quarta-feira, 30 de abril de 2025

Bepe Damasco: Nem reality show hospitalar de Bolsonaro vai livrá-lo da prisão

O momento em que Bolsonaro lança mão de mais uma teatralização hospitalar remete ao dia 6 de setembro de 2018, data do episódio nebuloso da facada, ou fakeada, até hoje com muitas pontas soltas e sem explicações plausíveis. O documentário do jornalista Joaquim Carvalho para o Brasil 247 deixa muitas perguntas sem respostas.

A principal delas, na minha opinião, foi a cortesia inimaginável dispensada pela turba neofascista ao "esfaqueador" Adélio, que foi protegido e não linchado pelos seguidores de Bolsonaro.

O problema é que a mídia comercial comprou integralmente e sem nenhum senso crítico a versão bolsonarista dos fatos e segue virando bicho diante de quaisquer questionamentos sobre os acontecimentos de Juiz de Fora.

Vale destacar o contexto político-eleitoral da época. Em 11 de setembro de 2018, cinco dias depois da facada, o PT anunciava a candidatura de Fernando Haddad em substituição a Lula, que liderava as pesquisas mesmo preso, mas teve sua candidatura impugnada pela Justiça Eleitoral.

Em poucos dias de campanha, Haddad subiu fortemente nas pesquisas, colou em Bolsonaro e já aparecia à frente nas projeções de segundo turno. Mas se tornou impossível concorrer com o processo de vitimização de Bolsonaro, que transformou o quarto de hospital em palanque eleitoral, com forte exposição midiática.

O que se viu foi um bombardeio de manchetes do tipo "Bolsonaro anda pela primeira vez", ou "Bolsonaro se alimenta pela primeira vez", ou ainda "Bolsonaro faz c...pela primeira vez."

De quebra, ele arrumou um pretexto sob medida para fugir dos debates do primeiro turno, nos quais seria massacrado por Haddad. No segundo turno, já recuperado, aproveitou os efeitos eleitorais da vitimização e se negou a debater também. Podia fazer comícios, caminhadas, corpo a corpo, mas os efeitos da facada não permitiam que comparecesse a um confortável estúdio de TV para debater.

Quase sete anos depois, sigo com a certeza de que, sem a facada, Bolsonaro não teria sido eleito e Haddad venceria aquela eleição.

Dessa vez, porém, não haverá encenação hospitalar que o livre da condenação e da prisão.

•        Antes crítico do “mi-mi-mi”, Bolsonaro sobrevive da vitimização. Por Tadeu Porto

A gente sabe que alguém está perto da derrota quando começa a sofrer exatamente aquilo que fez o outro sofrer.

Bolsonaro ganhou fama em programas como o CQC e o SuperPop com opiniões polêmicas e ataques a outras pessoas. Quando essas pessoas reagiam, acusando-o de feri-las, ele costumava responder com desprezo, chamando de vitimismo. Nem mesmo os doentes escaparam: basta lembrar dos pacientes de Covid-19, quando Bolsonaro perguntou "vai chorar até quando?" e mandou parar com "frescura e mi-mi-mi".

Outro sinal claro de derrota é quando alguém não aceita as regras do jogo que ele mesmo criou — e tenta mudá-las no meio da partida. Quem apela assim, na vida, logo ouve a velha máxima: “não sabe brincar, não desce para o play.”

Pois é exatamente esse provérbio que hoje encurrala a família Bolsonaro. Hipócritas que ganharam fama chamando os outros de "mimizentos" ou vitimistas, agora sobrevivem de um espetáculo cuidadosamente montado para a própria vitimização, transformando a lamentação pública em estratégia de sobrevivência política.

É claro que é desumano ver alguém ser interpelado pela Justiça numa UTI. Mas quem escolheu esse campo de batalha — a lei da selva — foram os próprios Bolsonaros. Foram eles que provocaram e ameaçaram o STF e o próprio Xandão diversas vezes. Foram eles que transformaram uma UTI em palco de espetáculo e propaganda pessoal. Foram eles que decidiram desacreditar a política e apostar no conflito humano direto.

É fácil verificar que, durante todos esses anos, os Bolsonaros desafiaram o STF e Alexandre de Moraes: chamaram pra briga, ameaçaram, provocaram (daria até para montar uma coletânea só disso). Agora que Xandão desceu pro play, correm pro canto e clamam por misericórdia — como valentões que chamam pra briga e depois gritam pela mãe.

A essa altura do jogo, fica muito difícil explicar que o “grande” líder da direita, o "antissistema", aquele que prometia derrotar as velhas raposas, tenha como principal arma política o choramingo nas redes sociais, posando de vítima incompreendida. Ou, ainda, o filho que foge para os EUA depois de provocar seu adversário dizendo que “um cabo e um soldado” bastariam para derrotá-lo.

Tudo pode acontecer nesse cenário instável — inclusive Xandão sair derrotado, dependendo dos próximos capítulos da disputa. O que vemos hoje é o jogo do poder escancarado, nu e cru. Ele tem suas próprias regras — e o que está escrito no papel, como leis e normas, vale pouca coisa ou quase nada.

