As
lendárias mergulhadoras coreanas com vantagem genética que pode ajudar a tratar
doenças
Nas
águas frias do Mar do Leste (Mar do Japão), na ilha sul-coreana de Jeju,
mergulhadoras desafiam os limites do corpo humano.
Munidas
de uma faca e da força dos pulmões, as haenyeo ("mulheres do mar" em
coreano) submergem até 15 metros de profundidade em busca de moluscos e outras
criaturas marinhas.
A
maioria herdou das mães esse ofício, que vem sendo transmitido entre gerações —
as primeiras referências documentadas datam do século 17.
Além de
ser um símbolo de identidade e resistência reconhecido pela Unesco como
Patrimônio Cultural Imaterial, as haenyeo nos últimos anos também têm dado
contribuição importante para a ciência.
Pesquisadores
investigam se o estilo de vida das mergulhadoras pode ter contribuído para a
seleção genética de variantes que podem ajudar a tratar doenças crônicas como
hipertensão e derrame.
• A história das haenyeo
A
tradição de mergulhar em Jeju para coletar moluscos — de abalones a polvos —,
ouriços-do-mar, pepinos-do-mar e algas marinhas tem mais de quatro séculos de
história documentada, remontando a escritos como A Topografia de Jeju, de 1629.
O
mergulho era visto originalmente como um atividade masculina, mas no século 17
as mulheres assumiram essa função por necessidade.
Com os
homens ausentes devido à guerra, migração ou pesca em alto mar, foram elas que
passaram a se encarregar de prover para a família, mergulhando no oceano para
coletar o sustento diário.
Assim
nasceram as haenyeo, que moldaram não apenas o modo de vida da ilha, mas também
sua estrutura social: uma sociedade matriarcal única.
Em
algumas comunidades insulares, os homens eram responsáveis pelos cuidados com
as crianças, enquanto as mulheres se encarregavam do trabalho remunerado.
Tradições
como o pagamento de um dote pelo noivo ou a celebração do nascimento de meninas
em detrimento dos meninos refletem essa ordem social, na qual o ofício das
haenyeo conferia respeito e autonomia.
O
trabalho é duro e perigoso: os turnos podem durar entre cinco e sete horas,
mesmo no inverno, e os mergulhos atingem profundidades de até 15 ou 20 metros.
A
tecnologia lhes proporcionou melhores condições de trabalho — as roupas de
algodão, por exemplo, foram substituídas por macacões de neoprene e foram
incorporadas máscaras e nadadeiras —, mas elas ainda estão expostas a riscos
extremos, desde doenças de descompressão e enroscamento em redes de pesca até
encontros com tubarões.
Alguns
perderam parcial ou completamente a audição devido a mudanças de pressão.
• A genética especial
Por
gerações, as haenyeo treinaram seus corpos para atuar sob condições extremas,
mergulhando a profundidades de mais de 15 metros só com o ar dos pulmões,
suportando temperaturas abaixo de zero no inverno e prendendo a respiração por
minutos.
A
tradição centenária acabou tendo impacto no DNA dessas mulheres, conforme
apontou uma pesquisa realizada por uma equipe internacional de cientistas.
Diana
Aguilar Gómez, especialista em genética populacional treinada na Universidade
da Califórnia, Berkeley, liderou a análise genética de um estudo que começou em
2019 e revelou adaptações fisiológicas e genéticas únicas na comunidade das
haenyeo.
Seu
trabalho, ela explicou à BBC News Mundo (serviço de notícias em língua
espanhola da BBC), consistiu em analisar sequências de DNA em busca de genes
associados a características físicas específicas na população haenyeo.
O
projeto, conduzido em colaboração com pesquisadores da Universidade de Utah, da
Universidade Nacional de Seul e da Universidade de Copenhague, comparou três
grupos: haenyeo ativas de Jeju, mulheres que não mergulham na ilha e mulheres
de outros lugares.
Características
fisiológicas como frequência cardíaca, pressão arterial e tamanho do baço foram
analisadas, e experimentos conhecidos como "mergulhos simulados"
foram conduzidos para replicar as condições da atividade das mergulhadoras sem
colocar as demais participantes, muitas das quais idosas, em risco.
"Colocamos
as mulheres em frente a uma tigela de água fria, submergindo suas cabeças por
um minuto, e então medimos como seus corpos reagiram", explica Aguilar.
Esses
experimentos nos permitiram observar como o reflexo de mergulho, que reduz a
frequência cardíaca para conservar oxigênio, foi ativado com muito maior
intensidade nas haenyeo.
"Observamos
que a frequência cardíaca delas diminuiu muito mais do que a de mulheres não
treinadas. Isso é uma adaptação adquirida, um produto do treinamento", diz
a cientista.
A
surpresa veio na análise do DNA: "Encontramos uma região reguladora de um
gene que acreditamos que reduz a pressão arterial", observa Aguilar.
Essa
descoberta é especialmente relevante porque as haenyeo, mesmo as grávidas, não
pararam de mergulhar.
"O
mergulho pode aumentar a pressão arterial, o que aumenta o risco de
pré-eclâmpsia. Acreditamos que essa variante genética pode ter um efeito
protetor nesses casos", revela.
