quinta-feira, 10 de setembro de 2026

 

Brasil – independência ou dependência?

Todo 7 de Setembro, o Brasil encena a própria certidão de nascimento. Bandeiras cobrem as janelas; cavalos riscam a avenida; uniformes, tambores e discursos repetem que a independência foi conquistada. A cerimônia tenta imobilizar a história numa imagem: um príncipe, uma espada, um riacho e um grito.

Mas a independência real transborda da moldura. A pergunta decisiva não é se o Brasil deixou de ser colônia de Portugal. Deixou. A pergunta é outra: depois de constituído como Estado nacional, passou a comandar o próprio destino? Conquistou a faculdade de decidir o destino de sua riqueza, de seu trabalho, de seu conhecimento e, sobretudo, de seu futuro?

Se a soberania significa escolher coletivamente o horizonte de uma sociedade, a resposta brasileira continua incômoda. A separação política ocorreu; a dependência apenas mudou de forma, linguagem e comando.

Essa distinção permite compreender muita coisa que, vista isoladamente, parece apenas defeito moral, incompetência administrativa ou acidente institucional. O país não é uma coleção casual de fracassos. Há uma arquitetura que articula a política econômica, a austeridade fiscal, a fragilidade das políticas sociais, o poder militar, os privilégios do Judiciário, a corrupção, a reforma política sempre adiada, a compressão da universidade pública e a emergência do bolsonarismo.

Essa arquitetura é a dependência. Não a dependência antiga, concebida como simples atraso diante de países desenvolvidos, nem uma falta que o crescimento corrigiria automaticamente. Trata-se de uma relação histórica: alguns centros concentram a capacidade de antecipar, financiar e impor o futuro; às formações periféricas resta ajustar o presente às decisões tomadas fora do alcance da soberania popular.

A independência formal instituiu um território e um governo, mas preservou a ordem escravista, a concentração da terra e a inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. O senhor colonial trocou de roupa, sem soltar o mando. A República retirou a coroa, mas não entregou o poder ao povo. A abolição rompeu juridicamente a escravidão, mas abandonou os libertos à fome, à perseguição e à ausência de terra, escola e reparação.

A modernização industrial não dissolveu o arcaico: utilizou-o. Francisco de Oliveira mostrou que o chamado atraso não estava fora do moderno; era uma de suas condições. A razão dualista errava ao imaginar dois Brasis, um avançado e outro condenado a desaparecer. Havia um só movimento: o moderno produzia, incorporava e administrava o atraso de que necessitava.

Agora é preciso dar outro passo. A história mudou; a categoria deve mover-se com ela. Depois da crise de 2008, o capital fictício deixou de ser apenas uma esfera financeira separada da vida social. Tornou-se princípio de organização do Estado e do cotidiano. Títulos, dívidas, juros e rendimentos esperados representam direitos presentes sobre uma riqueza que ainda será produzida.

O futuro chega antes de existir – e chega hipotecado. O orçamento de amanhã disciplina a política de hoje; a expectativa do mercado vale mais que a necessidade da população; o risco atribuído pelos credores pesa mais que o voto dos cidadãos. A dependência, nesse estágio, é controle do tempo histórico. Quem controla o crédito, a moeda, a taxa de juros e a circulação internacional do capital não domina somente recursos: decide quais futuros terão tempo de nascer e quais serão abortados ainda como possibilidade.

O Brasil tornou-se refém do capital fictício porque boa parte das decisões nacionais é apresentada como resposta inevitável a compromissos financeiros anteriores. A dívida pública deixa de ser instrumento possível de desenvolvimento e converte-se em tribunal permanente da política. Não importa apenas seu volume, mas o regime de poder organizado ao redor dela: juros elevados, remuneração protegida, prioridades orçamentárias rígidas e uma opinião econômica treinada para tratar os credores como representantes da razão.

Antes que uma escola seja construída, uma bolsa seja concedida ou um hospital seja equipado, o futuro da arrecadação já foi convocado a prestar serviço à riqueza financeira. O dinheiro que ainda não entrou já tem dono; a criança que ainda não nasceu herda sua parcela da dívida e quase nenhuma promessa de direito.

É assim que a austeridade fiscal se apresenta como virtude. Ela não diz simplesmente que faltam recursos. Afirma que a sociedade viveu acima de suas possibilidades e precisa expiar o excesso. O sofrimento torna-se pedagogia; o corte, prova de responsabilidade; a renúncia dos muitos, sinal de maturidade. Curiosamente, o sacrifício nunca é distribuído de maneira igual.

Falta dinheiro para a escola, para o Sistema Único de Saúde, para a moradia, para a ciência e para o salário do servidor, mas raramente falta para remunerar a dívida, socorrer instituições financeiras ou preservar desonerações poderosas. A austeridade ergue a voz contra quem necessita do fundo público e fala baixo diante de quem o captura. Sua linguagem é universal, sua aplicação é de classe.

As políticas sociais passam então a viver sob a forma da intermitência. Um programa nasce, alcança milhões, altera expectativas e logo é submetido ao contingenciamento, à descontinuidade ou à mudança de nome. O direito não adquire duração suficiente para transformar a estrutura: permanece concessão revogável, sempre à espera do próximo corte. A população é obrigada a agradecer aquilo que deveria reconhecer como cidadania.

O benefício aparece como favor do governante, não como propriedade política do povo. Forma-se a liturgia da dependência: o pobre agradece o alimento; o estudante, a bolsa; a família, o atendimento. Ao mesmo tempo, os beneficiários da renda financeira batizam seus privilégios de contrato, segurança jurídica e confiança. Embaixo, favor; em cima, direito adquirido.

A política econômica brasileira converte essa obediência em ciência aparente. Seus sacerdotes falam como se descrevessem leis físicas: o mercado acordou nervoso, o dólar reagiu, a bolsa desaprovou, os agentes perderam confiança. Os sujeitos sociais desaparecem; interesses de classe adquirem voz meteorológica; decisões políticas são naturalizadas.

O Banco Central, protegido da disputa democrática, funciona como poder paralelo porque pode definir o custo do dinheiro, frear o investimento, aumentar a despesa financeira do Estado, reorganizar a renda e condicionar o emprego. A independência concedida a essa instituição não é sinônimo de independência nacional. Pode significar precisamente o contrário: a autonomia da engrenagem financeira diante da soberania popular.

Por isso a reforma política é sempre anunciada e nunca chega ao núcleo do problema. Mudam-se regras eleitorais, cláusulas, prazos, federações e formas de propaganda, mas preserva-se a captura material da representação. Campanhas, partidos, emendas, lobbies, proprietários dos meios de comunicação, plataformas digitais e grupos econômicos estreitam o campo do possível antes da votação.

O eleitor escolhe, porém escolhe dentro de uma moldura produzida por poderes que não se submetem ao voto. A democracia brasileira concede ao povo uma voz periódica e entrega poder permanente às estruturas de veto. Quando a maioria tenta ultrapassar o limite, a conciliação entra em funcionamento para reconduzi-la ao permitido.

