quarta-feira, 28 de maio de 2025

Proposta de Alcolumbre pode licenciar petróleo na foz do Amazonas em 1 ano

A Licença Ambiental Especial (LAE), incluída pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), no PL da Devastação (2.159/2021), fará a alegria das petroleiras que querem explorar combustíveis fósseis na foz do Amazonas e em outras regiões de altíssima sensibilidade ambiental. Grupo que inclui a Petrobras, que pressiona pela licença para o poço no bloco FZA-M-59, na foz, e está ávida por produzir petróleo no Brasil “até a última gota”.

Chamado de “mãe de todas as boiadas” por eliminar regras ambientais para vários setores econômicos, se o PL for mantido como está na Câmara [o que é quase certo] e sancionado pelo presidente Lula sem vetos [e mesmo se Lula os vetar, o Congresso pode derrubá-los], licenciar um poço de petróleo e gás na foz demorará no máximo um ano. Afinal, a LAE será decidida por um “conselho” que avalie o projeto como “estratégico”, seja lá o que isso for. Em suma: decisão política, que pode ignorar riscos ambientais, destacou a Folha.

O movimento de Alcolumbre – que teve apoio de vários ministros do governo, frisou André Borges na Folha – foi calculado. Afinal, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) fará um leilão em 17 de junho que ofertará 47 blocos na foz do Amazonas. Se forem arrematados – e certamente a Petrobras levará alguns, além de Shell e Total, que já demonstraram interesse na região –, os projetos poderão ser considerados prioritários pelo “conselhão”, tramitando com uma análise muito mais simples e rasa que a comum, independente de seus riscos.

“Esses prazos são inexequíveis. Os órgãos ambientais têm milhares de projetos na carteira, fazem monitoramento pós-licença”, explicou a coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima (OC) e ex-presidente do IBAMA,  Suely Araújo. “Não dá para estabelecer esse tipo de prazo. O que querem, sabemos, é pressão política, mas não dá para entender o rito da LAE, o que tem de informação (no projeto) é muito pouco”, completou.

Enquanto isso, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, volta à carga total para explorar mais combustíveis fósseis no Brasil, onde quer que seja. E com aval de Lula, que defendeu uma “participação ativa” da petroleira estatal na “pesquisa” [leia-se “exploração”] de combustíveis fósseis, informaram Exame e InfoMoney. No país que em cinco meses abrigará a COP30, ressalte-se.

Mesmo sem a licença do IBAMA nas mãos, Magda afirmou que a empresa planeja perfurar oito poços no bloco 59. Ao Valor, a presidente da Petrobras disse “não ver razão” para o órgão negar a autorização. E voltou a insistir na velha falácia de que a Petrobras precisa repor suas reservas. “Não existe futuro para uma empresa de petróleo sem exploração”, disse a executiva. O que joga uma pá de cal de quem espera que, com Magda, a estatal se transformará numa empresa de energia, investindo mais em transição energética e menos em combustíveis fósseis.

De olho em royalties que, com muita sorte, podem começar a “pingar” nos cofres do Amapá a partir de 2032, o governador do estado, Clécio Luís (Solidariedade), ligou para Magda pedindo que “coloquem o pé no acelerador”. “Minha conversa com a Magda é de que devemos institucionalmente e republicanamente pressionar o IBAMA por esta licença [para o bloco 59]”, disse Luís à CNN Brasil.

Agência Brasil destacou os alertas de especialistas, que criticam o chamam de “corrida contra o tempo” na busca por novos locais para explorar combustíveis fósseis no Brasil. Eles reforçaram o que a Agência Internacional de Energia (IEA) projetou e a Petrobras já sabe, mas finge que não: a pressa é inócua, uma vez que a demanda de petróleo deve cair muito nos próximos anos.

¨      Flexibilização do licenciamento é “tiro no pé” nos interesses econômicos do Brasil, alerta Marina

A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, afirmou que a aprovação do novo marco do licenciamento ambiental (PL 2.159/2021) pelo Congresso pode prejudicar interesses estratégicos e econômicos do país, classificando a medida como um “tiro no pé”.

