Levantes e aproximação com a China: países africanos podem trilhar caminho
de mais prosperidade a partir de 2024
"A verdadeira explicação para a lentidão do
desenvolvimento industrial na África está
nas políticas do período colonial", escreveu Kwame Nkrumah, primeiro
presidente de Gana, em seu livro de 1963, Africa Must Unite (A África
Precisa se Unir, em tradução livre).
"Praticamente todos os nossos recursos
naturais, para não mencionar o comércio, a navegação, os bancos, a construção e
assim por diante, caíram e permaneceram nas mãos de estrangeiros que buscam
enriquecer investidores e impedir a iniciativa econômica local", escreveu
à época, quando muitas nações conquistavam suas independências de países
europeus. No entanto, mais de meio século depois, acontecimentos indicam
que uma nova realidade pode estar começando a ser delineada.
São eles: os golpes de Estado que agitaram países
subsaarianos, mostrando energia renovada para a superação da lógica colonial e
imperialista, e uma nova perspectiva nas relações com a grande potência
asiática, que parece disposta a viabilizar recursos para o desenvolvimento sem
as contrapartidas draconianas exigidas pelo Ocidente.
Paralelamente à reunião de cúpula do Brics (Brasil,
Rússia, Índia, China e África do Sul) em 2023, foi lançada uma Iniciativa
de Apoio à Industrialização da África, na qual a China se comprometeu a
aumentar o financiamento para construir infraestrutura, projetar e criar
parques industriais e ajudar os governos e as empresas africanas a
desenvolverem suas políticas e setores industriais.
A ideia é apoiar um projeto de desenvolvimento que
surja da experiência africana, em vez de ser imposto aos Estados africanos pelo
FMI (Fundo Monetário Internacional) ou outras agências e países ocidentais.
Em publicações lançadas recentemente pelo Instituto
Tricontinental de Pesquisa Social, especialistas avaliam que a Iniciativa de
Cinturão e Rota (ICR), conhecida como "novo caminho da seda chinês",
lançado em 2013, tem fornecido financiamento significativo para projetos de
infraestrutura que podem formar a base para a industrialização em regiões
tradicionalmente exportadoras de matérias-primas e importadoras de produtos
manufaturados, caso de boa parte dos países africanos.
Isso não significa que a China seja a tábua de
salvação da África, até porque esse tipo de raciocínio faz parte do passado e o
caminho da África pode, e deve, ser construído pelos africanos. No entanto, por
sua própria experiência de construção de manufatura contra uma estrutura que
reproduz a dependência, a China tem muito a compartilhar em termos de
conhecimento. E, como possui enormes reservas financeiras e não impõe
condicionalidades nos mesmos moldes que o Ocidente, pode também ser uma fonte
de financiamento para projetos de desenvolvimento.
Em dezembro de 2022, o presidente do Banco Africano
de Desenvolvimento, Akinwumi Adesina, afirmou que
"a prosperidade da África não deve mais depender da exportação de
matérias-primas, mas de produtos acabados com valor agregado". Exemplos:
transformar cacau em chocolate, algodão em vestuário, grãos de café em café
pronto para consumo, cobalto e níquel em baterias de íon-lítio e carros
elétricos, cobre e prata em smartphones.
Como Kwame Nkrumah escreveu em 1963, "África
tem tudo o que precisa para se tornar um continente moderno e
industrializado".
·
Pelo fim da submissão
Esse novo cenário de cooperação para o
desenvolvimento ocorre num momento político intenso e propício para mudanças,
já que o clima na região é de ousadia para enfrentar as estruturas neocoloniais
que esmagam a esperança. Os povos querem pôr fim à submissão.
A raiva contra os antigos colonizadores franceses -
e que ainda exercem forte influência política na região - tem sido tão intensa
que provocou pelo menos sete golpes de Estado recentes no continente africano
(dois em Burkina Faso, dois no Mali, um na Guiné, um no Níger e um no Gabão) e
desencadeou manifestações em massa da Argélia ao Congo, e mais recentemente no
Benin.
O golpe mais recente — no Níger, que depôs
o presidente Mohamed Bazoum em julho de 2023 — foi liderado por oficiais
militares revoltados com a presença de tropas francesas e estadunidenses e com
as crises econômicas permanentes infligidas a seus países. Nos levantes
anteriores, a motivação era basicamente a mesma. Mas há outros detalhes.
Essa região no norte da África subsaariana, o
Sahel, tem enfrentado uma cascata de crises: a seca da
terra em decorrência da catástrofe climática, o aumento da militância islâmica
devido à guerra da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia em
2011, o aumento das redes de contrabando para o tráfico de armas, pessoas e
drogas pelo deserto, a apropriação de recursos naturais – inclusive urânio e
ouro – por empresas ocidentais que simplesmente não pagaram adequadamente por
essas riquezas e o enraizamento das forças militares ocidentais por meio da
construção de bases e da impune atuação de seus exércitos.