A
equipe também identificou uma segunda mutação relacionada à resistência ao
frio, que pode proteger contra a hipotermia.
"Essas
mulheres historicamente mergulhavam o ano inteiro com trajes de algodão, até
mesmo no inverno. Essa variante genética pode ter sido selecionada porque as
ajudou a sobreviver nessas condições", explica a pesquisadora.
Segundo
Aguilar, essa adaptação pode ter se consolidado há mais de mil anos.
"Imagine
duas mulheres grávidas em uma comunidade de mergulho. Uma tem a variante
genética protetora e a outra não. Ao longo das gerações, é provável que aquelas
com essa mutação sobrevivam mais, e isso se reflete no DNA coletivo da
população", ela ilustra.
Além do
interesse antropológico, a pesquisadora afirma que as descobertas têm potencial
médico global: "Essas variantes são encontradas em frequências diferentes
em populações ao redor do mundo. Elas podem ser relevantes para pessoas com
hipertensão ou problemas vasculares, não apenas para mergulhadores ou
gestantes".
O
conhecimento desses genes poderá, no futuro, servir de base para o
desenvolvimento de tratamentos.
Aguilar
acredita que "eles podem se tornar alvos terapêuticos. Ainda não sabemos
como isso será aplicado, mas sabemos que algo útil pode sair disso".
O
trabalho da equipe foi publicado após anos de colaboração internacional e, para
a cientista, registrar todo esse esforço em um periódico científico é apenas o
primeiro passo: "A ciência funciona como um sistema de Lego. Nós juntamos
as peças e outros constroem em cima. Mas o certo é que as haenyeo, além de
serem um patrimônio cultural, agora também fornecem insights valiosos para a
medicina do futuro", conclui.
• O perigo de extinção
Durante
décadas, a profissão foi vista como uma atividade de classes baixas, e muitas
haenyeo cresceram sem acesso à educação formal, vendendo seus pescados em
mercados desde muito jovens.
Isso
mudou nos últimos anos, com seu reconhecimento institucional e social,
especialmente desde sua inclusão na Lista Representativa do Patrimônio Cultural
Imaterial da Humanidade da Unesco.
O
governo sul-coreano tem oferecido ajuda financeira, direitos exclusivos de
pesca e promovido a criação de museus e escolas com o intuito de preservar a
tradição.
O
impacto dessas medidas, contudo, é limitado: poucas mulheres jovens estão
dispostas a viver sob o risco constante e o isolamento de uma existência
dedicada ao mar.
Apenas
algumas dezenas vêm se tornando mergulhadoras, e muitas que abraçam a atividade
só a realizam esporadicamente ou em meio período.
A
população de haenyeo na Ilha de Jeju declinou vertiginosamente nas últimas
décadas, de mais de 30 mil nos anos 1960 a menos de 3 mil. Hoje, mais de 80%
delas têm mais de 60 anos.
Isso se
explica, em parte, pela transformação econômica pela qual Jeju passou nas
últimas décadas.
A ilha,
que durante séculos dependeu da pesca e da agricultura, voltou-se para o
turismo de massa e para o setor serviços, proporcionando oportunidades de
trabalho mais confortáveis e melhor remuneradas do que o mergulho.
Como
resultado, cada vez menos meninas estão seguindo os passos de suas mães
haenyeo, e o conhecimento tradicional que antes era passado de geração em
geração corre o risco de ser perdido.
Algumas
iniciativas, no entanto, encontraram novas maneiras de manter vivo o espírito
das mulheres do mar.
Um
exemplo é o restaurante Pyeongdae Sunggae Guksu, na costa nordeste de Jeju,
fundado por duas mergulhadoras, que serve pratos tradicionais feitos
exclusivamente com produtos pescados por elas mesmas, como os cobiçados
ouriços-do-mar.
O local
se tornou um pequeno santuário culinário que celebra a cultura haenyeo e, ao
mesmo tempo, as ajuda a complementar a renda.
Outro
raio de esperança está fora de Jeju, na ilha de Geoje, no sul do país.
Sohee
Jin, de 32 anos, deixou a movimentada cidade de Busan para se tornar
mergulhadora e, após um ano de aprendizado não remunerado, ela literalmente
entrou de cabeça na atividade.
Hoje,
ela não apenas pesca abalones e ouriços-do-mar. Documentando sua vida nas redes
sociais, virou influenciadora, tem aparecido em programas de TV e chegou a
atuar em um filme.
Com a
amiga Jungmin Woo, também mergulhadora, ela lidera um pequeno grupo de jovens
mulheres haenyeo determinadas a preservar a tradição, adaptando-a ao século 21.
Elas
sabem que não escolheram um caminho fácil: além dos riscos da própria
atividade, lidam com redes de pesca abandonadas, pescadores ilegais e os
efeitos das mudanças climáticas nos ecossistemas marinhos.
Mesmo
assim, mergulham o ano todo, têm orgulho da profissão e encontram no mar uma
liberdade que dizem que não trocariam pela rotina tediosa de um escritório.
Fonte:
BBC News Mundo

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