Vijay
Prashad: A histórica Conferência anti-colonialista de Bandung de 1955, que
inspirou uma nova era no Sul Global
Esta
semana marca o 70º aniversário da Conferência de Bandung, quando 29 nações da
Ásia e da África se reuniram na Indonésia para uma histórica conferência
anti-colonialista que visava traçar um novo caminho para os países em
desenvolvimento em meio a uma onda de descolonização que varria o globo. A
Conferência de Bandung de 1955 anunciou a chegada ao palco mundial dos povos do
Sul Global e marcou o nascimento do que mais tarde se tornaria o Movimento dos
Não-Alinhados, no auge da rivalidade da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a
União Soviética. Entre as principais nações participantes estavam China, Índia,
Paquistão, Egito, Birmânia e Vietnã. A conferência foi organizada pelo
presidente indonésio Sukarno, uma importante figura anti-imperialista que mais
tarde seria derrubado em um golpe apoiado pelos EUA.
“Todos
eles se reuniram porque entenderam que sua união era muito importante, não
apenas para criar uma nova ordem comercial e de desenvolvimento — essa não era
a única parte —, mas também para lutar pela paz”, diz o autor e jornalista
Vijay Prashad, diretor do think-tank Tricontinental. “Bandung representou a
esperança para centenas de milhões de pessoas ao redor do planeta em 1955.”=Tradução da
transcrição original [Esta é uma transcrição rápida. O texto pode não
estar em sua forma final.]
AMY GOODMAN: Este é o Democracy Now!, democracynow.org, The War and Peace Report. Eu sou Amy Goodman,
com Juan González.
Enquanto
o presidente Trump busca revolucionar o sistema global de comércio, olhamos
para trás, para um momento crítico de há 70 anos, quando 29 nações da Ásia e da
África se reuniram em Bandung, na Indonésia, para uma histórica conferência
anti-colonialista. A Conferência de Bandung de 1955 marcou um momento crucial
em que os povos das ex-nações colonizadas do Sul Global fizeram a sua presença
coletiva ser sentida no cenário mundial. Ela marcou o nascimento do que mais
tarde se tornaria o Movimento dos Não-Alinhados, em meio à Guerra Fria. Entre
as principais nações participantes estavam Índia, China, Indonésia, Egito,
Birmânia, Paquistão, Vietnã e Ceilão, hoje conhecido como Sri Lanka. Esta é a
fala do presidente da Indonésia na época, Sukarno, em Bandung.
PRESIDENTE
SUKARNO:
Esta é a primeira conferência intercontinental de povos de cor, os chamados
povos de cor, na história da humanidade. Tenho orgulho de que o meu país seja o
seu anfitrião. Este é um novo marco na história do mundo, em que líderes dos
povos da Ásia e da África possam se reunir em seus próprios países para
discutir e deliberar sobre questões de interesse comum.
AMY
GOODMAN:
Malcolm X falaria mais tarde sobre a importância histórica da Conferência de
Bandung.
MALCOLM
X: Em Bandung, todas as nações se uniram. Havia nações negras da África e da
Ásia. Algumas eram budistas. Algumas eram muçulmanas. Algumas eram cristãs.
Algumas eram confucionistas. Algumas eram ateias. Apesar das suas diferenças
religiosas, elas se uniram. Algumas eram comunistas. Algumas eram socialistas.
Algumas eram capitalistas. Apesar das suas diferenças econômicas e políticas,
elas se uniram. Todas eram negras, pardas, vermelhas ou amarelas. A única coisa
que não foi permitida na Conferência de Bandung foi o homem branco. Ele não
pôde vir. Uma vez que o excluíram, eles viram que podiam se unir. Uma vez que o
mantiveram fora, todos os outros entraram e se alinharam. Isso é o que você e
eu precisamos entender. E essas pessoas que se uniram não tinham armas
nucleares. Não tinham aviões a jato. Não tinham todo o armamento pesado que o
homem branco tem. Mas tinham unidade.