A conciliação brasileira não é gentileza: é uma tecnologia de conservação. Em cada crise, acomoda o novo sem desalojar o velho. Incorporou trabalhadores sem destruir a casa-grande; universalizou o voto sem democratizar a propriedade; promulgou uma Constituição generosa sem garantir os meios contínuos de realizá-la.

A reforma política necessária não se limita, portanto, ao desenho eleitoral. Exige democratizar os meios de comunicação, tornar transparentes as relações entre poder econômico e decisão pública, ampliar a participação direta, submeter autoridades não eleitas a controles efetivos e retirar dos privilégios a capacidade de sequestrar o futuro. Sem isso, a soberania popular continuará convidada para a cerimônia e expulsa da mesa em que se escreve o contrato.

É nesse ponto que reaparece o antigo Ministério da Guerra, sobrevivente na forma ampliada do poder das Forças Armadas. A República brasileira nasceu de um movimento militar, e os quartéis nunca aceitaram inteiramente a condição de instituição subordinada ao poder civil. Em diferentes períodos, apresentaram-se como tutores da nação, intérpretes do interesse nacional e reserva moral capaz de corrigir a política.

Essa pretensão produziu golpes, ditaduras, ameaças e uma presença contínua na administração do Estado. O uniforme não ocupa apenas ministérios e cerimônias. Ocupa uma zona simbólica em que a vontade popular pode ser declarada imatura e a tutela armada, necessária.

O paradoxo é evidente. Uma força destinada a defender a soberania nacional converte-se, muitas vezes, em limite interno da soberania popular. Em nome da ordem, protege-se uma ordem social dependente. Em nome da pátria, vigia-se o povo. Em nome da segurança, tratam-se conflitos sociais como inimigos a neutralizar.

O anticomunismo forneceu durante décadas a gramática dessa tutela, ligando interesses internos às estratégias dos Estados Unidos. Mudaram os inimigos, mas permaneceu o dispositivo: sempre há uma ameaça suficientemente grave para justificar a suspensão da política. O Ministério da Guerra deixa, assim, de ser apenas uma repartição do passado: torna-se uma maneira de pensar o Brasil – a sociedade como tropa, o dissenso como indisciplina, a democracia como concessão revogável.

O Judiciário completa essa arquitetura quando abandona a função de garantir direitos e assume a posição de poder sem povo. A toga oferece a imagem da imparcialidade, mas também pode ocultar interesses corporativos, convicções políticas e privilégios materiais. Salários acima do teto por meio de adicionais, férias extensas, auxílios e vantagens apresentados como direitos formam um mundo distante da existência comum. O escândalo não está apenas no valor recebido. Está na linguagem que converte benefício privado em proteção do interesse público. O privilégio veste a língua da República.

O Supremo Tribunal Federal é indispensável à defesa constitucional e conteve aventuras autoritárias. Isso não o torna imune à crítica. Quando onze ministros podem suspender decisões e alterar o ritmo político do país, seus limites e deveres de prestação de contas não podem permanecer fora da discussão democrática. A Constituição não pertence à toga, mas ao povo.

A corrupção deve ser lida dentro dessa mesma estrutura. Reduzi-la a desvio de caráter é confortável: condena o indivíduo e absolve o sistema que a produz. Evidentemente há ladrões, contratos fraudulentos, propinas e enriquecimento ilícito, e seus responsáveis precisam responder. Mas a corrupção não começa quando alguém recebe dinheiro numa mala.

Começa quando a fronteira entre público e privado é organizada para que poucos decidam sobre recursos de todos; quando uma isenção bilionária é tecnicamente respeitável, mas um benefício mínimo é suspeito; quando a informação circula entre agentes econômicos antes de alcançar a sociedade; quando a porta giratória transforma reguladores em empregados dos regulados. A ilegalidade é apenas a face exposta de uma apropriação muitas vezes protegida pela própria lei.

Também a universidade pública revela, com extraordinária nitidez, a diferença entre independência formal e soberania real. Ela possui autonomia inscrita na Constituição, produz ciência de alto nível, forma profissionais, sustenta a crítica e guarda uma parcela decisiva da inteligência nacional. Contudo, as condições de sua duração são permanentemente ameaçadas.

Orçamentos anuais e incertos interrompem pesquisas plurianuais; bolsas perdem valor; concursos são adiados; laboratórios dependem de equipamentos importados, câmbio, licenças e plataformas estrangeiras; docentes multiplicam tarefas, editais, relatórios e avaliações. A autonomia respira no estatuto e sufoca no calendário financeiro.

A dependência universitária não significa ausência de competência. Ao contrário: o drama está em possuir capacidades científicas robustas e não poder protegê-las do comando curto. A ciência necessita de tempo para errar, comparar, refazer, formar equipes e acompanhar objetos que não obedecem ao ano fiscal. Quando o orçamento chega tarde, é bloqueado ou exige produção imediata, o calendário passa a preceder a pergunta. Escolhe-se o problema que cabe no edital, não o tempo exigido pelo problema. A métrica ocupa o lugar do juízo; a velocidade, o da relevância. O futuro produto comanda antecipadamente o trabalho intelectual que deveria produzi-lo.

Defender a universidade pública, por isso, não é defender uma corporação contra a sociedade. É defender uma reserva de futuro comum. Uma bolsa estável permite que um estudante planeje; uma carreira pública impede que toda pesquisa se curve ao patrocinador do mês; um orçamento plurianual protege perguntas cuja resposta demorará anos; uma política científica soberana escolhe problemas nacionais sem fechar-se à cooperação internacional.

Soberania temporal não é isolamento nem controle absoluto. É a capacidade relativa de proteger processos estratégicos, escolher ritmos compatíveis com suas finalidades e negociar interdependências sem entregar a outros a definição integral do horizonte.

Foi nesse solo rachado que o bolsonarismo criou raízes. Ele não caiu do céu, não nasceu apenas das redes sociais e não pode ser explicado como loucura coletiva. É produto de uma democracia impedida, de direitos sem duração, da desmoralização seletiva da política, da tutela militar, do ressentimento social e da insegurança fabricada por décadas de ajuste.

Quando o trabalho perde estabilidade, a comunidade se desfaz e o futuro aparece como ameaça, a violência oferece uma falsa sensação de ordem. O autoritarismo promete devolver, de uma só vez, o controle a quem já não governa a própria vida. Entrega uma arma imaginária, um inimigo reconhecível e a licença para odiar.

O bolsonarismo reuniu frações distintas. A elite financeira viu a oportunidade de aprofundar reformas regressivas; militares reencontraram a fantasia tutelar; setores médios ressentidos transformaram perda de distinção em raiva contra os pobres; fundamentalistas ofereceram uma moral rígida para uma realidade em dissolução; trabalhadores precarizados receberam explicações simples para sofrimentos complexos.

