quarta-feira, 30 de abril de 2025

"Estão sendo criados dossiês sobre os cardeais reformistas para chantageá-los e adulterar o conclave," alerta jornalista

O jornalista especialista no Vaticano alerta que os setores que, na época, se opuseram ao Papa Francisco acabaram “conspirando com a extrema-direita internacional” para alinhar a Igreja com seu programa.

"Tudo o que estamos falando está publicado em meus livros, especialmente em Vaticangate", alerta Vicens Lozano, um jornalista especializado em assuntos do Vaticano que trabalhou por mais de três décadas na editoria internacional da TV3. Lozano, que descreve sem rodeios o Papa Francisco como um "líder ético e moral do século XXI", considera que as reformas que ele implementou atualizaram a Igreja, mas que podem estar em perigo dependendo do que acontecer no próximo conclave.

O escritor foi um dos primeiros a descrever em detalhes a guerra interna que os setores mais ultraconservadores da Cúria estavam travando contra Bergoglio e, em sintonia com isso, agora alerta para o que afirma ser uma tentativa de "manipular" a eleição do novo Papa.

>>>> Eis a entrevista.

•        O Papa Francisco entrará para a história como um papa revolucionário?

Acho que ele nunca foi revolucionário. Também nunca foi um Papa vermelho nem comunista, apesar dos insultos nesse sentido que lhe foram dirigidos pela extrema-direita e pela ala mais tradicional da Igreja. Acredito que ele tenha sido um Papa reformista, fundamentalmente reformista, no sentido de querer corrigir questões que, no fundo, talvez sejam mesmo revolucionárias em uma instituição tão ultraconservadora como sempre foi a Igreja. Pode-se defini-lo como revolucionário em termos conceituais, mas, como personagem, no sentido em que normalmente entendemos o que é ser revolucionário, não.

•        Um papa reformista, mas ele foi capaz de mudar a Igreja?

Bom, ele quebrou tabus. Sobretudo, é um Papa que abriu debates, como o da moral sexual da Igreja, e a não condenação constante dos homossexuais, por exemplo, como naquela tomada de posição em que disse "quem sou eu para julgar alguém". Também rompeu tabus em relação à mulher, porque não apenas pregou, mas também deu um papel à mulher na Igreja, embora sem chegar, obviamente, à consagração como sacerdotisas. Colocou o tema do celibato sobre a mesa. Falou sobre o divórcio. Também falou sobre o aborto, embora nesse tema tenha sido muito radical, no sentido de que a Igreja não aceita nem aceitará jamais o aborto. Mas eu acredito que ele foi um Papa que se adaptou ao século XXI e sempre tentou adaptar a Igreja ao século XXI.

•        Segundo você diz, houve temas em que ele sacudiu a Igreja, mas outras questões, como o aborto, em que a posição praticamente não mudou, certo?

Sim, em algumas questões, como todo o tema da corrupção econômica e também tudo o que está relacionado aos abusos sexuais, é verdade que ele foi muito contundente. Também na questão geopolítica, este foi um Papa que quis influenciar bastante na política internacional. Em outros temas, como você bem dizia, como o aborto, basicamente ele se manteve fiel à doutrina oficial e não se afastou dela. Agora, sempre a partir de uma perspectiva de compreensão e não de criminalização e, portanto, também introduziu alguns matizes.

•        Que matizes ele introduziu no tema do aborto?

Por exemplo, no caso de mulheres que tiveram que abortar porque foram estupradas. Ele não condena tanto a mulher quanto o estuprador, algo que pode parecer óbvio em nosso contexto, mas que dentro da Igreja nem sempre foi assim. Francisco considerou que, em casos assim, a mulher não é culpada, mesmo que a sociedade sempre tenha culpabilizado as mulheres estupradas como se elas tivessem provocado o ocorrido. Essa moral hipócrita, que impera no mundo, o Papa não quis assumir para a Igreja.

