O
agro não é ‘pop’, é catastrófico!
“O agro não é
verde”, afirma o título de um relatório do De Olho nos
Ruralistas, publicado em 2022. O dossiê explica que a “posse” da
popularidade do agro é “usufruto” da propriedade de latifúndios e do
avanço devastador sobre as roças dos povos originários/tradicionais pela
indústria madeireira ilegal, pelo garimpo e pelas queimadas causadas por ação
humana, seja por fogo, diretamente ateado, seja pela ação do aquecimento global
que agrava a extensão dos impactos das queimadas e incêndios florestais.
Este e
outros relatórios do observatório do agronegócio no Brasil ajudam a
responder como o capital financeiro e político/social se financia, onde se
territorializa e como se articula à classe dos expropriadores e
exploradores do país.
Os
dossiês do De Olho nos Ruralistas estabelecem um diálogo de complementaridade
ao “Dossiê da
Agroecologia na América Latina – Um futuro necessário“, publicado em 2024
e apresentado no segundo módulo do Curso de Realidade Brasileira,
realizado nos últimos dias 24 e 25 de maio, em Curitiba (PR). A atividade
contou com uma aula magna do economista e dirigente nacional do MST, João Pedro
Stedile sobre o direito à terra no Brasil, bem como aula com o jurista
Carlos Marés; da engenheira ambiental, doutora em Agroecossistemas,
Claudia Sonda, e a vice-reitora da Universidade Federal do Paraná, Gabriela
Bica, que compartilharam discussões sobre o meio ambiente, agricultura e
agroecologia, a partir de apresentação histórica sobre a formação dos
latifúndios, que são a base para a chamada “Revolução Verde” no Brasil.
Com as
aulas e textos didáticos apresentados foi possível descobrir que a (falsa)
“Revolução Verde” consistiu num movimento liberal em que organizações
filantrópicas, como a Fundação Rockefeller e a Fundação Ford, num período entre
1960 e 1970, aliadas a governos nacionais, financiaram a imposição de um
modo produtivo monocultural agroexportador em territórios nacionais nas
Américas e na Ásia, estabelecendo condições para um avanço do agronegócio
contra povos tradicionais e seus modos de vida diversos, sobrepondo a eles a
produção de monoculturas de soja e milho, em sua maioria. Com alguma
variação de arranjos e cadeias produtivas organizadas em arranjos
regionalizados, hoje o agronegócio desloca pelo Brasil, grãos e carne
envenenadas, produzindo-os em terras expropriadas no colonialismo também
por antepassados dos hoje latifundiários.
O
agronegócio, enquanto classe social que se baseia num modo de produção
econômico, que nunca fez uma “Revolução Verde”, e sim impôs, uma modernização
dolorosa para o trabalho no campo, forjando um colonialismo químico para
sustentar sua proposta de monocultura ainda em vigor no século XXI. E, assim,
atualizou nossa catástrofe ancestral.“
Partindo
de um propósito de expandir a caixa de ferramentas conceituais para ampliar a
potência da luta pela agroecologia e tendo como horizonte a continuidade dos
debates promovidos nas aulas do Curso de Realidade Brasileira, organizado por
diversos coletivos e movimentos de luta por terra, educação, saúde e direitos
que defendem uma transição agroecológica para a vida contemporânea, confluirão
aqui neste texto denominações sobre processos históricos inerentes ao
capitalismo dos tempos atuais, como a noção de “catástrofe ancestral”, por meio
da qual a antropóloga estadunidense Elizabeth A. Povinelli articula reflexões
existenciais sobre os efeitos do colonialismo para a existência da vida na
terra. Ou como a conceituação de “colonialismo químico”, apresentado no livro
que motivou a a perseguição à autora por parte da indústria de agrotóxicos, a
geógrafa brasileira Larissa Mies Bombardi.
A
mecanização do trabalho no campo, a concentração fundiária da propriedade da
terra, a irrigação automatizada, a imposição do uso de sementes transgênicas ou
geneticamente modificadas de grãos como milho e soja, e a difusão massiva do
uso de agrotóxicos (herbicidas, fungicidas, etc.) e fertilizantes minerais ou
químicos configuram denominações características à “Revolução Verde”.
