Notas sobre a guerrilha do Araguaia
Faço aqui uma referência direta texto
“Intervenção no debate sobre o Araguaia”, de junho de 1976. A reflexão, de
autoria de Pedro Pomar, completa 50 anos em 2026 e ainda carrega ressonâncias e
reverberações. Com muita humildade, pretendo utilizar as indagações de Pomar
(1980, p. 292) acerca do “alcance histórico” e dos “resultados” da Guerrilha do
Araguaia (1972-1974) para me debruçar sobre uma questão terrena. Embora seja um
ensaio, não se trata de uma divagação teórica extremada, afastada dos assim chamados
interesses materiais. Cinco décadas depois, mobilizando um balanço de avaliação
sobre a luta armada no Araguaia, almejo ir além da autocrítica dos circuitos
internos do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Extrapolando as organizações
partidárias, o presente texto é um debate acadêmico, mas também civil e
político à medida que questiona a farsa da pacificação no campo, impossível sem
reforma agrária.
Defendo que a Guerrilha do Araguaia, apesar
de sua derrota militar, não foi plenamente superada na Amazônia Oriental. Seus
legados e suas influências ainda são identificáveis. Dessa maneira, mais que
uma tese, a ideia central a ser costurada se efetiva como uma formulação
negativa, proposição por negação. Enquanto caminho de leitura, define-se com
base naquilo que não ocorreu, não se consolidou ou não se verificou. Explico:
em vez de encerrada em 1974, quando os últimos guerrilheiros foram assassinados
pelos militares, a Guerrilha do Araguaia não foi plenamente enterrada, pois
suas heranças se fazem presentes para pesquisadores com olhares minuciosos e
atentos.
Em defesa de uma definição negativa da
não-ruptura, um dos argumentos mais fortes consiste na manutenção dos conflitos
no campo, da repressão aos pecedobistas à “transição” rumo à Nova República,
“desengajamento” das Forças Armadas. Para que se fale de uma persistência, o
fim da Ditadura Militar é uma chave analítica considerável. Em 1985, não houve
uma transição, mas sim uma transação. As classes dominantes que financiaram o
golpe de 1964 se mantiveram ilesas e incólumes. A “redemocratização”, a despeito
das ruas, foi um acordo, uma “abertura lenta, gradual e segura”, uma
transferência prolongada sob a autoanistia e a autopreservação. O pacto
político que emergiu da conciliação nacional conservadora se erigiu sobre os
signos da amnésia e do esquecimento. À “anistia ampla, geral e irrestrita”,
seguiu-se uma justiça de transição falha e incompleta, ratificadora do
silenciamento forçado. Mas e o campo, onde estava instalada a Guerrilha do
Araguaia?
A luta coletiva por memória, verdade e
justiça faz com que o “nunca mais” ressoe também entre os camponeses. Diga-se o
que se quiser, porém a população rural vivenciou e vivencia, sentiu e sente
como, de fato, a transação se manifestou sem punir os violadores dos direitos
humanos. Assim, interrogando e refutando um discurso que prega a existência da
“paz no campo”, as linhas que se seguem são um ato de recuperação
histórico-política que supera um viés restrito aos documentos e às folhas de
papel. O impacto da Guerrilha do Araguaia não foi concluído na década de 1970,
pois, das ações e campanhas desmedidas do Exército, da Marinha e da
Aeronáutica, herdou-se um quadro de conflitos perenes.
Para explicar tal afirmação, é crucial
assinalar o incontornável número de militares envolvidos na guerra de
guerrilhas. Em conformidade com Campos Filho (2012) e Maciel (2014), as Forças
Armadas deslocaram o maior efetivo militar da história no interior do Brasil.
