Atos de 8 de Janeiro marcaram a derrocada política dos radicais, avaliam
especialistas
Em entrevista ao podcast Jabuticaba sem Caroço, da
Sputnik Brasil, especialistas afirmam que os atos antidemocráticos em Brasília,
que completam um ano hoje (8), minaram a base de apoio mais radical do
bolsonarismo, formada por grupos que viviam "realidade paralela" e
que foram repreendidos pelo próprio ex-presidente Jair Bolsonaro.
O ataque à Praça dos Três Poderes, em Brasília,
completa um ano nesta segunda-feira (8). Há exatos 12 meses, a população
brasileira observou uma multidão insatisfeita com o resultado das eleições
presidenciais invadir e depredar os prédios do Palácio do Planalto, do Supremo
Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional.
O episódio marcou a história do país. Imagens de
simpatizantes do ex-presidente Jair Bolsonaro destruindo símbolos da República
correram os noticiários do Brasil e do mundo e levaram a uma reflexão sobre a
importância da democracia e do trabalho das instituições democráticas para
impedir novos atos de violência como esse.
Segundo o mais recente balanço divulgado pelo STF
sobre o caso, no dia seguinte às invasões, 1.927 pessoas que estavam acampadas
diante de quartéis em Brasília foram encaminhadas à prisão, das quais 775 foram
liberadas. Entre 11 e 17 de janeiro, foram realizadas 1.397 audiências de
custódia, que resultaram em liberdade provisória com medidas cautelares de 459
pessoas e na conversão de 938 flagrantes em prisão preventiva.
Atualmente, 66 pessoas envolvidas nos atos ainda
permanecem presas preventivamente, respondendo por crimes como associação
criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de
golpe de Estado e deterioração de patrimônio tombado. Do total, 33 foram
denunciadas como executoras dos crimes praticados — sendo que duas foram
transferidas a hospitais psiquiátricos —, 25 seguem presas aguardando a
conclusão de diligências — investigadas por financiar ou incitar os crimes
praticados — e oito já foram condenadas.
Em entrevista ao podcast Jabuticaba sem Caroço, da
Sputnik Brasil, especialistas fazem um balanço do ocorrido um ano após os atos
de depredação, e analisam quais impactos o episódio teve e ainda pode ter na
política brasileira, tanto em partidos da oposição quanto da situação.
Para Ernani Carvalho, coordenador do curso de
ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o grande
primeiro impacto que o 8 de Janeiro trouxe para a política foi a aglutinação de
forças em torno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Se a gente lembrar um pouco o resultado da
eleição, […] percebe que o fim da eleição gerou um país extremamente dividido.
A vitória foi por um percentual muito pequeno. E logo após os ataques
perpetrados em 8 de Janeiro, em Brasília, com toda aquela destruição,
depredação do patrimônio público, vandalismo, invasões, isso criou um ambiente
propício para uma aglutinação de forças que estavam, de certa forma, em xeque
em termos de apoio ao governo", explica o cientista político.
Carvalho lembra que os presidentes das casas
legislativas, assim como todo o Judiciário, se posicionaram imediatamente
contrários aos ataques, bem como os governadores que apoiaram o ex-presidente
Jair Bolsonaro nas eleições de 2022.
"Até o próprio ex-presidente Bolsonaro se
posicionou contra os ataques, mesmo que de forma ainda um pouco tardia."
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Como ficou a CPI do 8 de Janeiro?
Questionado sobre os resultados apresentados pela
Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), criada para investigar as ações de
vandalismo em Brasília, Carvalho afirma achar improvável que os trabalhos da
comissão evoluam no sentido de realmente apresentar instrumentos jurídicos
capazes de culpabilizar grandes responsáveis, sejam indivíduos ou instituições.
Ele afirma que isso se dá pela forma como as CPIs são conduzidas no país.
"A gente sempre pensa que CPI dá em pizza, mas
dá em pizza porque vira muito mais um teatro político, onde as facções disputam
a sua versão da verdade e se atêm pouco sobre os fatos jurídicos, as questões
que realmente podem trazer mais veracidade, culpabilidade, gerar provas."
Para o cientista político, o STF tem apresentado um
trabalho mais bem estruturado em relação "não só do ponto de vista de
atuar como uma instituição que, de certa forma, guardou o processo democrático,
mas também na culpabilização, na instrução de processos, na prisão de vários
dos participantes dos atos do 8 de Janeiro".