Na
guerra de denominações, com o que poderíamos chamar de palavras germinantes,
tal como propõe Antônio Bispo dos Santos em diversos de seus ensaios e
palestras, apresenta-se o conceito de geontopoder, cunhado por Elizabeth A.
Povinelli, para percorrer reflexões sobre como um território tradicional pode
ser intoxicado por processos colonialistas – como o processo químico descrito
por Larissa Bombardi -, em se negam a existência de vida por negarem o estado
de ocupação da terra, por povos que nela habitavam originalmente e, assim,
georreferenciam o biocídio.
Assim,
busca-se ajudar a dimensionar historicamente como a resistência e a
persistência em teimosamente habitar territórios intoxicados são atos
contracoloniais, já que do ponto de vista das pessoas despossuídas de terra
agricultável, tanto um campo de mineração ou um pasto extensivo criado pelo
desmatamento, quanto um campo de monocultura de soja, um lixão ao qual são
destinados os resíduos da produção agrícola. Todos estes espaços podem ser
tomados como empreendimentos colonialistas.
- Agro – prefixo
germinante ou sintoma colonizante?
“A
União Europeia controla cerca de um terço das vendas mundiais de agrotóxicos e,
no entanto, ela tem a legislação mais restritiva para agrotóxicos do mundo”,
afirma Larissa Bombardi, em entrevista à TV Unicamp, de 21 de agosto de 2024. O
capital transnacional, instalador de fronteiras, se acumula atualmente tanto
por meio da implantação de um regime de legalidade para a venda e uso de
agrotóxicos num território como o Brasil, quanto num lixão, numa metrópole como
Curitiba, quanto no taxamento do tráfego global de corpos e mercadorias, e na
exportação de grãos e carne do agronegócio, ou no desmatamento, no
narcogarimpo.
O
agronegócio é uma operação arrojada, e seus representantes estratificados em
classes sociais circulam politicamente em redes de poder político que fluem
entre organizações da sociedade civil e órgãos de governo, sendo um de seus
fins aterrar a produção de grãos como commodities (não como
alimentos) em algum lugar, geralmente tendo nas regiões metropolitanas do sul
global os centros de escoamento da produção tóxica, nem que seja para tornar
até os resíduos desta produção algo mercantilizável – pesando o lixo para cotar
o lucro do aterramento de 200 toneladas de resíduos por dia (como no caso do
aterro sanitário na CIC, em Curitiba), por exemplo. A logística da produção
capitalista acaba forjando e mensurando a bioacumulação de resíduos tóxicos
sobre o solo, visando lucrar com a produção de chorume que, ao atingir as águas
subterrâneas, acabam tendo como destino a bioacumulação em plantas e animais,
podendo levar à morte de organismos e à desagregação de comunidades e
territórios tradicionais, e ao aprofundamento da desigualdade em cidades
inteiras.
Neste
exercício de poder, o “verde” dito revolução, ou é sinônimo de monocultura, ou
de crédito de carbono, ou é reduzido às cinzas das queimadas, cinzas de
asfalto, e cinzas de prédios e edificações de concreto para especulação
imobiliária em cidades de grande porte, que produzem milhares de toneladas de
resíduos não renováveis ou intoxicantes – lixo, sinônimo de sintético para
Antônio Bispo dos Santos.
Muitas
dessas cidades cinzas e desertos verdes são frutos de processos tardios de
colonização no século XX, “cujos moinhos de gastar gente”, como dizia Darcy
Ribeiro, foram expandindo a chamada fronteira agrícola, transformando
eventualmente a terra em solo não vivo, adentrando o continente, conforme o
avanço da dita “Revolução Verde.”
Essas
campanhas colonizadoras do século passado se formaram, parcialmente, como
processos de urbanização que afastam do conhecimento sensível e imediato dos
povos das cidades as relações de exploração da classe do agronegócio sobre a
classe trabalhadora camponesa. E que executa a produção agropecuária no chamado
Brasil profundo, já que as regiões metropolitanas, onde estão a maioria dos
portos de escoamento da produção, foram se formando em sua origem no litoral
brasileiro.