Em entrevista ao O Globo, Marina lamentou o possível retrocesso na proteção ambiental, declarando que o Brasil está “de luto” pela ameaça à biodiversidade. Alertou, ainda, que acordos comerciais internacionais, como o estabelecido entre Mercosul e União Europeia, podem ser diretamente impactados, lembrando que a queda no desmatamento foi essencial para a abertura de mercados à agricultura brasileira.

“Eu e o Haddad estávamos indo agora para uma discussão em Bruxelas, que era necessária porque tem muita dúvida ainda em relação a nossa agricultura ser de base sustentável. Eu disse que a primeira pergunta que vão fazer é: ‘Tudo bem? Vocês estão alcançando bons resultados, mas agora a legislação mudou. Como é que a senhora vai fazer para continuar fazendo se não tem mais base legal?’”, afirmou a ministra.

O alerta de Marina foi ecoado por diversas organizações socioambientais brasileiras, que emitiram nota conjunta classificando o PL como “o maior retrocesso ambiental em 40 anos”. Assinada por entidades como Instituto Ethos, IDS, INESC, Observatório do Clima e Transparência Internacional Brasil, o texto argumenta que a proposta ignora a crise climática, permitindo decisões arbitrárias e pouco transparentes, facilitando o autolicenciamento sem controle, e enfraquecendo a fiscalização e a proteção do meio ambiente. ((o)) eco deu mais detalhes.

Um exemplo dos impactos potenciais do “liberou geral” do licenciamento foi destacado pelo Estadão: uma das emendas incluídas na proposta revoga os parágrafos 1º e 2º do Artigo 14 da Lei da Mata Atlântica. Esses dispositivos preveem regras específicas para autorizar o desmate em áreas de vegetação primária e secundária por parte do IBAMA. Sem essa previsão, o licenciamento nessas áreas passará a caber aos estados.

Mesmo com os alertas de Marina e da sociedade civil, parece que a maior parte do governo entende a questão de outra forma. Em conversa com a Folha, o ministro Carlos Fávaro (Agricultura), entusiasta do PL do licenciamento, disse que respeita a posição de sua colega do Meio Ambiente, mas entende que as divergências são naturais de um governo “plural”.

“Eu acho que é um projeto de lei, que, quando transformado em lei, vai dar ao Brasil uma grande capacidade, principalmente para licenciar obras de infraestrutura, o que vai garantir ao Brasil um crescimento sustentável. Porque crescimento econômico tem que estar aliado a crescimento em investimentos em infraestrutura”, declarou o ministro. Outras pastas, como Transportes e Infraestrutura, também são favoráveis ao PL.

O MMA, de sua parte,  se posicionou institucionalmente através de nota técnica, destacou o Poder 360. Além de citar a inconstitucionalidade e outras inconsistências do Projeto, o documento ressaltou a completa ausência de referência às mudanças climáticas no texto aprovado no Senado. “O PL é, por fim, omisso em relação à crise climática, sem sequer mencionar a questão em seu conteúdo, fazendo com que o processo de licenciamento desconsidere esse tema crucial”, indicou a nota.

¨      PL do Licenciamento Ambiental afronta a Constituição, ameaça direitos indígenas e limita atuação da Funai

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) manifesta preocupação com o Projeto de Lei (PL) nº 2.159/2021 que cria a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovado no dia 21 de maio pelo Senado Federal. A Funai entende que a proposta representa graves retrocessos na proteção dos direitos indígenas e preservação ambiental, além de afrontar a Constituição Federal e Tratados Internacionais ratificados pelo Brasil, como a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e à obrigação do Estado brasileiro de promover o desenvolvimento sustentável com justiça socioambiental.

Entre os pontos do Projeto de Lei preocupantes para a Funai estão a retirada da atribuição dos conselhos de meio ambiente da definição dos parâmetros ambientais; a criação da Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC), modalidade que prevê a instalação de empreendimentos de médio porte apenas por autodeclaração do empreendedor, sem o prévio estudo de impacto; a dispensa de licenciamento para obras emergenciais, sem definição do que seja obra emergencial; a restrição da participação dos órgãos envolvimentos, incluindo a Funai que, somente será ouvida em casos de terras homologadas, item que representa um grande retrocesso às suas atribuições; e demais medidas que ameaçam os direitos dos povos indígenas.