Com estimativas que alcançam 20 mil soldados, é uma quantia ultrapassada, em
todo o século XX, apenas pela participação da Força Expedicionária Brasileira
na Segunda Guerra Mundial. Recorrendo ao general Carlos de Meira Mattos (1977,
p. 141), que compilou o número total de membros das Forças Armadas em 1976,
logo após o combate à Guerrilha do Araguaia, verifica-se que 7,69% dos efetivos
nacionais estiveram envolvidos na repressão na Amazônia. Depois da guerrilha,
não havia outro caminho a não ser a permanência da beligerância, avançando
sobre os camponeses.
Desde já, ressalto que a minha análise é
totalmente diferente da puramente militar. Proponho que o desfecho da
guerrilha, perseguida por uma quantidade corpulenta de militares, não é algo
anômalo, excêntrico ou extravagante. O fim da guerrilha, do jeito que se deu, é
parte intrínseca e reflexo da questão agrária brasileira. Seu legado, vivo, é
uma afronta à estrutura fundiária. Diante disso, me distancio de leituras
equivocadas, pueris e mal-intencionadas, como a dos militares Jiménez (2007),
Maciel (2008) e Ustra (2018). Nesses casos, a guerrilha é propositalmente
afastada de seu contexto, reduzida a uma aventura ou a uma expressão de
“radicalismo/fanatismo”. Defronte à mudez da caserna, o que reina é a negação
dos fatos de 1972 a 1974. Na verdade, na divisa Pará-Maranhão-Tocantins, o que
se encontra é a Guerrilha do Araguaia como um fenômeno que deixou profundos
rebatimentos territoriais, influências ativas no presente.
<><> Um choque de leituras
Convenhamos: essa postura antidogmática
desperta oposições. Não haverá harmonia ou calmaria enquanto alguém se
posicionar contra. Essa é a tarefa que se levanta. As interpretações e as
visões estão em conflito. Os choques políticos são inevitáveis. De um lado, a
leitura militar; do outro, uma leitura própria e original. Para a corporação, a
guerrilha é entendida como uma ameaça à soberania nacional. Ora, se era um
risco, “ameaça comunista”, deveria ser combatida. O encadeamento argumentativo,
a partir de artifícios lógicos, leva ao seguinte fim: a guerra perpetrada
contra a Guerrilha do Araguaia foi legítima, consequência de seu caráter
subversivo. Dando um passo além, encontra-se tanto a justificativa para a
repressão brutal quanto a minimização dos abusos. A leitura militar, do início
ao fim, encaminha-se e direciona-se à relativização do massacre e do
extermínio, pouco importando o que viria depois (desde que a guerrilha
estivesse sepultada). O foco está na segurança e, enquanto tal, conduz à
defesa, para usar um eufemismo, do “castigo”.
No tensionamento a ser feito, reforço que a
guerrilha está imersa e inserida na questão agrária. É indissociável das
desigualdades históricas no campo e inseparável de suas consequências. O embate
contra a guerrilha, em três campanhas, foi instrumentalizado como válvula de
escape para a violência estatal voltada contra o campesinato. Como efeito, o
que o Estado fez ou deixou de fazer não está justificado. De maneira contrária,
decorre-se que é imprescindível que o Estado seja responsabilizado como perpetrador
de massacres. O crime não é suavizado por ter participação das Forças Armadas.
O foco se altera: não está mais na segurança.
A prioridade reside, a partir de então, na
terra, no território e nas relações sociais. Para além das prisões arbitrárias,
das torturas, dos desaparecimentos e dos assassinatos, realço a dimensão
territorial e a continuidade histórica de violações que não cessaram em 1974,
muito menos em 1985, com uma negociação pelo alto. Antes da crítica dos
críticos, saliento: não se trata de uma reabilitação da guerrilha, mas de um
outro olhar, originário de pesquisas sóbrias, realizadas nos últimos anos. O
embasamento reside em trabalhos de campo, entrevistas com camponeses e com
ex-guerrilheiros, pesquisa documental, revisão bibliográfica e levantamento de
dados primários e secundários. O legado da guerrilha, em curso, mescla o
passado e o presente. É um processo em marcha permanente, com dilatação
espaço-temporal, atingindo a atualidade. Indo de encontro com pesquisas como a
de Reis (2021), para que a intervenção aqui defendida faça sentido, nota-se que
o campesinato está posicionado no centro.