AMY
GOODMAN:
Palavras de Malcolm X. O centésimo aniversário de seu nascimento será em maio.
Agora
nos acompanha Vijay Prashad, diretor do Tricontinental: Institute for Social
Research. Seu mais recente newsletter tem o título Esperando por um Novo
Espírito de Bandung. Vijay Prashad escreveu mais de 40 livros, incluindo The
Darker Nations: A People’s History of the Third World, [As Nações Mais Escuras:
Uma História Popular do Terceiro Mundo], que acaba de ser publicado na
Indonésia nesta semana. Seu artigo mais recente para o Globetrotter trata do
“BRICS e o Desenvolvimento Industrial”. Ele está conosco desde Santiago, Chile.
Vijay,
bem-vindo de volta ao Democracy Now! Vamos retroceder 70 anos. Fale sobre o
significado da Conferência de Bandung, como ela se formou e o que isso
significou para o mundo de hoje.
VIJAY
PRASHAD:
*Sabe, Amy, é muito interessante que, logo após a Segunda Guerra Mundial, houve
um enorme surto de agitação política nas antigas colônias da Ásia e da África.
Essa agitação, liderada por movimentos anti-colonialistas, ocorria não apenas
pela liberdade nos seus próprios países, mas pela liberdade nos países uns dos
outros. Assim, na Índia, mesmo antes de a Índia conquistar a sua independência
em agosto de 1947, eles convocaram uma conferência chamada Conferência das
Relações Asiáticas, que era de solidariedade com o povo da Indonésia que lutava
então contra os holandeses. Esse era o espírito da época: centenas de milhões
de pessoas em toda a África e Ásia lutando contra o colonialismo, enfrentando
guerras coloniais brutais na Malásia e no Quênia - a chamada rebelião Mau Mau.*
Naquele
momento, eles se reuniram em Bandung, Indonésia, uma cidade linda, sob a
liderança do presidente Sukarno, que havia vencido uma luta verdadeiramente
corajosa, primeiro contra o imperialismo japonês e depois contra os holandeses.
Eles se reuniram. E o que é realmente notável é que, como Malcolm X diz, vieram
comunistas como Zhou Enlai, alguns anos após a Revolução Chinesa, mas também
Sir John Kotelawala, do Ceilão, hoje Sri Lanka, um anticomunista ferrenho.
Todos eles se reuniram porque entenderam que a sua união era muito importante,
não apenas para criar uma nova ordem comercial e de desenvolvimento — essa não
era a única parte —, mas também para lutar pela paz, porque eles sabiam o que
significava estar do outro lado do cano de um rifle. Eles entenderam que, se a
Guerra Fria fosse permitida a se metastatizar, simplesmente não lhes permitiria
se desenvolver. Assim, as palavras de ordem em Bandung eram “paz” e
“desenvolvimento”.
E essas
pessoas que estavam lá — Nehru, Nasser, Sukarno, Zhou Enlai — representavam
vastos movimentos ao redor do mundo. Elas não tinham medo do povo. Elas
caminhavam do hotel até o local da conferência. Não havia guardas armados. Elas
se encontravam com o povo. Eram recebidas com aplausos. E deram discursos
poderosos, não apenas de unidade, como Malcolm X aponta, mas também para dizer:
“Olhem, nós não temos armas nucleares, mas temos a força moral do movimento
anti-colonialista, e é isso que estamos colocando diante do mundo. Queremos
mudar o mundo, torná-lo um lugar melhor. Não queremos mais que a força das
armas governe sobre nós.”
