quarta-feira, 28 de maio de 2025

O flerte eugenista que guia a política de saúde Trumpista

Quando Robert F. Kennedy Jr., então Secretário de Saúde dos Estados Unidos, declarou, em abril de 2025, que pessoas autistas “nunca pagarão impostos, nunca terão um emprego, nunca jogarão beisebol, nunca escreverão um poema, nunca sairão em um encontro”, ele não se limitou a repetir estigmas. Ele revelou, com brutal honestidade, o tipo de valor que nosso mundo atribui à vida: o valor da utilidade, da produtividade, da funcionalidade. Seu discurso é menos sobre deficiência e mais sobre a falência ética de uma sociedade que mede a dignidade humana pelo quanto ela pode ser explorada.

Kennedy Jr. vocaliza uma lógica que estrutura o pânico moral em torno do autismo. A ideia de que autistas seriam aqueles que “nunca usarão um banheiro sem ajuda” e seriam “sem futuro”, sem emprego, sem romance e sem cidadania aponta para algo mais profundo: a recusa em reconhecer a legitimidade de vidas que não se alinham ao ideal normativo de desenvolvimento e progresso. Essa recusa não é acidental. É parte do que o teórico queer Lee Edelman, em No Future, descreve como a política centrada na figura da criança.

Segundo Edelman, a política hegemônica se ancora em um ideal de futuro representado por essa figura simbólica da ‘criança inocente’, normal, saudável, educável e reproduzível. A criança não é apenas um corpo infantil, mas um horizonte de expectativas que organiza o discurso político, a moralidade e até a biopolítica. Quem ameaça esse ideal, quem não pode ou não quer contribuir para sua manutenção, é relegado à margem do social, como elemento perturbador. Edelman chama isso de figura do “sem-futuro”. E nessa leitura, o autista, especialmente aquele que não se adapta, que não se comunica “como deveria”, que não produz ou consome como o esperado, é precisamente essa figura.

Não se trata apenas de falta de empatia social. Trata-se de um projeto. Um projeto político e econômico que mobiliza o autismo como anti-imagem da criança ideal. Se a criança simboliza o amanhã da nação, o autista, na boca de Kennedy Jr., simboliza a interrupção desse amanhã. Ele não joga beisebol, não namora, não trabalha, não contribui. Ele não projeta continuidade. E por isso é temido, demonizado, descartado.

Essa lógica, claro, não se limita ao autismo. A perseguição sistemática às pessoas trans durante o governo de Donald Trump opera segundo os mesmos códigos. Sob o pretexto de proteger a infância, dezenas de medidas foram aprovadas para restringir o acesso de jovens trans a esportes, banheiros, escola e até cuidados de saúde. O que está em jogo não é uma disputa por políticas públicas, mas o controle simbólico do que é considerado uma vida “viável”, um corpo aceitável, um futuro possível. O corpo trans, assim como o autista não-normativo, torna-se bode expiatório de um sistema que reage com violência a tudo que escapa da norma.

O discurso do Secretário de Saúde dos Estados Unidos é mais do que capacitista. Ele é profundamente utilitarista. Ele revela uma sociedade que só reconhece valor na vida quando ela pode ser convertida em capital, seja por meio do trabalho, dos impostos ou da participação de atividades que perpetuem uma ideia de “vida funcional”: como esportes e namoro. Dessa forma, o autista que não se encaixa, que não compensa, é percebido como falha ontológica. Como desperdício. Como um peso para o Estado.

Nesse contexto, a luta por neurodiversidade é uma luta por heresia. Heresia contra o culto do futuro, contra a religião da produtividade. Como afirma Nick Walker, uma das principais vozes da epistemologia neurodivergente, o autismo não é um defeito a ser corrigido, mas uma forma legítima de existência, mesmo quando radicalmente desviante. Uma existência que recusa a se moldar à lógica da utilidade.

O “bom cidadão” é aquele que se vende bem no mercado de trabalho, que consome, que se reproduz, que mantém o ciclo girando. Os outros são custo, peso morto, ameaça. Kennedy Jr., ao dizer que o autista nunca pagará impostos, está apenas reiterando essa hierarquia violenta: se não serve ao capital, não serve ao mundo. A resposta, portanto, não pode ser a promessa de que autistas também podem ser produtivos. Essa é a armadilha que devemos escapar. O desafio é afirmar, com radicalidade, que não devemos nada à lógica da exploração. Que não precisamos ser úteis, nem “normais”, para sermos dignos. Que uma vida que não rende imposto é também uma vida completa.