Se os camponeses são tomados como centrais,
os efeitos da repressão não se prendem aos guerrilheiros, pois são entendidos
como estratégias para o contínuo combate no campo. O desdobramento é o
seguinte: a repressão no Araguaia, com sua face violenta, ainda não acabou; ela
sobrevive diante das mudanças no campo conforme o par dialético
barbárie-modernidade (Oliveira, 2003). A evidência está na fronteira agrícola,
área voltada à expansão econômica, em movimento. Mesmo 50 anos depois da
contribuição de Pomar (1980), a expropriação se mantém. Em oposição aos
militares Jiménez (2007), Maciel (2008) e Ustra (2018), destaco que o núcleo da
investigação está nas forças produtivas e nas relações sociais de produção. A
repressão, pretérita ou corrente, não é uma coincidência, mas sim um problema
estrutural, método sistemático reiteradamente repetido no pacto
militar-latifundista.
<><> Uma guerrilha em processo
A constância e a regularidade da repressão
permitem observar o massacre como política de Estado para além da luta armada.
Não é coincidência que as expressões “esforço deliberado de ocultação dos
cadáveres” e “metodologia sistemática de ocultação” estejam no volume 1 do
relatório final da Comissão Nacional da Verdade (Brasil, 2014, p. 711). Para
além da tentativa de revolução, apropriar-se do termo “processo” é enfatizar as
relações dos guerrilheiros com os camponeses e os nexos jamais interrompidos na
disputa pela terra. “Processo” salienta vínculos e contatos prolongados. Assim,
a Guerrilha do Araguaia não é um episódio, isto é, um evento encerrado no
passado. Sem isolamento, ela apresenta repercussões na luta pela terra, visto
que a tensão histórica permanece ativa.
Apreendida como processo
histórico-territorial contínuo, substituindo a noção de episódio, altera o foco
da guerrilha em si para seus efeitos duradouros. Ressalto uma conexão
passado-presente de violências que ainda não terminaram, pois se somam às notificações
de conflitos no campo ano após ano. Para reafirmar essa perspectiva, Martins
(1978, p. 12) nos avisa que o personagem histórico essencial da luta armada no
Araguaia “foi e é o posseiro, o pequeno lavrador baseado no trabalho familiar”.
Se os posseiros ainda estão, o conflito ainda está. Isto posto, a Guerrilha do
Araguaia não foi apenas um movimento armado, o que carrega um invólucro de
redução e circunscrição tanto espacial quanto têmporo-cronológico. Nesse caso,
a palavra-chave seria “limitação”, fazendo menção a um evento sem rebatimentos
territoriais ou históricos.
Embora evocado de modo provocativo,
“processo” aqui está para frisar o quão fundamental é estudar e trabalhar a
Guerrilha do Araguaia não como episódio perdido, suplantado, eliminado,
erradicado, sem ecos no presente, mas como movimento, com seus detalhes, suas
minúcias e suas particularidades. O presente, o hoje, está carregado e cheio de
elementos do passado, do ontem. Nada emerge do vácuo: as lutas camponesas do
Bico do Papagaio se constroem a partir das contribuições dos guerrilheiros e
contra a repressão ininterrupta e permanente dos aliados
militares-proprietários fundiários. Se a Guerrilha do Araguaia é processo
histórico-territorial contínuo, associa-se e não se deixa ser esquecida nas
lutas pela terra e por memória. Acima de tudo, a guerrilha é “combustível de
luta e mobilização popular” (Andrade; Alves, 2024, p. 544).