JUAN
GONZÁLEZ:
E, Vijay, eu queria perguntar — você mencionou alguns dos líderes que estavam
lá, mas, curiosamente, muitos deles, poucos anos depois, foram derrubados — por
exemplo, Sukarno em 1965, Nkrumah e Nasser — e, mesmo a caminho da conferência,
houve uma tentativa de assassinato contra Zhou Enlai. O avião em que ele estava
programado para viajar para a conferência foi bombardeado e caiu. E, por sorte,
Zhou Enlai supostamente teve que adiar a viagem por causa de uma doença. Mas
você pode falar sobre como as potências ocidentais temiam o que estava se
desenvolvendo como resultado de Bandung?
VIJAY
PRASHAD:
É muito importante saber que, quando você lê os documentos do governo dos EUA,
John Foster Dulles e outros estavam furiosos com o que estava acontecendo em
Bandung. Eles se recusavam a chamar isso de um processo de não-alinhamento.
Insistiam em chamá-los de “neutralistas”, dizendo que essas pessoas eram, na
verdade, pró-comunistas — uma completa deturpação das diferenças de opinião
política em Bandung.
*E esse
ataque a Bandung assume uma forma ainda mais virulenta com os golpes no início
e meados dos anos 1960. É importante lembrar que houve uma trindade de golpes
de Estado nos anos 1960 contra governos progressistas nos maiores países da
África, América do Sul e Ásia. Primeiro, o golpe contra Patrice Lumumba.
Lumumba era, em um sentido muito real, um descendente do nkrumahismo, da crença
no pan-africanismo de Kwame Nkrumah. Ele chegou ao poder no maior país da
África, a República Democrática do Congo, e foi derrubado em um golpe brutal
liderado pelos EUA, belgas, serviços de inteligência britânicos e outros. Isso
foi em 1961. Isso desestabilizou o movimento de libertação nacional na África,
seguido três anos depois por um golpe de Estado contra o presidente liberal
eleito do Brasil, João Goulart, em 1964, um golpe que durou 21 anos, quando os
militares no Brasil foram então autorizados, por meio da Operação Condor, a
utilizar efetivamente os serviços militares em toda a América Latina para
conter o impacto da Revolução Cubana de 1959. E esse é um processo que levou ao
golpe no Chile em 1973, na Argentina em 1976 e assim por diante. Novamente, o
maior país da América Latina, um golpe promovido pelos EUA. E, finalmente, 10
anos após Bandung, como você disse corretamente, o golpe de Estado contra
Sukarno, com um milhão de comunistas mortos, muitas vezes com listas enviadas
por fax ou telex pelos serviços de inteligência australianos, britânicos e
estadunidenses, nomes de pessoas que eles queriam que o exército da Indonésia
executasse, um milhão de pessoas mortas, o governo progressista de Sukarno
derrubado. Isso teve um enorme impacto na Ásia.*
Bandung
representou esperança para centenas de milhões de pessoas ao redor do planeta
em 1955. Foi para esmagar essa esperança que os EUA e seus aliados realizaram
esses golpes contra Lumumba, Goulart e, depois, Sukarno.
JUAN
GONZÁLEZ:
E qual é a sua percepção? Você escreveu agora sobre o espírito de Bandung] e
qual é a situação para os países do Sul Global. Você também falou muito sobre o
BRICS nos últimos anos.
VIJAY
PRASHAD:
Quero dizer, sabe, Juan, é interessante porque, na época de Bandung, a
consciência subjetiva da necessidade de uma nova mudança, de unidade, dessa
força moral chamada Terceiro Mundo, era extremamente alta. Mas essa
consciência, essa percepção da necessidade de mudança era muito maior do que a
capacidade desses Estados. Esses Estados eram superados em termos de poder
militar. Esses Estados simplesmente não tinham o tipo de riqueza e capacidade
tecnológica necessários. Na verdade, eles não conseguiam produzir a maioria das
coisas por si mesmos. Walter Rodney escreverá mais tarde em Como a Europa
Subdesenvolveu a África, que a maioria dos países africanos, no momento das
suas independências, não conseguia produzir nem pasta de dente, porque tinham
que importá-la da Lever Brothers, de uma multinacional britânica. Esses países
estavam em uma desvantagem objetiva.
