sexta-feira, 25 de abril de 2025

Vijay Prashad: A histórica Conferência anti-colonialista de Bandung de 1955, que inspirou uma nova era no Sul Global

 Esta semana marca o 70º aniversário da Conferência de Bandung, quando 29 nações da Ásia e da África se reuniram na Indonésia para uma histórica conferência anti-colonialista que visava traçar um novo caminho para os países em desenvolvimento em meio a uma onda de descolonização que varria o globo. A Conferência de Bandung de 1955 anunciou a chegada ao palco mundial dos povos do Sul Global e marcou o nascimento do que mais tarde se tornaria o Movimento dos Não-Alinhados, no auge da rivalidade da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Entre as principais nações participantes estavam China, Índia, Paquistão, Egito, Birmânia e Vietnã. A conferência foi organizada pelo presidente indonésio Sukarno, uma importante figura anti-imperialista que mais tarde seria derrubado em um golpe apoiado pelos EUA.

“Todos eles se reuniram porque entenderam que sua união era muito importante, não apenas para criar uma nova ordem comercial e de desenvolvimento — essa não era a única parte —, mas também para lutar pela paz”, diz o autor e jornalista Vijay Prashad, diretor do think-tank Tricontinental. “Bandung representou a esperança para centenas de milhões de pessoas ao redor do planeta em 1955.”=Tradução da transcrição original [Esta é uma transcrição rápida. O texto pode não estar em sua forma final.]

AMY GOODMAN: Este é o Democracy Now!, democracynow.org, The War and Peace Report. Eu sou Amy Goodman, com Juan González.

Enquanto o presidente Trump busca revolucionar o sistema global de comércio, olhamos para trás, para um momento crítico de há 70 anos, quando 29 nações da Ásia e da África se reuniram em Bandung, na Indonésia, para uma histórica conferência anti-colonialista. A Conferência de Bandung de 1955 marcou um momento crucial em que os povos das ex-nações colonizadas do Sul Global fizeram a sua presença coletiva ser sentida no cenário mundial. Ela marcou o nascimento do que mais tarde se tornaria o Movimento dos Não-Alinhados, em meio à Guerra Fria. Entre as principais nações participantes estavam Índia, China, Indonésia, Egito, Birmânia, Paquistão, Vietnã e Ceilão, hoje conhecido como Sri Lanka. Esta é a fala do presidente da Indonésia na época, Sukarno, em Bandung.

PRESIDENTE SUKARNO: Esta é a primeira conferência intercontinental de povos de cor, os chamados povos de cor, na história da humanidade. Tenho orgulho de que o meu país seja o seu anfitrião. Este é um novo marco na história do mundo, em que líderes dos povos da Ásia e da África possam se reunir em seus próprios países para discutir e deliberar sobre questões de interesse comum.

AMY GOODMAN: Malcolm X falaria mais tarde sobre a importância histórica da Conferência de Bandung.

MALCOLM X: Em Bandung, todas as nações se uniram. Havia nações negras da África e da Ásia. Algumas eram budistas. Algumas eram muçulmanas. Algumas eram cristãs. Algumas eram confucionistas. Algumas eram ateias. Apesar das suas diferenças religiosas, elas se uniram. Algumas eram comunistas. Algumas eram socialistas. Algumas eram capitalistas. Apesar das suas diferenças econômicas e políticas, elas se uniram. Todas eram negras, pardas, vermelhas ou amarelas. A única coisa que não foi permitida na Conferência de Bandung foi o homem branco. Ele não pôde vir. Uma vez que o excluíram, eles viram que podiam se unir. Uma vez que o mantiveram fora, todos os outros entraram e se alinharam. Isso é o que você e eu precisamos entender. E essas pessoas que se uniram não tinham armas nucleares. Não tinham aviões a jato. Não tinham todo o armamento pesado que o homem branco tem. Mas tinham unidade.

AMY GOODMAN: Palavras de Malcolm X. O centésimo aniversário de seu nascimento será em maio.

Agora nos acompanha Vijay Prashad, diretor do Tricontinental: Institute for Social Research. Seu mais recente newsletter tem o título Esperando por um Novo Espírito de Bandung. Vijay Prashad escreveu mais de 40 livros, incluindo The Darker Nations: A People’s History of the Third World, [As Nações Mais Escuras: Uma História Popular do Terceiro Mundo], que acaba de ser publicado na Indonésia nesta semana. Seu artigo mais recente para o Globetrotter trata do “BRICS e o Desenvolvimento Industrial”. Ele está conosco desde Santiago, Chile.