•        Bergoglio foi tão longe quanto pôde?

É preciso ter um pouco de contexto. O papa Francisco chega em um momento realmente difícil, recebe do papa Bento XVI uma herança muito conturbada, com uma Igreja mais dividida do que nunca, atravessando um autêntico câncer, que é o tema da pedofilia. Desde o início, ele se vê na obrigação de lidar com isso. Não foi fácil, mas ele foi o primeiro Papa a convocar uma cúpula sobre abusos sexuais. Eu nunca tinha visto dois cardeais chorarem no Vaticano enquanto ouviam os testemunhos dilacerantes das vítimas de pedofilia. Ele convocou essa cúpula, foi corajoso.

Outro exemplo: no primeiro sínodo da família que realizou, ele colocou sobre a mesa o fato de que, no século XXI, existem famílias que já não seguem mais o modelo clássico de homem-mulher-com-filhos, mas sim mães solteiras, viúvas que precisam cuidar dos filhos sozinhas, casais homossexuais que adotaram crianças. E esse olhar diz muito sobre um Papa que está em sintonia com uma época e com as mudanças sociais.

O que ficou faltando? Ele colocou mulheres à frente de dicastérios na Igreja, mas não realizou a consagração de mulheres como sacerdotes, como fazem outras confissões cristãs. Não quer dizer que ele não aceite, quer dizer que talvez ainda não seja o momento.

•        Há quem considere que não se poderia ir além sem arriscar uma divisão irreversível dentro da Igreja. Concorda?

Estamos falando de uma instituição que, em dois mil anos de história, passou por todo tipo de coisa: cismas, guerras, conflitos, guerras de religião, e que foi submetida a muitos altos e baixos. E superou tudo isso. É uma instituição que talvez seja a mais antiga do Ocidente.

E como ela fez isso? Nadando e guardando a roupa. Isso significa que as mudanças não podem ser repentinas. Não é a mesma coisa ser homossexual na Europa laica que ser homossexual na África, onde os homossexuais ainda são vistos como pessoas doentes, marginalizadas da sociedade. Quero dizer que a Igreja é global, não é a Igreja da Europa, nem da Espanha ou da Catalunha; é universal. E o conceito, as culturas, as maneiras de ver as coisas mudam, portanto o Papa também não pode enfrentar diretamente essas duas almas que existem dentro da Igreja, sobretudo o setor mais tradicionalista, que não aceita, nem aceitará jamais, esses avanços.

 Antes você dizia que o Papa Francisco demonstrou grande interesse pela geopolítica. Em que sentido?

Sobretudo, ele enfrentou o problema de frente, no sentido de que se encontrou com um mundo muito mudado, com a incerteza causada pela ascensão da direita mais radicalizada no mundo todo.

Faltava apenas a chegada de Donald Trump à Casa Branca, um presidente que respaldou e respalda a extrema-direita internacional. Portanto, o Papa viu a necessidade de, levando em conta os princípios do Evangelho e os princípios da justiça social, intervir.

Denunciando as bolsas de pobreza, a marginalização, as diferenças econômicas cada vez mais brutais.

Falou diretamente contra o capitalismo selvagem e especulativo e interveio muito na questão da imigração.

Além disso, fez uma encíclica belíssima com uma visão ecologista.

E isso, claro, fez com que se confrontasse com muitos setores.

•        Com quem Francisco se enfrentou?

Com o poder econômico, principalmente. Com o poder que controla e domina o mundo. E, depois, em questões concretas, com os principais líderes da extrema-direita. Por exemplo, ele se enfrentou com Donald Trump por causa de toda a questão do muro do México. Também teve polêmicas com Meloni em relação a Lampedusa e com Viktor Orbán na Hungria.

•        Por que ele gera reações tão fortes?