*Bem, a
crise da dívida dos anos 1980 realmente colapsou as uniões políticas, a
esperança do Terceiro Mundo. Mas algo novo emergiu, particularmente desde a
crise financeira mundial de 2007-2008. Os grandes países do Sul, especialmente
na Ásia, liderados pela China, desenvolveram as suas manufaturas. Eles
desenvolveram as suas capacidades tecnológicas. Em termos das mudanças
objetivas que estão ocorrendo, podemos ver isso diante de nossos olhos. O
centro de gravidade da economia mundial não é mais o Oceano Atlântico. Ela
agora está definitivamente na Ásia, em algum lugar entre China, Vietnã,
Bangladesh, Índia, Indonésia. Esses países estão crescendo em um ritmo muito
rápido.*
Mas o
senso de unidade política ainda não está totalmente visível, apesar do BRICS. O
BRICS é um órgão comercial. Não é realmente um órgão político. Não deve ser
exagerado. Assim, aquele espírito de Bandung, que estava lá em 1955, não está
lá agora. Estamos meio que esperando pelo renascimento do espírito de Bandung.
Temos as estruturas para um novo mundo relativamente em vigor, mas não temos
realmente a consciência, a confiança de que um novo mundo possa ser construído.
E, a propósito —
AMY
GOODMAN:
Temos 10 segundos, Vijay.
VIJAY
PRASHAD:
— a consciência no Norte também não está lá.AMY GOODMAN: Temos 10
segundos.
VIJAY
PRASHAD:
Sim, só estou dizendo que a consciência nos países do Norte também não está lá
ainda. As tarifas de Trump tentando reverter essa tendência não vão funcionar.
[inaudível]
AMY
GOODMAN:
Temos que parar por aqui, Vijay Prashad, diretor do Tricontinental. Eu sou Amy
Goodman, com Juan González.
¨
“Nem Ocidente, nem Oriente: Sul Global”, destaca Celso
Amorim sobre o BRICS
O
assessor-chefe da Assessoria Especial do Presidente da República, o embaixador
Celso Amorim, tem uma extensa carreira na diplomacia brasileira. Ele estudou no
Instituto Rio Branco, centro de formação de diplomatas brasileiros, e concluiu
pós-graduação na Academia Diplomática de Viena e na London School of
Economics.
Celso
Amorim foi Ministro das Relações Exteriores no Governo do Presidente Itamar
Franco (1993- 1994) e do Presidente Lula (2003-2010). Serviu como Representante
Permanente do Brasil junto à Organização das Nações Unidas, em Nova York
(1995-1999) e em Genebra (1991-1993 e 1999-2001), e também foi Embaixador do
Brasil, em Londres, entre 2001 e 2002. Desde janeiro de 2023 atua no terceiro
governo Lula.
Entre
os diversos prêmios que recebeu como reconhecimento por sua carreira, foi
recentemente escolhido pela revista Bravo Business como um dos líderes mais
“imaginativos” do continente. Em 2010, integrou a lista da revista Foreign
Policy como o 6º entre 100 pensadores globais.
Em
entrevista exclusiva para o site do BRICS Brasil, Celso Amorim conversou sobre
a importância de os países em desenvolvimento se unirem em torno de pautas
comuns e a relevância de um agrupamento como o BRICS. Ele ressaltou que não
existe um caráter antiocidental no foro e citou, inclusive, os acordos do
Brasil com países ocidentais, além das oportunidades de cooperação entre os
países membros do BRICS nas áreas econômica e financeira e sustentabilidade
ambiental. Outro ponto importante abordado pelo diplomata é a importância da
reforma da governança global e da compreensão de que não se pode ter uma
organização internacional sem a participação ativa dos países em
desenvolvimento.
>>>>
Confira a entrevista.
·
Como surgiu a ideia de fazer uma articulação entre os
países e criar um foro de cooperação a partir de uma sigla criada por um
economista?