Vijay, bem-vindo de volta ao Democracy Now! Vamos retroceder 70 anos. Fale sobre o significado da Conferência de Bandung, como ela se formou e o que isso significou para o mundo de hoje.

VIJAY PRASHAD: *Sabe, Amy, é muito interessante que, logo após a Segunda Guerra Mundial, houve um enorme surto de agitação política nas antigas colônias da Ásia e da África. Essa agitação, liderada por movimentos anti-colonialistas, ocorria não apenas pela liberdade nos seus próprios países, mas pela liberdade nos países uns dos outros. Assim, na Índia, mesmo antes de a Índia conquistar a sua independência em agosto de 1947, eles convocaram uma conferência chamada Conferência das Relações Asiáticas, que era de solidariedade com o povo da Indonésia que lutava então contra os holandeses. Esse era o espírito da época: centenas de milhões de pessoas em toda a África e Ásia lutando contra o colonialismo, enfrentando guerras coloniais brutais na Malásia e no Quênia - a chamada rebelião Mau Mau.*

Naquele momento, eles se reuniram em Bandung, Indonésia, uma cidade linda, sob a liderança do presidente Sukarno, que havia vencido uma luta verdadeiramente corajosa, primeiro contra o imperialismo japonês e depois contra os holandeses. Eles se reuniram. E o que é realmente notável é que, como Malcolm X diz, vieram comunistas como Zhou Enlai, alguns anos após a Revolução Chinesa, mas também Sir John Kotelawala, do Ceilão, hoje Sri Lanka, um anticomunista ferrenho. Todos eles se reuniram porque entenderam que a sua união era muito importante, não apenas para criar uma nova ordem comercial e de desenvolvimento — essa não era a única parte —, mas também para lutar pela paz, porque eles sabiam o que significava estar do outro lado do cano de um rifle. Eles entenderam que, se a Guerra Fria fosse permitida a se metastatizar, simplesmente não lhes permitiria se desenvolver. Assim, as palavras de ordem em Bandung eram “paz” e “desenvolvimento”.

E essas pessoas que estavam lá — Nehru, Nasser, Sukarno, Zhou Enlai — representavam vastos movimentos ao redor do mundo. Elas não tinham medo do povo. Elas caminhavam do hotel até o local da conferência. Não havia guardas armados. Elas se encontravam com o povo. Eram recebidas com aplausos. E deram discursos poderosos, não apenas de unidade, como Malcolm X aponta, mas também para dizer: “Olhem, nós não temos armas nucleares, mas temos a força moral do movimento anti-colonialista, e é isso que estamos colocando diante do mundo. Queremos mudar o mundo, torná-lo um lugar melhor. Não queremos mais que a força das armas governe sobre nós.”

JUAN GONZÁLEZ: E, Vijay, eu queria perguntar — você mencionou alguns dos líderes que estavam lá, mas, curiosamente, muitos deles, poucos anos depois, foram derrubados — por exemplo, Sukarno em 1965, Nkrumah e Nasser — e, mesmo a caminho da conferência, houve uma tentativa de assassinato contra Zhou Enlai. O avião em que ele estava programado para viajar para a conferência foi bombardeado e caiu. E, por sorte, Zhou Enlai supostamente teve que adiar a viagem por causa de uma doença. Mas você pode falar sobre como as potências ocidentais temiam o que estava se desenvolvendo como resultado de Bandung?

VIJAY PRASHAD: É muito importante saber que, quando você lê os documentos do governo dos EUA, John Foster Dulles e outros estavam furiosos com o que estava acontecendo em Bandung. Eles se recusavam a chamar isso de um processo de não-alinhamento. Insistiam em chamá-los de “neutralistas”, dizendo que essas pessoas eram, na verdade, pró-comunistas — uma completa deturpação das diferenças de opinião política em Bandung.