Após o golpe no
Níger, o Ocidente esperava enviar uma força por procuração – liderada pela
Comissão Econômica dos Estados da África Ocidental (Ecowas, na sigla em inglês)
–, mas os líderes militares africanos hesitaram. Por toda a região foram
criados comitês de solidariedade para defender o povo do Níger de qualquer
ataque.
Enquanto isso, não só parecia que o povo do Níger
resistiria a qualquer intervenção militar, como também Burkina Faso e Mali
prometeram defender imediatamente o país contra qualquer intervenção desse
tipo. Nesse contexto, os governos dos três países criaram a Aliança dos Estados
do Sahel (AES, na sigla em inglês), para estabelecer uma arquitetura coletiva
de defesa e assistência mútua para o benefício das respectivas populações. Um
produto de solidariedade mútua.
Mas a AES não é apenas um pacto militar ou de
segurança. Na cerimônia de assinatura, o ministro da Defesa do Mali, Abdoulaye
Diop, caracterizou a aliança como uma combinação de esforços militares e
econômicos entre os três países. Estava lançada a semente que pode resultar
numa agenda econômica que beneficie as populações e impeça a França de exercer
sua autoridade sobre a região.
Histórico
Desde meados do século 19, o colonialismo francês
se fez presente no Norte, Oeste e Centro da África. Em 1960, a França
controlava quase cinco milhões de quilômetros quadrados (oito vezes o tamanho
da própria França) somente na África Ocidental. Embora os movimentos de
libertação nacional do Senegal ao Chade tenham conquistado a independência da
França naquele ano, o governo francês manteve o controle financeiro e monetário
por meio da Comunidade Financeira Africana ou CFA (antiga Comunidade Francesa
da África), mantendo a moeda franco CFA (lê-se franco cefá) e forçando os
países a manter pelo menos metade de suas reservas cambiais no Banque
de France.
A França manteve as estruturas neocoloniais que
permitiram que as empresas francesas sugassem os recursos naturais da região
(como o urânio do Níger, que alimenta um terço das lâmpadas francesas) e
impuseram uma agenda de austeridade e endividamento impulsionada pelo FMI.
O ressentimento contra a França aumentou depois que
a Otan destruiu a Líbia em 2011 e exportou a instabilidade para a região do
Sahel, na África. Uma combinação de grupos separatistas, contrabandistas
trans-saarianos e ramificações da Al-Qaeda se uniram e marcharam ao sul do
Saara para capturar quase dois terços do Mali, grandes partes de Burkina Faso e
porções do Níger. A intervenção militar francesa no Sahel por meio da Operação
Barkhane (2013) e a criação do projeto neocolonial G-5 Sahel levou a um aumento
da violência por parte das tropas francesas, inclusive contra civis.
Políticas de substituição de importações, que
haviam sido importantes para outros países do chamado Terceiro Mundo, foram
rejeitadas em favor da exportação de matérias-primas baratas e da importação de
produtos agregados caros. A espiral de dívida e dependência assolou
o continente.
Esse estado de coisas incentivou a migração em toda
a região, o que levou a Europa a implementar medidas de segurança e política
externa, incluindo exportação de
tecnologias de vigilância ilegal para os governos neocoloniais desse cinturão
da África. O grito La France, dégage! [Fora França!] define a
atitude de agitação em massa na região contra as estruturas neocoloniais que
tentam estrangular o Sahel.
No entanto, uma força reacionária constantemente
busca impedir a mudança necessária para o desenvolvimento autônomo e profundo
da África. Ao longo dos últimos 30 anos, muitos partidos com uma história que
remonta aos movimentos de libertação nacional e até mesmo aos movimentos
socialistas se transformaram em representantes de suas elites, que, por sua
vez, são condutores de uma agenda ocidental.
A entrada das forças de contrabandistas da Al-Qaeda
deu às elites locais e ao Ocidente a justificativa para oprimir ainda mais o
ambiente político, reduzindo as já limitadas liberdades sindicais e eliminando
a esquerda das fileiras dos partidos políticos estabelecidos. A questão central
e que os líderes dos principais partidos políticos, independentemente de sua
orientação ideológica, ainda não possuem real independência em relação à
vontade de Paris e Washington. Eles se tornaram fantoches do Ocidente.
Ø Os desafios
para o Brasil concretizar reaproximação da África em 2024
Moçambique, Etiópia e Egito devem estar no roteiro
da primeira viagem internacional que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
quer fazer este ano. A visita está sendo organizada para a segunda quinzena de
fevereiro. Mas além da retomada das viagens, outros desafios deverão ser
superados para efetivar a reaproximação entre o Brasil e o continente africano,
apontam especialistas.
