Ancelotti
conseguirá consertar a seleção brasileira?
Começou
a Era Carlo Ancelotti no comando da Seleção Brasileira. Na tarde desta
segunda-feira (26), na Barra da Tijuca (RJ), o técnico foi apresentado e
anunciou sua primeira convocação. A lista traz a volta do volante Casemiro, do
Manchester United; do lateral – que também atua como zagueiro – Danilo, do
Flamengo; além da ausência de Neymar, voltando de lesão no Santos.
Em
coletiva de imprensa, Ancelotti afirmou que foi recebido com carinho no Brasil
e vem para trazer a era de títulos de volta à Seleção Brasileira.
“É uma
honra, um grande orgulho comandar a seleção, que é a melhor do mundo. Eu tenho
um grande trabalho para fazer com que Brasil volte a ser campeão, vamos juntos.
Precisamos de todos vocês. Eu fui recebido aqui com muito carinho. É a minha
primeira vez, e estou muito contente”, celebrou o técnico italiano.
<><>
Lista de convocados
>>>
Goleiros:
• Alisson;
• Bento;
• Hugo Souza;
>>>
Defesa:
• Alex Sandro;
• Alexsandro;
• Lucas Beraldo;
• Carlos Augusto;
• Danilo;
• Léo Ortiz;
• Marquinhos;
• Vanderson;
• Wesley;
>>>
Meio-campo:
• Andreas Pereira;
• Andrey Santos;
• Bruno Guimarães;
• Casemiro;
• Ederson;
• Gerson;
>>> Ataque:
• Antony;
• Estevão;
• Gabriel Martinelli;
• Matheus Cunha;
• Raphinha;
• Richarlison;
• Vinicius Júnior.
Para
uma equipe tão profundamente ligada à identidade nacional de "jogo
bonito", a decisão de contratar um técnico estrangeiro – um dos melhores
da Europa – sinaliza o desespero pela vitória e a ambição da seleção, em
dificuldades, de dar a volta por cima.
"Ancelotti
foi a principal escolha porque ele tem uma tradição de sucesso incomparável,
vencendo em cinco países", disse o especialista em futebol sul-americano
Tim Vickery.
• Boas-vindas
Durante
a cerimônia, entre diversas mensagens de personalidades do esporte verde e
amarelo, Luiz Felipe Scolari (técnico pentacampeão mundial em 2002) deixou as
boas-vindas ao novo comandante da Seleção.
“É uma
alegria, uma satisfação, uma felicidade estar contigo. E que desejamos o melhor
possível. Seja a pessoa que sempre foi e vai conseguir no Brasil tudo aquilo
que conseguiu na sua vida. Tudo de bom! E o melhor para o nosso Brasil “.
Entre
outros grandes nomes do futebol brasileiro a deixarem uma mensagem de
boas-vindas a Ancelotti estavam Zico, Bebeto, Gérson “Canhotinha de Ouro” e
Rivelino.
Maior
campeão da Champions League, com cinco títulos (três pelo Real Madrid e dois
pelo Milan), e único técnico a conquistar os campeonatos nacionais das cinco
principais ligas europeias (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França),
ele tem como desafio garantir a classificação para o Mundial do próximo ano,
nos Estados Unidos, e ir em busca do hexa da Copa.
O
próximo jogo do Brasil é contra o Equador, no Estádio Monumental de Guayaquil,
no dia 5 de junho, pela 15ª rodada das Eliminatórias Sul-Americanas. A primeira
reunião do grupo sob orientação de Carlo Ancelotti se encerra no dia dez de
junho, na Neo Química Arena, em São Paulo, contra o Paraguai.
Depois
de 14 rodadas das Eliminatórias continentais, o Brasil é o quarto colocado com
21 pontos. De forma direta, são seis vagas à Copa do Mundo de 2026 nos Estados
Unidos, Canadá e México. O sétimo colocado disputará ainda uma repescagem.
Então,
com a Copa do Mundo de 2026 se aproximando, Ancelotti conseguirá consertar o Brasil?
<><>
O que deu errado no Brasil?
O
domínio do Brasil no futebol diminuiu nas últimas duas décadas.