O líder costurou esses afetos com uma linguagem corporal de brutalidade. Não ofereceu um projeto nacional. Ofereceu autorização para punir. Sua independência era a liberdade do forte contra o fraco, nunca a soberania do país contra os poderes que hipotecam seu futuro.

Por isso não há contradição entre o nacionalismo verbal do bolsonarismo e sua submissão econômica. A bandeira encobre a entrega; o hino abafa o ruído do leilão. Fala-se em pátria enquanto se enfraquecem instituições científicas, ambientais, trabalhistas e culturais capazes de sustentar qualquer projeto soberano.

O inimigo principal torna-se o professor, o artista, o indígena, a mulher, o negro, o movimento social, o servidor e todos aqueles que recordam que nação não é quartel nem propriedade privada. O capital fictício agradece: enquanto a sociedade caça fantasmas, o futuro muda de mãos.

O lulismo emerge, ao mesmo tempo, como resposta democrática e limite histórico desse processo. Sua força real não pode ser desprezada. Ele reintegra os pobres à linguagem pública, recupera políticas sociais, eleva o salário mínimo, amplia oportunidades e recompõe a possibilidade de diálogo. Num país em que as elites frequentemente recusam até mesmo a presença popular, isso é uma conquista.

Diante do bolsonarismo, o lulismo representa a defesa concreta da legalidade, da pluralidade e da vida. Não é pouca coisa. Para milhões, a democracia não é uma abstração constitucional; é comida, emprego, universidade, vacina, reconhecimento e o direito de não ser tratado como inimigo.

Mas o lulismo é também o teto democrático que a ordem dependente brasileira parece tolerar. Seu método é o populismo conciliador: falar aos de baixo sem romper com os de cima; deslocar-se à esquerda e, logo depois, assegurar ao centro e à direita que os contratos fundamentais permanecerão protegidos. Em certos momentos, aproxima-se mais da direita nas escolhas econômicas; em outros, realiza um deslize à esquerda por pressão popular, convicção política ou necessidade histórica. O movimento não é simples traição nem virtude pura. É a forma possível de governar dentro de uma estrutura que concede mandato eleitoral, mas conserva

Chamar isso de populismo não significa repetir o insulto liberal contra o povo. Populismo, aqui, designa a relação direta entre liderança e massas numa sociedade cujas instituições não conseguiram transformar necessidades populares em poder organizado e duradouro. O líder representa, protege, negocia e traduz. O povo reconhece nele a possibilidade de ser visto, mas permanece pouco armado para controlar o Estado depois da eleição. A conciliação ganha rosto, voz, corpo e biografia. Funciona enquanto o mediador é capaz de manter juntos interesses inconciliáveis; entra em crise quando a luta de classes exige uma escolha que o pacto não comporta.

O limite do lulismo, portanto, não se encontra apenas em Lula. Encontra-se na sociedade que o produz como solução superior e quase insubstituível. Se a democracia atinge seu ponto máximo quando um líder excepcional negocia parcelas de futuro com os proprietários do tempo, ela continua dependente. Pode respirar, mas não decide o próprio ritmo. Pode distribuir renda, mas não controla plenamente as engrenagens que a reconcentram. Pode abrir a universidade, mas não garante que ela tenha duração. Pode derrotar o autoritarismo nas urnas, mas não dissolve as condições que o fazem retornar.

Brasil: independência ou dependência? A pergunta não admite resposta cerimonial. O Brasil é politicamente independente e historicamente dependente. Possui Estado, Constituição, eleições, moeda, território, universidades, indústria, agricultura e uma sociedade capaz de criar formas admiráveis de vida. Não é colônia no sentido jurídico nem vítima passiva de um poder exterior. Suas classes dominantes participam ativamente da dependência e lucram com ela. A subordinação externa articula-se à dominação interna. Quem entrega o futuro nacional nem sempre está fora do país: frequentemente fala português, veste toga, uniforme ou terno e chama o próprio interesse de responsabilidade.

Por isso, a soberania não nascerá de outro grito às margens de outro riacho. Ela exige uma transferência real de poder sobre o tempo. Significa submeter a política econômica à democracia; fazer do fundo público instrumento de direitos e transformação; retirar da austeridade seu falso prestígio moral; impedir a tutela militar; controlar democraticamente o Judiciário sem destruí-lo; combater a corrupção sem converter acusadores em soberanos; realizar uma reforma política que alcance o poder econômico; e proteger a universidade, a ciência e o trabalho de longa duração. Independência é permitir que a próxima geração receba possibilidades, não apenas compromissos assinados em seu nome.

Enquanto o futuro chegar ao Brasil na forma de cobrança, o 7 de Setembro continuará sendo uma festa interrompida. A espada permanecerá erguida; a mão que vira as páginas do calendário, porém, estará em outro lugar. A independência começou em 1822. Ainda não terminou. Ela não será concluída por um governante solitário nem por uma conciliação mais habilidosa.

Será obra de uma sociedade que deixe de agradecer como favor aquilo que produz como direito e arranque dos senhores, antigos e modernos, o monopólio do amanhã. A dependência é expropriação da duração. A independência, se ainda quisermos pronunciar essa palavra sem vergonha, é o poder coletivo de abrir o futuro – e fazê-lo durar.

 

Fonte: Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

 

A disputa pela legitimidade democrática

Da pandemia às eleições de 2026, a atuação de Jair Bolsonaro e a crise no Supremo expõem disputas sobre verdade e legitimidade. À luz de Jürgen Habermas, o texto examina como a desinformação corrói a linguagem pública e sustenta que a defesa da democracia exige instituições abertas à crítica e à justificação.

<><> A crise da linguagem pública

Em 2020, uma emergência sanitária exigia coordenação entre conhecimento científico, decisões governamentais e condutas cotidianas. Em janeiro de 2023, a transmissão regular do poder deveria confirmar a força dos procedimentos democráticos após uma eleição intensamente disputada. Os dois acontecimentos, contudo, ultrapassaram divergências sobre políticas públicas ou projetos de governo. Na pandemia, informações sobre a gravidade da Covid-19, medidas de prevenção, tratamentos e vacinas foram deslocadas do terreno da crítica científica para uma disputa de lealdades políticas.

Depois das eleições de 2022, alegações reiteradas de fraude, desacompanhadas de provas, contribuíram para transformar a derrota eleitoral em sinal de conspiração e a intervenção militar em resposta imaginada por grupos mobilizados diante de quartéis. São fenômenos distintos, mas atravessados por um problema comum: a erosão das condições pelas quais uma sociedade decide o que pode reconhecer como verdadeiro, legítimo e justificável.

Essa erosão não significa ausência de comunicação. Durante a pandemia e no período entre as eleições de 2022 e o 8 de janeiro, circularam discursos, vídeos, mensagens e interpretações. O problema está no modo como a linguagem foi empregada. Em vez de expor afirmações e normas à contestação, parte da comunicação política operou para preservar adesões, desautorizar fontes, deslocar responsabilidades e manter grupos mobilizados. A esfera pública tornou-se intensamente falante e, ao mesmo tempo, menos permeável à revisão das próprias certezas. A abundância de enunciados passou a conviver com o enfraquecimento da linguagem como meio de entendimento.