*E esse ataque a Bandung assume uma forma ainda mais virulenta com os golpes no início e meados dos anos 1960. É importante lembrar que houve uma trindade de golpes de Estado nos anos 1960 contra governos progressistas nos maiores países da África, América do Sul e Ásia. Primeiro, o golpe contra Patrice Lumumba. Lumumba era, em um sentido muito real, um descendente do nkrumahismo, da crença no pan-africanismo de Kwame Nkrumah. Ele chegou ao poder no maior país da África, a República Democrática do Congo, e foi derrubado em um golpe brutal liderado pelos EUA, belgas, serviços de inteligência britânicos e outros. Isso foi em 1961. Isso desestabilizou o movimento de libertação nacional na África, seguido três anos depois por um golpe de Estado contra o presidente liberal eleito do Brasil, João Goulart, em 1964, um golpe que durou 21 anos, quando os militares no Brasil foram então autorizados, por meio da Operação Condor, a utilizar efetivamente os serviços militares em toda a América Latina para conter o impacto da Revolução Cubana de 1959. E esse é um processo que levou ao golpe no Chile em 1973, na Argentina em 1976 e assim por diante. Novamente, o maior país da América Latina, um golpe promovido pelos EUA. E, finalmente, 10 anos após Bandung, como você disse corretamente, o golpe de Estado contra Sukarno, com um milhão de comunistas mortos, muitas vezes com listas enviadas por fax ou telex pelos serviços de inteligência australianos, britânicos e estadunidenses, nomes de pessoas que eles queriam que o exército da Indonésia executasse, um milhão de pessoas mortas, o governo progressista de Sukarno derrubado. Isso teve um enorme impacto na Ásia.*

Bandung representou esperança para centenas de milhões de pessoas ao redor do planeta em 1955. Foi para esmagar essa esperança que os EUA e seus aliados realizaram esses golpes contra Lumumba, Goulart e, depois, Sukarno.

JUAN GONZÁLEZ: E qual é a sua percepção? Você escreveu agora sobre o espírito de Bandung] e qual é a situação para os países do Sul Global. Você também falou muito sobre o BRICS nos últimos anos.

VIJAY PRASHAD: Quero dizer, sabe, Juan, é interessante porque, na época de Bandung, a consciência subjetiva da necessidade de uma nova mudança, de unidade, dessa força moral chamada Terceiro Mundo, era extremamente alta. Mas essa consciência, essa percepção da necessidade de mudança era muito maior do que a capacidade desses Estados. Esses Estados eram superados em termos de poder militar. Esses Estados simplesmente não tinham o tipo de riqueza e capacidade tecnológica necessários. Na verdade, eles não conseguiam produzir a maioria das coisas por si mesmos. Walter Rodney escreverá mais tarde em Como a Europa Subdesenvolveu a África, que a maioria dos países africanos, no momento das suas independências, não conseguia produzir nem pasta de dente, porque tinham que importá-la da Lever Brothers, de uma multinacional britânica. Esses países estavam em uma desvantagem objetiva.

*Bem, a crise da dívida dos anos 1980 realmente colapsou as uniões políticas, a esperança do Terceiro Mundo. Mas algo novo emergiu, particularmente desde a crise financeira mundial de 2007-2008. Os grandes países do Sul, especialmente na Ásia, liderados pela China, desenvolveram as suas manufaturas. Eles desenvolveram as suas capacidades tecnológicas. Em termos das mudanças objetivas que estão ocorrendo, podemos ver isso diante de nossos olhos. O centro de gravidade da economia mundial não é mais o Oceano Atlântico. Ela agora está definitivamente na Ásia, em algum lugar entre China, Vietnã, Bangladesh, Índia, Indonésia. Esses países estão crescendo em um ritmo muito rápido.*

Mas o senso de unidade política ainda não está totalmente visível, apesar do BRICS. O BRICS é um órgão comercial. Não é realmente um órgão político. Não deve ser exagerado. Assim, aquele espírito de Bandung, que estava lá em 1955, não está lá agora. Estamos meio que esperando pelo renascimento do espírito de Bandung. Temos as estruturas para um novo mundo relativamente em vigor, mas não temos realmente a consciência, a confiança de que um novo mundo possa ser construído. E, a propósito —

AMY GOODMAN: Temos 10 segundos, Vijay.

VIJAY PRASHAD: — a consciência no Norte também não está lá.AMY GOODMAN: Temos 10 segundos.

VIJAY PRASHAD: Sim, só estou dizendo que a consciência nos países do Norte também não está lá ainda. As tarifas de Trump tentando reverter essa tendência não vão funcionar. [inaudível]

AMY GOODMAN: Temos que parar por aqui, Vijay Prashad, diretor do Tricontinental. Eu sou Amy Goodman, com Juan González.

¨      “Nem Ocidente, nem Oriente: Sul Global”, destaca Celso Amorim sobre o BRICS

O assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, o embaixador Celso Amorim, tem uma extensa carreira na diplomacia brasileira. Ele estudou no Instituto Rio Branco, centro de formação de diplomatas brasileiros, e concluiu pós-graduação na Academia Diplomática de Viena e na London School of Economics. 

