quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Chegou a hora do comércio de grãos sem dólar dentro do BRICS, diz especialista

A expansão do BRICS, grupo que reúne as principais economias em desenvolvimento, poderia se tornar uma plataforma para um mercado de cereais autossuficiente e livre do dólar americano, dizem os economistas.

O BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) recentemente adicionou os importadores líquidos de grãos Egito, Etiópia, Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos (EAU) em 2024, quase igualando a produção e o consumo de grãos essenciais dentro do grupo.

Nestas circunstâncias, a associação pode criar a sua plataforma comercial própria e negociar seus cereais dentro do grupo sem utilizar o dólar americano, é o que observa uma carta da União Russa de Exportadores de Cereais ao Ministério da Agricultura da Rússia, divulgada pela mídia russa.

De acordo com estimativas da União Russa de Exportadores de Cereais, os cinco países do BRICS no final de 2023 produziram um total de 1,17 bilhão de toneladas de cereais por ano (42% da produção mundial) e consumiram 1,1 bilhão de toneladas (40% do consumo mundial). Após a expansão, a produção de grãos do grupo atingirá 1,23 bilhão de toneladas por ano (44% do mundo), e o consumo vai se aproximar da produção, ou seja, 1,22 bilhão de toneladas (também 44%).

"Estatisticamente, é verdade que 25% do comércio de trigo é trigo russo", disse Vladimir Petrichenko, CEO da empresa analítica ProZerno, à Sputnik. "Da mesma forma, mais de 25% do comércio de milho é de milho brasileiro. Além disso, se falarmos de soja, então, cerca de 58% do comércio mundial é de soja brasileira. Ao mesmo tempo, a China é o maior comprador de milho e trigo, o Egito é o maior comprador de trigo, embora em menor grau; mas compram trigo da mesma forma que a China, 12 milhões de toneladas por ano. Agora se soma a Arábia Saudita, principal comprador de cevada. Mas ainda assim, os principais produtos são o trigo, o milho e a soja. E para todos eles, principalmente considerando aqueles que aderiram em janeiro, este é um mercado enorme."

Os países do BRICS representam uma grande parte e, em alguns casos, mais de metade do mercado destes produtos agrícolas, destacou o especialista. "Resumindo, esta fruta está madura para ser colhida", sublinhou Petrichenko.

·        Bolsa de grãos do BRICS

Na carta ao ministério, o presidente da União Russa de Exportadores de Cereais, Eduard Zernin, argumentou que estes desenvolvimentos criam as condições prévias para a formação de uma "bolsa de cereais" do BRICS. Ele acredita que a Rússia poderia desempenhar "o papel de fornecedor de último recurso", ao qual "outros exportadores líquidos poderão aderir mais tarde".

"Temos pré-requisitos sérios para criar nossa própria plataforma de negociação com liquidações em qualquer uma das moedas dos países do BRICS e, no futuro, em uma moeda de compensação especial na Rússia ou em um dos países com um sistema financeiro forte e uma moeda livremente conversível além do dólar", argumentou Zernin.

A iniciativa governamental de criar uma bolsa coletiva de grãos não seria suficiente, é necessária também a participação comercial dos operadores dos mercados de grãos e oleaginosas, segundo Petrichenko.

"A criação de uma bolsa não é, em muitos aspectos, inteiramente uma questão governamental. Ou seja, é criada por operadores comerciais. Portanto, deve haver um trabalho conjunto entre operadores estatais e não estatais. Se olharmos para a bolsa chinesa de Dalian, a sua influência na precificação nos mercados é insignificante, embora o faturamento lá seja muito grande", explicou o especialista, expressando otimismo com as perspectivas do empreendimento.

Tendo abandonado o dólar americano, o grupo precisaria escolher uma moeda de compensação adequada, continuou o especialista.