A teoria do agir comunicativo permite interpretar esse processo sem idealizar a deliberação nem atribuir à linguagem uma potência emancipadora automática. Sua contribuição está em distinguir a coordenação por razões reconhecidas pelos participantes da influência orientada ao êxito. Este texto sustenta que a pandemia de Covid-19 e o processo que culminou nos ataques de 8 de janeiro revelam modalidades distintas, mas relacionadas, de regressão da linguagem pública.

Na crise sanitária, sobressaíram ataques às pretensões de verdade e veracidade; na contestação eleitoral, ganhou centralidade a recusa da correção normativa e da legitimidade dos procedimentos. Não há entre os casos causalidade linear, mas a recorrência de uma operação política: transformar questões submetidas à validação pública em marcas de pertencimento resistentes à crítica.

O ensaio articula pesquisas sobre desinformação, relatórios parlamentares e decisões judiciais para acompanhar a passagem da crise sanitária à responsabilização pela tentativa de golpe e, daí, às eleições de 2026 e à crise no Supremo. Instituições que defendem a democracia precisam conservar a possibilidade de serem criticadas e chamadas a justificar suas práticas.

<><> A pandemia e a disputa pela realidade compartilhada

A Covid-19 colocou essa arquitetura sob tensão porque a ação coletiva dependia de conhecimentos provisórios, da revisão de evidências e da confiança em instituições capazes de comunicar incertezas. No Brasil, Jair Messias Bolsonaro, então presidente da República, minimizou publicamente os riscos da doença, promoveu medicamentos cuja eficácia ainda não estava demonstrada e combateu medidas de distanciamento.

Ricard e Medeiros (2020) documentaram essas manifestações desde os primeiros meses da emergência sanitária. A autoridade presidencial conferia alcance institucional a enunciados que circulavam também entre apoiadores. A controvérsia deixou de envolver apenas o conhecimento disponível e passou a exigir demonstrações de fidelidade à liderança.

O Relatório Final da CPI da Pandemia reuniu elementos sobre a promoção do chamado tratamento precoce, conflitos relativos à aquisição de vacinas e falhas na resposta federal, atribuindo responsabilidades políticas e propondo encaminhamentos para apuração. Suas conclusões parlamentares não equivalem a condenações judiciais, e o próprio governo comportava divergências, como o conflito entre Jair Bolsonaro e o então ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em torno das medidas de distanciamento. Ainda assim, identificar essas diferenças não elimina a responsabilidade política vinculada às condutas documentadas.

A circulação em redes ampliou a escala do problema. Soares et al. (2021) analisaram 802 mensagens com desinformação sobre a Covid-19 entre os conteúdos mais compartilhados em mais de quinhentos grupos políticos públicos de WhatsApp, em março e abril de 2020. Conspirações e conteúdos fabricados apresentavam medidas sanitárias como ações destinadas a prejudicar Jair Bolsonaro.

O efeito era deslocar a discussão: em vez de avaliar riscos e medidas, os participantes eram convocados a defender uma liderança apresentada como alvo de forças hostis. A refutação podia, assim, ser incorporada à própria narrativa como novo indício de perseguição.

À luz de Jürgen Habermas o problema não está simplesmente na circulação de informações falsas. Afirmações incorretas podem ser corrigidas; a regressão começa quando os próprios critérios de correção são desqualificados. Dados passam a valer conforme a identidade de quem os apresenta; a revisão de posições torna-se traição; instituições de pesquisa são aceitas apenas quando confirmam a convicção desejada. A verdade perde autonomia diante da preservação da adesão, e a veracidade é atingida quando a confiança associada ao cargo não encontra correspondência na disposição de prestar contas sobre o que foi dito e feito.

A justificação normativa também estava em disputa. Restrições à circulação, prioridades de vacinação e proteção da renda envolviam decisões distributivas, não simples aplicações automáticas da ciência. Em um país desigual, permanecer em casa dependia de condições de trabalho, moradia e proteção social. A alternativa democrática consistia em explicitar evidências, incertezas e critérios de distribuição dos encargos, submetendo-os à crítica. A pandemia expôs, portanto, um conflito no interior da esfera pública atravessado por desigualdades que a correção isolada de conteúdos não poderia resolver.

<><> Da deslegitimação eleitoral à responsabilização pela tentativa de golpe

Na eleição de 2022, a desinformação incidiu sobre o próprio procedimento que autorizaria o exercício do poder. Um episódio decisivo foi a reunião com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada, em 18 de julho de 2022, na qual Jair Bolsonaro atacou o sistema eletrônico de votação. Em 30 de junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral reconheceu abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação e declarou sua inelegibilidade por oito anos.

O caso evidencia o emprego da posição presidencial e da estrutura de comunicação do Estado para desautorizar as condições da própria competição eleitoral.

Uma pesquisa em duas ondas com usuários brasileiros da internet identificou associação entre crença em falsidades eleitorais, desconfiança nos resultados e participação em grupos políticos de WhatsApp ou Telegram (Rossini; Mont’Alverne; Kalogeropoulos, 2023). Os resultados indicam que a arquitetura social da circulação importa: ambientes politicamente selecionados podem reforçar convicções cuja revisão ameaça os vínculos do grupo. A intensidade da mobilização, por si, não mede a qualidade democrática da participação.

A recusa do resultado introduz uma inflexão: o reconhecimento do procedimento passa a depender de sua capacidade de confirmar uma vontade previamente fixada. Quando refutações são incorporadas à narrativa como novas provas de conspiração, o discurso perde seus critérios de desmentido. Alegações de fraude permanecem afirmações factuais sujeitas à exigência de evidências, mas seu uso para impedir a alternância de poder atinge também a correção normativa.

O problema não está em contestar a apuração ou criticar a Justiça Eleitoral, mas em subordinar a validade desses procedimentos à vitória de um dos competidores e reivindicar a intervenção militar quando o resultado o contraria.

Depois da eleição, acampamentos diante de instalações militares mantiveram a reivindicação de uma intervenção destinada a impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 8 de janeiro de 2023, grupos invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.

A responsabilização do núcleo central ocorreu na Ação Penal 2668. Em 11 de setembro de 2025, a Primeira Turma condenou Jair Messias Bolsonaro, os generais Walter Braga Netto, Augusto Heleno Ribeiro Pereira e Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, além do almirante Almir Garnier Santos, por crimes que incluíram tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A presença de agentes situados no centro do governo e da estrutura militar dimensiona o alcance institucional do processo sem autorizar a imputação de responsabilidade criminal às Forças Armadas como sujeito coletivo.

O ataque material às sedes dos três poderes foi precedido por uma disputa sobre as condições de reconhecimento da ordem democrática. O dissenso democrático pressupõe que adversários possam combater decisões e governos e, ainda assim, reconhecer os procedimentos que lhes permitem continuar disputando o poder. Quando toda derrota é convertida em fraude e qualquer instância de revisão se torna inimiga, a linguagem passa a coordenar a eliminação das próprias condições em que o desacordo poderia produzir consequências públicas.