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Desconexão com a realidade alimentou os extremistas
Carvalho aponta que os atos do 8 de Janeiro jogaram
luz na desconexão de certos grupos com a realidade, uma tendência que ele
aponta ter começado anos antes de Bolsonaro chegar ao poder, e que teve como
uma das principais ferramentas as redes sociais.
"Esses grupos radicais foram se autoisolando
no campo do próprio processo democrático do Brasil, desde que houve a
redemocratização. Se a gente pensar, os radicais que estiveram no campo da
esquerda acabaram se isolando em partidos menores e se tornaram pessoas quase
que insignificantes do ponto de vista da viabilidade pública e política das
suas visões. Agora, no caso da direita, o que a gente viu foi o oposto",
explica Carvalho.
"São grupos que são alimentados e
retroalimentados por diversos segmentos da direita. Então, é aquele grupo que
foi se avolumando, foi criando uma realidade paralela. Se você observar bem
esses grupos, houve uma imersão nas discussões que eles tinham dentro do
WhatsApp [plataforma da Meta, proibida na Rússia por extremismo], dos grupos
que mobilizavam essa extrema-direita, e você vê claramente que é uma realidade
completamente distorcida, completamente aquém de uma racionalidade mínima que a
pessoa possa ter da realidade", complementa.
um grau de autonomia que chegou ao ponto de
"perpetrar os atos com a visão quase que certa de que haveria uma resposta
institucional das Forças Armadas em apoiar aqueles atos e aquilo se tornar um
golpe de Estado".
"Obviamente que isso não aconteceu e se
comprovou que essa realidade paralela não estava conectada com os
desdobramentos que eles esperavam, e isso gerou uma grande frustração, e
acredito que serviu também de lição para que esses grupos fossem desmobilizados
ou mesmo para que […] ganhassem um choque de realidade."
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Qual a relação do 8 de Janeiro com a invasão do Capitólio?
Fernando Henrique Cardoso, doutor e mestre em
sociologia e direito, advogado criminal e professor de prática jurídica na
Universidade Federal Fluminense (UFF), afirma considerar o 8 de Janeiro
"um canto do cisne, uma espécie de repetição, um tanto quanto uma farsa,
do que aconteceu no Capitólio, nos EUA".
"Sem querer fazer uma correlação sociológica,
histórica, mas imagética, do ponto de vista estético, foi bem parecido. Uma
coisa de tanto quanto cafonas, brutais, ridículas, extremamente deletérias do
ponto de vista democrático, foi o que ocorreu aqui no Brasil."
Porém, ele ressalta que, no caso do Brasil, a data
marcou a derrocada de figuras extremistas e representou "uma espécie de
expurgo de algumas figuras, pelo menos do ponto de vista imagético".
"A gente pode pensar em alguns episódios que
ocorreram nas próprias eleições, como […] aquele episódio da arma da [Carla]
Zambelli, o episódio lá do Daniel Silveira. Enfim, algumas figuras que ficaram
marcadas como imagens desse, digamos assim, status político, que foi
sacramentado como derrotado depois das eleições."
Como fica o bolsonarismo após o 8 de Janeiro?
Questionado sobre como os atos de 8 de Janeiro
podem repercutir nas eleições de 2024, Cardoso aponta dois elementos a serem
analisados. Primeiro, ele afirma que as eleições municipais deste ano servirão
como "a prova dos nove" em relação à polarização.
"Será que nós teremos uma eleição polarizada?
A única coisa que vai dizer para a gente se sim, é, de fato, a expressão dos
votos. Alguns candidatos, alguns políticos já eleitos e alguns assessores
políticos que eu tenho contato, estão fazendo um balanço de que essa vai ser
uma eleição muito difícil, justamente porque a polarização deu uma arrefecida.
Então, assim: contra quem eu estarei lutando, se esse passado antidemocrático
já foi superado em 2022?"
Cardoso acrescenta que o bolsonarismo, na
realidade, é fruto de algo maior que o ex-presidente, um movimento "que
congregou uma série de outras figuras internacionais". Porém, ele diz que
a saída da figura de Bolsonaro como possibilidade eleitoral, uma vez que o
ex-presidente está inelegível, enfraquece, de fato, o bolsonarismo.