Ao excluir a atuação da Funai em territórios indígenas não homologados e restringir a participação dos povos indígenas em decisões sobre empreendimentos com impacto socioambiental, o PL nº 2.159/2021 descumpre o direito à consulta livre, prévia e informada, previsto na Convenção nº 169 da OIT, bem como reafirmado pela Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA).

Frente às graves ameaças que o referido Projeto de Lei representa para os povos indígenas e para o cumprimento de suas atribuições, a Funai, autarquia indigenista do Estado brasileiro, reafirma o compromisso com a sua missão de defender e proteger os direitos dos povos indígenas.

¨      Nota do Cimi: na contramão da história, Congresso Nacional segue apostando na desregulamentação e na devastação

O Senado Federal desferiu na quarta-feira, dia 21 de maio, um novo golpe de morte ao país, à Constituição Federal e aos povos indígenas e comunidades tradicionais com a aprovação do Projeto de Lei (PL) 2159/2021, que acaba, praticamente, com o licenciamento ambiental. Com emendas à proposição original, o Senado conseguiu piorar um projeto de lei que nasceu na Câmara dos Deputados e tinha a intenção de privilegiar interesses privados e passar a boiada definitivamente sobre as esperanças de futuro do conjunto da sociedade brasileira.

A nova redação aprovada pelo Senado, com 54 votos a favor e com a inaceitável liberação de voto da maioria da base governista, determina, dentre outras medidas, a criação da Licença Especial para atividades ou empreendimentos que sejam definidos como estratégicos pelo Conselho de Governo, mesmo reconhecendo que estes projetos tenham efetivo ou potencial impacto de degradação ambiental. O PL 2159 dispensa de licenciamento ambiental atividades econômicas como a agropecuária e permite a chamada Licença por Adesão e Compromisso (LAC), uma espécie de autolicenciamento sem ressalvas, para empreendimentos de médio porte e potencial poluidor. Na prática, ao restringir a definição do que seriam as “condicionantes ambientais”, a proposição também isenta empresários, onerando os cofres públicos com os custos relativos à prevenção, redução e reparação de impactos socioambientais gerados por empreendimentos privados. Por fim, o PL 2159 deixa de considerar os impactos ambientais sobre territórios quilombolas e indígenas que ainda não estejam plenamente regularizados. Isso representa, no caso das terras indígenas, cerca de 65% do total dos territórios.

O PL 2159 facilita de forma definitiva o caminho para o avanço do agronegócio e da mineração, inclusive dentro de territórios até hoje protegidos. Permite acelerar projetos como a exploração de petróleo na foz do Amazonas, a Ferrogrão ou a exploração de potássio no rio Madeira (AM), dentre outras muitas obras e projetos apresentados arcaicamente como fatores de progresso e que inviabilizam a vida de povos e comunidades.

O projeto impõe medidas que trazem impactos concretos também para a vida de todos, razão pela qual é conhecido como PL da Devastação. Na contramão da necessidade urgente de políticas de Estado, ousadas e determinadas, para enfrentar o colapso ambiental que todos estamos vivendo, mesmo que de formas muito desiguais, em áreas do interior e em grandes conglomerações urbanas, o Congresso Nacional aposta na desregulamentação e na devastação. Não é só negacionismo; é convicção em uma necropolítica que alimentou os governos passados e que permanece vigente no atual Legislativo.

Lembremos que, em dezembro de 2023, o Congresso Nacional aprovou também a Lei 14.701, que instala autoritariamente o marco temporal para a demarcação de territórios indígenas e abre estes territórios para a possibilidade de exploração econômica por terceiros, além de flexibilizar o direito dos povos originários à consulta prévia, livre e informada. Esta lei, flagrantemente inconstitucional, permanece em vigor depois de 18 meses, sustentada por uma famigerada mesa de negociação instalada no Supremo Tribunal Federal (STF). Agora, com a aprovação do PL 2159/2021, o Congresso completa o golpe, desmantelando toda a normativa que o Brasil construiu durante décadas para garantir o direito fundamental aos territórios e à preservação ambiental. Os interesses econômicos, sob a alegoria da boiada, estão impondo a força de seus pesados cascos e deixando um legado de negação do futuro.