A aproximação entre a pandemia e a tentativa de golpe encontra aqui seu limite. Uma crise sanitária não equivale a uma ação destinada a romper a ordem constitucional. O que aproxima os dois processos é a tentativa de retirar fatos e decisões do alcance de critérios públicos de validação. Na pandemia, o pertencimento político disputou a autoridade das evidências; na recusa eleitoral, a vontade de permanência no poder pretendeu sobrepor-se ao resultado. A regressão não está na existência de conflitos, mas em relações nas quais uma das partes se exime, de antemão, de responder às razões das demais.

<><> Eleições de 2026 e o direito de exigir razões das instituições

A responsabilização pela tentativa de golpe demonstra a capacidade de reação da ordem constitucional, mas não recompõe, por si, as relações sociais que sustentam a democracia. A pena incide sobre condutas individualizadas; a formação da vontade depende de uma rede mais ampla de confiança, acesso à informação e possibilidade de contestação.

O problema se torna especialmente visível nas eleições de 2026, cujo primeiro turno está previsto para 4 de outubro. Uma disputa eleitoral pode realizar-se regularmente e, ainda assim, permanecer atravessada por práticas que tornam seus participantes incapazes de reconhecer como legítimo um resultado adverso.

A reconstrução da linguagem pública começa antes da votação. Exige comunicação eleitoral verificável, critérios transparentes para enfrentar a desinformação e meios efetivos de contestar decisões tomadas em nome dessa proteção. Plataformas precisam responder pelos mecanismos que ampliam conteúdos e distribuem visibilidade; autoridades, pelas razões e pelos limites de suas intervenções.

Se a correção chega apenas como comando de uma instância percebida como hostil, pode reforçar o fechamento que pretende desfazer. A simples exposição à informação não produz confiança quando conflitos e desigualdades permanecem intocados.

Esse argumento alcança o próprio Supremo. Sua atuação na responsabilização pela tentativa de golpe não coloca seus ministros fora do campo da justificação. No caso Master, a investigação de possíveis fraudes financeiras passou a produzir controvérsias sobre relações e procedimentos envolvendo integrantes do tribunal. O que se pode afirmar é a existência de uma controvérsia institucional que exige apuração, não a comprovação de ilícitos imputados aos ministros.

A relevância filosófica dessa crise está na tensão entre a autoridade de decidir e a obrigação de responder. Imparcialidade, fundamentação e possibilidade de revisão precisam valer também quando o tribunal examina práticas de seus próprios integrantes. A independência judicial perderia seu sentido democrático se fosse convertida em imunidade à fiscalização; a denúncia de irregularidades, por sua vez, perderia força crítica se pretendesse dispensar provas e garantias. O direito à justificação exige procedimentos controláveis e respostas institucionais capazes de enfrentar o conteúdo das acusações.

Nas eleições de 2026, a crise do Supremo pode ser incorporada à competição política. Isso não torna ilegítima toda crítica ao tribunal, assim como questionamentos fundamentados não validam a narrativa de que qualquer decisão contrária a uma liderança comprova perseguição.

A crítica democrática apresenta elementos verificáveis, admite resposta e busca responsabilização por meios compatíveis com direitos; a deslegitimação autoritária toma a suspeita como conclusão e procura eliminar a instância que poderia contrariá-la. Defender instituições não significa absolver agentes públicos, assim como criticá-las não autoriza destruir garantias.

O direito à justificação une, assim, a crítica do poder político à crítica de suas instituições de controle. Quem reivindica confiança para combater a desinformação deve expor seus próprios critérios de atuação; quem denuncia abusos deve aceitar que suas acusações sejam confrontadas com evidências. Essa reciprocidade, porém, não elimina assimetrias.

Agentes estatais têm obrigações vinculadas ao poder que exercem, enquanto cidadãos em posições subalternizadas precisam de condições materiais para formular demandas e obter respostas. Quando exigir razões depende de renda, acesso jurídico ou visibilidade nas plataformas, a publicidade permanece seletiva.

A democracia brasileira não estará protegida apenas porque uma tentativa de golpe foi julgada e seus responsáveis foram condenados. Tampouco estará ameaçada sempre que suas instituições forem submetidas à crítica. Defender o Supremo diante de uma ofensiva autoritária não significa colocá-lo acima da crítica; exigir transparência de seus ministros não significa aderir à narrativa de que toda decisão judicial contrária a determinados interesses constitui perseguição política. Entre a submissão às instituições e sua destruição existe o terreno propriamente democrático da crítica pública.

As eleições de 2026 ocorrerão nesse terreno instável. O desafio não será apenas impedir que a mentira volte a organizar a mobilização política, mas reconstruir as condições em que diferenças possam ser disputadas sem que o adversário seja convertido em inimigo, a derrota em fraude ou a crítica em ataque às instituições.

Uma democracia começa a regredir quando seus cidadãos deixam de acreditar que razões ainda podem produzir consequências. E se fortalece quando nenhum poder pode responder à crítica simplesmente exigindo confiança.

 

Fonte: Por Marco Bettine, em A Terra é Redonda 

 

A importância inventada do 7 de Setembro

A ideia, como se fosse uma fotografia, está lá eternizada em um dos quadros mais famosos da iconografia brasileira: a pintura Independência ou Morte, feita por Pedro Américo (1843−1905) e pertencente ao acervo do Museu do Ipiranga, em São Paulo.

Na cena, um imponente príncipe Pedro (1798−1834), bem vestido e do alto de um garboso cavalo, empunha a espada às margens do rio Ipiranga. Muita gente em volta testemunha o acontecimento histórico.

Na prática, contudo, nada disso ocorreu. E nem o 7 de setembro de 1822 foi tratado com a importância que depois a história lhe reservaria.

"Não há nenhum registro contemporâneo do ocorrido naquele dia, se analisarmos os jornais da época. A imprensa do Rio de Janeiro, gradativamente ao longo daquele mês, noticiou um acirramento da ideia de autonomia [do Brasil]. Mas não houve uma narrativa organizada", pontua o historiador Marcelo Cheche Galves, estudioso de jornais do período e professor na Universidade Estadual do Maranhão.

<><> "Independência ou morte"

Então príncipe regente, Pedro havia deixado o Rio de Janeiro em agosto e empreendido viagem à província de São Paulo com o objetivo de reforçar alianças e acalmar os ânimos de parte da elite incomodada com o cenário político que se desenhava. No dia 2 de setembro, em reunião presidida pela princesa Leopoldina (1796−1826), o Conselho de Estado tomou o partido de que o melhor para o Brasil seria a separação de Portugal.