"Outro ponto-chave é a parte de compensação. Ou seja, como será o centro de compensação, onde estará e, o mais importante, em que moeda serão feitas as prestações de conta", disse Petrichenko.

·        Ocidente jogará areia nas engrenagens do BRICS?

Segundo Petrichenko, haverá uma resistência muito forte a este processo por parte dos países designados pela Rússia como "hostis" na sequência da onda de sanções sobre a operação militar especial de Moscou na Ucrânia. Os principais países ocidentais e os seus satélites tentaram paralisar o comércio de energia e de cereais da Rússia, em uma tentativa de fazer a economia do país explodir. No entanto, esse truque não funcionou.

"[A Rússia] já deslocou consideravelmente os EUA e a União Europeia [UE] no mercado do trigo", observou o especialista. "O Brasil pressionou muito os EUA no mercado de milho. Pelo menos agora o Brasil exporta mais milho que os Estados Unidos. E no mercado de soja, o Brasil é o número um há muito tempo. Portanto, haverá resistência e sabotagem muito fortes por parte dos exportadores vocalmente hostis."

Ele espera que o processo de "redistribuição dos mercados" não seja fácil. Ainda assim, é provável que os EUA e a UE vejam a sua cota global substancialmente diminuída no futuro, segundo Petrichenko.

"Neste momento parece difícil imaginar, dado que os principais operadores nestes mercados são empresas transnacionais com sede nos EUA e na UE. Ou seja, apesar de tudo, existem intervenientes neste mercado — empresas transnacionais. Elas representam um 'contingente hostil' para o BRICS e especialmente para a Rússia", concluiu o especialista.

 

Ø  Boicote só para os outros: EUA retomaram a importação de petróleo russo após 17 meses, apontam dados

 

Os EUA importam petróleo russo desde abril de 2022. As importações totalizaram 36,8 mil barris em outubro e 9,9 mil em novembro em transações avaliadas em US$ 2,7 milhões (cerca de R$ 13 milhões) e US$ 749,5 mil (cerca de R$ 3,5 milhões), respectivamente.

A proibição imposta pelos Estados Unidos contra a importação de petróleo, gás e outros recursos energéticos da Rússia teve início em março de 2022, como parte das sanções relacionadas à operação especial militar russa.

No entanto, licenças emitidas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, sigla em inglês) do Departamento de Tesouro dos EUA tornaram possíveis as importações.

De acordo com dados norte-americanos avaliados pela Sputnik, os Estados Unidos compraram petróleo russo para consumo próprio em outubro e novembro.

No período, o barril de petróleo sofreu variação nos preços, ou seja, custou aos Estados Unidos US$ 74 (cerca de R$ 360) em outubro e US$ 76 em novembro (cerca de R$ 370). Os valores pagos estavam significativamente acima do "limite de preço" estabelecido pelos norte-americanos, US$ 60 (cerca de R$ 292) por barril.

Representação de um campo de petróleo - Sputnik Brasil, 1920, 25.12.2023

Em 2022, os EUA, juntamente com outros países do G7, da União Europeia, Suíça e Austrália impuseram um "teto" no preço do petróleo russo para reduzir os rendimentos de Moscou. Além disso, as empresas desses países foram proibidas de fornecer serviços financeiros, seguros e transporte para o petróleo russo vendido acima do teto estabelecido.

Os preços de produtos derivados do petróleo variam por tipo. O diesel é limitado com preço de US$ 100 (cerca de R$ 487) por barril. Já o óleo combustível, com desconto, chega a US$ 45 (cerca de R$ 219) por barril.

·        Políticas petrolíferas de Biden ameaçam criar nova crise energética nos Estados Unidos, indica mídia

O Instituto de Petróleo Americano avisou que os obstáculos criados pela administração Biden à produção do hidrocarboneto nos EUA ameaçam a segurança energética do país.