Apesar
de ter conquistado dois títulos da Copa América nesse período, em 2007 e 2019,
seu retrospecto na Copa do Mundo – a medida máxima do sucesso – tem sido
decepcionante.
A
Seleção Brasileira não vence o torneio desde o pentacampeonato em 2002, e suas
recentes eliminações foram sinais dolorosos de declínio.
A pior
fase aconteceu em 2014, quando o Brasil, anfitrião da Copa, foi humilhado por 7
a 1 pela Alemanha nas semifinais.
A
Bélgica levou a melhor sobre o Brasil nas quartas-de-final de 2018, enquanto as
esperanças de conquistar o título em 2022 foram frustradas pela derrota para a
Croácia nos pênaltis, também nas quartas.
"Todas
as campanhas desde 2002 terminam assim que a seleção enfrenta uma seleção
europeia no mata-mata", disse Vickery.
"Virou
um pesadelo que eles querem superar e mais um motivo para terem escolhido um
técnico europeu desta vez. Eles estão dizendo: 'Se quisermos vencê-los na
próxima vez, precisamos de alguém que os conheça'."
A atual
campanha do Brasil nas eliminatórias para a Copa do Mundo tem sido alarmante.
A
equipe deveria se classificar com tranquilidade, mas uma péssima campanha,
incluindo uma humilhante derrota por 4 a 1 para a Argentina, gerou uma busca
por respostas.
Técnicos
surgiram e desapareceram nos últimos anos em meio à busca por um time vencedor.
Tite,
respeitado por trazer um senso de ordem e orgulho, renunciou conforme planejado
após a Copa do Mundo no Catar em 2022. O técnico mais recente da seleção,
Dorival Júnior, foi demitido após o colapso frente à Argentina.
Isso
levou a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a implementar um plano ousado,
que já vinha sendo pensado há muito tempo: o projeto Ancelotti.
Ele
começa oficialmente nesta segunda-feira.
"Ouvimos
no ano passado que os jogadores mais experientes não estavam convencidos de
Dorival Junior, mas isso não vai acontecer com Carlo Ancelotti", avalia
Vickery.
"Ele
tem credibilidade instantânea no vestiário."
<><>
Um regime estrangeiro
Em mais
de um século de futebol internacional, a CBF tem evitado confiar seu cargo
principal a técnicos estrangeiros.
Apenas
três estrangeiros já comandaram o time, e eles treinaram apenas sete partidas
no total.
O
uruguaio Ramón Platero foi o primeiro, em 1925, e comandou quatro partidas, o
português Joreca comandou duas partidas em 1944, e o argentino Filpo Nuñez foi
o último estrangeiro a comandar a equipe, comandando uma única partida em 1965.
Uma
história semelhante aconteceu na Série A do Brasil. A sensação sempre foi de
que apenas um brasileiro poderia realmente entender o que significa jogar
futebol no país.
Essa
cultura mudou logo depois que o técnico português Jorge Jesus, que foi apontado
em reportagens recentes como mais um candidato à seleção brasileira, assumiu o
Flamengo em 2019.
Sua
chegada ocorreu inicialmente em meio a dúvidas de que um sistema europeu
pragmático pudesse trazer sucesso.
Jesus
levou o Flamengo ao título nacional e à Copa Libertadores, com o clube carioca
vivendo uma de suas temporadas mais vitoriosas. Seu time venceu 43 de seus 57
jogos antes de Jesus sair em julho de 2020.
Desde
então, houve uma mudança interna e a aceitação de técnicos estrangeiros no país
– com outros casos de sucesso como o de Abel Ferreira, multicampeão no
Palmeiras — e isso agora está se refletindo no cenário internacional.
"Este
é um muro importante que está sendo derrubado", disse Vickery à BBC Sport.
"Especialmente
porque agora parece que Ancelotti quer assumir o cargo na Europa, o que será
muito controverso."
Ancelotti
será o primeiro verdadeiro titã europeu no comando, com uma coleção de troféus
que inclui cinco títulos da Liga dos Campeões e conquistas nacionais na Itália,
Inglaterra, França, Espanha e Alemanha.
"Você
não pode ter todo o sucesso que ele teve sem um cérebro genial", disse o
comentarista Alan Shearer.