Cartas foram escritas e um oficial encarregado de entregá-las a Pedro, nas terras paulistas, para fazê-lo saber do contexto. O encontro ocorreu no Ipiranga, já que o príncipe e sua comitiva estavam retornando de uma viagem a Santos. No dia seguinte, no Pátio do Colégio − na época, sede do governo paulista −, ele fez um discurso, informando os poderosos locais sobre a situação de ruptura.

"Após retornar ao Rio de Janeiro, depois da viagem a São Paulo, a data de 7 de setembro não foi noticiada na imprensa, muito menos comemorada. É importante lembrar que nem mesmo Dom Pedro fez menção a qualquer declaração de Independência na proclamação pública que dirigiu aos paulistas em 8 de setembro de 1822", ressalta a historiadora Cecilia Helena de Salles Oliveira, professora na Universidade de São Paulo (USP), autora do recém-lançado Ideias em Confronto − Embates pelo Poder na Independência do Brasil e coorganizadora do Dicionário da Independência do Brasil.

A historiadora lembra, contudo, que, nesse pronunciamento, o monarca "pediu que todos tivessem como lema a frase 'independência ou morte' e que se mantivessem em alerta em relação a possíveis confrontos pela presença e pela ação de grupos políticos que defendiam propostas diferentes da separação de Portugal e da monarquia".

Galves lembra que a independência brasileira foi um processo, não algo ocorrido da noite para o dia. Nos registros da imprensa, há indicativos fortes disso. Em junho, Pedro convocou uma assembleia com o objetivo de elaborar a primeira Constituição brasileira. "Por isso, em 1º de agosto, jornais em Londres publicam que isso já significava a independência", pontua o historiador.

Naquele contexto, contudo, a data magna da Independência do Brasil acabaria sendo o 12 de outubro. Aniversário de 24 anos de Pedro, foi nesse dia que ele acabou aclamado imperador. "Houve um decreto transformando o Reino do Brasil em Império, ainda dentro do Reino Unido [de Portugal]", diz Galves.

<><> O 7 de Setembro instituído por Dom Pedro

O 7 de Setembro acabaria sendo recuperado e valorizado a partir do ano seguinte. Em discurso na Assembleia Constituinte, em 3 de maio de 1823, o já imperador Pedro 1º escolheu frisar a importância dos acontecimentos em São Paulo.

"Foi o próprio Dom Pedro que criou a memória do dia 7 de Setembro", aponta Oliveira. "Era uma maneira de valorizar sua ação e, particularmente, sua autoridade. Essa narrativa de Dom Pedro acabou por instituir a memória com a qual aprendemos a conhecer a Independência até hoje."

"Ali ele organizou o passado da maneira como nós temos conhecimento", afirma Galves. Em seu discurso, o monarca referiu-se aos paulistas como "brioso povo" e qualificou a província como "agradável e encantadora".

"[Por meio da declaração, Pedro] afirmava que teria sido ele próprio o responsável pela decisão de ruptura da unidade luso-brasileira", salienta a historiadora Maria de Lourdes Viana Lyra, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em artigo publicado na Revista Brasileira de História em 1995.

No pronunciamento, o imperador afirmou que "a nossa independência foi lá [em São Paulo] primeiro que em alguma parte proclamada, no sempre memorável sítio do Piranga". E também citou que ali "fui pela primeira vez aclamado imperador".

Lyra analisa que a intenção teria sido provocar "um tom de afirmação categórica com a intenção de dirimir dúvidas existentes ou criar uma nova interpretação sobre o fato definidor da proclamação da Independência e da aclamação do imperador". Mas lembra que essa narrativa "permaneceu, no entanto, ainda por um tempo sem repercussão, não encontrando eco imediato nos registros da época".

<><> Sete de setembro ou 12 de outubro?

Segundo o pesquisador Paulo Rezzutti, autor de, entre outros, Independência: A História Não Contada, o Brasil tinha uma dupla comemoração, em 7 de setembro e em 12 de outubro, pelo menos até 1831. "O 7 de setembro era comemorado como uma data mais militar. O 12 de Outubro, como uma data festiva nacional, com a ideia de que naquele momento o povo havia escolhido o seu primeiro monarca", contextualiza.

"O 7 de Setembro, inicialmente, era apenas uma data de referência. O celebrado como emancipação política era o 12 de Outubro, como data principal", comenta o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista.

"Essa segunda data começou a ser apagada da história a partir da abdicação de Dom Pedro [em 7 de abril de 1831], porque os deputados e senadores não queriam mais associar a Independência à data que também era aniversário de Dom Pedro", acrescenta Rezzutti. "O 12 de Outubro começa gradualmente a ser esquecido e a dar lugar ao 7 de Setembro."

Ao mesmo tempo, diversas narrativas memorialísticas passam a ser publicadas, reforçando o episódio ocorrido às margens do Ipiranga. Por exemplo, um relato atribuído ao padre Belchior Pinheiro de Oliveira (1775−1856), integrante da comitiva da viagem de Pedro a São Paulo e visto como conselheiro do nobre.

Em seu texto, ele fez constar o diálogo que teria ocorrido naquele momento e enfatizou que as palavras do então príncipe diziam "nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal". O problema é que esse relato foi publicado apenas em 1826, ou seja, quatro anos após o fato − e com um contexto ideológico já mais assentado.

O imaginário demorou para se cristalizar, evidentemente. "A construção sobre o episódio da Independência tomou corpo em meados do século 19, na forma de homenagens, análises e descrições", diz Martinez. "A tela de Pedro Américo [Independência ou Morte], sua exposição e sua divulgação, acabou dando a visibilidade e fixando a imagem, com toda a cenografia e a postura altiva que o quadro representa."

 

Fonte: DW Brasil

 

O que acontece no cérebro quando procrastinamos? Saiba como evitar a autossabotagem

O prazo de entrega da tarefa está no seu calendário há semanas. Mas, na noite anterior, o trabalho ainda não está concluído. Talvez você tenha subestimado o tempo necessário, pensado demais em como fazer tudo certo ou se preocupado com a recepção do público.

Se esse cenário lhe parece familiar, você pode estar vivenciando uma forma de autossabotagem, um padrão “que impomos a nós mesmos, muitas vezes inconscientemente, e que acaba sabotando nossas vidas, nossos planos ou até nossos objetivos”, afirma Charlie Heriot-Maitland, psicóloga clínica e autora do livro “Controlled Explosions in Mental Health” (em tradução livre em português: “Explosões Controladas na Saúde Mental”), ainda inédito.

Em vez de uma falta de motivação ou disciplina, a autossabotagem pode ter origem na forma como o cérebro reage a ameaças percebidas. Heriot-Maitland argumenta que ela pode “derivar de mecanismos evolutivos de sobrevivência”. Traumas, medos e padrões aprendidos podem reforçar ainda mais essa resposta.

O resultado é um ciclo silencioso: comportamentos que parecem protetores no momento — adiamento, evitação, autocrítica — podem impedir que as pessoas alcancem os objetivos que mais lhes importam, muitas vezes sem que elas se deem conta. “Muitos desses ciclos de medo simplesmente os mantêm estagnados ou até mesmo os fazem regredir”, acrescenta Heriot-Maitland.

