3 incidentes podem tornar guerra em Gaza um conflito regional no Oriente
Médio
Três graves episódios sugerem a propagação da
guerra Israel-Hamas para um conflito regional no Oriente Médio.
O assassinato
de Saleh al-Arouri, alto dirigente do Hamas, num reduto do
Hezbollah em Beirute, atribuído
a Israel. As duas misteriosas
explosões no Irã, com 84 mortos durante as homenagens do quarto aniversário da morte
de Qassem
Soleimani, o poderoso comandante da Guarda Revolucionária. E, por fim, o
alerta de 12 países, liderados pelos EUA, aos rebeldes houthis do Iêmen,
apoiados pelo Irã, sobre os sucessivos
ataques marítimos no Mar Vermelho e no Golfo de Áden.
Os incidentes parecem conectados. Número dois
do Hamas, Arouri
atuava como um importante interlocutor e articulador do grupo
palestino com o Hezbollah e o Irã e exercia, mesmo de longe, influência na
Cisjordânia.
Seu assassinato pode institucionalizar a expansão
da guerra para os países que hospedam dirigentes do Hamas, como Líbano, Catar e
Turquia.
O governo israelense não assumiu a responsabilidade
pelo ataque em Beirute, mas o aspecto cirúrgico reflete um modus operandi
já aplicado pelo país em outros assassinatos preventivos de seus inimigos.
Desde o massacre do Hamas em solo israelense, em
outubro, seguido da invasão da Faixa de Gaza, o Hezbollah, com o
patrocínio do Irã, vem dando suporte ao grupo palestino, por meio de ataques
diários na fronteira norte de Israel.
Estima-se que o Hezbollah disponha de um arsenal de
150 mil mísseis escondidos no sul do Líbano, com capacidade infinitamente maior
do que a do Hamas.
Mas, até agora, o grupo vem calibrando a extensão
de seus ataques, limitando-se à fronteira, de forma a não arrastar o Líbano
para uma guerra. Da última vez que isso aconteceu, em 2006, as consequências
foram desastrosas para o país.
O assassinato de Arouri em território libanês tem
potencial para mudar essa estratégia do Hezbollah. As primeiras declarações do
chefe do grupo, Hassan Nasrallah, contudo, afastaram os temores de uma
retaliação imediata, dando a entender que tanto o grupo libanês quanto o Irã
não pretendem se envolver em uma guerra aberta com Israel.
O regime iraniano se apressou a apontar o dedo
para seus inimigos americanos e israelenses após as duas explosões no
memorial de Soleimani, morto há
quatro anos num ataque de drones dos EUA. A contar pelas reações em Israel,
essas especulações não são levadas a sério, mais uma vez pelo modus
operandi do ataque, que teve como objetivo uma multidão e não um alvo
específico.
Conforme atestou o analista de defesa Amos Harel,
do jornal “Haaretz”, as explosões no Irã não são obra israelense:
“Os sinais indicam um ataque do movimento Estado Islâmico ou de uma das
facções radicais da oposição muçulmana sunita. Isto não impediu as autoridades
iranianas de culpar Israel, mas as suas palavras não pareciam ter muita
convicção.”
De todas as formas, o assassinato de Arouri, no
Líbano, e o ataque terrorista no Irã agravam as tensões no Oriente Médio
e elevam as chances de extensão do conflito. O remanejamento
de forças israelenses da Faixa de Gaza sinaliza que o foco da
guerra se deslocou para o Norte do país e está mais centrado em atingir a rede
do Hamas fora do território palestino e, por consequência, seus apoiadores
do Hezbollah e do Irã.
Ø Morte do
número 2 do Hamas no Líbano eleva temores de guerra ampliada no Oriente Médio
O período sombrio que se estende por todo o Oriente
Médio desde o início da guerra
entre Israel e o Hamas ficou ainda mais profundo com o assassinato
do líder do grupo islâmico, Saleh al-Arouri, no Líbano.
Arouri, vice-líder político do Hamas, foi morto
em um ataque de drone no sul de Beirute.
Ele era uma figura-chave nas Brigadas Izzedine
al-Qassam, braço armado do Hamas, e um aliado próximo de Ismail Haniyeh, líder
máximo do grupo.
Arouri esteve no Líbano atuando como ponto de
ligação entre o Hamas e o Hezbollah.
Mesmo antes do início da guerra, após os ataques do
Hamas a Israel em 7 de outubro do ano passado, o líder do Hezbollah libanês,
Hassan Nasrallah, tinha alertado que qualquer ataque direcionado ao solo do
Líbano iria desencadear uma "resposta poderosa".
