terça-feira, 1 de outubro de 2024

'Mulheres que têm direito ao aborto vão à ilegalidade por medo de outras violências', diz fundadora do Projeto Vivas

"Mesmo quando previsto em lei, o acesso ao aborto no Brasil passa por obstáculos sociais, burocráticos e, em diversos momentos, violentos", pontua Rebeca Mendes, ativista e fundadora do Projeto Vivas – uma organização não governamental que ajuda, de forma multidisciplinar, a encurtar o caminho aos serviços de aborto legal no Brasil ou no exterior.

Este sábado, 28 de setembro, é o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto. A 7 dias do primeiro turno das eleições municipais, Mendes destaca, em entrevista ao Brasil de Fato, a responsabilidade dos municípios na garantia do serviço de saúde. "O papel do município, do Estado em geral, é garantir que as políticas adotadas pelo Ministério da Saúde sejam cumpridas. Cabe às prefeituras, também, implementar políticas que facilitam o acesso ao aborto legal. E a gente precisa estar atenta nessas eleições ao histórico dos candidatos nesse sentido", diz.

"Há candidaturas da extrema direita, como a tentativa de reeleição do Ricardo Nunes, por exemplo, que fechou um serviço de aborto legal em São Paulo. Até onde a gente sabe isso aconteceu por questões ideológicas, de um bolsonarismo que vem atuando em todo o país", cita a ativista.

O serviço ao qual Mendes se refere é o Hospital Vila Nova Cachoeirinha, cuja oferta para o procedimento de aborto legal foi interrompida em dezembro de 2023. O hospital era referência no país e o único em São Paulo a realizar o procedimento em gestações acima de 22 semanas, uma necessidade frequente das vítimas de violência sexual que engravidam, especialmente crianças. O caso foi levado, em julho deste ano, à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à OEA (Organização dos Estados Americanos).

Ainda segundo a ativista, a suspensão do serviço pelo hospital em São Paulo foi um dos maiores obstáculos que a ONG enfrentou em sua história recente. "A prefeitura alega que foi um fechamento estratégico, mas faltou um detalhe: avisar às mulheres que estavam em acompanhamento", conta. "A gente teve que fazer o processo de redirecionar essas mulheres para outros hospitais, porque a prefeitura não fez nada. E no Cachoeirinha, vale dizer, nós conhecíamos a equipe, confiávamos no procedimento. Há outros hospitais em São Paulo onde não há equipe ou há desculpas diversas para não fazer o aborto", reforça.

À época da suspensão do serviço do Vila Nova Cachoeirinha, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo informou, em nota, que "atende todas as demandas de procedimentos com determinação legal em observância à legislação".

"Nesse contexto, a gente vê muitas mulheres que têm direito ao aborto legal e preferem ir para a insegurança da ilegalidade por medo de sofrer outros tipos de violência. Violências institucionais, violências obstétricas", diz. "O maior entrave que temos no nosso país, sem dúvida, é a criminalização em si. Quando você coloca um cuidado de saúde num código penal, você afasta até mesmo aquelas que têm direito."

•        Projeto Vivas

No Brasil, o Vivas conduz casos previstos em lei aos hospitais habilitados para realizar o procedimento, o que nem sempre é um processo simples. "As mulheres entram em contato conosco pelo WhatsApp e aí, no momento do acolhimento, nós vemos se o relato que ela nos conta cabe em um dos três permissivos legais [no Brasil], ou se é uma situação em que a gente encaminha para outro país", diz. "Quando a gente detecta que é o caso, por exemplo, de violência sexual, nós fazemos todo o acolhimento e encaminhamos ela para o serviço mais próximo a ela ou ao serviço mais próximo com o suporte necessário para acolhê-la, dependendo das necessidades naquele momento."

Há ainda casos em que a interrupção da gravidez é proibida no Brasil, mas possível de maneira legal e segura em outros países da América do Sul. "Nesse caso, nós auxiliamos a viagem dessa pessoa ao país, como Argentina ou Bolívia, onde a legislação oferece mais suporte do que a nossa", explica Mendes, que também trabalha como advogada.

•        Luta pelo aborto legal

A ideia de criar um projeto que oferece auxílio e informação às pessoas que precisam abortar surgiu da experiência pessoal de Rebeca Mendes. Em 2017, ela virou símbolo de luta pela descriminalização do aborto quando conduziu sua necessidade de um procedimento seguro e legal no Brasil ao Supremo Tribunal Federal (STF).

A liminar, elaborada em parceria com o Partido Socialismo e Liberdade (Psol) e Instituto Anis bioética, argumentavam pela dignidade, liberdade e saúde de Mendes. Ainda assim, foi negada pelo STF. A então estudante de direito então, auxiliada por outras entidades, realizou o procedimento de forma legal na Colômbia – a maneira como foi procurada por outras mulheres que desejam o mesmo levou, mais tarde, à criação do Projeto Vivas.

"Em 2017 eu estava no meio da faculdade de Direito, mãe de dois filhos de 6 e 9 anos, e acabei engravidando", conta. "Eu usava um contraceptivo que me deixava muito mal e decido, naquele momento, que vou fazer a troca da injeção que eu tomava para o DIU. Busquei o SUS e encontrei um processo super burocrático", relembra. Segundo Mendes, a simples escolha pelo método não bastava para a equipe de saúde. Foi necessário um longo acompanhamento que, entre idas e vindas, durou quase um ano. "O procedimento [de inserção do DIU] ia acontecer em dezembro. Em novembro, descobri que estava grávida", diz.