O papa Francisco incomodou porque foi um líder ético e moral do século XXI, um século em que já não existem líderes éticos e morais. Praticamente, desde a morte de Nelson Mandela, não existem mais. Ele foi um líder ético e moral do século XXI que se enfrentou ao poder. Uma pessoa que disse que vivemos em um mundo em guerra, em uma humanidade que constantemente resolve seus problemas com violência, e que isso precisa acabar. Estes, por sinal, são os princípios do Evangelho, não outra coisa.

•        Em seu livro, ele fala sobre uma conspiração contra o papa. Em que consiste essa conspiração?

Eu não sou fã de teorias da conspiração, mas através da investigação descobri que existe uma verdadeira conspiração, que começa em 13 de março de 2013, quando o papa Francisco assume o pontificado. Desde o início, ele não agradou por diversas razões, como o sínodo da família, as críticas iniciais ao capitalismo ou colocar os pobres no centro das preocupações da Igreja. Mas, além disso, ele se tornou uma pedra no sapato do projeto neoliberal e neofascista para o mundo. E, portanto, quem se opõe a ele? Os tradicionalistas da Igreja, cardeais e bispos espalhados pelo mundo, que, inicialmente, não aceitaram suas posições, mas também acabaram se unindo à extrema-direita internacional para tornar a vida do Papa impossível, como fizeram.

•        Como fizeram a guerra contra o papa?

Fazendo duas coisas principalmente. A primeira, tentando abortar suas reformas, colocando obstáculos constantemente através da burocracia vaticana. Toda uma série de ministros da Igreja ignoraram as ordens do Papa e as colocaram em uma gaveta. E a outra vertente foi o desprestígio da figura do papa Francisco. Essa conspiração vem principalmente dos Estados Unidos, de fundações católicas lideradas e sustentadas por magnatas católicos, que controlam os meios de comunicação e as redes sociais. Essas pessoas se opuseram ao papa Francisco de forma radical e tentaram, se não matá-lo, pelo menos desmoralizá-lo perante a opinião pública. Muitas pessoas, muitos católicos, caíram nessa armadilha.

•        Quais são os objetivos dos opositores de Francisco?

Eles querem manter a tradição de uma Igreja ultraconservadora, onde o latim continua sendo a língua da liturgia, onde a doutrina e os dogmas de fé estão acima do que é racional em um mundo que se transformou.

•        Isso em nível interno da Igreja. E em nível geopolítico?

Aqui as duas coisas coincidem. Há um interesse em que a Igreja não saia dos parâmetros nos quais sempre viveu. A Igreja sempre foi uma instituição conservadora por natureza e, portanto, pode ser um instrumento nesse projeto de regressão que as forças neopopulistas ou neofascistas querem trazer. O que eles querem? Destruir nossas liberdades, direitos sociais, direitos das minorias. Estamos falando de excluir as pessoas mais marginalizadas de nossa sociedade e impor o império de uma nova divindade chamada dinheiro. Todas essas coisas contra as quais o Papa se enfrentou.

•        Quem os principais candidatos “ultras” para suceder o Papa Francisco?

Costumo dizer que quando fazemos apostas, os jornalistas sempre erram. Mas há alguns líderes destacados. Por exemplo, o cardeal africano Robert Sarah, grande amigo da extrema-direita internacional. De fato, ele sempre foi convidado para os círculos do Vox na Espanha. Ele é uma figura que chegou a escrever um livro em coautoria com Ratzinger, com quem tentaram enganá-lo e colocá-lo como líder da oposição ao Papa quando ele era Papa Emérito. Não conseguiram, pois ele não se prestou. Embora, em privado, discordasse muito das reformas que o Papa queria implementar.