Mas o Hezbollah e seus aliados no Irã sabem que a
forma dessa resposta poderá mudar os rumos da guerra neste momento de
acirramento das hostilidades.
Não era segredo que era apenas uma questão de tempo
até que os líderes do Hamas fora de Gaza virassem alvo de Israel.
“Israel irá agir contra os líderes do Hamas onde
quer que eles estejam”, disse o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, em
novembro.
Meses antes, ele mencionou explicitamente Arouri.
Desde 2018, o vice-líder do Hamas também estava na
lista de terrorismo dos Estados Unidos com uma recompensa de U$ 5 milhões
(cerca de R$ 24,4 milhões) por sua cabeça.
Israel não costuma confirmar ou negar assassinatos,
mas este longo conflito é uma crônica de mortes seletivas. É também uma
história de retaliação e vingança.
Israel está preparado para represálias. Há ameaças
dos líderes do Hamas e de seus aliados, das ruas da Cisjordânia ocupada e de
outros lugares.
·
Mudança nos cálculos
O Hezbollah e o Hamas podem querer realizar alguma
ação para demonstrar força. A primeira declaração do Hezbollah levou tempo.
Antes deste momento, esse grupo militar e político,
consideravelmente bem armado, tinha tentado limitar seu envolvimento a uma
guerra de palavras, bem como a ataques limitados ao longo da sua fronteira sul
com Israel.
O Hezbollah agira dessa forma para evitar arrastar
o Líbano para outro conflito armado com Israel.
O assassinato de uma liderança do Hamas, que era
uma ligação fundamental ao Hezbollah e ao Irã, em um dos seus redutos nos
subúrbios do sul de Beirute, abalou os seus cálculos.
Mas o Hezbollah deve evitar grandes ataques em um
curto prazo, em comparação com o seu jogo de longo prazo.
O apoio da população ao Hezbollah ao longo da
fronteira sul do Líbano é forte. Mas, em Beirute e em outros pontos do país, as
memórias da devastadora guerra entre Israel e Líbano, em 2006, ainda estão
vivas em um país que agora se recupera de múltiplas crises internas.
Também não é segredo que importantes figuras
israelenses há muito tempo pressionam o governo para maximizar a oportunidade
de erradicar as ameaças do Hezbollah às suas comunidades do norte do país.
Mas Israel tem sido categórico desde o início: seu
objetivo de guerra é "destruir o Hamas". Isso significa ir atrás da
infra-estrutura do grupo, dos líderes militares e políticos, além de suas
finanças.
Quase três meses depois do início da guerra, Israel
admite que ainda há um longo caminho a percorrer.
Muitos inimigos do país, bem como aliados,
questionam se o Hamas pode ser destruído por meio do poderio militar e de uma
campanha que causou um número impressionante de mortes de civis e de uma
terrível catástrofe humanitária em Gaza.
Acredita-se que os mentores das atrocidades
cometidas pelo Hamas em 7 de outubro no sul de Israel, incluindo Yahya Sinwar,
ainda se encontram escondidos em Gaza, apesar da caçada humana empreendida
pelas forças de Israel.
A morte de Arouri no Líbano também pode causar
preocupação na Turquia e no Qatar, onde líderes do Hamas também estão baseados,
acreditando que nesses locais estão mais seguros.
A ação também pode preocupar famílias israelense
com parentes que ainda são mantidos como reféns pelo Hamas em Gaza.
Uma das primeiras vítimas deste assassinato foi a
interrupção do diálogo direto no Cairo, no Egito, sobre outra troca de reféns
por palestinos detidos em prisões israelenses
O primeiro-ministro Netanyahu continua insistindo
que "só a pressão funcionará".
Ø Como
assassinato de general do Irã está ligado a outras 300 mortes
No dia 4 de janeiro de 2020, o general Qassem Soleimani, então
comandante da unidade de elite da Guarda Revolucionária do Irã, fazia uma visita
ao Iraque quando foi morto em um ataque de
drone executado pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e ordenado pelo então
presidente norte-americano, Donald Trump.
Soleimani era uma das figuras mais importantes no
Irã. Além de liderar as Forças Al-Quds, a tropa de elite da Guarda
Revolucionária do Irã, ele era o responsável pela política externa militar do
Irã, que apoia e financia outros grupos no Oriente Médio, como o Hamas e o
Hezbollah.
A morte de Soleimani gerou uma onda de revolta no
Irã, onde ele era considerado um herói pelo governo e parte da população. O
aiatolá Ali
Khamenei, o líder máximo do Irã, chegou a decretar luto nacional de três dias na
ocasião.
