O
flerte eugenista que guia a política de saúde Trumpista
Quando
Robert F. Kennedy Jr., então Secretário de Saúde dos Estados Unidos, declarou,
em abril de 2025, que pessoas autistas “nunca pagarão impostos, nunca terão um
emprego, nunca jogarão beisebol, nunca escreverão um poema, nunca sairão em um
encontro”, ele não se limitou a repetir estigmas. Ele revelou, com brutal
honestidade, o tipo de valor que nosso mundo atribui à vida: o valor da
utilidade, da produtividade, da funcionalidade. Seu discurso é menos sobre
deficiência e mais sobre a falência ética de uma sociedade que mede a dignidade
humana pelo quanto ela pode ser explorada.
Kennedy
Jr. vocaliza uma lógica que estrutura o pânico moral em torno do autismo. A
ideia de que autistas seriam aqueles que “nunca usarão um banheiro sem ajuda” e
seriam “sem futuro”, sem emprego, sem romance e sem cidadania aponta para algo
mais profundo: a recusa em reconhecer a legitimidade de vidas que não se
alinham ao ideal normativo de desenvolvimento e progresso. Essa recusa não é
acidental. É parte do que o teórico queer Lee Edelman, em No Future, descreve
como a política centrada na figura da criança.
Segundo
Edelman, a política hegemônica se ancora em um ideal de futuro representado por
essa figura simbólica da ‘criança inocente’, normal, saudável, educável e
reproduzível. A criança não é apenas um corpo infantil, mas um horizonte de
expectativas que organiza o discurso político, a moralidade e até a
biopolítica. Quem ameaça esse ideal, quem não pode ou não quer contribuir para
sua manutenção, é relegado à margem do social, como elemento perturbador.
Edelman chama isso de figura do “sem-futuro”. E nessa leitura, o autista,
especialmente aquele que não se adapta, que não se comunica “como deveria”, que
não produz ou consome como o esperado, é precisamente essa figura.
Não se
trata apenas de falta de empatia social. Trata-se de um projeto. Um projeto
político e econômico que mobiliza o autismo como anti-imagem da criança ideal.
Se a criança simboliza o amanhã da nação, o autista, na boca de Kennedy Jr.,
simboliza a interrupção desse amanhã. Ele não joga beisebol, não namora, não
trabalha, não contribui. Ele não projeta continuidade. E por isso é temido,
demonizado, descartado.
Essa
lógica, claro, não se limita ao autismo. A perseguição sistemática às pessoas
trans durante o governo de Donald Trump opera segundo os mesmos códigos. Sob o
pretexto de proteger a infância, dezenas de medidas foram aprovadas para
restringir o acesso de jovens trans a esportes, banheiros, escola e até
cuidados de saúde. O que está em jogo não é uma disputa por políticas públicas,
mas o controle simbólico do que é considerado uma vida “viável”, um corpo
aceitável, um futuro possível. O corpo trans, assim como o autista
não-normativo, torna-se bode expiatório de um sistema que reage com violência a
tudo que escapa da norma.
O
discurso do Secretário de Saúde dos Estados Unidos é mais do que capacitista.
Ele é profundamente utilitarista. Ele revela uma sociedade que só reconhece
valor na vida quando ela pode ser convertida em capital, seja por meio do
trabalho, dos impostos ou da participação de atividades que perpetuem uma ideia
de “vida funcional”: como esportes e namoro. Dessa forma, o autista que não se
encaixa, que não compensa, é percebido como falha ontológica. Como desperdício.
Como um peso para o Estado.
Nesse
contexto, a luta por neurodiversidade é uma luta por heresia. Heresia contra o
culto do futuro, contra a religião da produtividade. Como afirma Nick Walker,
uma das principais vozes da epistemologia neurodivergente, o autismo não é um
defeito a ser corrigido, mas uma forma legítima de existência, mesmo quando
radicalmente desviante. Uma existência que recusa a se moldar à lógica da
utilidade.
O “bom
cidadão” é aquele que se vende bem no mercado de trabalho, que consome, que se
reproduz, que mantém o ciclo girando. Os outros são custo, peso morto, ameaça.
Kennedy Jr., ao dizer que o autista nunca pagará impostos, está apenas
reiterando essa hierarquia violenta: se não serve ao capital, não serve ao
mundo. A resposta, portanto, não pode ser a promessa de que autistas também
podem ser produtivos. Essa é a armadilha que devemos escapar. O desafio é
afirmar, com radicalidade, que não devemos nada à lógica da exploração. Que não
precisamos ser úteis, nem “normais”, para sermos dignos. Que uma vida que não
rende imposto é também uma vida completa.
