Receita
explosiva: big techs lucram alto com mentiras e golpes e não têm apreço à
democracia
As
plataformas de redes sociais e os motores de busca recebem mensalmente bilhões
de empresas que tentam atingir seu público-alvo por meio do chamado
microtargeting, ou seja, o uso de dados para identificar o real interessado em
um produto ou serviço. Para essa engrenagem funcionar da forma mais lucrativa,
costuma haver uma série de ingredientes, composto por uma receita explosiva de
risco à democracia, segundo o professor de Direito e Tecnologia e doutor em
Direito Civil pela Universidade de São Paulo – USP.
Para
começar, segundo Marcelo Chiavassa, conteúdo falso e absurdo (teorias da
conspiração e afins) gera mais engajamento do que o verdadeiro. “Isso se dá por
um motivo muito lógico: o absurdo mexe com a emoção das pessoas e gera mais
envolvimento – visualizações, curtidas, comentários e compartilhamentos”.
Esses
conteúdos também são mais fáceis de serem monetizados, o que propicia o
surgimento de uma cadeia de desinformação, que gera retorno altíssimo para seus
idealizadores, tanto do ponto de vista econômico quanto do ponto de vista de
gestão de narrativa e manipulação das massas. Na sequência, os conteúdos podem
ser patrocinados para aplicar golpes financeiros em idosos, ou para espalhar
mentiras em escala, como no caso da taxação do Pix no início do ano.
Quando
esse ecossistema de desinformação é direcionado às instituições democráticas,
como vem acontecendo no mundo e no Brasil, há uma evidente ameaça à democracia.
“A fragilização das instituições democráticas permite o surgimento de vias
alternativas que podem ter como objetivo exatamente se aproveitar desse momento
de fragilidade para chegar ao poder”, alerta o pesquisador nesta entrevista ao
Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail.
Ele
explica que as instituições e pessoas tentam se defender das teorias da
conspiração e dos absurdos por meio da lógica e da razão, mas isto acaba não
gerando o mesmo engajamento e repercussão. E, quando as instituições
eventualmente conseguem se defender, o ecossistema da desinformação rapidamente
muda de foco. Para Chiavassa, em último caso, “essas ideias absurdas acabaram
gerando verdadeiros movimentos sociais de ataque às instituições democráticas,
como se viu recentemente em Washington e em Brasília”.
Para o
professor, as plataformas têm “o mesmo grau de periculosidade que o tráfego de
drogas e outros crimes mais graves, pois são elas o motor catalisador desse
crime”. Para frear essa avalanche de abuso econômico e político dos donos das
big techs, Chiavassa defende a responsabilização das plataformas pelos
conteúdos danosos à sociedade, como já vem acontecendo em diversos países
europeus. “Entre as regiões mais atrasadas em relação ao tema da regulação,
certamente temos a América Latina como um todo e o continente Africano”,
afirma.
Marcelo
Chiavassa de Mello Paula Lima é professor de Direito Civil e Direito e
Tecnologia, doutor em Direito Civil pela Universidade de São Paulo – USP,
mestre em Direito Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
PUC-SP, especialista em Direito Contratual pela PUC-SP e especialista em
Direito Civil italiano pela Universidade de Camerino, Itália. Advogado e
consultor jurídico.
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Confira a entrevista.
- Quais conclusões já se pode tirar da
relação dos donos das big techs com o governo Trump?
Marcelo
Chiavassa – O primeiro mandato do presidente Trump foi permeado por polêmicas
envolvendo as big techs. Ainda durante a corrida eleitoral, o Congresso
norte-americano apurou o envolvimento do Facebook na manipulação do eleitorado
em favor de Donald Trump, caso que ficou conhecido mundialmente pela empresa de
marketing/análise de dados responsável pela inteligência da campanha do
candidato – Cambridge Analytica.
O
Facebook inclusive recebeu uma multa de 5 bilhões de dólares do Congresso
norte-americano pelo seu envolvimento com as campanhas falsas e manipuladoras
que visavam atacar a reputação da então candidata Hillary Clinton.
Posteriormente,
durante o primeiro ano da Covid-19, o então Trump confrontou as big techs,
especialmente no envolvimento com notícias e conteúdos que pareciam confrontar
o que dizia a ciência naquele momento. Por essa razão, teve alguns de seus
posts silenciados nas redes sociais (especialmente Twitter), tendo sido
posteriormente banido das plataformas da Meta (Facebook e Instagram) e do
Twitter (atual X).
Nesse
momento, Donald Trump ameaçou as plataformas com uma maior regulação e tentou
aprovar leis que restringissem seus poderes, tendo, inclusive, assinado um
decreto para essa finalidade.