O atual Congresso Nacional atua permanentemente contra a Constituição Federal, contra os direitos fundamentais e contra todos os consensos científicos. Representa a pior face da política institucional. Ou a sociedade brasileira consegue transformar a configuração do Congresso nas próximas eleições de 2026, e isso começa desde hoje no questionamento aos parlamentares em seus estados de origem, ou estaremos comprometendo seriamente o presente e o futuro de nosso país.

Por outro lado, o governo federal continua atuando entre a impotência e a anuência, entre o desabafo e o conluio. Aparentam desconforto e até ensaiam tentativas de redução de danos, mas sem muita convicção, pois há tempo que desistiram de causas fundamentais que dão por perdidas antes de tentar a disputa. Alguns por medo e outros por convergência com os interesses privados. O certo é que o governo permanece ausente e muito longe do que se esperava e do que precisamos. Assim como fez durante as negociações relativas à Lei 14.701/2023, o governo manteve agora um perfil muito baixo nas relações com o Congresso e isolou os ministérios e autarquias competentes na batalha por salvaguardar direitos fundamentais.

A questão fundamental é que, nessa composição diversa, os direitos fundamentais de povos indígenas e comunidades tradicionais sempre são sacrificados em benefício dos interesses de praxe

A Nota Técnica e as declarações do Ministério de Meio Ambiente, que são legítimas e contundentes e precisam de nosso apoio e fortalecimento, não conseguem cobrir o dissenso interno dentro do governo nem apagar o sorriso complacente de alguns colegas da Esplanada. A questão não é, apenas, que o governo seja um espaço plural e de coalizão, como tantas vezes ouvimos dizer e tantas vezes aceitamos como imponderável e necessário; a questão fundamental é que, nessa composição diversa, os direitos fundamentais de povos indígenas e comunidades tradicionais sempre são sacrificados em benefício dos interesses de praxe.

Para a COP 30 não servem fotografias nem discursos simbólicos voltados à comunidade internacional; o que serve é a política concreta, e hoje, por incrível que pareça, o Brasil está vendo suas salvaguardas sociais e ambientais serem desidratadas como não se via há décadas, enquanto avançam políticas que mercantilizam os territórios e seus bens. É nestes momentos em que o silêncio do presidente, quem tem por aliado o atual presidente do Senado, resulta perigoso e inaceitável. É precisamente nestes momentos em que necessitamos uma liderança de governo que abandone o lenga-lenga do pragmatismo quando se trata de defender o que dá horizonte ao nosso futuro.

Caso a Câmara dos Deputados aprove o PL 2159/2023, que a ela retorna agora, e caso o governo apresente ou não vetos, parciais ou integrais, caberá mais uma vez ao STF exercer sua missão institucional de guardião da Constituição. Porque este é exatamente o momento que vive o Brasil: um momento de desconstrução efetiva e orquestrada da Constituição de 1988. Em um contexto no qual os parlamentares que votam a favor da Lei do Marco Temporal e da Lei da Devastação são os mesmos que reivindicam anistia para quem tentou um golpe de Estado, a missão do STF se torna mais histórica e decisiva do que nunca.

E mais necessária, também, se faz a ação organizada, solidária e firme de toda a sociedade civil. Mais além das legítimas diferenças numa democracia, urge uma reação unificada, porque é o futuro de todos o que está em jogo: universidades, associações e organizações sociais, movimentos populares, personalidades do mundo político, do direito, das artes e da comunicação, lideranças religiosas, sindicatos e associações profissionais. Os povos indígenas e as comunidades tradicionais continuam marcando o caminho. A convivência e a democracia constroem-se a partir das relações cotidianas, do respeito à diversidade e da convicção no que é comum. Só uma sociedade civil consciente e organizada poderá vislumbrar outros caminhos possíveis, outro horizonte. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) reafirma seu compromisso e sua determinação para continuar contribuindo, junto aos povos indígenas e a toda a sociedade, na construção de um país alicerçado nos direitos fundamentais, na pluralidade, na paz e na justiça.

Brasília, 26 de maio de 2025.

Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

 

Fonte: ClimaInfo/Funai/Cimi

 

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