Em uma
espécie de premonição determinista, o secretário já anunciou que revelará,
ainda em 2025, “a verdadeira causa do autismo”, algo que deve se alinhar entre
supostos “rastros químicos despejados por aviões”, uma conhecida teoria da
conspiração sobre chemtrails; e a histórica desinformação de que as vacinas
seriam a suposta causa do autismo. Esse tipo de narrativa extrapola a
estigmatização inclusive para uma dimensão de risco à saúde pública, podendo
estimular a queda nas taxas de vacinação por mero medo de que crianças “se
tornem autistas”.
Ao fim,
o que está em disputa não é somente o futuro das pessoas autistas, mas o tipo
de futuro que queremos para todos. Um futuro onde em que apenas os corpos
adaptados, produtivos e domesticados sobrevivem? Ou um futuro em que a
diversidade radical, inclusive aquela que não gera lucro, nem se encaixa, possa
florescer sem medo? A segunda opção não será construída com promessas de
integração. Será construída com desobediência, com afirmação e com organização
daqueles que são marginalizados. Porque talvez a heresia autista, ombro a ombro
da heresia queer, seja um caminho para romper com esse presente que se repete
em nome de um futuro que nunca nos pertenceu.
Fonte:
Por Arthur Ataide Ferreira Garcia e Ergon Cugler, no Le Monde
Tecnopolíticas
de retomada: bifurcar para resistir
Republicamos
aqui o ensaio-manifesto criado a partir do GT Experimentações Tecnopolíticas,
da Coalizão Direitos na Rede. O texto, produzido no âmbito das atuações do GT
(que ocorrem desde 2023 e podem ser vistas aqui), foi escrito por Alana Moraes,
Henrique Parra, Leonardo Foletto e Pedro Ekman. Ele sintetiza alguns dos
debates e seminários realizados nas discussões do grupo e de encontros como o
Laboratório de Experimentações Tecnopolítica, em dezembro de 2023, o
“Tecnopolíticas de Retomada“, na CryptoRave de 2024, e o práticas de imaginar
& fazer mundos, em novembro de 2024. O GT segue em atividade e neste 2025/1
terá uma mesa na CrypoRave, 10h do dia 17/5, com o mesmo nome deste texto e a
propsota de discutir e levantar ações e ideias provocadas também a partir desse
ensaio-manifesto.
• A máquina está em nós
Nosso
laboratório de experimentação tecnopolítica parte de um diagnóstico aterrador
ao mesmo tempo que procura encontrar caminhos contra a atual paralisia:
reconhecer os bloqueios e capturas que governam nosso tempo e imaginação sem
nos render, mapear os inimigos sem abrir mão daquilo que nos torna capazes de
agir e do que nos vincula. E o que nos vincula? Quais as formas de vida estamos
dispostos a criar e defender? Mckenzie Wark chama de “baixa teoria” (low
theory) a prática de fazer teoria junto de um movimento, um coletivo, um estudo
compartilhado, uma pequena conspiração. É a baixa teoria que nos move aqui.
Há 25
anos atrás, os debates sobre tecnologias digitais (ao menos aqueles que a
maioria de nós estávamos engajados) pareciam apontar, enfim, para uma
possibilidade de liberação da vida dos circuitos de produção e circulação de
valor do capital; liberação do conhecimento e das tecnologias em relação aos
regimes proprietários; liberação da ação política para além das fronteiras
nacionais e das instituições de representação.
Hoje, a
situação dificilmente escapa de uma análise catrastrofista. Não só nosso sonho
de liberação foi abatido, mas a reorganização dos regimes de poder e do capital
se alimentaram da nossa vitalidade, transformando as noções de “liberdade”,
“conhecimento aberto”, “livre circulação da informação”, “democratização da
comunicação”, “inteligência coletiva”, “participação política” em ativos para a
expansão e o fortalecimento dos sistemas de dominação.
O pior:
o êxito do tecnoautoritarismo e do capitalismo tecnoinformacional nos faz
suspeitar de nós mesmos. Fomos ingênuos demais? Entregamos mais do que
deveríamos na aposta de uma internet como território livre? Subestimamos os
inimigos e suas armas de captura? Diante disso, como retomar um horizonte de
transformação radical agora que a expansão da digitalização da vida e das
tecnologias informacionais se impõem como mediação ubíqua entre nossas práticas
e discursos, nossas relações e nossos pensamentos, nosso desejo, sensibilidade
e imaginação, nossa memória e a produção de futuros? E qual é a memória ou a
experiência compartilhada que nos vincula quando a vida é convertida em excesso
informacional?