Em uma espécie de premonição determinista, o secretário já anunciou que revelará, ainda em 2025, “a verdadeira causa do autismo”, algo que deve se alinhar entre supostos “rastros químicos despejados por aviões”, uma conhecida teoria da conspiração sobre chemtrails; e a histórica desinformação de que as vacinas seriam a suposta causa do autismo. Esse tipo de narrativa extrapola a estigmatização inclusive para uma dimensão de risco à saúde pública, podendo estimular a queda nas taxas de vacinação por mero medo de que crianças “se tornem autistas”.

Ao fim, o que está em disputa não é somente o futuro das pessoas autistas, mas o tipo de futuro que queremos para todos. Um futuro onde em que apenas os corpos adaptados, produtivos e domesticados sobrevivem? Ou um futuro em que a diversidade radical, inclusive aquela que não gera lucro, nem se encaixa, possa florescer sem medo? A segunda opção não será construída com promessas de integração. Será construída com desobediência, com afirmação e com organização daqueles que são marginalizados. Porque talvez a heresia autista, ombro a ombro da heresia queer, seja um caminho para romper com esse presente que se repete em nome de um futuro que nunca nos pertenceu.

 

Fonte: Por Arthur Ataide Ferreira Garcia e Ergon Cugler, no Le Monde

 

 

Tecnopolíticas de retomada: bifurcar para resistir

Republicamos aqui o ensaio-manifesto criado a partir do GT Experimentações Tecnopolíticas, da Coalizão Direitos na Rede. O texto, produzido no âmbito das atuações do GT (que ocorrem desde 2023 e podem ser vistas aqui), foi escrito por Alana Moraes, Henrique Parra, Leonardo Foletto e Pedro Ekman. Ele sintetiza alguns dos debates e seminários realizados nas discussões do grupo e de encontros como o Laboratório de Experimentações Tecnopolítica, em dezembro de 2023, o “Tecnopolíticas de Retomada“, na CryptoRave de 2024, e o práticas de imaginar & fazer mundos, em novembro de 2024. O GT segue em atividade e neste 2025/1 terá uma mesa na CrypoRave, 10h do dia 17/5, com o mesmo nome deste texto e a propsota de discutir e levantar ações e ideias provocadas também a partir desse ensaio-manifesto.

•        A máquina está em nós

Nosso laboratório de experimentação tecnopolítica parte de um diagnóstico aterrador ao mesmo tempo que procura encontrar caminhos contra a atual paralisia: reconhecer os bloqueios e capturas que governam nosso tempo e imaginação sem nos render, mapear os inimigos sem abrir mão daquilo que nos torna capazes de agir e do que nos vincula. E o que nos vincula? Quais as formas de vida estamos dispostos a criar e defender? Mckenzie Wark chama de “baixa teoria” (low theory) a prática de fazer teoria junto de um movimento, um coletivo, um estudo compartilhado, uma pequena conspiração. É a baixa teoria que nos move aqui.

Há 25 anos atrás, os debates sobre tecnologias digitais (ao menos aqueles que a maioria de nós estávamos engajados) pareciam apontar, enfim, para uma possibilidade de liberação da vida dos circuitos de produção e circulação de valor do capital; liberação do conhecimento e das tecnologias em relação aos regimes proprietários; liberação da ação política para além das fronteiras nacionais e das instituições de representação.

Hoje, a situação dificilmente escapa de uma análise catrastrofista. Não só nosso sonho de liberação foi abatido, mas a reorganização dos regimes de poder e do capital se alimentaram da nossa vitalidade, transformando as noções de “liberdade”, “conhecimento aberto”, “livre circulação da informação”, “democratização da comunicação”, “inteligência coletiva”, “participação política” em ativos para a expansão e o fortalecimento dos sistemas de dominação.

O pior: o êxito do tecnoautoritarismo e do capitalismo tecnoinformacional nos faz suspeitar de nós mesmos. Fomos ingênuos demais? Entregamos mais do que deveríamos na aposta de uma internet como território livre? Subestimamos os inimigos e suas armas de captura? Diante disso, como retomar um horizonte de transformação radical agora que a expansão da digitalização da vida e das tecnologias informacionais se impõem como mediação ubíqua entre nossas práticas e discursos, nossas relações e nossos pensamentos, nosso desejo, sensibilidade e imaginação, nossa memória e a produção de futuros? E qual é a memória ou a experiência compartilhada que nos vincula quando a vida é convertida em excesso informacional?