Observa-se,
portanto, que as tensões e conflitos envolvendo big techs e Trump não vem de
agora, e nem sempre os interesses parecem alinhados. Neste segundo mandato, o
presidente Trump parece tentar construir uma relação mais próxima com as big
techs, inclusive concedendo a seus proprietários, cargos políticos em sua
administração.
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Fusão das big techs e Trump
Com
isso, a figura pessoal dos proprietários e das pessoas jurídicas (plataformas)
parecem se misturar ainda mais, tendo as plataformas sido grandes defensoras do
Trump. Inclusive durante a corrida presidencial.
Ao
mesmo tempo, a abertura dada às big techs demonstra o indiscutível poder
político-econômico que elas possuem neste primeiro quarto do século XXI, que já
não pode ser mais ignorada nem mesmo pelo presidente da maior economia do
mundo.
Vale
dizer que este não é um momento singular no governo Trump. Logo após sua
eleição em 2016, Trump organizou um evento com os CEOs das principais big techs
na Trump Tower.
Tal
qual acontece agora, Elon Musk também já teve participação política no governo
de Trump, tendo sido anteriormente (2017) nomeado para dois conselhos
consultivos de Trump (Manufacturing Jobs Iniciative e Strategic and Policy
Forum). Vale a lembrança de que Musk se retirou dos conselhos após Trump
anunciar a saída dos EUA do Acordo de Paris, inclusive tendo atacado o então
presidente pela decisão que ele considerava não ser boa nem para os EUA e nem
para o mundo.
Assim,
não há nada de realmente novo na presença das big echs na posse de Trump, senão
uma tentativa de reaproximação de uma relação que foi bastante conturbada
durante seu primeiro mandato.
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Há um paralelo do apoio dos bilionários ao nazismo com os
das big techs?
Marcelo
Chiavassa – Os crimes perpetuados pelo movimento nazista na metade do século
passado constituem uma das maiores atrocidades da história, não só pelo
resultado, mas principalmente pelas ideias que a ideologia carregava – e
carrega – até os dias de hoje.
O
momento atual é, acima de tudo, de observação e reflexão. A elite, seja ela
econômica, seja ela política ou intelectual, sempre esteve no centro dos
acontecimentos da humanidade, sejam eles bons, sejam eles maus. Não há uma
grande evolução/revolução social sem que alguma das elites esteja envolvida.
Neste
caso, a participação e o apoio das big techs chamam sim atenção de quem estuda
o tema, mas isso não significa por si só algo ruim ou sequer próximo do que foi
o nazismo ao longo do último século.
- Em março deste ano, uma revista
americana fez um levantamento das maiores fortunas do mundo. Diz que as
big techs não estão no topo da lista, por isso não seriam oligarquias.
Mas, neste caso, não se trata apenas de poder econômico? Como avalia isto?
Marcelo
Chiavassa – A análise baseada apenas no poderio econômico é um retrato do
capitalismo do século XIX e de uma sociedade que já ficou para trás.
Atualmente, o poder político está nas mãos de quem concentra a maior quantidade
de informação e dados, razão pela qual cientistas políticos qualificam nosso
atual estágio como “sociedade da informação”.
Assim,
a formação das oligarquias modernas não pode ter como único ponto de análise o
poderio econômico, mas também a capacidade de acessar, controlar e processar
dados disponíveis na sociedade, gerando assim informação qualificada.
As
atuais oligarquias centradas na sociedade da informação receberam a alcunha de
tecno-oligarquias e são aquelas que basicamente controlam as infraestruturas de
comunicação e o fluxo global de informações, permitindo, desta forma, que
controlem o acesso ao consumo e ao trabalho, além de controlarem o
comportamento das massas por meio de seus algoritmos.
As big
techs constituem assim uma oligarquia tecnocrática e descentralizada, a qual
apesar de não deter o maior capital, controla as formas de poder estrutural.
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Em recente artigo, a filósofa italiana Gloria Origgi fez
esta constatação: “Não está claro o que deve ser feito para neutralizar tal
avalanche, mas uma coisa é certa: a revolução se moveu para a direita”.
Concorda, e há uma “gramática” das redes sociais que favorece a
extrema-direita? Por quê?
Marcelo
Chiavassa – Me parece que a direita aprendeu mais rapidamente a jogar o jogo
das redes sociais. O precursor disso tudo é Steve Bannon – e sua plataforma de
notícias Breitbart News, que fez escola em países como Itália, Hungria, EUA e
Brasil. Foi a mente por trás do uso da Cambridge Analytics na primeira campanha
presidencial de Trump.