A maior expectativa é sobre a passagem do
presidente pela capital etíope, onde Lula deve participar da abertura da cúpula
da União Africana. Ele fará um discurso não só como chefe de Estado, mas como
líder do país que ocupa a presidência rotativa do G20.
A última parada da viagem deve ser no Cairo, mas
tudo sobre esta visita ao continente africano ainda está em processo de
confirmação, inclusive a logística e as agendas bilaterais. A RFI conversou
nas últimas semanas com diversas pessoas que acompanham o assunto e são
entusiastas da reaproximação do Brasil com a África, prometida pelo presidente
Lula depois do distanciamento, diplomático e comercial, causado pelo governo de
Jair Bolsonaro, que não fez sequer uma visita oficial a um país africano.
“O que se espera é que o Brasil possa apresentar
uma agenda concreta de iniciativas e ações, não apenas do ponto de vista
governamental, mas também como incentivar a participação do setor privado”
disse João Bosco Monte, fundador e presidente do Instituto Brasil África
(Ibraf).
O presidente global da Fairfax Africa Fund,
Zemedeneh Negatu, recomenda que o presidente priorize o continente africano em
seu governo, em particular grandes países que são geopolítica e economicamente
influentes, para além das suas fronteiras – com destaque para os três membros
africanos do novo Brics, África do Sul, Etiópia e Egito, e a Nigéria, apontada
como “a futura membro” do bloco de emergentes.
O investidor etíope-estadunidense também ressaltou
que o Brasil deveria fortalecer o seu relacionamento com instituições
pan-africanas, como a União Africana e o Banco Africano de Desenvolvimento.
“Recentemente conheci muitas empresas brasileiras que estão interessadas em
fazer negócios na África, mas que precisarão do apoio financeiro e diplomático
do governo brasileiro para investir com sucesso ou mesmo para exportar os seus
produtos”, disse.
·
Falta de estratégia
Mas nem todos os diplomatas e embaixadores que
atuam em países africanos com os quais a reportagem conversou estão muito
otimistas. Fala-se em falta de planejamento no Itamaraty para a África e a
necessidade de mudança do discurso do presidente sobre o continente. “Essa mensagem
de que ‘temos uma dívida histórica’ é ultrapassada, com todo o meu respeito às
vítimas dos fatos históricos e seus descendentes, mas a África do Século 21
quer ser vista de outra forma, como a China, Índia e Turquia estão olhando para
ela, por exemplo”, disse um diplomata sob condição de anonimato.
O presidente do Ibraf destaca a importância de se
falar em reparação, mas lembra que o momento agora é de ir além do discurso.
“Precisamos apresentar um projeto mais ousado, trazer uma agenda de ideias e
ações. Como empresas africanas podem se aproximar de parceiros brasileiros?
Diversas nações já se aproximaram da África e muitas vezes sem qualquer
ligação, como o Brasil tem, só que eles trazem uma agenda bem pragmática e o
Brasil precisa apresentar isso para se reaproximar da África”, completou.
Estima-se que até 2050, um quarto da população
mundial seja africana. A região é rica em minerais como coltan, que é
fundamental para a produção de baterias de celulares, carros elétricos e outros
equipamentos eletrônicos. A África tem hoje a população mais jovem do planeta e
possui, principalmente, duas agendas em comum com o Brasil: mineração e
agricultura.
O investidor Zemedeneh Negatu reforçou que o
governo Lula deveria ampliar o apoio às empresas brasileiras. “A China – um
membro fundador do Brics, como o Brasil – tem apoiado com sucesso empresas
chinesas ao investir e comercializar na África. As principais economias
europeias, como o Reino Unido e a França, também apoiaram as suas empresas para
se expandirem na África. E ainda assim, o Brasil, a nona maior economia do
mundo, tem uma presença muito pequena na África”, comparou.
O leste do gigantesco continente africano tem sido
o foco do empresário Paulo Pan, à frente do grupo Beyond Africa, em especial
por conta da importância regional crescente de Adis Abeba. “Justamente para
trazer o benefício que a Etiópia tem hoje de ter uma companhia aérea fazendo
voo direto, com uma infraestrutura aeroportuária importante e que sirva de
conexão para levar os passageiros para Quênia, Tanzânia, Uganda”, sinalizou.
Uma das áreas de interesse do empresário é o
esporte. “O Brasil e o continente africano, quase que como um todo, desfrutam
da mesma paixão, que é o futebol. É a primeira base de movimento diplomático
para aproximar qualquer um dos países africanos”, afirmou Paulo Pan, que já
conduz um projeto com a Unesco no Camarões e pretende levá-lo para outros
países africanos, aumentando, também, o intercâmbio esportivo com o Brasil.