"Desde o primeiro momento eu sabia que eu não queria. Mas o problema maior, após a minha decisão, era fazer isso com segurança", relembra. Mendes pontua que, especialmente por ser mãe de duas crianças, não estava disposta a correr riscos em procedimento inseguro. Na busca por suporte entre ativistas, Mendes conheceu a professora Debora Diniz, antropóloga, pesquisadora e defensora da pauta de descriminalização do aborto no Brasil. "E aí ela me fala que o caminho que eu poderia seguir, que fosse o da legalidade, seria se eu entrasse com um pedido de total de urgência dentro da ADPF [Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental] 442, solicitando um aborto legal mesmo não estando dentro dos permissivos já existentes", recorda. Alguns dias depois, o pedido foi negado pela ministra Rosa Weber.

"Mas a atenção que o caso ganhou fez com que algumas organizações da América Latina me convidassem a conhecer o trabalho delas. Foi quando fui a Bogotá, na Colômbia, conversar com organizações. E lá eu descobri que apesar de ser um país tão religioso quanto o nosso, o meu caso, em que a gestação oferecia risco à minha vida, era legalizado". No dia seguinte Rebeca foi fazer o procedimento. "Foi algo tão simples, tão rápido, durou 15 minutos", recorda. "E então isso ficou muito na minha cabeça e gerou uma indignação enorme: como a minha vida virou um inferno em busca de um cuidado de saúde tão simples".

 

•        Pleno funcionamento do direito ao aborto está ameaçado na Argentina de Milei

A lei do aborto legal, seguro e gratuito na Argentina está sob ameaça no governo de extrema direita de Javier Milei. Além de tentativas de cancelar a lei no Legislativo, o governo a sabota e tenta desmontá-la ao não repor estoques de medicamentos e outros insumos necessários para garantir o acesso a quem precisa, segundo profissionais e ativistas argentinas que trabalham com o tema ouvidas pelo Brasil de Fato.

"O mais grave é a falta de insumos", diz Silvina Ramos, socióloga e pesquisadora titular do Projeto Mirar, um observatório do Centro de Estudos de Estado e Sociedade (Cedes) da Argentina, que visa monitorar a implementação da Lei do Aborto Legal. "E se não temos insumos, não temos política [pública]. Sem insumos para o aborto, não temos como fazer os abortos."

A Lei pela Interrupção Voluntária da Gravidez (lei IVE/ILE), aprovada há quase quatro anos pelo Senado argentino, entrou em vigor efetivamente em janeiro de 2021 e dá um significado concreto para o Dia da Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe, celebrado neste sábado (28).

O projeto, apresentado no governo do ex-presidente peronista Alberto Fernández, foi uma conquista de anos de luta popular. "Quando falamos de saúde integral, estamos falando de uma mudança promovida ao redor dos debates sobre a lei do aborto e do asseguramento de aspectos psicológicos, econômicos e sociais que envolvem a saúde completa", afirma Carlota Ramirez, diretora provincial de Equidade de Gênero na Saúde na província de Buenos Aires.

Ao Brasil de Fato, a funcionária que foi diretora de Saúde Sexual e Reprodutiva da província de Buenos Aires, também denuncia que o governo pouco faz para estimular e proteger o direito ao aborto para as mulheres argentinas e vai além: "Quanto a métodos contraceptivos, o governo nacional envia muito poucos, e a província compra o necessário para abastecer os serviços".

De acordo com dados oficiais, não há nenhum motivo aparente para derrubar ou enfraquecer a aplicação de lei já que ela vinha dando resultados. Somente em 2023, a lei do aborto legal na Argentina forneceu 166.164 tratamentos seguros, adequados e gratuitos; em 2020, último ano antes da aprovação da lei, foram apenas 18.590.

Julia Martino, ativista da Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito, e integrante do movimento Incidencia Feminista, denuncia que o governo Milei apenas reparte o estoque já existente dos medicamentos misoprostol (provocador do esvaziamento uterino) e mifepristona (inibidor do hormônio progesterona), essenciais para os procedimentos.

"Por causa disso, todas as províncias estão com falta de insumos para garantir as interrupções da gravidez. Algumas delas, que têm recursos e vontade política, compram insumos e seguem garantindo as interrupções, mas as demais províncias não. Tudo depende do compromisso e da vontade dos profissionais e equipe dos serviços de saúde", disse ao Brasil de Fato.

Além disso, a lei possibilitou criar o Plano Nacional de Prevenção da Gravidez Não Intencional na Adolescência (Enia), programa aplicado nas províncias as taxas mais altas de gravidez na adolescência. O Enia foi um dos responsáveis pela redução de 50% da gravidez em adolescentes, e garantia assistência, orientações sobre saúde sexual e abusos e distribuição de anticoncepcionais para jovens e adolescentes. Este plano foi cortado por Javier Milei em abril de 2024.

•        Ataques no legislativo

Apenas dois meses após a chegada ao Poder Executivo, o partido do ultraliberal enviou para a Câmara dos Deputados, em fevereiro de 2024, um projeto de lei (PL) que pedia a revogação do direito ao aborto promulgada no final de 2020. O PL da deputada do partido reacionário La Libertad Avanza, Rocío Bonacci, pretendia retroceder a legislação para antes do ultrapassado Código Penal de 1921, ao eliminar também o direito de aborto em caso de violência ou risco para a saúde da gestante.

A proposta previa pena de um a três anos de prisão para mulheres que abortassem, e pena de um a quatro anos para quem realizasse o aborto. Se houvesse morte da gestante, a pena seria de até seis anos. Profissionais de saúde que auxiliassem no procedimento, após a pena, não poderiam exercer a função profissional pelo dobro do tempo da pena. Milei apoiou diretamente o projeto em uma publicação no X em março deste ano.

O PL foi derrotado e o porta-voz presidencial passou a dizer que a derrubada da lei não estaria mais na agenda oficial do presidente, e que o foco do seu governo será, por enquanto, buscar o controle da inflação e superávit econômico.

A socióloga Silvina Ramos diz não acreditar que o governo Milei tenha força no Congresso para derrubar a lei, por ela ter "muita legitimidade, foi muito debatida na Argentina, e a sociedade acompanhou fortemente". "O governo Milei não tem sustentação política para tentar uma derrubada da lei", diz.

