quarta-feira, 28 de maio de 2025

Ancelotti conseguirá consertar a seleção brasileira?

Começou a Era Carlo Ancelotti no comando da Seleção Brasileira. Na tarde desta segunda-feira (26), na Barra da Tijuca (RJ), o técnico foi apresentado e anunciou sua primeira convocação. A lista traz a volta do volante Casemiro, do Manchester United; do lateral – que também atua como zagueiro – Danilo, do Flamengo; além da ausência de Neymar, voltando de lesão no Santos. 

Em coletiva de imprensa, Ancelotti afirmou que foi recebido com carinho no Brasil e vem para trazer a era de títulos de volta à Seleção Brasileira.

“É uma honra, um grande orgulho comandar a seleção, que é a melhor do mundo. Eu tenho um grande trabalho para fazer com que Brasil volte a ser campeão, vamos juntos. Precisamos de todos vocês. Eu fui recebido aqui com muito carinho. É a minha primeira vez, e estou muito contente”, celebrou o técnico italiano.

<><> Lista de convocados

>>> Goleiros:

•        Alisson;

•        Bento;

•        Hugo Souza;

>>> Defesa:

•        Alex Sandro;

•        Alexsandro;

•        Lucas Beraldo;

•        Carlos Augusto;

•        Danilo;

•        Léo Ortiz;

•        Marquinhos;

•        Vanderson;

•        Wesley;

>>> Meio-campo:

•        Andreas Pereira;

•        Andrey Santos;

•        Bruno Guimarães;

•        Casemiro;

•        Ederson;

•        Gerson;

>>> Ataque:

•        Antony;

•        Estevão;

•        Gabriel Martinelli;

•        Matheus Cunha;

•        Raphinha;

•        Richarlison;

•        Vinicius Júnior.

Para uma equipe tão profundamente ligada à identidade nacional de "jogo bonito", a decisão de contratar um técnico estrangeiro – um dos melhores da Europa – sinaliza o desespero pela vitória e a ambição da seleção, em dificuldades, de dar a volta por cima.

"Ancelotti foi a principal escolha porque ele tem uma tradição de sucesso incomparável, vencendo em cinco países", disse o especialista em futebol sul-americano Tim Vickery.

•        Boas-vindas

Durante a cerimônia, entre diversas mensagens de personalidades do esporte verde e amarelo, Luiz Felipe Scolari (técnico pentacampeão mundial em 2002) deixou as boas-vindas ao novo comandante da Seleção.

“É uma alegria, uma satisfação, uma felicidade estar contigo. E que desejamos o melhor possível. Seja a pessoa que sempre foi e vai conseguir no Brasil tudo aquilo que conseguiu na sua vida. Tudo de bom! E o melhor para o nosso Brasil “.

Entre outros grandes nomes do futebol brasileiro a deixarem uma mensagem de boas-vindas a Ancelotti estavam Zico, Bebeto, Gérson “Canhotinha de Ouro” e Rivelino.

Maior campeão da Champions League, com cinco títulos (três pelo Real Madrid e dois pelo Milan), e único técnico a conquistar os campeonatos nacionais das cinco principais ligas europeias (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França), ele tem como desafio garantir a classificação para o Mundial do próximo ano, nos Estados Unidos, e ir em busca do hexa da Copa.

O próximo jogo do Brasil é contra o Equador, no Estádio Monumental de Guayaquil, no dia 5 de junho, pela 15ª rodada das Eliminatórias Sul-Americanas. A primeira reunião do grupo sob orientação de Carlo Ancelotti se encerra no dia dez de junho, na Neo Química Arena, em São Paulo, contra o Paraguai.

Depois de 14 rodadas das Eliminatórias continentais, o Brasil é o quarto colocado com 21 pontos. De forma direta, são seis vagas à Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos, Canadá e México. O sétimo colocado disputará ainda uma repescagem.

Então, com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando, Ancelotti conseguirá consertar o Brasil?

<><> O que deu errado no Brasil?

O domínio do Brasil no futebol diminuiu nas últimas duas décadas.