Não se nega que a violência é a parteira de
toda sociedade velha que está prenhe de uma sociedade nova, mas a sua
recorrência indica uma necessária reorientação do foco da narrativa. Em vez da
cronologia, mais processo histórico contínuo. Não se trata do que a guerrilha
foi, mas do que continua a ser, rememorada entre camponeses que com ela tiveram
contato. Sob essa ótica, é possível periodizar. No pré-guerrilha, de 1966 a
1972, houve o socorro imediato, a amizade, a troca de dias trabalho, os
mutirões e a convivência diária; no pós-guerrilha, desde 1974, uma metamorfose
das influências dos militantes como força motriz, isto é, impulsos, incentivos
e estímulos, para o sindicalismo rural e a mobilização em prol da terra de
trabalho.
Com isso, apesar do passar dos anos, os
contatos foram ensinamentos e inspirações para as lutas camponesas. A Guerrilha
do Araguaia não teve seu fim em meados da década de 1970. Ela é – e deve ser
compreendida segundo essa leitura que ganha corpo mediante uma formulação
negativa – um prenúncio de lutas que continuam e se mantêm. Ao reivindicar “uma
guerrilha em processo”, assumo uma mescla passado-presente, intersecção e
sobreposição guerrilha-campesinato. Por essa razão, estudar, discutir e
denunciar o que ocorreu no Araguaia não é obsoleto ou arcaico. Não é uma
problemática antiquada ou defasada. A perseguição não parou no PCdoB. As Forças
Armadas, instrumento das classes dominantes, concretizaram uma transformação da
caça aos comunistas à caçada às pessoas da mata, independentemente da filiação
político-partidária. Sob a ordem de não deixar sobreviventes e apagar vestígios
e rastros, fizeram com que o que há de mais retrógrado não permaneça
desatualizado. A violência de ontem é a violência de hoje. A violência do
passado é a violência do presente. A violência de outrora é a violência de
agora.
<><> Breves considerações que não
se concluem
Não haverá paz no campo enquanto a
expropriação não cessar e os algozes da Ditadura Militar não forem punidos.
Jamais existirá estabilidade enquanto a concentração fundiária não for
combatida frontalmente. Reitero: é quase uma piada de mau gosto falar em “paz”
no Brasil diante da continuidade dos conflitos fundiários e dos assassinatos no
campo. Para desnudar o discurso de tranquilidade social e serenidade, basta
destacar a combinação, o arranjo, a articulação e a contradição entre forças
produtivas e relações de produção. Sem iniciativas sérias e sisudas de reforma
agrária multissetorial e multifatorial, não haverá trégua.
Diante desse contexto, as heranças da
Guerrilha do Araguaia não podem ser lidas como pretéritas, sem repercussões no
presente. Amalgamando estórias e histórias, lembranças são veiculadas entre os
camponeses, vítimas de uma tentativa de “domesticação” por parte das Forças
Armadas durante o início da década de 1970. Para não deixar dúvidas, eis o
cerne da presente intervenção: a Guerrilha do Araguaia não é um episódio
perdido ou finalizado, mas um movimento com reflexos históricos e territoriais.
Os desdobramentos da guerrilha estão em marcha, afinal seu encadeamento ainda é
inconcluso. É imperativo superar um olhar estritamente pretérito. Questiona-se,
então, onde estão e onde se encontram tais legados. Respondo: entre sindicatos
de trabalhadores rurais, movimentos socioterritoriais, cooperativas e
associações de pequenos produtores.
Além dos guerrilheiros, os camponeses foram
“objeto de disputa” (Reis, 2021, p. 158) entre as forças beligerantes. Como
consequência, deve-se depreender que a guerra de guerrilhas foi uma tensão
muito mais profunda. O Araguaia, de 1972 a 1974, não foi apenas expressão
local. Havia, de fato, um conflito de classes subjacente ao confronto. Posto
que a disputa em torno da terra jamais foi concluída, o problema material,
concreto, ainda está por resolver. Entre guerrilheiros e militares, os
camponeses. Em vez de recorrer à pacificação, não temamos o conflito. Ele aí
ainda está, nítido para os que se permitem ver.
Fonte: Por Vinícius Carluccio de Andrade, em
A Terra é Redonda