•        Como funciona a lei do aborto legal

A legislação possibilita realizar um aborto seguro e gratuito até a 14ª semana de gestação pelo próprio sistema de saúde da Argentina, que garante o acompanhamentos psicológicos e sociais pré e pós-aborto. A lei também prevê o fornecimento de medicamentos contraceptivos para toda e qualquer pessoa que possa gestar.

A lei, que faz parte do escopo da saúde pública, prevê um tratamento digno em qualquer centro de saúde do Estado, e deve fornecer todas as informações necessárias, além de respeitar todas as crenças, sem discriminação e com total confidencialidade.

Qualquer pessoa a partir de 16 anos não precisa de assistência ou autorização para realizar o aborto. Entre 13 e 15 anos, a assistência ou autorização será obrigatória apenas se o procedimento não for invasivo e com risco para a saúde, como, por exemplo, o uso do medicamento misoprostol. Agora, até os 13 anos, será necessário a assistência e acompanhamento de um maior de idade, que tenha uma relação socioafetiva com a criança que realizará o procedimento.

O método mais seguro, e de disponibilidade obrigatória em todos os centros de saúde durante o primeiro trimestre de gestação, é o uso do misoprostol, com distribuição e instrução de uso gratuitas, segundo a lei. Este medicamento também pode ser tomado com a mifepristona; os dois fármacos combinados aumentam a efetividade e segurança do procedimento legal. O método alternativo ao medicamentoso é a Aspiração Manual Endo Uterina (Ameu), realizado apenas nos centros de saúde e hospitais, por ser uma intervenção cirúrgica que requer anestesia.

"Os resultados [da implementação] se mostraram muito positivos. Foram duplicados os serviços que fornecem o procedimento em todo o país [de 907 para 1.982], aumentaram as quantidades de tratamentos com misoprostol e a aprovação de comercialização da mifepristona. Tudo para oferecer serviços apropriados e de qualidade", ressalta Silvina Ramos.

A pesquisadora também ressaltou a importância dos laboratórios públicos de produção do misoprostol que existiam no país, e eram responsáveis por suprir a maior fatia do medicamento para as 24 províncias.

•        Maré verde

A chamada “maré verde”, marchas por direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, tomaram as ruas do país em 2018. Este chamado que reuniu milhares de pessoas pelo país, deu nome e inspirou outros movimentos de países latino-americanos por direito de escolha sobre o próprio corpo.

A "maré verde" refere-se aos lenços verdes usados na Argentina durante os protestos, e simboliza mulheres que lutam por equidade de gênero e direito de escolha que vivem em um continente onde três a cada quatro abortos são considerados inseguros, segundo pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A atividta Julia Martino lembra que a sanção da lei do aborto legal foi produto de um longo processo de luta coletiva das argentinas.

"As mulheres deste país estão organizadas há muito tempo, e fomos, aos poucos, conquistando direitos. Em 20 anos de atividade, a Campanha foi uma articulação fundamental para o sucesso da lei IVE, através de diversas estratégias: a apresentação do projeto de lei, o diálogo com outros movimentos como o dos direitos humanos, do sindicalismo, das juventudes e das mulheres políticas. Foi uma estratégia de comunicação e mobilização."

 

Fonte: Brasil de Fato

 

Relembre embates tensos durante debates eleitorais brasileiros

Os debates eleitorais, como o que aconteceu neste sábado, 28, às 21h, na Record entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo, costumam gerar grandes repercussões no Brasil não apenas por ser um momento de atenção às propostas, mas sobretudo também devido aos embates travados entre os postulantes.

Não chegaram a cadeirada ou soco, cenas vistas entre candidatos à sucessão na capital paulista diante das câmeras e entre auxiliares fora delas. No entanto, a história das eleições no País têm registros de tensão e tom agressivo entre concorrentes.

•        Jânio Quadros e Franco Montoro

Em 1982, por exemplo, o debate entre candidatos que disputavam o governo de São Paulo foi marcado pela tensão entre o ex-presidente Jânio Quadros (PTB) e Franco Montoro (PMDB). O peemedebista usou uma citação do ex-ministro da Fazenda do adversário, Clemente Mariani, que teria dito que foi obrigado a fazer emissões (de dinheiro) após a renúncia de Quadros, o que saiu “mais caro do que a construção de Brasília”, insinuando que o petebista era corrupto.

Montoro pediu para que o ex-presidente refutasse ou negasse a afirmação, ao que Quadros respondeu “Eu não posso refutá-la nem negá-la. Onde se encontra escrita essa informação?”. Montoro pegou o livro “Depoimento”, de Carlos Lacerda, e apontou a página sob risos.

Com ironia, Jânio Quadros respondeu: “Está dispensado porque o senhor acaba de querer citar as Escrituras, valendo-se de Asmodeu ou de Satanás. Não quero ouvi-la”. O bom humor, no entanto, se transformou em bate-boca. Montoro tentou ler os trechos enquanto o ex-presidente gritava que não queria ouvir.

O mediador Joelmir Beting precisou intervir e dar a palavra para Quadros que pediu: “O tempo é meu, e o senhor por obséquio não me mande calar a boca, guarde o seu Carlos Lacerda e durma com ele, que deve fazer-lhe bom calor”.

•        Paulo Maluf e Leonel Brizola

Outros dois famosos personagens da política nacional, Paulo Maluf (PDS) e Leonel Brizola (PDT), protagonizaram uma das maiores brigas da história no primeiro debate presidencial após a ditadura militar, em 1989. Maluf iniciou dizendo que não havia ido ao debate para “assistir baixaria” e, portanto, os candidatos eram obrigados a ter estabilidade emocional. “Quem é desequilibrado não pode ser candidato a Presidente da República”, afirmou. Brizola interrompeu pedindo aparte, o que deu início a gritaria entre os dois postulantes.