Mas há algo que ninguém pode negar: foi Bolsonaro quem escolheu a barbárie como campo de batalha. E agora, o mínimo que lhe resta é aceitar as consequências das próprias escolhas.

•        Vídeo de Bolsonaro sendo intimado no caixão em seu funeral é propagado pelo filho Carlos

Expert em redes sociais do clã, Carlos Bolsonaro (PL-RJ) propagou nesta segunda-feira (28) em sua conta no Telegram um vídeo em que mostra o pai, Jair Bolsonaro (PL), sendo intimado dentro do caixão, em seu funeral.

O vídeo foi divulgado neste domingo (27) pelo humorista bolsonarista Paulo Souza, que momentos antes divulgou um storie participando de um evento com Nikolas Ferreira e com o jornalista Alexandre Garcia, que foi para a Globo após servir como porta-voz da Ditadura e deixou a emissora para se alinhar às hostes bolsonaristas. O evento aconteceu em Milão, na Itália e foi organizado por um grupo de "patriotas" que deixaram o Brasil.

No vídeo divulgado por Carlos, o humorista faz uma esquete no funeral de Bolsonaro como se fosse um oficial de Justiça, lançando ironias sobre o ex-presidente.

"Parece piada, mas é só o Brasil de Lula", escreveu o filho "02" de Bolsonaro, tentando criar comoção com a intimação feita por oficial de Justiça, enviada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital DF Star, onde o ex-presidente se recupera de uma cirurgia no intestino.

"E se o Bolsonaro fosse dessa pra melhor", inicia o humorista na esquete, filmada como se fosse a visão de Bolsonaro dentro do caixão.

"Vem cá, que história é essa de funeral agora, hein? Eu tenho que admitir que o pessoal da maquiagem tá caprichando cada vez mais, hein? O senhor está até gelado. Mas, só estou aqui para cumprir meu trabalho, seu Jair, pois o senhor tem 5 dias para esclarecer quem autorizou você morrer no meio de uma investigação criminal. Que conveniente, olha só: 'acabei batendo as botas e não posso mais cooperar com a Justiça", diz o humorista, que pede para o defunto assinar a notificação.

<><> Nova estratégia

O vídeo é parte da nova estratégia desencadeada por Jair Bolsonaro após o PL da Anistia ser definitivamente engavetado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), após o ex-presidente confirmar, em entrevista dentro da UTI ao SBT, que seria beneficiado pelo projeto.

Para conquistar apoio do Centrão e ludibriar apoiadores, o ex-presidente e aliados no Congresso propagaram a mentira que de que a anistia seria para beneficiar apenas os presos no 8 de Janeiro.

Neste domingo (27), dias após encontro com Bolsonaro no hospital, Silas Malafaia desencadeou a nova estratégia para confrontar o Supremo.

A nova tática passar por bajular o ministro carioca Luiz Fux, que tem demonstrando certa divergência com os colegas da primeira turma do Supremo, responsável pelo julgamento da organização golpista, para confrontar Moraes e, de quebra, Flávio Dino e Cristiano Zanin.

Em vídeo divulgado em suas redes na noite deste domingo (27), sem a habitual edição, Malafaia deu início à nova estratégia, adulando Fux pelo voto no caso Débora do Batom.

Diferentemente do relator - que foi seguido por Dino e Cármen Lúcia - que propôs 14 anos de prisão a Débora Rodrigues dos Santos, a "Débora do Batom", Fux deu voto divergente e votou para aplicar uma pena de um ano e seis meses de prisão para a bolsonarista.

Fux também divergiu sobre os crimes imputados, condenando Débora por deterioração de patrimônio, absolvendo-a pelos crimes de tentativa de golpe de estado, abolição violenta do estado democrático de direito, dano qualificado e associação criminosa armada.

"Vamos à condenação injusta, esdrúxula e vergonhosa de Débora há 14 anos de cadeia. Alexandre Moraes, 14 anos. O seu comparsa Flávio Dino, também deu 14 anos. A outra, que não sabe nem onde tá o nariz, Carmem Lúcia, 14 anos. Zanin, 11 anos. E Fux, para desmascarar essa farsa, deu um ano e meio", disse Malafaia, dando início à estratégia.

"Agora escutem, escutem. A única coisa que ela podia ser enquadrada, Deterioração do patrimônio. O que o Fux fez, dando a ela um ano e meio. Pra que ela não ficasse presa, porque ela tá lá há mais de dois anos. E esse caso, deterioração do patrimônio, é primeira instância. Não é STF", emendou Malafaia.

A declaração de Malafaia escancara a nova estratégia de defesa de Jair Bolsonaro para levar o caso à primeira instância, anulando todo o processo que levou ao julgamento na primeira turma do Supremo.

•        Eduardo Bolsonaro usa polonês defensor de neonazistas para falar em sanções da Europa contra Moraes

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que se afastou de seu mandato parlamentar para viver nos Estados Unidos e articular, junto ao governo de Donald Trump, sanções contra o governo brasileiro e contra ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), agora fala até mesmo em sanções da União  Europeia ao magistrado.