Outros líderes: Leo Burke, cardeal norte-americano, grande amigo de Donald Trump e Steve Bannon. E uma figura que não hesitou em chamar o Papa de herege, oportunista e até de usurpador do pontificado, pois a extrema-direita sempre considerou que, enquanto viveu Bento XVI, o verdadeiro Papa ainda era ele. Outro personagem, que aparece menos nas apostas, mas que eu acredito ser o verdadeiro inimigo número um, é o cardeal Gerhard Müller, que foi o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé durante o pontificado de Bento XVI. É uma pessoa que eu entrevistei para o livro Vaticangate e que me falou por uma hora e meia. Ele é cardeal, tem potencial para ser Papa e está financiado pelos grupos católicos norte-americanos que promovem a ideia de que temos um Papa herege.

•        É provável que algum desses que você mencionou seja o futuro papa? Esse perigo é real?

A possibilidade sempre existe. Existem 135 cardeais possíveis para serem Papa. Eu, particularmente, acredito que nem o grupo dos cardeais ultraconservadores, nem o grupo dos mais progressistas, são os que estão mais bem posicionados. Entre os progressistas, estaria, por exemplo, o cardeal Tagle, ex-arcebispo de Manila, e talvez o mais alinhado com Francisco, muito atento, muito simpático, comprometido com uma Igreja pobre para os pobres. Há também o cardeal italiano Zuppi, vinculado à comunidade de Sant'Egidio, uma comunidade em Roma especializada em fazer pontes para promover a paz no mundo, com uma linha reformista, e há outras candidaturas.

•        Mas você diz que nenhum dos dois extremos seria, a priori, o melhor posicionado para a sucessão.

Essa é uma aposta pessoal, arriscada, mas que baseio no fato de que o Vaticano precisa ter uma voz própria. Sempre quis ter uma. Se eles escolherem um cardeal ultraconservador como novo Papa, será uma mudança radical, que se ajustará aos novos tempos, mas será uma decepção para grande parte da comunidade católica mundial. Se escolherem um cardeal radicalmente “francisquista”, o mesmo ocorrerá, o confronto estará garantido. Por isso, acho que podem optar por um perfil semelhante ao do atual secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, um homem que esteve ao lado do Papa em suas reformas, ma non troppo. Ou seja, uma pessoa que também não fez defesa pública das reformas do Papa, mas que tem um pé no conservadorismo. Além disso, ele tem muitos amigos e pode ser uma ponte entre as duas almas da Igreja. Parolin, embora não aprofundasse as reformas propostas pelo Papa, também não as reverteria.

•        Nos últimos dias, tem se falado muito do Red Hat Report. O que é exatamente?

Há muita informação sobre isso, e embora possa parecer inacreditável, é uma realidade. Trata-se de um projeto de manipulação, impulsionado pela extrema-direita internacional, especialmente dos Estados Unidos, que viam o Papa Francisco atual como desfavorável. O resultado foi a criação de dossiês sobre a vida pessoal e íntima dos cardeais, focando nos mais reformistas, para manipulá-los, chantageá-los e, em última instância, adulterar o conclave.

•        A ideia é fazer chantagem, uma espécie de kompromat russo?

Exatamente. Eles procuram “podres no armário” dos cardeais, informações comprometedores para chantageá-los. No Vaticano, geralmente existem dois “grandes eleitores”, que representam as duas correntes da Igreja. Estes negociam e muitas vezes não buscam apoio para o próprio nome, mas fazem surgir um candidato inesperado. O Red Hat Report busca influenciar essa escolha criando biografias, muitas vezes manipuladas ou com conteúdos falsos, para fazer com que um possível candidato não se candidate ou que um eleitor dê um passo atrás, etc. De acordo com eles mesmos, o Red Hat Report teria impedido a eleição do Papa Francisco.

•        Quem financia o Red Hat Report?

Ele é financiado por fundações católicas e magnatas americanos com muito dinheiro, alinhados com a extrema-direita e o ambiente do "trumpismo". E, por sinal, também se sabe que ex-agentes do FBI e da CIA dos Estados Unidos, além do CNI espanhol, colaboraram para investigar de forma privada e obter informações.