O pedetista então se referiu a Maluf como um “filhote da ditadura” que não tinha coragem de defender seus “chefes”. O adversário retrucou chamando-o de desequilibrado e acrescentando que Brizola havia passado quinze anos fora do Brasil “e não aprendeu nada”, se referindo ao tempo que o postulante esteve exilado durante o período da ditadura militar.

Já o embate entre os então candidatos Paulo Maluf e Mário Covas foi intenso na disputa pelo governo de São Paulo em 1998. O encontro teve insultos das duas partes. Maluf chamou Covas de ignorante, caloteiro e disse que o adversário não estava aprendendo nada na vida. Por outro lado, Covas afirmou que a história do adversário era de baixo nível. Em outro momento, Covas questionou Maluf sobre uma fala em que dizia ser “mais honesto que Jesus Cristo”. “O senhor pensa que tá acima de Jesus Cristo, o senhor pensa que é Deus, o senhor não se põe no seu lugar”, afirmou o candidato.

•        Marta Suplicy e Paulo Maluf

Nas eleições de 2000 para escolha do prefeito de São Paulo, o debate entre os candidatos também foi regado a bate-bocas, começando por Marta Suplicy (PT) e Paulo Maluf (PDS). O candidato acusou Marta de ser “administrativamente desqualificada” e foi interrompido pela adversária, que gritava “Eu não vou ficar ouvindo isso”. Depois do mediador interferir, Maluf deu continuidade às críticas sobre o comportamento da petista.

“A senhora já foi condenada, por ter me insultado, e vou novamente te processar, porque a senhora vai ter que tomar jeito. A senhora fica quietinha e pare de dar palpite”, disse. “Cala a boca, Maluf”, gritou a petista.

Os embates mais recentes também colecionam desentendimentos entre os postulantes, como é o caso da discussão entre os candidatos à Presidência da República em 2014 Aécio Neves (PSDB) e Luciana Genro (PSOL). Ela acusou o adversário de não ter “conexão com a realidade”. “Você que anda de jatinho, que ganha um alto salário, não conhece a realidade do povo, vocês do PSDB zombam do povo que anda de ônibus lotado, metrô lotado, vive de salário mínimo”, criticou Luciana, que completou chamando Aécio de “fanático da privatização e da corrupção”. O tucano respondeu pedindo para que ela não fosse “leviana”.

Fernando Collor teve discussão acalorada em um embate com Rodrigo Cunha durante as eleições para o governo de Alagoas em 2022. Collor pediu para que o senador explicasse porque havia indicado a namorada para um cargo na secretaria da Prefeitura de Maceió, confrontando uma fala do adversário sobre escolher pessoas para os postos de acordo com a capacidade técnica. O senador se levantou, interrompendo Collor, que gritava repetidamente “Morda os seus beiços, morda os seus beiços!”.

•        Padre Kelmon e Soraya Thronicke

Um dos debates presidenciais de 2022 também teve momentos de desentendimentos. Então candidata pelo União Brasil, a senadora Soraya Thronicke começou o embate trocando o nome do Padre Kelmon, que concorria pelo PTB. “Padre Kelson. Kelvin? Candidato padre”, ironizou. No meio de uma resposta, o chamou de “padre de festa junina”. O candidato do PTB se desentendeu também com o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O petista foi interrompido em sua fala pelo petebista e reclamou: “Não dá para debater com uma pessoa que tem o comportamento de um fariseu e se diz padre”.

•        Debate virou bangue-bangue e ringue de UFC, diz Boulos

O candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, lamentou as agressões verbais que sofreu em encontros anteriores e os episódios de violência física que marcaram debates ao longo da corrida eleitoral.

"A última vez que eu tive de passar por detector e por revista foi quando eu fui na arquibancada da Arena do Corinthians. Dei sorte", brincou.

Boulos também disse esperar que os outros candidatos "respeitem quem vai estar assistindo ao debate, quem vai estar querendo escolher seu voto e ouvir sobre propostas para a cidade num sábado à noite, em casa". "Essas pessoas precisam ser respeitadas, o que eu vou fazer é o que eu fiz em todos os outros debates", continuou.

Para o candidato, o debate político, "com pessoas que deveriam ser civilizadas e que deveriam dar exemplo para os eleitores", virou um "bangue-bangue, um ringue de UFC". "Da minha parte, vocês acompanharam: nunca foi isso. Não agredi ninguém. Ao contrário. Fui agredido verbalmente por alguns dos candidatos com mentiras. Mesmo assim, mantive minha linha", disse.

Boulos prometeu que a reta final da campanha será com "olho no olho", percorrendo todas as regiões de São Paulo.

 

•        Trunfo de Nunes, Tarcísio é alvo de Marçal, em debate, por apoiar a reeleição do prefeito

Principal trunfo de Ricardo Nunes (MDB) para conter Pablo Marçal (PRTB), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) dividiu palanque com o influenciador numa ocasião em 2022, o chamou de "transformador de almas" e agora se vê na mira do candidato do PRTB, que diz que ele sofrerá consequências eleitorais por apoiar o prefeito.

Interlocutores de Tarcísio avaliam que as críticas de Marçal têm dois objetivos: o mais imediato é descredibilizar o governador para tentar neutralizar o papel dele como cabo eleitoral de Nunes; o segundo é tentar minar a liderança de Tarcísio na direita - com Jair Bolsonaro (PL) inelegível, o governador é apontado como candidato a presidente, cargo que Marçal abertamente cogita disputar em 2026. Tarcísio, por sua vez, repete que tentará a reeleição para o governo paulista.