Celso Amorim foi Ministro das Relações Exteriores no Governo do Presidente Itamar Franco (1993- 1994) e do Presidente Lula (2003-2010). Serviu como Representante Permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas, em Nova York (1995-1999) e em Genebra (1991-1993 e 1999-2001), e também foi Embaixador do Brasil, em Londres, entre 2001 e 2002. Desde janeiro de 2023 atua no terceiro governo Lula. 

Entre os diversos prêmios que recebeu como reconhecimento por sua carreira, foi recentemente escolhido pela revista Bravo Business como um dos líderes mais “imaginativos” do continente. Em 2010, integrou a lista da revista Foreign Policy como o 6º entre 100 pensadores globais. 

Em entrevista exclusiva para o site do BRICS Brasil, Celso Amorim conversou sobre a importância de os países em desenvolvimento se unirem em torno de pautas comuns e a relevância de um agrupamento como o BRICS. Ele ressaltou que não existe um caráter antiocidental no foro e citou, inclusive, os acordos do Brasil com países ocidentais, além das oportunidades de cooperação entre os países membros do BRICS nas áreas econômica e financeira e sustentabilidade ambiental. Outro ponto importante abordado pelo diplomata é a importância da reforma da governança global e da compreensão de que não se pode ter uma organização internacional sem a participação ativa dos países em desenvolvimento.

>>>> Confira a entrevista. 

·        Como surgiu a ideia de fazer uma articulação entre os países e criar um foro de cooperação a partir de uma sigla criada por um economista? 

Um dia, enquanto eu era presidente de uma organização internacional de saúde, o economista Jim O’Neill era ministro do Tesouro da Inglaterra. Sentei ao lado dele em uma reunião e falei: “poxa, que bom, estou do lado da pessoa que inventou o BRICS”. O economista disse: “sim, sim”. Aí complementei: “mas fomos nós que fizemos”.

Acho que o que está por trás do nosso agrupamento é a noção da necessidade de institucionalização das organizações do Sul Global. Naquela época, não se usava muito essa expressão, mas no início da década de 2000, eu representava o governo brasileiro e o diplomata russo, Sergei Lavrov, realmente me procurou e sugeriu a criação do foro dos BRICS. Quando Lavrov fez essa sugestão, discutimos ali na hora e depois foi evoluindo. Fizemos uma primeira reunião de ministros, mas a primeira reunião de presidentes foi em 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia.

"Como é que se pode dizer que o Brasil é contra o ocidente se acabamos de concluir um acordo na área econômica com a União Europeia? Não tem cabimento. Ter uma subordinação a um determinado país líder, isso nós não queremos."

Tenho um amigo, que foi Ministro do Exterior da Grã-Bretanha e hoje dirige uma grande organização não governamental nos Estados Unidos, que me perguntou uma vez: “Celso, por que vocês dão tanta importância ao BRICS?”. Eu respondi: para fortalecer o G20. Parece uma contradição, mas não é.

Por exemplo, todo mundo sabe que a reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) é algo complexo, vai demorar para acontecer. Mas existe a compreensão de que não se pode ter uma organização internacional sem a participação ativa de países em desenvolvimento. Então, se fosse o Brasil sozinho ou mesmo a China, não teria a influência que esse conjunto de países do BRICS tem, aliás, vários deles são membros do G20 também.

·        É possível elencar alguns momentos marcantes para a consolidação desse grupo?

Eu acho que a primeira reunião presidencial, em 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia. Ali, a gente viu que o agrupamento estava formado, inicialmente com uma conotação quase exclusivamente econômica, como tem até hoje, mas mais diversificado em termos de temas. Eu acho que esse é o momento fundamental. Teve também, em 2014, a cúpula em Fortaleza, capital do estado brasileiro do Ceará, que também foi muito importante porque ali houve a criação do Banco do BRICS.

·        O BRICS se tornou uma plataforma importante para discutir temas globais. Quais os principais avanços do foro para se manter relevante no cenário internacional?

A ideia do BRICS é de um grupo de cooperação entre grandes países em desenvolvimento que podem, inclusive, estudar uma cooperação em energia, na área monetária, e até na área de paz e segurança, que é mais complexa. Isso é muito importante porque mostrou para os grandes países ocidentais capitalistas que eles não podem ditar as regras, podem até ter iniciativas, mas vão ter que discutir conosco.