•        Por que os Estados Unidos têm tanto interesse neste conclave?

A Igreja católica americana tem um grande potencial econômico. Atualmente, ela contribui entre 30% e 40% da receita do Vaticano. Digamos que, sem a Igreja americana, o Vaticano quebraria. E, portanto, a Igreja norte-americana usa a possibilidade de um cisma como chantagem. Considerando essa situação, a administração Trump busca um Papa alinhado com suas políticas ou, pelo menos, que não incomode tanto quanto Francisco e que não passe o tempo todo criticando sua política migratória, as deportações em massa ou as desqualificações contra os migrantes.

•        Acredita que o Papa Francisco estava ciente desse complô e que tomou medidas?

Sim, acredito. Não apenas acredito, tenho informações de boas fontes que indicam que o Papa se preparou bem, não sabemos se o suficiente, claro. Mas Francisco era um jesuíta e os jesuítas dedicam uma parte muito importante de sua formação à estratégia. Vimos um Bergoglio estrategista ao confeccionar o Colégio Cardinalício. Por exemplo, ele utilizou a idade. Colocou cardeais com mais de 80 anos, que não podem votar, em sua maioria do lado conservador, para equilibrar a Cúria. Também nomeou cardeais mais jovens e alinhados com suas reformas. Além disso, impulsionou um sínodo que é uma pesquisa internacional, para 1,4 bilhão de católicos, com perguntas sobre os problemas da Igreja e como melhorá-la, e que deve permanecer aberto até 2026. Dessa forma, garantiu que o debate continuasse após sua morte e que o próximo Papa tivesse que levar em consideração o sentir dos católicos.

•        Onde você situaria a Igreja espanhola neste mapa ideológico que traçamos?

A Igreja espanhola esteve, em sua maioria, alinhada com o setor mais tradicionalista. É importante considerar que a Igreja espanhola ainda é muito influenciada pela “cruzada” de Franco, claro, com algumas exceções. A Igreja catalã, por outro lado, foi mais aberta e crítica, pois abraçou o Concílio Vaticano II como uma esperança. No entanto, com o tempo, em grande parte, ela se tornou mais conservadora, aproximando-se da linha espanhola.

Se eu tivesse que citar um, diria que o arcebispo de Barcelona, Juan José Omella, foi um grande amigo do Papa Francisco e colaborou de forma estreita com ele nas reformas. E isso, apesar de ser difícil encaixá-lo na linha progressista. Na verdade, ele não se encaixa, mas, no entanto, esteve ao lado do Papa e o aconselhou nas reformas. Dentro da Igreja espanhola, ele estaria, sim, no grupo dos reformistas.

 

Fonte: Entrevista com Vicens Lozano, para Arturo Puente, no El Diario

 

Liberdade de expressão não convive com Estados ditatoriais

A liberdade de expressão é um dos direitos humanos inerentes à democracia. Não convive, em absoluto, com os estados ditatoriais ou autocráticos que a censuram, perseguem, eliminam e punem. É uma conquista do direito humanista, inscrevendo-se com total fundamento nas mais importantes convenções internacionais, na legislação da ONU e, claro, faz parte do acervo de direito dos países democráticos, como o nosso. Porém, em democracia, nenhum direito é, em princípio, absoluto, tendo como limite o direito do outro e do Estado de direito, no prosseguimento dos seus objetivos sociais, políticos e humanitários. De atentar que a democracia não se confunde com anarquia nem com um Estado relaxado nas suas obrigações impressas na Lei Fundamental do país.