Marçal declarou à TV Globo, em sabatina realizada na última quarta-feira (25), que ajudou Tarcísio "diretamente" na campanha há dois anos. Aliados do governador negam e afirmam que eles se encontraram apenas uma vez durante a campanha, quando o influenciador declarou apoio a Tarcísio em um comício organizado pela deputada estadual Dani Alonso (PL) em Marília (SP).

"Eu vim aqui para abraçar o prefeito Daniel Alonso e junto vem esse transformador de almas, essa pessoa que inspira tantos brasileiros, Pablo Marçal. Eu não esperava isso. Foi uma surpresa maravilhosa. Pablo Marçal, fiquei sabendo (que me apoia) hoje de manhã. É uma alegria muito grande", disse Tarcísio em 10 de setembro de 2022. Seus interlocutores minimizam o ato conjunto. Sublinham que o influenciador foi convidado por Dani Alonso e que o contexto era outro. A parlamentar confirmou que foi a responsável pelo convite.

Procurado por meio de assessoria, Tarcísio não quis se posicionar sobre a declaração e as críticas que o candidato do PRTB faz a ele. A assessoria de Marçal não respondeu aos contatos da reportagem.

•        'Goiabinha'

Dois anos depois, o governador justifica que Nunes foi parceiro de seu governo e que uma eventual ida do influenciador para o segundo turno favorece Guilherme Boulos (PSOL) e abre as portas para a esquerda vencer a eleição paulistana. Ele também coloca em dúvida a capacidade do candidato do PRTB de administrar a maior cidade do País.

Marçal tem adotado um discurso duplo: elogia a gestão do governador, diz que o respeita e gosta dele. Ao mesmo tempo, apelidou o chefe do Executivo paulista de "goiabinha" - verde, ou patriota, por fora e vermelho, cor associada ao comunismo, por dentro - e afirma que Tarcísio terá um problema em 2026 se continuar o atacando.

O influenciador argumenta que Tarcísio descumpriu um suposto acordo de não agressão ao citá-lo em uma propaganda eleitoral em que pedia votos para Nunes. Após ser expulso do debate do Flow na última segunda-feira, o candidato do PRTB cobrou o governador numa transmissão ao vivo nas redes sociais: "Falar em propaganda é fácil, quero ver me peitar pessoalmente".

"Existe uma tática de fazer pressão que comigo não funciona", disse Tarcísio ao podcast Inteligência Ltda. na segunda-feira, acrescentando que é uma "bobagem" Marçal acreditar que "monopoliza os princípios bolsonaristas".

Apesar das ressalvas ao influenciador, Tarcísio declarou que o apoiará se ele for para o segundo turno contra Boulos. "Marçal é uma incerteza. O Boulos é certeza de dar errado", concluiu.

Além das declarações públicas, o governador também teve atuação relevante para ajudar Nunes e neutralizar o influenciador. Ele atuou para impedir que Bolsonaro continuasse flertando com o candidato do PRTB e se reuniu com líderes evangélicos para convencê-los a apoiar o prefeito quando Marçal intensificou os acenos a esse público.

•        Mãe acusa Marçal de expor adolescente e ameaça entrar na Justiça contra candidato

A mãe de um jovem de 12 anos ameaça processar Pablo Marçal (PRTB), candidato à prefeitura de São Paulo, após a divulgação de um vídeo em que o ex-coach afirma que o adolescente não sabe escrever. A declaração do candidato foi dada em uma entrevista e publicada em cortes nas suas redes sociais.

Marçal participou de uma agenda no Morro Doce, na Zona Norte de São Paulo, e gravou o garoto escrevendo no gesso se seu braço. O vídeo foi publicado nas redes sociais.

Marçal voltou a citar o garoto em uma entrevista, em que expõe a dificuldade do menino em escrever de maneira gramaticalmente correta. O candidato usou o exemplo para falar da falta de alfabetização nas escolas.

Ao site IstoÉ, a mãe da criança, Rosana Ville, se mostrou revoltada com a ação do candidato. Ela diz não ter sido informada sobre a divulgação do vídeo e nem autorizado o uso da imagem do filho para fins eleitorais.

“Meu filho ficou em prantos depois da divulgação. Já ficavam fazendo graça com ele, agora piorou”.

“Ele não precisava ter feito isso. As crianças estão falando que meu filho é analfabeto, que é super burro. Ele não quer ir para a escola. Em nenhum momento ele pediu autorização para usar a imagem do meu filho”, reforça a mãe.

Rosana afirma que o jovem reconheceu Marçal e correu para tirar uma foto com o candidato assim que o viu no local. Ela conta que o garoto tem dificuldade de aprendizado devido a um transtorno de ansiedade e déficit de atenção, além de um possível diagnóstico de transtorno do espectro autista.

“Eu recebi esse vídeo quando eu estava dirigindo, e quase bati o carro. Me deu um impacto tão forte. Aquilo acabou comigo”, afirma.

“Meu filho me mandou um áudio chorando. Ele não precisava ter feito isso. Ele só queria uma foto”, completa.

O advogado Vladmir da Mata Bezerra, que representa Rosana, informou que entrará com uma noticia-crime contra o candidato na Justiça Eleitoral. Além disso, ele pretende acionar a Justiça Criminal pelo uso indevido da imagem da criança, com base no Estatuto da Criança e do Adolescente.

 

Fonte: Agencia Estado/O Dia/Terra/IstoÉ

 

O que esperar de Hezbollah, Israel e Irã após morte de Hassan Nasrallah?

assassinato de Hassan Nasrallah por Israel, o líder de longa data do Hezbollah, representa uma grande escalada na guerra entre o país e o grupo militante libanês.

Os acontecimentos dos últimos dias aproximaram ainda mais o Oriente Médio de um conflito muito mais amplo e ainda mais prejudicial, que envolve tanto o Irã quanto os Estados Unidos.

Os ataques israelenses contra alvos do Hezbollah continuaram ao longo deste sábado (28/9), com as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmando terem matado mais uma figura da liderança do grupo libanês.