Um dia,
enquanto eu era presidente de uma organização internacional de saúde, o
economista Jim O’Neill era ministro do Tesouro da Inglaterra. Sentei ao lado
dele em uma reunião e falei: “poxa, que bom, estou do lado da pessoa que
inventou o BRICS”. O economista disse: “sim, sim”. Aí complementei: “mas fomos
nós que fizemos”.
Acho
que o que está por trás do nosso agrupamento é a noção da necessidade de
institucionalização das organizações do Sul Global. Naquela época, não se usava
muito essa expressão, mas no início da década de 2000, eu representava o
governo brasileiro e o diplomata russo, Sergei Lavrov, realmente me procurou e
sugeriu a criação do foro dos BRICS. Quando Lavrov fez essa sugestão,
discutimos ali na hora e depois foi evoluindo. Fizemos uma primeira reunião de
ministros, mas a primeira reunião de presidentes foi em 2009, em Ecaterimburgo,
na Rússia.
"Como
é que se pode dizer que o Brasil é contra o ocidente se acabamos de concluir um
acordo na área econômica com a União Europeia? Não tem cabimento. Ter uma
subordinação a um determinado país líder, isso nós não queremos."
Tenho
um amigo, que foi Ministro do Exterior da Grã-Bretanha e hoje dirige uma grande
organização não governamental nos Estados Unidos, que me perguntou uma vez:
“Celso, por que vocês dão tanta importância ao BRICS?”. Eu respondi: para
fortalecer o G20. Parece uma contradição, mas não é.
Por
exemplo, todo mundo sabe que a reforma do Conselho de Segurança da Organização
das Nações Unidas (ONU) é algo complexo, vai demorar para acontecer. Mas existe
a compreensão de que não se pode ter uma organização internacional sem a
participação ativa de países em desenvolvimento. Então, se fosse o Brasil
sozinho ou mesmo a China, não teria a influência que esse conjunto de países do
BRICS tem, aliás, vários deles são membros do G20 também.
·
É possível elencar alguns momentos marcantes para a
consolidação desse grupo?
Eu acho
que a primeira reunião presidencial, em 2009, em Ecaterimburgo, na Rússia. Ali,
a gente viu que o agrupamento estava formado, inicialmente com uma conotação
quase exclusivamente econômica, como tem até hoje, mas mais diversificado em
termos de temas. Eu acho que esse é o momento fundamental. Teve também, em
2014, a cúpula em Fortaleza, capital do estado brasileiro do Ceará, que também
foi muito importante porque ali houve a criação do Banco do BRICS.
·
O BRICS se tornou uma plataforma importante para discutir
temas globais. Quais os principais avanços do foro para se manter relevante no
cenário internacional?
A ideia
do BRICS é de um grupo de cooperação entre grandes países em desenvolvimento
que podem, inclusive, estudar uma cooperação em energia, na área monetária, e
até na área de paz e segurança, que é mais complexa. Isso é muito importante
porque mostrou para os grandes países ocidentais capitalistas que eles não
podem ditar as regras, podem até ter iniciativas, mas vão ter que discutir
conosco.
E eu
acho que isso não existia, porque antes o G7 falava e depois o Fundo Monetário
Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio (OMC)
iam lá e apenas seguiam. Agora é diferente.
·
Qual o papel do Brasil na construção de uma ordem
internacional mais justa e como o BRICS pode ajudar a fortalecer o Sul Global
nesse processo?
Nós
podemos fazer uma ponte para fortalecer o papel dos países em desenvolvimento
nas áreas de sustentabilidade ambiental; mudança do clima; financeira e
econômica, e evitar que sejamos vítimas de manobras financeiras que possam nos
prejudicar. Com o BRICS, a gente também não fica dependente de um único país ou
grupo de países. Por exemplo, é muito bom que tenha sido concluído o acordo com
a União Europeia, mas você não pode ficar só com os países europeus. Sem falar
no fato de que a existência do BRICS contribui para o reforço das relações
bilaterais entre os países. Nossa relação com a China, por exemplo, aumentou
muito porque a China cresceu muito, mas temos hoje uma familiaridade que eu não
sei se teríamos se não fosse pelo BRICS.