Nessas
configurações de campo e cidade, contando com uma extensa malha rodoferroviária
de formação de economia mista entre iniciativas públicas e privatistas, muitas
vezes por concessões de propriedade ou administração que fluem na direção
público-privadas, o agronegócio enquanto classe social herdou os meios de
produção necessários para a chamada “Revolução Verde”, com essas (de)formações
rurais e urbanas, herdando assim o poder de distribuir geologicamente não só a
morte e a vida em função do modo de produção que constituiu um
“plantationceno”, mas também o poder de zonear terra viva e terra não-viva. O
agrotóxico é tóxico para a terra cultivável, portanto a torna não-viva quando
atinge um grau máximo de toxicidade, e se um terço destes produtos saem da Europa
e grande parte deles aterram-se no Brasil pelo poder do agronegócio, este
“agro” é colonialista – é catastrófico. E isto seria reversível?
- Colonialismo
químico, catástrofe ancestral, geontopoder e agroecologia: denominações
germinantes contra a “Revolução Verde”
Há
conceitos que designam operações diferentes das do “biopoder” de Michel
Foucault ou da “necropolítica” de Achile Mbembe, e que também apontam para
exercícios do poder do capitalismo para operar a logística de posicionar em
territórios específicos a permanência da toxicidade intrínseca a esse modo de
produção que impõe não vida sobre um território e quem o povoa, como no caso da
chamada “Revolução Verde”.
Em
terras intoxicadas pela catástrofe da mineração, garimpo, desmatamento e suas
adjacências, vale recorrer a quem luta nas trincheiras intoxicadas. Por isso,
se recorre a Antonio Bispo dos Santos e Larissa Mies Bombardi, além disso,
recorre-se a dois livros publicados em português-brasileiro pela Ubu:
“Geontologias – Um réquiem para o liberalismo tardio” e “Catástrofe ancestral:
e existências no liberalismo tardio”, de Elizabeth A. Povinelli, que propõem,
por meio do conceito de “geontopoder”, conceber a intoxicação da terra como um
fim do que de chama de liberalismo tardio, enquanto uma geontologia
capitalista.
O
geontopoder é apresentado como um exercício de governança que impõe a
despossessão da terra por meio do estabelecimento de fronteiras não apenas
agrícolas e políticas, mas fronteiras entre territórios de vida e de não vida,
de fato georreferenciados e operantes sobre a existência nestes territórios –
por isso geo-onto-poder.
No caso
brasileiro, podemos ver a materialidade dessa forma de governança, por exemplo,
na promulgação da Lei de Terras em 1850, quando a denominação de terras
devolutas teve por fim a devastação da cobertura florestal, ao longo dos
últimos 175 anos, que foi sobreposta pelas monoculturas de soja e milho
atualmente, o que implicou na diáspora dos povos trabalhadores do campo em sua
diversidade de modos de produção da vida, ao longo dos anos de 1930 e 1980,
quando a Revolução Verde passava a se constituir. Seguindo esta conceituação, o
trabalho de Larissa Bombardi, evidencia nossa catástrofe ancestral e demonstra
sua atualização: do latifúndio à monocultura, o motor era o colonialismo de
ocupação e o desmatamento, agora o motor é a toxicidade química.
No
Paraná, por exemplo, quando comparamos cartografias apresentadas por Gubert
Filho num estudo inicialmente divulgado em 1988, e reproduzido em 2010 pelo
Instituto de Terras, Cartografia e Geociências, atual Instituto Água e Terra7,
que expõe a devastação da cobertura florestal no estado, em relação a um estudo
de Larissa Bombardi, publicado em 2017, que mapeia o uso de agrotóxicos no
Brasil, observamos que a redução da cobertura florestal de 16 milhões 762 mil e
600 hectares, ou 83,41% do território do estado, para cerca de 872 mil e 600
hectares, ou seja, 5,20%, está correlacionada à maior incidência no uso de
agrotóxicos, ou seja, onde não há florestas nativas o que resta como modo de
produção é o colonialismo químico.
Numa
linguagem mais próxima de Povinelli, podemos entender a “Revolução Verde” no
Brasil como um movimento de extração da potência vitalizante da terra, que ao
ser tomada como agricultável pelo estabelecimento de fronteiras geográficas,
nas quais se instalará a monocultura como modelo de produção agrícola, opera-se
também uma mutação num nível existencial da vida que circula naquela terra,
pois quando um território é espoliado pelo colonialismo, todo o deslocamento de
água e recursos naturais ocorre.