Até o momento, o filho de Jair Bolsonaro, que visa sancionar Moraes como forma de retaliá-lo por sua atuação no inquérito da tentativa de golpe de Estado, que deve levar seu pai à prisão, não obteve sucesso em sua empreitada nos EUA. Mesmo assim, ele acredita que conseguirá o feito junto ao bloco europeu. Nesta quarta-feira (24), o deputado brasileiro publicou um vídeo em seus stories do Instagram

"Quando perguntaram para o Alexandre de Moraes sobre a possibilidade de ele ser sancionado pelo governo dos EUA, vocês se lembram do que ele falou? Fez piadinha, falou que gostava de ir para a Europa, né? Então, tá bom. Bora...", declarou Eduardo Bolsonaro, em tom de mistério.

Poucas horas depois, o filho de Jair Bolsonaro revelou de onde partiu tal sugestão. Ele publicou um vídeo do deputado polonês Dominik Tarczynski, membro do Parlamento Europeu, anunciando protocolou um projeto de resolução propondo sanções ao a Moraes nos países da União Europeia.

Figura conhecida da extrema direita polonesa, Dominik Tarczynski é um ultranacionalista de anti-imigração e que já chegou a defender grupos neonazistas. No vídeo em que anuncia o projeto para sancionar Moraes na Europa, o polonês chega a afirmar, de maneira tresloucada, que Moraes, com suas decisões contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, pratica o "comunismo".

“Vou propor um projeto de resolução para estabelecer sanções a Moraes aqui na Europa. Eu vivia sob o comunismo, sou da Polônia, sei o que é o comunismo. As ações tomadas por esse juiz são puro comunismo. Eles querem destruir seus oponentes políticos. É por isso que temos de defender os direitos humanos. Temos que defender a verdadeira democracia. E temos que lutar contra os comunistas”, disparou o extremista europeu.

No vídeo, Dominik Tarczynski afirma que decidiu protocolar o projeto para sancionar Moraes após ver o vídeo de Jair Bolsonaro sendo intimado por uma oficial de Justiça no leito de UTI em que está internado desde o dia 12 de abril, em uma clara tentativa de interferir nas decisões da Justiça brasileira.

“Acabei de ver o vídeo do presidente Bolsonaro no hospital visitado pela oficial de Justiça. Isso é inaceitável. Esse tipo de ação tomada pelo ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes é inaceitável. É por isso que decidi reagir. A União Europeia precisa tomar providências agora”, disse.

O vídeo do polonês, naturalmente, foi compartilhado por Eduardo Bolsonaro, que se empolgou e disse que "agora é a Europa falando em sancionar Moraes.

As chances de essa proposta de Dominik Tarczynski avançar, entretanto, são extremamente baixas. Para além do fato do polonês não ocupar nenhuma posição de liderança nas principais comissões ou grupos parlamentares do Parlamento Europeu, resoluções individuais apresentadas por eurodeputados geralmente precisam do apoio de múltiplos grupos políticos para serem debatidas ou aprovadas.

Além disso, o Parlamento Europeu não possui competência direta para impor sanções a autoridades de países terceiros, como o Brasil. Tais medidas dependeriam do Conselho da União Europeia e exigiriam consenso entre os Estados-membros, o que é mais que improvável neste contexto.

<><> Quem é Dominik Tarczynski

Dominik Tarczynski é eurodeputado pelo partido ultraconservador Lei e Justiça (PiS), legenda nacionalista que governa a Polônia e que acumula críticas dentro da União Europeia por promover retrocessos democráticos e ataques sistemáticos ao Judiciário e à liberdade de imprensa. Com histórico midiático e atuação alinhada ao discurso da nova extrema direita global, Tarczynski integra o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), que reúne políticos antiglobalistas, eurocéticos e ultranacionalistas.

Autodeclarado "cristão conservador" e apoiador do presidente dos EUA Donald Trump, o polonês tornou-se conhecido por usar slogans como “Make Europe Great Again” e por defender pautas violentamente anti-imigração. Em diversas ocasiões, deu declarações racistas e islamofóbicas, além de criticar a presença de refugiados na Europa.

Em 2017, ganhou notoriedade internacional ao sair em defesa dos participantes de uma marcha nacionalista na Polônia que reuniu dezenas de milhares de pessoas – entre elas, grupos neonazistas europeus que exibiam faixas com frases como "Europa branca de nações fraternas" e "Sangue puro, mente pura". A manifestação foi classificada por veículos internacionais como uma das maiores reuniões de extrema direita da Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Apesar disso, Tarczynski afirmou que os participantes estavam sendo “difamados como fascistas” e prometeu apoio jurídico a eles.

A proximidade com grupos de inspiração neonazista, o uso recorrente de teorias conspiratórias anticomunistas e o apoio a líderes autoritários colocam Tarczynski como uma figura folclórica da nova onda de políticos europeus de ideias extremistas sob o disfarce de "defesa da família" e "valores cristãos".

 

Fonte: Brasil 247/Fórum

 

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