Ele acredita que o movimento experimenta uma
derrota "a conta gotas" e que também representa uma derrota para a
polarização. E, segundo ele, "a derrocada ainda não terminou".
"Eu ainda vejo novos episódios nessa questão
toda, não só para ele [Jair Bolsonaro], como para outros personagens, como, por
exemplo, o hoje senador Sergio Moro, o próprio Deltan Dallagnol, que já foi
excluído da disputa eleitoral. Então, você tinha figuras muito carimbadas e
que, obviamente, traziam muitos votos, e nas eleições isso conta muito,
principalmente nas proporcionais, que estão perdendo o poder, estão perdendo o
foco, até mesmo ao ponto de, ainda que estejam no poder, começarem a se descaracterizar."
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Quem será a grande figura da direita nas eleições de 2026?
Cardoso avalia que nas eleições de 2022 foram
utilizadas na candidatura de Bolsonaro uma série de tecnologias que hoje já
estão mais difusas a título de conhecimento de equipes. Segundo ele,
dificilmente o tom usado por Bolsonaro em campanha tornará a ter força no
cenário eleitoral no sentido de impulsionar candidaturas.
"O tom que foi utilizado pelo candidato
[Bolsonaro], aquele tom grotesco, agressivo, antidemocrático, excludente, as
pessoas batiam palma, eventualmente, bateram muita palma para ele dançar, mas
chegou em determinado ponto onde as pessoas viram que aquilo ali não
conseguiria se segurar por muito tempo. [...] Existiam ferramentas e tons
discursivos [nas eleições de 2022] que me parece que, pelo menos para essa
eleição de agora, as pessoas têm um pouco mais de receio de fazer. Até para não
serem confundidas com algo que elas mesmas ajudaram a enterrar."
herdeiro do bolsonarismo em 2026, pois "quem
vai para uma eleição, vai para vencer". Ele cita como exemplo o desgaste
sofrido pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, durante o ano de
2023.
"É uma coisa muito curiosa, um carioca
governando o estado de São Paulo, e ele teria sido alçado como um, digamos
assim, herdeiro do bolsonarismo. Ou seja, fazer um bolsonarismo 2.0 nem tanto a
nível de discurso explícito, mas a nível de herdar alianças, de herdar poder de
voto. Me parece que algo explícito como foi não se repetiria nessa próxima
[eleição]", explica Cardoso.
Porém, ele afirma que o que vai servir de
termômetro para o pleito de 2026 serão as eleições municipais deste ano.
"As eleições de 2024 que vão trabalhar com o
eleitorado, que vai estar muito de base. Estou falando de vereador, de
prefeito. Então, de alguma forma, [o pleito deste ano] vai dar para a gente uma
noção [do que esperar em 2026]."
Qual o papel das redes sociais no 8 de Janeiro?
Questionado se o uso das redes sociais viabilizou
os ataques do 8 de Janeiro, Cardoso lembra o cenário vivenciado no país dez
anos antes, em 2013, quando protestos contra o governo de Dilma Rousseff
tomaram as ruas. Ele afirma que, na ocasião, muitos dos que foram às ruas
souberam dos atos pelas redes sociais, em especial por eventos criados no
Facebook (plataforma da Meta, proibida na Rússia por extremismo).
Ele afirma que com o WhatsApp a discussão se tornou
mais capilarizada, e, somado à pandemia de 2020, que impulsionou o uso das
redes para comunicação, a relação dos eleitores com a tecnologia se tornou
ainda mais complexa.
"Acho que existe algo hoje, há algum tempo
pelo menos, que está até anterior à tomada de decisão e passa justamente pela
nossa relação com as redes sociais, com o tipo de subjetividade que nós somos
bombardeados todos os dias e construímos, nesse caminho de mão dupla,
justamente com esses dispositivos."
Ele destaca a necessidade de avançar no debate
sobre a regulação das redes, e afirma que, atualmente, as Big Techs, como são
chamadas gigantes da tecnologia como o Google, a Meta e a ByteDance,
"basicamente dominam o mundo", por isso não é possível deixar que
movimentos ocorram dentro dessas plataformas "sem que exista alguma
regulação ou sem que exista, pelo menos, uma reflexão sobre a regulação".
"Quem quer fazer com que esse debate [sobre a
regulação] seja um debate sobre liberdade de expressão, isso é só uma cortina
de fumaça", destaca o especialista.
Fonte: Sputnik Brasil

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