No entanto, três eventos ligados indiretamente à
morte de Soleimani causaram a morte de mais de 300 pessoas.
- Morreram 56 em
um tumulto no velório de Soleimani
- Morreram 176 na
queda de um avião que havia acabado de decolar de Teerã.
- Morreram 84 em
um evento para lembrar quatro anos da morte de Soleimani.
>>>> Mortes em velório
O velório de Soleimani aconteceu na cidade de
Kerman. Centenas de milhares de pessoas foram ao evento.
No começo da procissão, a multidão começou a se
acotovelar e empurrar. Pelo menos
84 morreram e 211 foram feridas, segundo serviços de emergência do Irã.
A procissão acontecia em uma via estreita, e as
ruas paralelas estavam fechadas. As pessoas não tinham para onde fugir quando
começou a confusão.
·
Queda de avião
No dia 8 de janeiro de 2020, quatro dias após a
morte de Soleimani, um avião Boeing 737-800 de uma companhia aérea ucraniana
caiu pouco depois de decolar do aeroporto de Teerã, capital do Irã, com 176
pessoas a bordo. Ninguém sobreviveu.
Inicialmente, o governo do Irã afirmou que o Boeing
tinha caído por problemas da aeronave.
Nos dias após a morte de Soleimani, o Irã atacou
bases militares dos EUA no Iraque. Os iranianos então estavam esperando um
ataque das forças americanas e estavam monitorando o espaço aéreo para derrubar
mísseis.
O Irã acabou confessando, dias depois, que seus
próprios militares haviam derrubado o avião em Teerã.
No comunicado em que assumiam a culpa, os militares
iranianos disseram que o avião "estava na posição e altitude de um alvo
inimigo" e que estava perto de uma base da Guarda Revolucionária.
"Nessas condições, por causa de um erro humano", o avião "acabou
virando alvo".
Na época, os militares afirmaram que iriam fazer
mudanças na corporação para evitar um erro como esse novamente.
·
Explosões em evento de quatro anos da morte de Soleimani
No Irã, duas explosões matam pelo menos 95 pessoas
e deixam mais de 200 feridos
Na quarta-feira (3) houve um evento na cidade de
Kerman, onde Soleimani está enterrado, para lembrar os quatro anos da morte do
general.
Em uma rua a caminho do cemitério onde o corpo de
Soleimani houve duas explosões. Juntas, elas mataram mais de 95 pessoas que
estavam em uma procissão. Outras 211 ficaram feridas, segundo serviços de
emergência do Irã.
As explosões ocorreram com um intervalo de 20
minutos entre elas.
O governo iraniano chamou a explosão de
"atentado terrorista" e disse se tratar de um ataque suicida cometido
por pessoas que estavam no meio da multidão.
Ø Estado
Islâmico assume responsabilidade sobre ataque que matou 84 no Irã
O grupo terrorista Estado Islâmico assumiu nesta
quinta-feira (4) a autoria do ataque que levou à morte de 84 pessoas durante
uma caminhada na cidade de Kerman, no Irã.
A mensagem foi transmitida em um canal dos
terroristas no Telegram.
O ataque, na quarta-feira (3), se deu por meio de
duas explosões contra um grupo de pessoas que faziam uma procissão para o
túmulo de Qassem Soleimani, o general iraniano morto por um ataque com drone
dos Estados Unidos em 2020. Além das 84 mortes, houve 211 feridos, segundo
serviços de emergência do Irã.
Kerman fica a cerca de 820 quilômetros da capital
Teerã.
A primeira explosão, segundo o serviço de
emergência de Kerman, aconteceu a cerca de 700 metros do túmulo do general
iraniano. Já a segunda explosão ocorreu minutos depois, em um ponto mais
afastado e perto das primeiras equipes de emergência que já haviam chegado,
ainda de acordo com as autoridades locais.
Ainda na quarta, logo após o ataque, o líder
supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, não nomeou culpados, mas afirmou que o
ataque foi feito por "inimigos malignos e criminosos da nação
iraniana".
"Os inimigos malignos e criminosos da nação
iraniana criaram mais uma vez uma tragédia e martirizaram um grande número do
nosso querido povo em Kerman, na atmosfera perfumada dos túmulos dos mártires
em Kerman", declarou, em comunicado.
Não foi o primeiro ataque reivindicado pelo Estado
Islâmico no Irã. Em 2022, o grupo terrorista assumiu um ataque que matou 15
pessoas num santuário xiita.
Fonte: g1/BBC News Brasil

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