Entender por que a autossabotagem acontece, dizem os pesquisadores, é o primeiro passo para interrompê-la. Veja aqui está o que os cientistas sabem sobre por que o cérebro faz isso — e o que pode ajudar a mudar esse padrão.

<><> O que é autossabotagem?

A autossabotagem refere-se a pensamentos e sentimentos que minam seus objetivos de longo prazo, afirma Tim Pychyl, psicólogo que estuda a procrastinação e autor do livro "Solving the Procrastination Puzzle" (em tradução livre: “Desvendando o Enigma da Procrastinação”). 

A maioria das pessoas experimenta alguma forma de autossabotagem em algum momento, dizem os pesquisadores, embora para algumas ela permaneça ocasional, enquanto para outras se torna persistente e prejudicial.

Ela pode assumir muitas formas diferentes, incluindo procrastinação, compulsão alimentar, gastos excessivos, obsessão por jogos de azar ou vícios diversos, afirma Pychyl. Além de comportamentos nocivos como perfeccionismo, pessimismo, autocrítica ou automutilação são outras maneiras de autossabotagem, acrescenta Heriot-Maitland.

Quem se autossabota é frequentemente percebido erroneamente como preguiçoso ou indisciplinado, diz Pychyl, mas há uma diferença. Na procrastinação, por exemplo, você quer e está disposto a concluir uma tarefa, mas fatores emocionais ou psicológicos atrapalham. Já quando é um caso de preguiça, há uma "falta de vontade de se esforçar", afirma ele.

<><> Por que nos autossabotamos?

A autossabotagem provavelmente tem múltiplas causas, e mais pesquisas são necessárias para compreendê-la completamente, afirma Philip Jean-Richard-dit-Bressel, professor sênior de psicologia da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, Austrália, que estuda a psicobiologia da tomada de decisões e do comportamento.

Um mecanismo fundamental é a resposta de luta ou fuga, ou resposta ao estresse, explica Pychyl. Essa resposta automática de sobrevivência é ativada na amígdala, a parte do cérebro que regula as emoções e as memórias. 

De uma perspectiva evolutiva, a resposta foi projetada para proteger o indivíduo de ameaças que representavam risco de vida ou morte para os primeiros humanos.

Ameaças modernas, como prazos ou críticas, ainda podem ativar essa resposta, mesmo que não sejam fisicamente perigosas, acrescenta Pychyl.

Quando isso acontece, as pessoas podem recorrer a comportamentos que reduzem o desconforto ou proporcionam uma sensação de segurança momentânea, como ignorar prazos, tomar decisões precipitadas ou ser autocríticas, mesmo quando essas escolhas frequentemente acarretam consequências, afirma Heriot-Maitland. Dessa forma, a autossabotagem se torna um mecanismo de autoproteção.

Por exemplo, se você não terminar sua apresentação, pode estar se protegendo de medos subjacentes de fracasso ou julgamento: "Vou causar esse pequeno prejuízo agora para evitar um prejuízo maior", diz Heriot-Maitland.

Esse alívio pode parecer gratificante a curto prazo, acrescenta Pychyl, "mas acaba se voltando contra nós".

Algumas pessoas podem ser biologicamente mais propensas a esses padrões do que outras. Um estudo de 2018 publicado na revista científica Psychological Science encontrou uma ligação entre um maior volume da amígdala e a "orientação para o estado", ou seja, uma tendência a hesitar e adiar o início de ações, o que pode prejudicar o "comportamento direcionado a objetivos". 

Além disso, sob estresse, a atividade no córtex pré-frontal do cérebro — responsável pelo planejamento e autocontrole — pode ser reduzida, dificultando a supressão dos impulsos de evitação gerados pela amígdala.

A autossabotagem também pode ser aprendida e se tornar um hábito. Por exemplo, crescer em um ambiente de críticas severas pode ativar seu sistema de alerta em qualquer situação em que você receba feedback, afirma Heriot-Maitland.

Pesquisas sugerem que os procrastinadores, especificamente, costumam adotar comportamentos de autopreservação. Um estudo mais antigo, publicado no Journal of Research in Personality, descobriu que os procrastinadores frequentemente criam obstáculos externos — como esperar até o último minuto — e atribuem o baixo desempenho a esses obstáculos, o que pode ajudar a preservar a autoestima.

As experiências da infância também podem ser importantes. Algumas pesquisas sugerem que pessoas com pais emocionalmente imaturos ou que sofreram negligência emocional por parte dos pais podem ser mais propensas à autossabotagem.

O medo do fracasso é outro fator comum, afirma Hal Hershfield, professor de marketing e tomada de decisões comportamentais na Universidade da Califórnia, Los Angeles (Estados Unidos), e autor do livro "Your Future Self" (em tradução livre, “Seu Eu do Futuro”). "Ironicamente, o medo de fracassar me impede de fazer algo, e então acabo fracassando."

As pessoas também tendem a supervalorizar o presente e desconsiderar o futuro, o que leva à procrastinação, diz Hershfield. Muitas pessoas também "simplesmente têm muita dificuldade em associar ações a resultados", acrescenta Jean-Richard-dit-Bressel.

<><> Como parar de se autossabotar?

A autossabotagem nem sempre está sob "controle consciente, mas existe um padrão aprendido que você pode desaprender", diz Heriot-Maitland.

Aqui estão algumas abordagens que os pesquisadores dizem que podem ajudar a reduzir a autossabotagem:

>>>>  Pratique mindfulness ou  meditação

Tomar consciência das suas reações internas — como o medo do fracasso ou a vontade de procrastinar — é um primeiro passo importante, afirma Pychyl. O objetivo não é eliminar esses sentimentos, mas reconhecer que você não precisa agir de acordo com eles, o que muitas vezes é mais fácil dizer do que fazer.

“As pessoas nem sempre têm plena consciência de como seu comportamento está sabotando a busca por seus objetivos”, diz Jean-Richard-dit-Bressel.

Uma maneira de desenvolver essa percepção é analisar como você normalmente lida com tarefas ou situações e o que essas reações tendem a produzir, explica ele. Para isso, a prática de mindfullness ou meditação pode ser interessante para ajudar nesse processo. Se isso for difícil, pergunte a um amigo ou parente de confiança como eles veem sua autossabotagem.

>>>>  Desenvolva a autocompaixão

Uma vez que esses padrões estejam mais claros, diz Heriot-Maitland, o próximo passo é responder com autocompaixão em vez de autocrítica.

Criar uma distância entre seu comportamento passado e o que você espera para o futuro também é importante, afirma Hershfield. Pesquisas sugerem que o autoperdão, o reconhecimento de erros passados ​​sem se apegar a eles, pode ajudar algumas pessoas a evitar a repetição do padrão.

Ele acrescenta que, quando você se sentir tentado a procrastinar ou ser excessivamente autocrítico, considere como se sentirá amanhã ou na próxima semana por causa disso.