Apesar de ter conquistado dois títulos da Copa América nesse período, em 2007 e 2019, seu retrospecto na Copa do Mundo – a medida máxima do sucesso – tem sido decepcionante.

A Seleção Brasileira não vence o torneio desde o pentacampeonato em 2002, e suas recentes eliminações foram sinais dolorosos de declínio.

A pior fase aconteceu em 2014, quando o Brasil, anfitrião da Copa, foi humilhado por 7 a 1 pela Alemanha nas semifinais.

A Bélgica levou a melhor sobre o Brasil nas quartas-de-final de 2018, enquanto as esperanças de conquistar o título em 2022 foram frustradas pela derrota para a Croácia nos pênaltis, também nas quartas.

"Todas as campanhas desde 2002 terminam assim que a seleção enfrenta uma seleção europeia no mata-mata", disse Vickery.

"Virou um pesadelo que eles querem superar e mais um motivo para terem escolhido um técnico europeu desta vez. Eles estão dizendo: 'Se quisermos vencê-los na próxima vez, precisamos de alguém que os conheça'."

A atual campanha do Brasil nas eliminatórias para a Copa do Mundo tem sido alarmante.

A equipe deveria se classificar com tranquilidade, mas uma péssima campanha, incluindo uma humilhante derrota por 4 a 1 para a Argentina, gerou uma busca por respostas.

Técnicos surgiram e desapareceram nos últimos anos em meio à busca por um time vencedor.

Tite, respeitado por trazer um senso de ordem e orgulho, renunciou conforme planejado após a Copa do Mundo no Catar em 2022. O técnico mais recente da seleção, Dorival Júnior, foi demitido após o colapso frente à Argentina.

Isso levou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a implementar um plano ousado, que já vinha sendo pensado há muito tempo: o projeto Ancelotti.

Ele começa oficialmente nesta segunda-feira.

"Ouvimos no ano passado que os jogadores mais experientes não estavam convencidos de Dorival Junior, mas isso não vai acontecer com Carlo Ancelotti", avalia Vickery.

"Ele tem credibilidade instantânea no vestiário."

<><> Um regime estrangeiro

Em mais de um século de futebol internacional, a CBF tem evitado confiar seu cargo principal a técnicos estrangeiros.

Apenas três estrangeiros já comandaram o time, e eles treinaram apenas sete partidas no total.

O uruguaio Ramón Platero foi o primeiro, em 1925, e comandou quatro partidas, o português Joreca comandou duas partidas em 1944, e o argentino Filpo Nuñez foi o último estrangeiro a comandar a equipe, comandando uma única partida em 1965.

Uma história semelhante aconteceu na Série A do Brasil. A sensação sempre foi de que apenas um brasileiro poderia realmente entender o que significa jogar futebol no país.

Essa cultura mudou logo depois que o técnico português Jorge Jesus, que foi apontado em reportagens recentes como mais um candidato à seleção brasileira, assumiu o Flamengo em 2019.

Sua chegada ocorreu inicialmente em meio a dúvidas de que um sistema europeu pragmático pudesse trazer sucesso.

Jesus levou o Flamengo ao título nacional e à Copa Libertadores, com o clube carioca vivendo uma de suas temporadas mais vitoriosas. Seu time venceu 43 de seus 57 jogos antes de Jesus sair em julho de 2020.

Desde então, houve uma mudança interna e a aceitação de técnicos estrangeiros no país – com outros casos de sucesso como o de Abel Ferreira, multicampeão no Palmeiras — e isso agora está se refletindo no cenário internacional.

"Este é um muro importante que está sendo derrubado", disse Vickery à BBC Sport.

"Especialmente porque agora parece que Ancelotti quer assumir o cargo na Europa, o que será muito controverso."

Ancelotti será o primeiro verdadeiro titã europeu no comando, com uma coleção de troféus que inclui cinco títulos da Liga dos Campeões e conquistas nacionais na Itália, Inglaterra, França, Espanha e Alemanha.