Enquanto
a esquerda continua tentando fazer política por meio de argumentos
lógico-racionais e sem conseguir criar sucessores para as figuras mais
carismáticas, a direita se renova com extrema velocidade e consegue se
comunicar com muito mais eficiência com as novas gerações.
Além
disso, as falas absurdas (antissistema e convocando para o combate) e permeadas
de discursos emotivos e fantasiosos (desinformação) criam um frenesi gigante na
mídia, que impulsiona cada vez a candidatura dessas pessoas. A campanha
presidencial Bolsonaro mostrou isso de forma bem contundente, tendo sido ele o
primeiro presidente eleito tendo apenas 15 segundos de propaganda eleitoral na
televisão e tendo perdido a maior parte dos debates políticos.
A cena
política não está mais na TV e nos debates e sim no frenesi das redes sociais.
E a direita conseguiu entender isso antes de todo o restante, inclusive
mediante articulação de uso de bots coordenados (estratégia que a esquerda
também tenta reproduzir).
O ponto
central disso tudo é que as plataformas foram criadas para dar lucro aos seus
criadores (absolutamente normal), e não se preocupam com a proteção da
democracia e de suas instituições, o que é, no mínimo, perigoso.
- Segundo o laboratório de pesquisa da
Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a
Meta recebeu mais de 1,7 mil anúncios falsos no caso do Pix em 10 dias.
Como é possível uma empresa faturar tanto ao entregar mentiras ao público?
Marcelo
Chiavassa – As plataformas de redes sociais e motores de busca recebem
mensalmente muito dinheiro de empresas que tentam atingir seu público-alvo por
meio do chamado microtargeting, ou seja, o uso de dados para identificar o real
interessado naquele produto/serviço.
As
plataformas possuem um conjunto de métricas que permite vender ao anunciante
exatamente o perfil desejado, que por sua vez passa a ter mais convicção de que
o público-alvo será atingido.
Ao
mesmo tempo em que isso é excelente para todos os envolvidos (empresas que
desejam vender e pessoas que desejam comprar aquilo que realmente lhes
interessa). Isso também abre possibilidades do uso malicioso dessa ferramenta,
seja para fins eleitorais (novamente aqui o exemplo da Cambridge Analytics),
seja para fins criminosos.
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Golpe em idosos
Se
desejo aplicar um golpe financeiro e sei que idosos, por exemplo, são mais
suscetíveis a eles, basta criar um anúncio falso e pedir que a plataforma
direcione esse conteúdo aos idosos de determinado perfil socioeconômico. A
receita explosiva seguramente causa muitos danos financeiros a esse
público-alvo.
E
quanto mais idosos caem no golpe, mais e mais os criminosos percebem que o
estratagema funciona e os fundos destinados à publicidade aumenta.
Consequentemente, mais e mais dinheiro ganha a plataforma, que por sua vez
passa a priorizar cada vez esse tipo de anúncio.
Essa
bola de neve só pode ser detida com incentivos reais de combate a anúncios
fraudulentos por meio das plataformas, que, deve ser dito, perderão receita
caso implementem essas medidas. Esses incentivos devem vir por meio de lei e
regras rígidas que imponham responsabilidade social a essas empresas, que devem
enxergar que esse problema possui o mesmo grau de periculosidade que o tráfego
de drogas e outros crimes mais graves, e que são elas (plataformas) o motor
catalisador desse crime.
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Como analisa a necessidade e a viabilidade de regulação
das big techs no Brasil?
Marcelo
Chiavassa – Atualmente, a lei mais importante de regulação das big techs no
Brasil é o art. 19 do Marco Civil da Internet, que estabelece a regra de que as
plataformas não respondem por conteúdo criado por terceiros. Exceto se, depois
de intimadas judicialmente para tal, não removerem o conteúdo.
A regra
brasileira possui forte influência dos modelos regulatórios norte-americano
(Communications Decency Act) e europeu (Diretiva 31/2000 de Comércio Eletrônico
da EU), que estabelecem o mesmo padrão regulatório.
Antes
de pensar em um novo modelo de regulação, temos de aguardar o posicionamento do
Supremo Tribunal Federal a respeito da constitucionalidade, ou não, do artigo
19 do Marco Civil da Internet.
A
eventual declaração de inconstitucionalidade abriria um vácuo regulatório que
pode ser bastante problemático de lado a lado, caso o legislativo não
estabeleça um novo marco regulatório o mais rapidamente possível.
A
questão é bastante complexa. De um lado, a isenção de responsabilidade das
plataformas, tal qual estipulado atualmente, parece ignorar que elas se
beneficiam, inclusive economicamente, do modelo de negócio, sem que tenham
responsabilidade alguma sobre o conteúdo dos posts de terceiros. Em outras
palavras, lucram, sem ter de arcar com os riscos do negócio criado.