<><>
O que Ancelotti traz?
Um dos
maiores pontos fortes de Ancelotti reside na sua capacidade de estabilizar
equipes sem drama. Sua famosa calma, frequentemente caracterizada por pouco
mais do que um levantar de sobrancelhas no calor de um grande momento, ajudou
alguns dos vestiários mais poderosos do mundo a encontrar estabilidade.
"Ancelotti
foi a principal escolha porque ele tem uma tradição de sucesso
incomparável", disse Vickery.
Embora
a temporada 2024-25 no Real Madrid tenha se mostrado complicada, com seu time
perdendo para o Barcelona na final da Copa do Rei e sendo eliminado nas quartas
de final da Liga dos Campeões pelo Arsenal, as conquistas passadas contam muito
para Ancelotti.
Ele
cultivou uma cultura e mentalidade de elite ao longo de sua passagem pela
capital espanhola. Para comprovar isso, basta olhar para a impressionante
campanha do Real Madrid rumo ao título da Liga dos Campeões de 2022 sob o
comando de Ancelotti.
Vitórias
de virada em posições que pareciam impossíveis contra Chelsea e Manchester City
foram seguidas por uma vitória por 1 a 0 contra o Liverpool na final.
O time
do Real se beneficiou da competência tática do técnico, mas também atuou com
excepcional serenidade emocional.
Tal
temperamento coletivo poderia impulsionar uma seleção brasileira que muitas
vezes tem falhado diante das expectativas e da pressão.
O
futebol brasileiro há muito tempo luta entre dois sistemas: o estilo sambista e
o pragmatismo necessário para vencer no mais alto nível.
O
talento de Ancelotti reside em ter mesclado essas identidades ao longo de sua
carreira.
Seus
times no Milan do início dos anos 2000 incluíam craques como Paolo Maldini,
Andrea Pirlo e Kaká. Eles jogavam um futebol controlado e elegante, que era
defensivamente resiliente, mas também podia ser de tirar o fôlego no ataque.
Ele
aplicou praticamente a mesma abordagem durante sua segunda passagem pelo Real
Madrid, que começou em junho de 2021.
Havia
estrutura sem sufocamento, permitindo que talentos brasileiros como Vinicius
Jr. e Rodrygo se expressassem, mantendo a disciplina.
"Vinicius
Jr. adora trabalhar com ele", diz Vickery.
"Mas
não é só ele. Também podemos ver o retorno do meio-campista Casemiro, do
Manchester United, para reforçar o meio-campo — o que tem sido uma das
principais preocupações."
Os
atacantes Vinicius e Rodrygo foram cruciais para os sucessos mais recentes do
Real e de Ancelotti.
Vinicius,
em particular, viu sua carreira no clube decolar. Apesar de brilhar em jogos
nacionais na Espanha, suas atuações pelo Brasil têm sido frequentemente
decepcionantes e seu retrospecto mostra modestos seis gols em 39 partidas.
Críticos
argumentam que ele tem dificuldades com as diferentes configurações táticas,
mas Ancelotti sabe como extrair o melhor dele – simplificando seu papel,
aumentando sua confiança e proporcionando liberdade dentro de um sistema
estruturado.
"Ancelotti
atuará como um para-raios para qualquer crítica que o time receber, o que
aliviará a pressão sobre os jogadores", disse Vickery.
"Haverá
alguns na comissão técnica brasileira que torcerão por seu fracasso, mas os
menos afetados são os jogadores."
Não se
enganem: a contratação de Ancelotti é uma decisão sísmica para o Brasil, uma
declaração de que eles estão dispostos a mudar para reconquistar seu lugar no
topo do futebol.
Se
Ancelotti conseguir trazer sua marca de estabilidade ao grupo, ao mesmo tempo
em que libera jogadores como Vinicius Jr. e talvez até mesmo arranca um último
torneio mágico de Neymar, ele pode ser o homem certo para levar o Brasil de
volta à glória.
E, ao
fazer isso, ele pode não apenas consertar o Brasil; ele pode redefinir o
significado do futebol brasileiro na era moderna.
Fonte:
BBC Sport

Nenhum comentário:
Postar um comentário