A
“Revolução Verde” de fato expandiu a produção de grãos, mas como commodities,
não como alimentos, sendo esta a força motriz da produção de animais para
exportação, mas não para o consumo interno dos territórios nacionais em que são
produzidos. De certo modo, este movimento liberal contribuiu para a expansão da
demografia dos centros urbanos, cujos êxodos rurais que os povoaram foram
viabilizados pela devastação florestal que cobria originalmente os territórios
como o do Paraná.
Por
isso, denominar a “Revolução Verde” como falsa é uma tática que denuncia sua
face catastrófica e colonialista, enquadrando-a como “catástrofe ancestral”,
“modernização dolorosa” ou “colonialismo químico”. Em que a instalação de
campos de monocultura de grãos e pastos para pecuária extensiva, visando à
exportação realiza uma reconfiguração geográfica verdadeiramente catastrófica,
com a devastação florestal, extinção de biomas e ecossistemas e espécies de
vida; além da alienação ou morte dos povos das florestas e fragmentação ou
morte das comunidades dos povos do campo.
- Palavras
germinantes e a guerra das denominações por uma memória coletiva na
resistência dos povos camponeses
“Nominar
é a arte de dominar, [… ] e os colonialistas sabem muito bem disso”, afirma
Antônio Bispo dos Santos em uma palestra publicada no YouTube, em dezembro de
2023. Ir contra a colonização é também disputar denominações. É aí onde as
palavras podem germinar a liberdade para nos conduzir a outros modos de vida,
ou onde a reprodução de conceitos pode recolonizar corpos e territórios.
O
agronegócio é um modo de vida catastrófico, e assim precisa ser nominado para
não nos enganar. Os processos históricos que fundam os meios de produção do
“agro” no Brasil formam um arrimo do capitalismo em sua fase atual, um muro que
pode romper a qualquer momento e inundar as cidades, como demonstram as
catástrofes em Brumadinho, Mariana ou Porto Alegre. Ou ainda, o agronegócio, em
suas operações na institucionalidade do Estado e dos governos, forma milícias,
como o movimento Invasão Zero, comanda por policiais militares, resultando em
mortes como a de Antônio Tavares no Paraná, num trágico exemplo de exercício de
necropolítica.
A luta
dos territórios e populações tradicionais segue contra o geontopoder,
denominado agronegócio pela disputa de um outro modo de produção – o
agroecológico. Já que o autodenominado “agro” nunca foi verdadeiramente verde,
mas biocida e catastrófico. Este se apodera dos biomas pela invenção da
propriedade nominal a um posseiro ou grupo de posseiros, sobreposta à ocupação
original da terra, e, no fim, se torna um movimento de exclusão ou remoção da
vida e causador da morte, em determinados territórios.
Nesse
contexto, o cinema pode ser uma caixa de ferramentas para ir do luto à luta
pela terra, e pela vida. No Brasil, a memória da luta pelo direito à terra é
difundida em documentários como “Cabra marcado para morrer”, dirigido por
Eduardo Coutinho, que narra a história da organização das Ligas Camponesas na
Paraíba, a partir do assassinato de lideranças dessas organizações e suas
consequências para a vida de Elizabeth Teixeira, que segue viva, com 100 anos,
recém completados em 13 de fevereiro deste ano. Já o curta-metragem “O
arquiteto da violência”, documentário produzido pelo MST sobre o comando do
então governador Jaime Lerner do Paraná, em relação à Polícia Militar do
estado, que resultou no assassinato de Antônio Tavares, trabalhador Sem Terra,
em 02 de maio de 2000, em uma mobilização do MST que seguia para a capital do
estado para reivindicar políticas de Reforma Agrária.
Elizabeth
A. Povinelli e o Coletivo Karrabing também fazem do cinema uma caixa de
ferramentas pelo direito à terra e pelo direito à vida. Em “Catástrofe
ancestral” (Ubu, 2024), ela descreve, a partir da produção de filmes Karrabing
a persistência e resistência contra a toxicidade colonialista do liberalismo
tardio”.
Fonte:
Por Eduardo Ricetti, na Página do MST

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