Eu acho
que se você abrir, digamos assim totalmente, quase todos os países em
desenvolvimento vão querer ser membros do BRICS. Isso revela a importância que
o grupo tem.
·
Alguns analistas argumentam que há um viés antiocidental
no BRICS. O que o senhor pensa sobre esta questão?
O
Brasil tem muitos valores ocidentais e também tem uma cultura que se deve aos
indígenas, aos africanos, aos imigrantes dos mais variados países, como os
japoneses. Acho que o Brasil tem essa mescla que torna o país extremamente
atraente. Eu acabei de ler agora um livro do Stefan Zweig, “O tempo em que eu
vivi”, tem um capítulo em que o escritor fala sobre como nosso país é aberto a
novas experiências, novas culturas, sem criar as dificuldades e as rivalidades
que, na época do autor, existiam na Europa. Então, o Brasil acima de tudo é um
país que quer defender sua posição e a dos países em desenvolvimento sem
agressões.
"BRICS
é um grupo de países em desenvolvimento que quer a prosperidade, mas quer a paz
também. Acho que a busca principal no mundo que nós estamos vivendo hoje é a
busca da paz. Eu acho que o Papa Paulo 6º que disse: 'o desenvolvimento é o
novo nome da paz'. O BRICS é o novo nome do desenvolvimento."
E nós
tivemos, por exemplo, acordos importantes com os Estados Unidos na área de
trabalho e começamos a fazer na área de energia, por outro lado, temos um
enorme número de projetos com a China. Não são muitos países que têm essa
capacidade de diálogo, haverá alguns, mas não muitos. Como é que se pode dizer
que o Brasil é contra o ocidente se acabamos de concluir um acordo na área
econômica com a União Europeia? Não tem cabimento. Ter uma subordinação a um
determinado país líder, isso nós não queremos. Nem Ocidente, nem Oriente: Sul
Global (é o que defendemos).
E a
liderança do presidente Lula, nesse contexto, é indiscutível na questão de
conflitos entre países, o presidente Lula é um pacifista ativo e não só em
teoria. Ele age para contribuir para a paz. Quantos países tiveram a capacidade
de dialogar com a Rússia e a Ucrânia? A pedido do presidente Lula, fui falar
com o presidente russo Vladimir Putin. Fiz uma longa viagem, incluindo uma
parte de trem dentro da Ucrânia, para falar com o presidente ucraniano
Volodymyr Zelensky. E nós somos procurados. Somos um país da paz. O Brasil
odeia a guerra. Quantos países nós temos no mundo que têm fronteiras com
10 outros e a última guerra foi há mais de 150 anos? É o caso do Brasil.
·
O senhor acredita que o BRICS tem potencial para
expandir? E por fim, qual mensagem o senhor gostaria de transmitir sobre a
importância do BRICS para o Brasil e para o mundo, especialmente em um momento
de tantas incertezas globais?
Acho
que o BRICS tem que ter uma abertura e os países em desenvolvimento têm que se
sentir representados. Mas operacionalmente não pode se expandir indefinidamente
porque, para atuar concretamente em questões importantes, tem que manter uma
certa coesão. A gente não pode perder a especificidade do BRICS que é essa
capacidade de agir coletivamente e de realizar uma cooperação real.
Minha
mensagem é que o BRICS é um grupo de países em desenvolvimento que quer a
prosperidade, mas quer a paz também. Acho que a busca principal no mundo que
nós estamos vivendo hoje é a busca da paz. Eu acho que o Papa Paulo 6º que
disse: “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. O BRICS é o novo nome do
desenvolvimento.
Fonte:
Democracy Now/Brics.br

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