"Você não pode ter todo o sucesso que ele teve sem um cérebro genial", disse o comentarista Alan Shearer.

<><> O que Ancelotti traz?

Um dos maiores pontos fortes de Ancelotti reside na sua capacidade de estabilizar equipes sem drama. Sua famosa calma, frequentemente caracterizada por pouco mais do que um levantar de sobrancelhas no calor de um grande momento, ajudou alguns dos vestiários mais poderosos do mundo a encontrar estabilidade.

"Ancelotti foi a principal escolha porque ele tem uma tradição de sucesso incomparável", disse Vickery.

Embora a temporada 2024-25 no Real Madrid tenha se mostrado complicada, com seu time perdendo para o Barcelona na final da Copa do Rei e sendo eliminado nas quartas de final da Liga dos Campeões pelo Arsenal, as conquistas passadas contam muito para Ancelotti.

Ele cultivou uma cultura e mentalidade de elite ao longo de sua passagem pela capital espanhola. Para comprovar isso, basta olhar para a impressionante campanha do Real Madrid rumo ao título da Liga dos Campeões de 2022 sob o comando de Ancelotti.

Vitórias de virada em posições que pareciam impossíveis contra Chelsea e Manchester City foram seguidas por uma vitória por 1 a 0 contra o Liverpool na final.

O time do Real se beneficiou da competência tática do técnico, mas também atuou com excepcional serenidade emocional.

Tal temperamento coletivo poderia impulsionar uma seleção brasileira que muitas vezes tem falhado diante das expectativas e da pressão.

O futebol brasileiro há muito tempo luta entre dois sistemas: o estilo sambista e o pragmatismo necessário para vencer no mais alto nível.

O talento de Ancelotti reside em ter mesclado essas identidades ao longo de sua carreira.

Seus times no Milan do início dos anos 2000 incluíam craques como Paolo Maldini, Andrea Pirlo e Kaká. Eles jogavam um futebol controlado e elegante, que era defensivamente resiliente, mas também podia ser de tirar o fôlego no ataque.

Ele aplicou praticamente a mesma abordagem durante sua segunda passagem pelo Real Madrid, que começou em junho de 2021.

Havia estrutura sem sufocamento, permitindo que talentos brasileiros como Vinicius Jr. e Rodrygo se expressassem, mantendo a disciplina.

"Vinicius Jr. adora trabalhar com ele", diz Vickery.

"Mas não é só ele. Também podemos ver o retorno do meio-campista Casemiro, do Manchester United, para reforçar o meio-campo — o que tem sido uma das principais preocupações."

Os atacantes Vinicius e Rodrygo foram cruciais para os sucessos mais recentes do Real e de Ancelotti.

Vinicius, em particular, viu sua carreira no clube decolar. Apesar de brilhar em jogos nacionais na Espanha, suas atuações pelo Brasil têm sido frequentemente decepcionantes e seu retrospecto mostra modestos seis gols em 39 partidas.

Críticos argumentam que ele tem dificuldades com as diferentes configurações táticas, mas Ancelotti sabe como extrair o melhor dele – simplificando seu papel, aumentando sua confiança e proporcionando liberdade dentro de um sistema estruturado.

"Ancelotti atuará como um para-raios para qualquer crítica que o time receber, o que aliviará a pressão sobre os jogadores", disse Vickery.

"Haverá alguns na comissão técnica brasileira que torcerão por seu fracasso, mas os menos afetados são os jogadores."

Não se enganem: a contratação de Ancelotti é uma decisão sísmica para o Brasil, uma declaração de que eles estão dispostos a mudar para reconquistar seu lugar no topo do futebol.

Se Ancelotti conseguir trazer sua marca de estabilidade ao grupo, ao mesmo tempo em que libera jogadores como Vinicius Jr. e talvez até mesmo arranca um último torneio mágico de Neymar, ele pode ser o homem certo para levar o Brasil de volta à glória.

E, ao fazer isso, ele pode não apenas consertar o Brasil; ele pode redefinir o significado do futebol brasileiro na era moderna.

 

Fonte: BBC Sport

 

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