Mas o que pode acontecer daqui para frente?

A resposta para essa pergunta depende, em grande parte, de outras três questões básicas.

·        O que esperar do Hezbollah?

O Hezbollah está se recuperando após sofrer um golpe atrás do outro.

Sua estrutura de comando foi decapitada, com mais de uma dúzia de comandantes de alto escalão assassinados. Suas comunicações foram sabotadas com as detonações chocantes de seus pagers e walkie-talkies, e muitas de suas armas foram destruídas em ataques aéreos.

"A perda de Hassan Nasrallah terá implicações significativas, potencialmente desestabilizando o grupo e alterando suas estratégias políticas e militares no curto prazo", diz o analista de segurança do Oriente Médio baseado nos EUA Mohammed Al-Basha.

Mas qualquer expectativa de que esta organização veementemente anti-Israel desista de repente e busque a paz nos termos de Israel está provavelmente equivocada.

Na manhã deste domingo (29/9), as forças de Israel afirmaram ter identificado mísseis cruzando do Líbano para Israel, que dizem ter caído em áreas abertas.

O Hezbollah já prometeu continuar em sua luta. O grupo ainda tem milhares de combatentes, muitos deles veteranos recentes de combate na Síria - e todos eles parecem estar exigindo vingança.

A organização libanesa ainda tem um arsenal substancial de mísseis, com muitas armas de longo alcance e guiadas com precisão que podem atingir Tel Aviv e outras cidades israelenses.

Certamente haverá pressão dentro das fileiras do Hezbollah para usá-las em breve, antes que também sejam destruídas.

Mas se o grupo de fato decidir usar essas armas, em um ataque em massa que sobrecarregue as defesas aéreas de Israel e mate civis, a resposta de Israel provavelmente será devastadora, causando estragos na infraestrutura do Líbano ou até mesmo se estendendo ao Irã.

·        O que esperar do Irã?

O assassinato de Hassan Nasrallah é um golpe tanto para o Irã quanto para o Hezbollah. Teerã anunciou cinco dias de luto após a morte do líder do grupo libanês.

O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, disse que o ataque "não ficará sem vingança".

Segundo Khamenei, a ofensiva contrária a Israel se tornará "ainda mais poderosa".

Ele disse ainda que, embora a frente de resistência tenha perdido um "porta-estandarte notável" e o Líbano tenha perdido um "líder incomparável", o Hezbollah se tornará mais forte.

O país, porém, tomou uma série de precauções de emergência, como esconder Ali Khamanei caso ele também seja alvo de tentativas de assassinato.

O Irã ainda não retaliou pelo assassinato em julho do líder político do Hamas Ismail Haniyeh em Teerã, um golpe que foi considerado uma grande humilhação para o país, segundo especialistas.

Mas os últimos acontecimentos devem fazer com que os membros linha-dura do regime iraniano contemplem algum tipo de resposta.

O Irã tem uma galáxia inteira de milícias aliadas fortemente armadas ao redor do Oriente Médio, que compõem o chamado "Eixo da Resistência".

Além do Hezbollah e do Hamas, o eixo é formado pelos houthis no Iêmen e vários grupos na Síria e no Iraque. O Irã poderia muito bem pedir a esses grupos que intensificassem seus ataques às bases israelenses e americanas na região.

Mas qualquer que seja a resposta escolhida pelo Irã, o país provavelmente calibrará seus cálculos para que suas consequências parem pouco antes de desencadear uma guerra que não pode esperar vencer.

Nenhum dos lados quer uma guerra regional em grande escala, mas ao mesmo tempo ninguém quer parecer fraco.

·        O que esperar de Israel?

Se ainda restavam dúvidas antes da morte de Hassan Nasrallah, elas provavelmente desapareceram agora.

Israel claramente não tem intenção de pausar sua campanha militar para o cessar-fogo de 21 dias proposto por 12 nações, incluindo seu aliado mais próximo, os Estados Unidos.

Os ataque aéreos israelenses continuam neste domingo, com mais alvos do Hezbollah na mira.

As IDF afirmaram ter matado outra figura de liderança do Hezbollah no sábado. Segundo os militares israelenses, Nabil Qaouk, chefe do conselho de segurança preventiva do Hezbollah e membro-chave do seu conselho central, foi morto por caças.

Neste domingo, Israel afirmou ainda que atingiu "dezenas" de alvos do Hezbollah durante a noite. Segundo a imprensa libanesa, pelo menos 15 pessoas foram mortas

Israel acredita ter o Hezbollah na defensiva agora, o que provavelmente significa que vai querer continuar com sua ofensiva até que a ameaça que os mísseis do grupo libanês representam seja removida.

Mas a menos que o Hezbollah ceda - o que é improvável - é difícil imaginar como Benjamin Netanyahu pode atingir seus objetivos em relação ao grupo sem uma operação por terra.

As IDF divulgaram imagens de um treinamento da sua infantaria perto da fronteira para esse propósito.

Mas o Hezbollah também passou os últimos 18 anos, desde o fim da última guerra, treinando para lutar na próxima.

Em seu último discurso público antes de sua morte, Nasrallah disse a seus seguidores que uma incursão israelense no sul do Líbano seria, em suas palavras, "uma oportunidade histórica".

Para as IDF, entrar no Líbano seria relativamente fácil. Mas sair poderia - como acontece em Gaza - levar meses.

 

¨      O dilema do Irã em se envolver ou não em disputa do aliado Hezbollah com Israel

Muitos conservadores linha-dura do Irã estão ficando preocupados com a falta de atitude do país, à medida que Israel ataca o grupo armado libanês Hezbollah, seu aliado mais próximo e de longa data.

Quando o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, discursou na Assembleia Geral da ONU na terça-feira (24/9), ele criticou a guerra de Israel em Gaza e alertou que os ataques ao Líbano não poderiam ficar sem resposta.