As políticas da administração norte-americana de Joe Biden ameaçam provocar uma nova crise energética, apesar do crescimento da produção de petróleo e gás dos Estados Unidos, cita na quarta-feira (10) a agência norte-americana Bloomberg.

Segundo o Instituto de Petróleo Americano (API, na sigla em inglês), o principal grupo comercial do setor em Washington, a produção de petróleo dos EUA atingiu um recorde em 2023 e está a caminho de atingir novos máximos neste ano, com dividendos reais para os consumidores americanos e para o setor, mas isso é uma consequência da atividade de administrações anteriores que pode acabar, disse Mike Sommers, presidente da entidade, em uma entrevista de terça-feira (9).

"Apesar do lado positivo do aumento da produção, estamos muito preocupados com as nuvens que se formarão à frente se não adotarmos as políticas certas agora", declarou Sommers.

"Os sinais contínuos desse governo e as políticas que ele está adotando faz com que tenhamos preocupações reais de que isso esteja semeando as sementes para a próxima crise energética", advertiu ele.

O API está pressionando por uma autorização mais rápida de projetos de energia, incluindo licenças para exportar amplamente gás natural liquefeito (GNL) para todo o mundo, e mais oportunidades para buscar a produção em terras federais. Isso inclui o golfo do México, no sul do país, onde o Congresso forçou em 2023 o governo Biden a vender direitos de perfuração. Esse deverá ser o último leilão desse tipo até pelo menos 2025, quando poderá haver limites mais rígidos e menos território disponível para tais projetos.

Ao mesmo tempo, Biden está sob crescente pressão dos ativistas climáticos para bloquear projetos de petróleo e gás, considerados nocivos para um mundo em aquecimento e com a necessidade urgente de reduzir gradualmente o uso de combustíveis fósseis.

·        Após suspeita de senadora, EUA dizem que envio de combustível às Filipinas foi 'coordenado'

A Embaixada dos EUA em Manila disse que Washington entregou combustível de uma de suas bases navais no Havaí a uma instalação dentro de uma antiga base americana nas Filipinas "em coordenação com as autoridades".

O porta-voz da embaixada, Kanishka Gangopadhyay, disse que a entrega foi "uma das múltiplas remessas de combustível seguro e limpo" de uma instalação em Pearl Harbor para locais no Pacífico.

"Todos os envios de combustível à baía de Subic são conduzidos em total coordenação com as autoridades competentes do governo filipino, bem como com os nossos parceiros comerciais", disse Gangopadhyay, citado pela agência Reuters.

No entanto o porta-voz não deu detalhes sobre o tamanho do carregamento para a baía, antiga base da Marinha dos EUA no norte das Filipinas.

A senadora das Filipinas Imee Marcos — irmã do presidente filipino, Ferdinand Marcos Jr. — criticou o "silêncio inexplicável" sobre o carregamento, que, segundo ela, levantou suspeitas sobre o pré-posicionamento de suprimentos militares no país, em meio a preocupações sobre um potencial conflito em Taiwan. A senadora disse que o carregamento totalizou 39 milhões de galões de combustível.

"Subic não é um local do EDCA [sigla em inglês para Acordo Reforçado de Cooperação em Defesa], então onde no território filipino serão armazenados milhões de galões de petróleo?" indagou a parlamentar.

O EDCA, firmado entre as Filipinas e os Estados Unidos, dá acesso norte-americano a bases militares no país do Sudeste Asiático.

O presidente Marcos concedeu a Washington, no ano passado, acesso a quatro bases militares, fora os cinco locais existentes no âmbito do EDCA de 2014, em um contexto de crescente assertividade da China no mar do Sul da China e em Taiwan.

·        Taiwan pode perder sua posição na economia mundial, dizem especialistas

Especialistas alertam que Taiwan, atualmente ponto central na produção global de semicondutores, está em risco de perder sua posição na economia mundial.

