno bruto peruano (cerca de 60 bilhões de dólares) e 60% das exportações, mas as condições de vida das comunidades mineradoras são marcadas pela precariedade, criminalização e espoliação.

O mesmo ocorre com os trabalhadores do transporte. Desde junho, cerca de 20 mil veículos em Lima, Callao e no sul do país paralisaram suas atividades. Exigem segurança frente ao sicariato, às extorsões e ao abandono estatal. Mais de dez mil agentes foram mobilizados por ordem do Executivo. A resposta, mais uma vez, foi policial.

Paralelamente, o conflito geopolítico com a Colômbia pela cidade de Letícia reacende velhas tensões fronteiriças. O presidente colombiano Gustavo Petro denunciou uma ocupação peruana e transferiu um ato oficial de comemoração para esse território. O episódio evidencia como a guinada autoritária peruana não se limita ao plano interno, começando a ter implicações em toda a região.

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A estratégia de Boluarte se inscreve em uma tendência regional que aposta na securitização do Estado, em que se privilegiam as lógicas do castigo sobre as do cuidado. Como afirmou o jurista Eugenio Zaffaroni, o negócio da guerra — com suas prisões, armas e contratos de segurança — se instala como forma de acumulação. A América Latina assiste a uma pedagogia do medo, onde o inimigo é interno e, quase sempre, popular.

A detenção de Pedro Castillo, nesse contexto, ilustra como a dimensão jurídica da guerra, ou lawfare (uso do sistema judicial para perseguição política), opera como complemento da repressão nas ruas. A velocidade de sua destituição, o papel das Forças Armadas e a prisão preventiva prolongada são elementos que, segundo o Observatório Lawfare, configuram uma violação do devido processo.

Pedro Castillo encarnou a irrupção do Peru profundo no poder. Professor rural e dirigente sindical, sua eleição em 2021 desestabilizou o establishment limenho. Desde o início, enfrentou um bloqueio sistemático por parte do Congresso, dos grandes meios de comunicação e de atores internacionais — inclusive da embaixada dos Estados Unidos. Sua queda não interrompeu a perseguição: a repressão se transferiu para os territórios que o apoiaram, revelando que sua figura continua sendo símbolo de uma disputa aberta entre as elites e os setores historicamente excluídos.

No fundo, a disputa no Peru não é apenas por quem governa, mas por qual projeto de país se impõe. O modelo econômico, que durante décadas vendeu cifras de crescimento, gerou exclusão, informalidade e concentração de riqueza. A carga tributária é uma das mais baixas da região (13,8%) e 71% da população trabalha em condições informais. Os dados contradizem o discurso do “milagre peruano”.

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Frente a esse modelo, a resistência popular segue viva. Nas ruas, nas organizações, nas alianças eleitorais e na memória de quem lutou por um país mais justo. O conflito está longe de ser resolvido, mas o silêncio, apesar de tudo, não conseguiu se impor.

¨       Delcy Rodríguez: ataque à Venezuela pode ser uma “calamidade” e um “pesadelo” para os EUA

 O governo da Venezuela advertiu Washington que um possível ataque ao país sul-americano será uma “calamidade” e um “pesadelo” para os Estados Unidos (EUA), país que enviou forças militares para o Caribe, alegando operação contra o narcotráfico. 

“Seremos a sua calamidade, o seu pesadelo e isso significará também a instabilidade de todo o continente”, afirmou a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez. “O apelo é à paz. Acalmem-se, senhores falcões dos Estados Unidos. Acalmem-se, tranquilizem-se, porque vão causar um grande dano ao seu próprio país”. As declarações foram publicadas pela Agência Lusa. 

A vice-presidente disse que o governo Nicolás Maduro está pronto “para defender a Venezuela em união nacional, em paz e tranquilidade, para garantir o nosso futuro”. “Os que estão a pensar no Norte [nos EUA], aqueles que estão a pensar numa agressão militar à Venezuela, saibam que isso vai correr muito mal”, frisou.

Os Estados Unidos anunciaram o envio de mais de 4.000 militares para a região do Caribe, próximo à costa da Venezuela, com o objetivo de reforçar as operações de combate ao narcoterrorismo. A medida visa intensificar os esforços de monitoramento e interceptação de atividades ilegais relacionadas ao tráfico de drogas na região.

Além disso, o governo norte-americano revelou que está oferecendo uma recompensa de até US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 270 milhões) por informações que possam levar à captura ou condenação de autoridades venezuelanas envolvidas em atividades ilícitas. A ação faz parte da estratégia do país para enfrentar o tráfico de drogas e suas ramificações, tanto em território venezuelano quanto nas áreas circundantes.

<><> Petróleo

Politicamente, a Venezuela é uma das principais frentes de resistência à hegemonia dos EUA em nível global. Outra questão para a relação delicada entre os dois países é o petróleo. 

De acordo com número do site World Atlas, a Venezuela ficou em primeiro lugar entre os dez países com as maiores reservas de petróleo do mundo em 2024 (300,9 bilhões de barris), seguida por Arábia Saudita (266,5 bilhões de barris) e pelo Canadá (169,7 bilhões de barris).

A sequência da lista foi ocupada pelo seguintes países: Irã (157,8 bilhões de barris), Iraque (150 bilhões), Rússia (103,2 bilhões), Kuwait (101,5 bilhões), Emirados Árabes (97,8 bilhões), EUA (48,5 bilhões), e Líbia (48,4 bilhões). O Brasil ficou na 15ª posição, com 16,2 bilhões de barris, o que representou aproximadamente 1% das reservas globais.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Brasil 247

 

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