Mas Pezeshkian, eleito em julho, adotou um tom mais conciliador do que seus antecessores linha-dura, evitando a retórica voltada para a aniquilação do arqui-inimigo da República Islâmica.

"Buscamos a paz para todos, e não temos intenção de entrar em conflito com nenhum país", ele declarou.

O presidente também anunciou a disposição do seu governo de retomar as negociações nucleares com as potências ocidentais, dizendo: "Estamos prontos para interagir com os participantes do acordo nuclear de 2015".

Outras autoridades iranianas de alto escalão e comandantes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) também estavam sendo excepcionalmente contidos ao manifestar suas intenções de se vingar de Israel pelas ações contra seu país e seus principais aliados, o Hamas e o Hezbollah.

Mas o ataque de Israel nesta sexta-feira (27/9) que matou o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, pode mudar o cenário.

O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, disse que o ataque "não ficará sem vingança".

Segundo Khamenei, a ofensiva contrária a Israel se tornará "ainda mais poderosa".

Ele disse ainda que, embora a frente de resistência tenha perdido um "porta-estandarte notável" e o Líbano tenha perdido um "líder incomparável", o Hezbollah se tornará mais forte.

·        Relação entre Irã e Hezbollah

O Irã armou, financiou e treinou o Hamas e o Hezbollah, mas os líderes de Teerã contam com o Hezbollah como um importante meio de dissuasão para impedir ataques diretos de Israel ao seu país.

O apoio iraniano tem sido fundamental para a transformação do Hezbollah na força armada e ator político mais poderoso do Líbano desde que o IRGC ajudou a fundar o grupo na década de 1980.

O Irã é o principal fornecedor das armas que o Hezbollah pode usar contra Israel, especialmente mísseis avançados e drones, e os EUA já alegaram anteriormente que o país também disponibiliza cerca de US$ 700 milhões em fundos anualmente.

Na semana passada, Mojtaba Amani, embaixador do Irã no Líbano, ficou gravemente ferido quando seu pager explodiu na embaixada em Beirute. Outros milhares de pagers e walkie-talkies usados por membros do Hezbollah também explodiram em dois ataques que mataram 39 pessoas no total.

O Irã culpou Israel, mas não fez nenhuma ameaça pública imediata de retaliação.

Em contrapartida, quando Israel atacou o consulado iraniano em Damasco, capital da Síria, em abril, matando oito comandantes de alto escalão das Forças Quds do IRGC, o Irã respondeu rapidamente lançando centenas de drones e mísseis contra Israel.

O Irã também prometeu retaliar depois de culpar Israel pelo assassinato do líder político do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerã, no fim de julho, embora ainda não tenha anunciado nenhuma operação.

Um ex-comandante do IRGC disse à BBC que ameaçar Israel repetidamente, sem cumprir as ameaças, estava prejudicando ainda mais a credibilidade da força entre seus apoiadores dentro do Irã e seus representantes no exterior.

Na segunda-feira (23/9), o presidente Pezeshkian disse a membros da imprensa americana, em Nova York, que Israel estava tentando atrair o Irã para uma guerra.

"O Irã está pronto para aliviar as tensões com Israel e depor as armas, se Israel fizer o mesmo", ele insistiu.

Alguns conservadores linha-dura próximos ao líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, criticaram o presidente por falar em aliviar as tensões com Israel, afirmando que ele deveria reconhecer sua posição e evitar dar entrevistas ao vivo.

Pezeshkian deveria participar de uma coletiva de imprensa em Nova York na quarta-feira (25/9), mas ela foi cancelada. Não ficou claro se ele foi forçado a cancelar por causa de seus comentários.

No Irã, o poder está nas mãos do aiatolá Khamenei e do IRGC. São eles que tomam as principais decisões estratégicas, e não o presidente.

Barak Ravid, um jornalista israelense do site de notícias americano Axios, informou na terça-feira que duas autoridades israelenses e diplomatas ocidentais indicaram que o Hezbollah estava pedindo ao Irã que ajudasse o grupo a atacar Israel. As autoridades israelenses afirmaram que o Irã havia dito ao Hezbollah que "o momento não é adequado", segundo Ravid.

Na semana passada, o apresentador do programa iraniano de televisão Maydan, conhecido por ter vínculos com o IRGC, citou fontes da inteligência iraniana afirmando que Israel também "havia realizado uma operação especial no mês passado, matando membros do IRGC e roubando documentos".

Ele afirmou que a imprensa iraniana havia sido proibida de noticiar o incidente, que supostamente aconteceu no interior do Irã, e que as autoridades estavam tentando controlar a narrativa.

Em resposta, a agência de notícias Tasnim, que também é ligada ao IRGC, negou as alegações.

A República Islâmica se encontra em uma situação precária. O país teme que um ataque a Israel possa provocar uma resposta militar dos EUA, arrastando o país para um conflito mais amplo.

Com uma economia estagnada devido às sanções dos EUA e à contínua turbulência interna, um potencial ataque dos EUA contra o IRGC poderia enfraquecer ainda mais o aparato de segurança do regime, encorajando possivelmente os opositores iranianos a rebelarem mais uma vez.

No entanto, se o Irã se abster de intervir diretamente no conflito do Hezbollah com Israel, corre o risco de enviar um sinal a outras milícias aliadas na região de que, em tempos de crise, a República Islâmica pode priorizar sua própria sobrevivência e interesses, em detrimento dos delas.

Isso poderia enfraquecer a influência e as alianças do Irã em toda a região.

 

¨      'Com ataque a Beirute que matou líder do Hezbollah, Israel deixa Ocidente impotente'

É hora de parar de falar sobre o Oriente Médio estar à beira de uma guerra muito mais séria. Após o devastador ataque israelense que matou o líder do Hezbollah Hassan Nasrallah, parece que a região já foi arrastada para esse cenário.