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Pauta complexa
Por
outro lado, a imputação de toda e qualquer responsabilidade às plataformas
criaria uma corrida massiva ao judiciário, em quase toda interação, com
milhares de novas demandas com pessoas se queixando sobre o conteúdo de cada
mensagem/post. A insegurança jurídica poderia fazer com que as plataformas
simplesmente deixassem de operar no Brasil, o que poderia, em último caso,
inibir a inovação e o desenvolvimento tecnológico no país.
Caso as
plataformas sejam responsáveis por todos os conteúdos gerados por terceiros,
teríamos ainda um outro possível problema: para diminuir seu risco,
provavelmente teríamos um grande filtro de uploads dos conteúdos, o que poderia
causar censura e violar a liberdade de expressão.
Como se
pode observar, a pauta é bastante complexa e atualmente esta questão
encontra-se sob judice no Supremo Tribunal Federal, que tende a dar uma solução
de interpretação à luz da Constituição Federal.
- Há exemplos de países com regulação das
redes sociais mais avançadas que podem servir de modelo? E quais ainda
estão mais atrasados com essa pauta?
Marcelo
Chiavassa – A União Europeia parece estar na dianteira na temática envolvendo a
regulação das big techs.
Recentemente,
duas grandes normas entraram em vigor: a) Digital Services Act, que estabelece
regras sobre moderação de conteúdo, combate à desinformação, transparência
algorítmica, combate a risco sistêmico à democracia; e b) Digital Markets Act,
que visa criar mecanismos a livre concorrência e evitar práticas
anticoncorrenciais, tema que ainda é muito pouco discutido no Brasil.
Além
disso, temos exemplos interessantes também da Alemanha (NetzDg, 2017), que
obriga as plataformas à removem conteúdos ilícitos, tais quais discurso de ódio
e incitação à violência, e da Índia (2021), que separa a responsabilidade das
plataformas de redes sociais de acordo com a quantidade de usuários ativos e
estabelece normas mais rígidas àquelas com grande base de usuários.
Entre
as regiões mais atrasadas em relação ao tema, certamente temos a América Latina
como um todo e o continente Africano.
- Diante de tudo isso, quais os riscos à
democracia sem uma moderação e regulação das redes sociais?
Marcelo
Chiavassa – A obra “Engenheiros do Caos” nos ajuda a entender como o conteúdo
falso e absurdo (teorias da conspiração e afins) geram mais engajamento do que
conteúdos verdadeiros. Isso se dá por um motivo muito lógico: o absurdo mexe
com a emoção das pessoas e gera mais engajamento (visualizações, curtidas,
comentários e compartilhamentos).
Desta
forma, esses conteúdos também são mais fáceis de serem monetizados, o que
propicia o surgimento de toda uma cadeia de desinformação, que gera retorno
altíssimo para seus idealizadores, tanto do ponto de vista econômico quando do
ponto de vista de gestão de narrativa e manipulação das massas.
Quando
esse ecossistema de desinformação é direcionado às instituições democráticas,
temos uma grande ameaça à democracia. A fragilização das instituições
democráticas permite o surgimento de vias alternativas que podem ter como
objetivo exatamente se aproveitar desse momento de fragilidade para chegar ao
poder.
Isso
acontece porque as instituições democráticas tentam se defender do alto
engajamento das teorias da conspiração e dos absurdos por meio da lógica e da
razão, o qual não gera engajamento, comoção e emoção, atingindo, portanto,
pouquíssimas pessoas, quando em comparação com o outro lado.
E
quando eventualmente essa defesa consegue alto engajamento, os financiadores do
ecossistema de desinformação rápida e habilmente mudam o foco para outro fato
absurdo conspiratório, fazendo com que as instituições democráticas – ou
qualquer que seja o seu alvo – não consigam se defender de maneira adequada e
equilibrada, transformando isso em um verdadeiro massacre individual/coletivo.
As
campanhas políticas/marketeiros já perceberam isso e quase sempre os políticos
mais votados são aqueles que aprenderam a jogar esse jogo de fatos
absurdos/conspiratórios, criando dezenas de pautas diferentes toda semana,
impedindo qualquer defesa por parte de seus adversários.
Em
último caso, essas ideias absurdas acabaram gerando verdadeiros movimentos
sociais de ataque às instituições democráticas, como se viu recentemente nos
Estados Unidos da América (Washington) e Brasil (Brasília).
Fonte:
Entrevista com Marcelo Chiavassa, para Elstor Hanzen, em IHU

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