“Não podemos controlar as coisas que tornam o futuro incerto, mas podemos controlar as respostas que damos às ameaças agora”, diz Hershfield. “Uma maneira de fazer isso é lidar com os comportamentos, lidar com os tipos de situações que podem piorar as coisas para nós.”

>>>>  Procure terapia, se necessário

Para algumas pessoas, o apoio profissional é essencial. A terapia cognitivo-comportamental, um tipo de psicoterapia que ajuda os indivíduos a identificar e modificar padrões e comportamentos que interferem no seu bem-estar, é frequentemente recomendada para pessoas que lutam contra a autossabotagem, afirma Pychyl.

Abordar medos subjacentes ou traumas passados ​​costuma ser necessário, acrescenta Heriot-Maitland. Tentamos entender quais são esses medos que estão impulsionando esses padrões em você. Há muito que podemos fazer a respeito, mas leva tempo e não existem soluções rápidas.”

Com o tempo, aprender a interromper padrões de autossabotagem pode facilitar a busca por objetivos de longo prazo, diz Pychyl — não forçando a mudança, mas compreendendo o que está motivando o comportamento em primeiro lugar.

¨      Que tal fazer uma caminhada após as refeições? Ela pode alterar a forma como o cérebro e o corpo reagem à comida

Comer não apenas repõe as energias do corpo — desencadeia uma sequência cuidadosamente cronometrada de mudanças fisiológicas, que ocorrem principalmente nos minutos que se seguem após uma refeição.

Durante esse período, pesquisas sugerem que o movimento pós-refeição pode fazer mais do que acalmar o estômago. Ele pode remodelar a forma como o corpo processa os alimentos e como o cérebro reage a eles.

Então, o que acontece durante esse período pós-refeição e como uma breve caminhada pode ajudar a moldar esse processo? Confira a seguir.

<><> O que seu corpo (e cérebro) fazem depois de uma refeição

digestão é um processo ativo que envolve todo o corpo. Logo após comermos, nosso corpo entra no modo "repouso e digestão" — um período em que o intestino e o cérebro se comunicam intensamente, trocando diversos sinais que influenciam a digestão, o humor e os níveis de estresse. 

Os elementos presentes nos alimentos, como carboidratos, gorduras e proteínas são decompostos em glicose, ácidos graxos e aminoácidos, que são então liberados na corrente sanguínea.

Isso cria uma janela sensível para o eixo intestino-cérebro — a via bidirecional de nervos e sinais que liga a digestão ao estresse e ao humor. É também o momento perfeito para se movimentar, afirma Loretta DiPietro, cientista de exercícios e nutrição da Universidade George Washington, nos Estados Unidos.

<><> O que o exercício após as refeições faz pelo seu corpo e pelo seu cérebro

Ao se movimentar — mesmo em uma caminhada tranquila — seus músculos se contraem, o que ajuda a retirar o açúcar da corrente sanguínea e levá-lo para as células. Esse processo ocorre independentemente da insulina, o que é especialmente útil para idosos, pessoas com resistência à insulina ou qualquer pessoa que tenha feito uma refeição pesada à noite, quando a insulina tende a ser menos eficiente.

Isso significa que o movimento oferece ao seu corpo uma segunda via para controlar o açúcar no sangue. Ele pode ajudar a atenuar os picos de açúcar acentuados após as refeições e reduzir a carga de trabalho do pâncreas. Com o tempo, esse alívio pode ajudar a proteger a saúde metabólica e reduzir os fatores de risco para diabetes e doenças cardíacas.

“O exercício físico contorna as deficiências na sinalização da insulina”, afirma Gerald Shulman, professor de Medicina na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. “O exercício abre a porta para a glicose entrar na célula — mesmo em pessoas com resistência à insulina.”

Mas esses benefícios metabólicos contam apenas parte da história. O movimento durante esse estado de recuperação pós-refeição também aumenta o fluxo sanguíneo para os órgãos digestivos e favorece a interocepção, que é a percepção do cérebro sobre o que está acontecendo dentro do corpo.

Estudos recentes sugerem que o nervo vago — uma importante via de comunicação entre o intestino e o cérebro — ajuda a moldar como nos sentimos após comer. Um estudo descobriu que o nervo vago desempenha um papel em tudo, desde a sensação de saciedade até o gerenciamento das emoções. 

Outro estudo constatou que as bactérias intestinais podem influenciar esse nervo, conectando o que comemos à forma como nossos corpos e mentes reagem.

Os cientistas ainda estão mapeando essas conexões, mas as evidências sugerem que caminhadas após as refeições favorecem sim a comunicação entre cérebro e corpo de maneiras que vão muito além da digestão.

<><> Quando e como se movimentar após uma refeição

O momento não precisa ser exato. DiPietro afirma que se movimentar cerca de 30 minutos após terminar a refeição pode ser o ideal, mas observa que os benefícios começam assim que as pessoas começam a se mexer. Shulman concorda, acrescentando que se movimentar a qualquer hora do dia pode melhorar a sensibilidade à insulina.

A atividade não precisa ser intensa ou prolongada. A pesquisa de DiPietro sugere que 15 minutos de caminhada leve já atenuam os picos de glicose pós-prandial. 

Um novo estudo de 2025 corroborou essa informação, constatando que uma caminhada de 10 minutos imediatamente após uma refeição melhorou o controle da glicemia tanto quanto uma caminhada de 30 minutos feita posteriormente. Você nem precisa suar, comenta Shulman. O importante é simplesmente se movimentar.

Outro estudo de 2025 mostrou que interromper longos períodos sentado com caminhadas leves de dois a cinco minutos (mesmo caminhar dentro de casa ou subir escadas pode ajudar) reduziu significativamente os picos de glicose e insulina pós-prandial em adultos com obesidade.

E esses benefícios vão além daqueles com resistência à insulina. Shulman observa que, mesmo em adultos jovens e magros, o movimento após as refeições melhora a forma como os músculos armazenam energia, podendo contribuir para a saúde metabólica ao longo da vida.

A chave para os benefícios está na consistência. Para observar efeitos duradouros, o movimento após as refeições precisa ser repetido diariamente. De uma perspectiva evolutiva, diz DiPietro, os humanos foram programados para se movimentar após comer — um ritmo que favorecia o uso da energia em vez de seu armazenamento. Caminhar após as refeições pode ser uma maneira simples de reintroduzir essa expectativa na vida moderna.

<><> Caminhar: um hábito simples, mas com impacto em todo o corpo

Uma caminhada após as refeições não vai substituir medicamentos nem transformar radicalmente seu metabolismo da noite para o dia. Mas é uma pequena mudança com um potencial enorme — parte de um panorama maior sobre como o movimento, alimentação e saúde estão profundamente interligados.

Se uma caminhada à noite parece inatingível, comece devagar. Coloque música e lave a louça com vigor. Leve o cachorro para passear um pouco mais longe. Marche no lugar. Como diz DiPietro, “Simplesmente se mexa”.

 

Fonte: National Geographic Brasil