O relatório "Uma rachadura no escudo de silício: o que aguarda a economia taiwanesa em 2024", revisado pela Sputnik, destaca a crescente ameaça devido à transferência de produção tecnológica e aos desafios econômicos acumulados.

A economia de Taiwan é fortemente dependente das exportações de semicondutores, sendo o centro mundial de produção desses componentes.

Em 2022, as exportações de circuitos integrados do território alcançaram a marca impressionante de US$ 184 bilhões de dólares (cerca de R$ 896 bilhões), representando quase um quarto do produto interno bruto (PIB) da ilha. No entanto, os especialistas apontam para dois grandes riscos que podem comprometer essa posição.

O relatório destaca que as complexas cadeias de abastecimento globais, essenciais para a produção de chips, têm parte significativa passando pela China.

A análise aponta dois eventos-chave que podem moldar a relação econômica entre China continental e Taiwan: o lançamento do Chip 4 — uma aliança liderada pelos EUA entre o Japão, a Coreia do Sul e Taiwan — e as eleições de janeiro de 2024 em Taiwan.

A participação ativa na aliança poderia acelerar o desenvolvimento de chips pela China e aumentar a concorrência no mercado.

No entanto, as eleições presidenciais emergem como fator crítico de incerteza. A vitória dos candidatos da oposição Kuomintang e do Partido Nacional de Taiwan poderia resultar em um maior envolvimento com Pequim, possivelmente desacelerando o progresso da aliança com os americanos.

Além disso, a economia de Taiwan enfrenta desafios adicionais, incluindo a diminuição da demanda em razão do abrandamento da economia global, da aceleração da inflação, do aumento das taxas de juros e de preocupações relacionadas a mudanças climáticas e transição energética.

A demografia também surge como uma questão crítica, com uma escassez crescente de especialistas qualificados e uma rápida redução da população em idade ativa.

 

Ø  Participação do BRICS na economia global mais que dobrará em comparação com G7 até 2040, diz mídia

 

De acordo com a mídia norte-americana, o grupo BRICS — formado pelas grandes economias emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — deve superar o crescimento econômico do grupo das maiores economias do mundo dentro de pelo menos 16 anos, a contar de sua próxima expansão em 2024.

O BRICS pode levar a melhor sobre o G7 (grupo composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) até 2040 em termos de influência política e econômica, informou a Bloomberg.

"As nossas previsões sugerem que uma força de trabalho em expansão e um amplo espaço para a atualização tecnológica aumentarão a participação do BRICS [na economia global] para 45% até 2040, mais do dobro do peso do Grupo das Sete principais economias desenvolvidas", disse o meio de comunicação.

O meio de comunicação sugeriu que, graças ao seu crescimento sustentável, bem como à diversidade e às ambições, o BRICS pode desafiar com sucesso o domínio global dos EUA e eliminar o dólar como principal moeda do mundo.

A apuração destacou ainda que, se os esforços do grupo para transferir algumas transações petrolíferas para outras moedas forem bem-sucedidos, isso poderá ter "um efeito de arrastamento" na participação do dólar no comércio internacional e nas reservas cambiais globais.

Aliado ao quadro, na 15ª Cúpula do BRICS em Joanesburgo, África do Sul, em agosto, o grupo estendeu convites à Argentina, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos (EAU) e Arábia Saudita para aderirem ao bloco, trazendo ainda mais relevância à sua participação global.

O grupo enfatizou que os novos seis membros foram selecionados depois que os países do BRICS chegaram a um consenso "sobre os princípios orientadores, padrões, critérios e procedimentos do processo de expansão do BRICS". A adesão plena começará em 1º de janeiro de 2024.

O BRICS, que foi formado em 2009 e inicialmente incluía Brasil, Rússia, Índia e China, expandindo-se pela primeira vez para admitir a África do Sul em 2010. Antes do início da cúpula da África do Sul, mais de 40 países manifestaram interesse em aderir ao BRICS, com 23 solicitando formalmente a adesão.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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