A série de explosões que atingiram Beirute na noite de sexta-feira (27/9) e na manhã deste sábado (28) foi uma das mais poderosas ouvidas em qualquer uma das guerras do Líbano, me relatou uma amiga que está na cidade.

A morte de Nasrallah foi confirmada pelo Hezbollah em um comunicado, no qual o grupo também prometeu "continuar sua luta" contra Israel e seu apoio contínuo a Gaza e Palestina, defendendo "o Líbano e seu povo firme e honrado".

Segundo os militares israelenses, outros comandantes do Hezbollah também foram mortos durante o que foi descrito como um “ataque direcionado” à sede do grupo em Dahieh, um subúrbio da capital libanesa.

Mas esse não foi o último bombardeio de Israel na sexta. Os militares israelenses anunciaram que continuariam atacando alvos do Hezbollah e as explosões continuaram na manhã deste sábado, com registros de fumaça no céu de Beirute.

Durante a sexta-feira, antes dos ataques, havia esperanças, embora tênues, de que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estivesse pelo menos considerando discutir uma proposta de cessar-fogo de 21 dias. Ela veio dos EUA e da França e foi apoiada pelos aliados ocidentais mais significativos de Israel.

Mas em um discurso tipicamente desafiador e por vezes agressivo na Assembleia Geral da ONU em Nova York, Netanyahu não falou sobre diplomacia.

Ele disse que Israel não tinha escolha a não ser lutar contra inimigos selvagens que buscavam sua aniquilação. O Hezbollah seria derrotado — e haveria vitória total sobre o Hamas em Gaza, o que garantiria o retorno dos reféns israelenses, afirmou.

Longe de serem "cordeiros levados ao abate" — uma frase às vezes usada em Israel para se referir ao Holocausto nazista — Israel estava vencendo, disse ainda Netanyahu.

O enorme ataque em Beirute registrado pouco depois de ele terminar seu discurso foi um sinal ainda mais enfático de que uma trégua no Líbano não está na agenda de Israel.

Seria viável que o ataque tivesse sido programado para dar sequência às ameaças de Netanyahu de que Israel poderia, e iria, atingir seus inimigos, onde quer que estivessem.

O Pentágono, o departamento de defesa dos EUA, disse que não recebeu nenhum aviso prévio de Israel sobre o ataque.

Uma foto divulgada pelo gabinete do primeiro-ministro em Jerusalém mostrou Netanyahu cercado por equipamentos de comunicação no que parecia ser seu hotel na cidade de Nova York. Segundo a legenda da imagem, trata-se do momento em que ele autorizou o ataque a Beirute.

O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, defendeu as soluções para o Oriente Médio nas quais vem trabalhando por meses. Ele disse que ainda havia espaço para negociação - uma afirmação que parece vazia.

Os americanos têm poucas vantagens para usar contra qualquer um dos lados dessa disputa.

Eles não podem, por lei, falar com o Hezbollah e o Hamas, pois classificam os grupos como organizações terroristas estrangeiras. Com as eleições nos EUA a apenas algumas semanas de distância, a Casa Branca está ainda menos propensa a pressionar Israel do que no ano passado.

Vozes poderosas no governo e no Exército de Israel já queriam ter atacado o Hezbollah nos dias após os ataques do Hamas em outubro de 2023. Eles argumentaram que poderiam dar um golpe decisivo em seus inimigos no Líbano.

Os americanos os persuadiram a não seguir esse caminho naquele momento, argumentando que os problemas que tal ação poderia causar na região compensavam qualquer benefício potencial de segurança para Israel.

Mas, no decorrer do último ano, Netanyahu adquiriu o hábito de desafiar os desejos do presidente Joe Biden sobre a maneira como Israel deve atuar no conflito.

Apesar de fornecer a Israel as aeronaves e bombas usadas no ataque a Beirute, o presidente Biden e sua equipe foram meros espectadores de tudo que aconteceu.

A política do líder americano no último ano, como um apoiador vitalício de Israel, foi tentar influenciar Netanyahu mostrando solidariedade e apoio, entregando armas e proteção diplomática.

Biden acreditava que poderia persuadir Netanyahu não apenas a mudar a maneira como Israel estava agindo — o presidente americano disse repetidas vezes que o país estava impondo muito sofrimento e matando muitos civis palestinos — mas a aceitar um plano americano para o futuro que se baseava na criação de um Estado palestino independente ao lado de Israel.

Netanyahu rejeitou a ideia de imediato e ignorou o conselho de Joe Biden.

Após o ataque a Beirute, Blinken repetiu seu argumento de que uma combinação entre dissuasão e diplomacia havia evitado uma guerra mais ampla no Oriente Médio. Mas, à medida que os eventos fogem do controle dos EUA, ele está cada vez menos convincente.

Grandes decisões estão por vir. Primeiro, com ou sem Nasrallah, o Hezbollah terá que decidir como usar seu arsenal de armas restante. Eles tentarão organizar um ataque muito mais pesado contra Israel? O grupo pode entender que, se não usar seus foguetes e mísseis que ainda estão armazenados, Israel vai causar ainda mais destruição do seu lado da fronteira.

Os israelenses também devem tomar decisões com consequências importantes. Já se fala sobre uma operação terrestre contra o Líbano e, embora ainda não tenha mobilizado todas as reservas de que pode precisar, uma invasão está na agenda de Israel.

E alguns no Líbano acreditam que, no caso de uma guerra terrestre, o Hezbollah poderia anular algumas das forças militares de Israel.

Diplomatas ocidentais, entre eles os aliados mais fiéis de Israel, esperavam acalmar as coisas, instando Israel a aceitar uma solução diplomática.

Eles agora observarão os eventos com consternação e também com uma sensação de impotência.

 

Fonte: BBC News