E eu acho que isso não existia, porque antes o G7 falava e depois o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio (OMC) iam lá e apenas seguiam. Agora é diferente.

·        Qual o papel do Brasil na construção de uma ordem internacional mais justa e como o BRICS pode ajudar a fortalecer o Sul Global nesse processo?

Nós podemos fazer uma ponte para fortalecer o papel dos países em desenvolvimento nas áreas de sustentabilidade ambiental; mudança do clima; financeira e econômica, e evitar que sejamos vítimas de manobras financeiras que possam nos prejudicar. Com o BRICS, a gente também não fica dependente de um único país ou grupo de países. Por exemplo, é muito bom que tenha sido concluído o acordo com a União Europeia, mas você não pode ficar só com os países europeus. Sem falar no fato de que a existência do BRICS contribui para o reforço das relações bilaterais entre os países. Nossa relação com a China, por exemplo, aumentou muito porque a China cresceu muito, mas temos hoje uma familiaridade que eu não sei se teríamos se não fosse pelo BRICS.

Eu acho que se você abrir, digamos assim totalmente, quase todos os países em desenvolvimento vão querer ser membros do BRICS. Isso revela a importância que o grupo tem.

·        Alguns analistas argumentam que há um viés antiocidental no BRICS. O que o senhor pensa sobre esta questão?

O Brasil tem muitos valores ocidentais e também tem uma cultura que se deve aos indígenas, aos africanos, aos imigrantes dos mais variados países, como os japoneses. Acho que o Brasil tem essa mescla que torna o país extremamente atraente. Eu acabei de ler agora um livro do Stefan Zweig, “O tempo em que eu vivi”, tem um capítulo em que o escritor fala sobre como nosso país é aberto a novas experiências, novas culturas, sem criar as dificuldades e as rivalidades que, na época do autor, existiam na Europa. Então, o Brasil acima de tudo é um país que quer defender sua posição e a dos países em desenvolvimento sem agressões.

"BRICS é um grupo de países em desenvolvimento que quer a prosperidade, mas quer a paz também. Acho que a busca principal no mundo que nós estamos vivendo hoje é a busca da paz. Eu acho que o Papa Paulo 6º que disse: 'o desenvolvimento é o novo nome da paz'. O BRICS é o novo nome do desenvolvimento."

E nós tivemos, por exemplo, acordos importantes com os Estados Unidos na área de trabalho e começamos a fazer na área de energia, por outro lado, temos um enorme número de projetos com a China. Não são muitos países que têm essa capacidade de diálogo, haverá alguns, mas não muitos. Como é que se pode dizer que o Brasil é contra o ocidente se acabamos de concluir um acordo na área econômica com a União Europeia? Não tem cabimento. Ter uma subordinação a um determinado país líder, isso nós não queremos. Nem Ocidente, nem Oriente: Sul Global (é o que defendemos). 

E a liderança do presidente Lula, nesse contexto, é indiscutível na questão de conflitos entre países, o presidente Lula é um pacifista ativo e não só em teoria. Ele age para contribuir para a paz. Quantos países tiveram a capacidade de dialogar com a Rússia e a Ucrânia? A pedido do presidente Lula, fui falar com o presidente russo Vladimir Putin. Fiz uma longa viagem, incluindo uma parte de trem dentro da Ucrânia, para falar com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. E nós somos procurados. Somos um país da paz. O Brasil odeia a guerra.  Quantos países nós temos no mundo que têm fronteiras com 10 outros e a última guerra foi há mais de 150 anos? É o caso do Brasil. 

·        O senhor acredita que o BRICS tem potencial para expandir? E por fim, qual mensagem o senhor gostaria de transmitir sobre a importância do BRICS para o Brasil e para o mundo, especialmente em um momento de tantas incertezas globais?

Acho que o BRICS tem que ter uma abertura e os países em desenvolvimento têm que se sentir representados. Mas operacionalmente não pode se expandir indefinidamente porque, para atuar concretamente em questões importantes, tem que manter uma certa coesão. A gente não pode perder a especificidade do BRICS que é essa capacidade de agir coletivamente e de realizar uma cooperação real. 

Minha mensagem é que o BRICS é um grupo de países em desenvolvimento que quer a prosperidade, mas quer a paz também. Acho que a busca principal no mundo que nós estamos vivendo hoje é a busca da paz. Eu acho que o Papa Paulo 6º que disse: “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. O BRICS é o novo nome do desenvolvimento.

 

Fonte: Democracy Now/Brics.br

 

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