·
Qualidade x quantidade de embaixadas
No fim do ano passado, o Itamaraty anunciou que o
Brasil abrirá mais duas embaixadas no continente, em Serra Leoa e Ruanda, além
do novo consulado-geral em Luanda. A notícia não foi muito bem recebida por
todos no Itamaraty, que sabem da precariedade de alguns postos no continente
africano onde os respectivos embaixadores trabalham sozinhos, como em Burkina
Faso, Camarões e Togo.
Para o embaixador aposentado Paulo Roberto de
Almeida, que atualmente é diretor de Relações Internacionais do Instituto
Histórico e Geográfico de Brasília, o Brasil realmente “voltou”, como prega
Lula, e haverá novas iniciativas em diferentes países. Mas ele acredita que não
é certo que isso passe pelo número de embaixadas na região.
“Lula está trocando a qualidade pela quantidade.
Existem muitas embaixadas em diferentes países africanos que estão efetivamente
sublotadas, sem condições, portanto, de desenvolver um trabalho diplomático de
maior escopo e amplitude cultural, econômica e comercial”, ponderou.
O Ministério das Relações Exteriores (MRE) usa as
letras A, B, C e D para classificar a importância dos postos nos países com os
quais o Brasil se relaciona. Quase todos na África recebem as letras C ou D, o
que significa que ainda são consideradas menos importantes para a política
externa brasileira.
Com base na Lei de Acesso à informação, a
reportagem pediu ao MRE as comunicações telegráficas das representações
diplomáticas do Brasil no exterior referentes a sublotação, falta de recursos
humanos, pedidos de contratação e condições dos posts C e D em 2022 e 2023.
Alegando se tratar de uma solicitação muito ampla, o ministério pediu que a
demanda fosse detalhada para não sobrecarregar o setor, com 8 servidores,
destinado a este atendimento. Em uma pesquisa preliminar, 742 correspondências
que poderiam se enquadrar no pedido foram encontradas.
A reportagem não recorreu por entender que a
resposta já era suficiente para se ter uma noção sobre um problema que tem
sobrecarregado alguns diplomatas que atuam na África.
·
Aberturas e fechamentos de representações diplomáticas
Entre 2002 e 2020, o Brasil abriu 18 embaixadas no
continente africano, além do consulado-geral de Lagos, que sucedeu a embaixada
brasileira na Nigéria quando esta foi transferida para Abuja. Jair Bolsonaro
fechou três embaixadas na África (no Maláui, na Libéria e em Serra Leoa, que
será reaberta pelo atual governo). Atualmente o Brasil tem 33 embaixadas e dois
consulados-gerais em países africanos.
Ainda na opinião de Paulo Roberto de Almeida, é
preciso pensar na relação custo-benefício e no quanto a abertura de novos
postos custaria para o Itamaraty em termos de manutenção. “Uma embaixada não
sai por menos de meio milhão de dólares por ano e o retorno às vezes não
justifica”, disse.
No corpo diplomático há quem defenda que o MRE
deveria designar um embaixador a mais para a Etiópia, trabalhando
exclusivamente com a União Africana, função que hoje é acumulada pelo
embaixador que também cuida da relação entre os governos brasileiro e etíope.
No ano passado, Lula esteve na África do Sul para a
cúpula do Brics. Em seguida visitou Angola e São Tomé e Príncipe, onde
participou da cúpula da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa).
Em Luanda, chegou a falar sobre empresas
brasileiras voltarem a investir no continente africano, mas não apresentou
qualquer projeto de incentivo.
“O Brasil, durante algum tempo, teve uma agenda de
financiamento de projetos para empresas brasileiras em ambientes africanos. Eu
me lembro da inauguração do escritório do BNDES em Joanesburgo, que foi muito
bem recebido pela comunidade africana, pelos empresários do continente”,
mencionou João Bosco Monte.
Este escritório, porém, foi fechado no governo de
Michel Temer. “É importante que isso volte. Sem financiamento é muito difícil
que empresas africanas e brasileiras possam dialogar”, ressaltou o presidente
do Ibraf.
Este ano, Lula pretende fazer duas viagens para o
continente africano. A segunda visita deve ser no segundo semestre, com Nigéria
e Senegal provavelmente no roteiro. Ainda em 2024 o Brasil receberá
representantes da União Africana e da África do Sul, membros do G20, no
contexto da cúpula do bloco que este ano acontece no Brasil. Outros três países
da África foram convidados pelo governo brasileiro para o evento: Angola,
Nigéria e Egito.
Fonte: Brasil de Fato/RFI/Opera Mundi

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