Em artigo publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (Lisboa-Portugal), pode ler-se que “a liberdade de expressão cessa quando se traduzir numa ofensa injustificada à integridade moral, ao bom nome ou à honra de outra pessoa”. Cessa, ainda, na minha opinião, quando se atinge de forma grave, negligente ou dolosamente a legalidade, a objetividade e a transparência da atuação das instituições do Estado. A liberdade de expressão também encontra limites quando inflama discursos de ódio e incita à violência. Grupos ou indivíduos que professam ideias extremistas e antidemocráticas abusam do direito da liberdade de expressão que a democracia lhes confere para combater o regime que não querem e pretendem substituir por outro que abrace as suas ideias contrárias à dignidade humana. A democracia pode tornar-se frágil se desatenta à voragem de mentiras, ódios e falsas notícias, travestidas de direito à liberdade de expressão.

É urgente e inevitável impedir o crescimento destas ondas populistas que, a pretexto do direito de expressão, invocam o ódio pelo semelhante, mercadejam, difamam e injuriam as instituições do Estado, tornando-as locais de provocação e de desprestígio institucional. O ser humano é livre e social, intrinsecamente democrático e humanista. Há que defender e lutar pelo modo de vida que nos é oferecido por um Estado de direito democrático, opondo-nos aos que, abusando dos direitos que lhes são concedidos, os querem destruir.

Como novidade editorial, apresentamos o livro 𝑀𝑎𝑐ℎ𝑎𝑑𝑜 𝑑𝑒 𝐴𝑠𝑠𝑖𝑠, 𝑐𝑟𝑖́𝑡𝑖𝑐𝑜 𝑑𝑎 𝑖𝑚𝑝𝑟𝑒𝑛𝑠𝑎 (Outubro Edições, 2023-2024), fruto da dissertação de mestrado que defendi na Faculdade de Letras da UFMG. A obra busca ampliar o interesse pela fortuna crítica do maior escritor da literatura brasileira, destacando seu papel fundamental na formação do jornalismo nacional e no fortalecimento ético da profissão de comunicador social. A perspectiva inovadora do presente estudo encontra-se na revelação atestada de que Machado de Assis, além de sensível compositor do noticiário informativo e opinativo, foi igualmente original nas avaliações textuais sobre as práticas do universo jornalístico, ressaltando méritos e deméritos da rede midiática que começava a despontar no Brasil. De tipógrafo a jornalista, Machado foi um dos grandes precursores da Tecnologia de Comunicação no país, mostrando que o desenvolvimento da mídia transformou a constituição espacial e temporal da vida social brasileira, ajudando-nos a entender a modernidade desde o advento da imprensa no século XIX até a expansão das redes de comunicação global de hoje.

Segundo Machado: “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções” (𝑂 𝑗𝑜𝑟𝑛𝑎𝑙 𝑒 𝑜 𝑙𝑖𝑣𝑟𝑜, 1859). Se a divulgação de uma obra de arte é mecanismo obrigatório para sua visibilidade, torna-se fundamental verificar que tipo de corte circunstancial e de representação a mídia faz do circuito em que se insere. Pierre Bourdieu (1930-2002), em 𝐴 𝑝𝑟𝑜𝑑𝑢𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑎 𝑐𝑟𝑒𝑛𝑐̧𝑎 (2004), ilumina essa perspectiva ao fazer uma análise crítica sobre o processo de criação, circulação e consagração dos bens simbólicos. O autor subverte a apreciação do caráter 𝑠𝑎𝑔𝑟𝑎𝑑𝑜 da arte e da cultura ao apresentá-la como o resultado de um amplo jogo e empreendimento social. Bourdieu considera os campos que funcionam na medida em que conseguem também produzir produtos e as necessidades desses produtos. O papel da mídia, ao garantir a visibilidade das ofertas, e dos críticos, autoridades que afiançam a consagração ou a descoberta dos 𝑛𝑜𝑣𝑜𝑠 𝑡𝑎𝑙𝑒𝑛𝑡𝑜𝑠, é determinante no sistema.

O funcionamento do campo implica uma lógica de luta, de disputa pela hegemonia da consagração. Ao lado da pobreza material, existe a questão não menos grave da pobreza política. Não por acaso, a relação entre linguagem e mídia continuará a se transformar, exigindo análise crítica e adaptação constante por parte dos indivíduos e da sociedade.