Um dos aforismos de “Um Manifesto Hacker”, de Mckenzie Wark, dizia: “os hackers usam seu conhecimento e sua perspicácia para manter sua autonomia”. Essa ainda nos parece uma formulação provocadora. Ao invés de nos mover na direção de uma “soberania digital” pensada nos termos da geopolitica dos estados-nação e seus projetos de poder e controle, preferimos nos perguntar: quais os arranjos sociotécnicos que podem sustentar autonomias ? Aliás: o que é autonomia? Entre outras coisas, pensamos em formas de vida que emergem nos intertícios dos circuitos de valor e espoliação do tecnocapital, territórios de interdependência multiespécie cujas formas técnicas estão voltadas à vida, à diversidade, ao tempo do cultivo lento, à reciprocidade e aos modos ativos de dispersar o poder e às formas de controle. Um território não precisa ser um espaço fisíco com fronteiras bem delimitadas, ele pode ser instituído a partir de relações que vinculam práticas e pertencimentos, cumplicidades e dissidências.

A gramática do extrativismo constitui a economia tecnopolítica civilizatória no presente global e faz convergir modos permanentes de espoliação e gestão autoritária para converter e administrar territórios vivos em zonas passíveis de serem sacrificadas. As ditas inovações  tecnocientíficas recentes, ligadas  à  expansão  das  tecnologias  digitais  como os modelos de inteligência  artificial, por exemplo, apresentam  um  novo  ciclo  de  demanda  crescente  por energia elétrica e extração dos chamados metais raros. Ainda que possamos defender tecnologia de “baixo impacto”, nos parece importante voltar às perguntas mais fundamentais como, por exemplo, que tipo de produção de conhecimento nos interessa? O que entendemos por eficiência? O que é o Comum que estamos dispostos a cultivar e defender? Nos parece que em nome da “transição energética” ou dos novos conflitos militaristas se renova o espírito da ideologia tecnopolítica da Guerra Fria na qual a ideia de “avanço tecnológico”, escalabilidade, automação e eficiência passam a dar as cartas, de forma mais decisiva, na geopolítica global e na legitimidade das formas políticas coloniais de domínio.

Diante deste cenário, os esforços de regulação do capitalismo tecnoinformacional parecem mais pavimentar o caminho por onde circula a espoliação e o controle civilizatório do que produzir formas de resistência e garantia de direitos.

Por um lado, a exponencial capacidade de vigilância, encarceramento e extermínio permitiu aos Estados e suas estruturas militares incrementarem  genocídios ao mesmo tempo que os convertem em eventos cotidianos narrados em nossas barras de rolagem.  Por outro lado, a digitalização da nossa vida e as dinâmicas de vigilância e controle se espalham no tecido social em uma epidemia praticada não só pelo Estado, mas nas famílias, amigos-seguidores, vizinhos ou empresas.

Como nossas imaginações e práticas coletivas de transformação podem retomar os vínculos com o desejo insurgente? Se o que constitui uma máquina é, sobretudo, suas ações de concatenação – talvez nossa potência não esteja na adoção de uma forma técnica supostamente libertadora ou mais justa, mas na força que conecta nosso desejo de liberação com nossas capacidades de experimentar, já no presente, outras formas de vida.

Escapemos do regime de visibilidade e da economia política narcísica; recusemos o espaço dos monopólios corporativos como sendo a nova esfera pública, desertemos da máquina de captura e extração para criar e alimentar uma economia própria de suporte mútuo e de defesa do Comum. Criar e sustentar mundos sob outras racionalidades, normatividades e cosmovisões, ao mesmo tempo que se sabota as engrenagens do rolo compressor colonial para reduzir a eficiência do sistema dominante, desinvestindo e fragilizando suas infraestruturas técnicas, econômicas e jurídicas. Romper com os critérios da eficiência técnica capitalista e viver sob os critérios de suficiência Terrana. A luta coletiva no campo tecnopolítico digital pode ser aqui e agora uma luta cosmopolítica, anticapitalista e contra-colonial.

 

Fonte: Por Alana Moraes, Henrique Parra, Leonardo Foletto e Pedro Ekman, no BaixaCultura

 

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