Um dos
aforismos de “Um Manifesto Hacker”, de Mckenzie Wark, dizia: “os hackers usam
seu conhecimento e sua perspicácia para manter sua autonomia”. Essa ainda nos
parece uma formulação provocadora. Ao invés de nos mover na direção de uma
“soberania digital” pensada nos termos da geopolitica dos estados-nação e seus
projetos de poder e controle, preferimos nos perguntar: quais os arranjos
sociotécnicos que podem sustentar autonomias ? Aliás: o que é autonomia? Entre
outras coisas, pensamos em formas de vida que emergem nos intertícios dos
circuitos de valor e espoliação do tecnocapital, territórios de
interdependência multiespécie cujas formas técnicas estão voltadas à vida, à
diversidade, ao tempo do cultivo lento, à reciprocidade e aos modos ativos de
dispersar o poder e às formas de controle. Um território não precisa ser um
espaço fisíco com fronteiras bem delimitadas, ele pode ser instituído a partir
de relações que vinculam práticas e pertencimentos, cumplicidades e
dissidências.
A
gramática do extrativismo constitui a economia tecnopolítica civilizatória no
presente global e faz convergir modos permanentes de espoliação e gestão
autoritária para converter e administrar territórios vivos em zonas passíveis
de serem sacrificadas. As ditas inovações
tecnocientíficas recentes, ligadas
à expansão das
tecnologias digitais como os modelos de inteligência artificial, por exemplo, apresentam um
novo ciclo de
demanda crescente por energia elétrica e extração dos chamados
metais raros. Ainda que possamos defender tecnologia de “baixo impacto”, nos
parece importante voltar às perguntas mais fundamentais como, por exemplo, que
tipo de produção de conhecimento nos interessa? O que entendemos por
eficiência? O que é o Comum que estamos dispostos a cultivar e defender? Nos
parece que em nome da “transição energética” ou dos novos conflitos
militaristas se renova o espírito da ideologia tecnopolítica da Guerra Fria na
qual a ideia de “avanço tecnológico”, escalabilidade, automação e eficiência
passam a dar as cartas, de forma mais decisiva, na geopolítica global e na
legitimidade das formas políticas coloniais de domínio.
Diante
deste cenário, os esforços de regulação do capitalismo tecnoinformacional
parecem mais pavimentar o caminho por onde circula a espoliação e o controle
civilizatório do que produzir formas de resistência e garantia de direitos.
Por um
lado, a exponencial capacidade de vigilância, encarceramento e extermínio
permitiu aos Estados e suas estruturas militares incrementarem genocídios ao mesmo tempo que os convertem em
eventos cotidianos narrados em nossas barras de rolagem. Por outro lado, a digitalização da nossa vida
e as dinâmicas de vigilância e controle se espalham no tecido social em uma
epidemia praticada não só pelo Estado, mas nas famílias, amigos-seguidores,
vizinhos ou empresas.
Como
nossas imaginações e práticas coletivas de transformação podem retomar os
vínculos com o desejo insurgente? Se o que constitui uma máquina é, sobretudo,
suas ações de concatenação – talvez nossa potência não esteja na adoção de uma
forma técnica supostamente libertadora ou mais justa, mas na força que conecta
nosso desejo de liberação com nossas capacidades de experimentar, já no
presente, outras formas de vida.
Escapemos
do regime de visibilidade e da economia política narcísica; recusemos o espaço
dos monopólios corporativos como sendo a nova esfera pública, desertemos da
máquina de captura e extração para criar e alimentar uma economia própria de
suporte mútuo e de defesa do Comum. Criar e sustentar mundos sob outras
racionalidades, normatividades e cosmovisões, ao mesmo tempo que se sabota as
engrenagens do rolo compressor colonial para reduzir a eficiência do sistema
dominante, desinvestindo e fragilizando suas infraestruturas técnicas,
econômicas e jurídicas. Romper com os critérios da eficiência técnica
capitalista e viver sob os critérios de suficiência Terrana. A luta coletiva no
campo tecnopolítico digital pode ser aqui e agora uma luta cosmopolítica, anticapitalista
e contra-colonial.
Fonte:
Por Alana Moraes, Henrique Parra, Leonardo Foletto e Pedro Ekman, no
BaixaCultura

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