 

Fonte: Por Marcos Fabrício Lopes da Silva, no Observatório da Imprensa

 

Vírus comuns podem aumentar o risco de Alzheimer?

Durante décadas, a pesquisadora Ruth Itzhaki diz que seu trabalho foi ignorado, tratado com hostilidade e chegou a ser classificado por outros especialistas como "ruim", "lixo" e "ridículo".

Ela foi uma das primeiras neurocientistas a suspeitar — e demonstrar — que vírus comuns podem ter um papel importante no desenvolvimento da doença de Alzheimer

"Nós não conseguíamos que nossos artigos científicos fossem aceitos e publicados em jornais acadêmicos. Com isso, não tínhamos acesso ao financiamento para novas pesquisas. E, sem dinheiro suficiente, era difícil seguir com os estudos", lembra Itzhaki, que é professora emérita da Divisão de Neurociências da Universidade de Manchester, no Reino Unido.

"Foi extremamente difícil e lidamos com a falta de dinheiro o tempo todo", complementa a pesquisadora, que atualmente é professora visitante do Instituto de Envelhecimento Populacional da Universidade de Oxford.

Itzhaki acredita que, se o trabalho dela e de outros investigadores tivesse recebido a devida atenção e incentivo anos atrás, seria possível ter hoje uma compreensão muito mais ampla sobre as causas da demência e as melhores formas de combatê-la.

Mas o tempo das vacas magras para esse ramo da ciência parece ter chegado ao fim.

Nos últimos três ou quatro anos, a publicação de novas pesquisas deu um novo ânimo ao campo que busca pistas na virologia para entender as neurociências — e motivou o início dos primeiros ensaios clínicos com vacinas e antivirais como potenciais ferramentas de prevenção do Alzheimer.

Conheça a seguir as evidências disponíveis sobre o papel de agentes infecciosos no apagamento das memórias e nas dificuldades de raciocínio.

•        Vírus escondidos e os mistérios do Alzheimer

Para saber como o conhecimento nessa área tem evoluído, é preciso antes entender dois conceitos básicos e bem estabelecidos.

O primeiro deles é que alguns vírus têm a capacidade de ficar "escondidos" por muito tempo, praticamente por toda a vida, em alguns reservatórios do organismo.

É o caso do herpes simples do tipo 1 (que afeta a boca), do tipo dois (que atinge a região genital) e do varicela-zoster (causador da catapora).

Após a infecção inicial, esses patógenos permanecem no corpo e podem ser reativados de tempos em tempos.

No caso do herpes simples, em momentos de baixa imunidade, surgem aquelas bolhas e feridas típicas na pele.

Já o varicela pode gerar um quadro chamado herpes zoster, marcado por erupções cutâneas bem dolorosas num trecho do corpo, como parte do rosto, do abdômen ou das costelas.

O segundo conceito tem a ver com o Alzheimer em si. Em meados dos anos 1990, a chamada "cascata amiloide" ganhou força como a principal explicação para esse tipo de demência.

Essa linha de raciocínio sustenta que tudo começa com uma inflamação no cérebro. Com o tempo, há o acúmulo de uma proteína chamada beta-amiloide do lado de fora dos neurônios.

Depois, a TAU — um outro tipo de proteína — começa a ser estocada em grandes quantidades no interior das células nervosas.

Esse processo dificulta a conexão entre diferentes partes da cabeça e causa a morte dos neurônios — o que se traduz na progressão da perda de memórias, da dificuldade de raciocínio e dos demais sintomas do Alzheimer.

"Mas ainda não sabemos o que faz essas duas proteínas se depositarem no cérebro", acrescenta a neurologista Roberta Diehl Rodriguez, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

•        Seriam vírus os gatilhos da demência?

Foi nessa busca por respostas para o fator que iniciaria a cascata amiloide que alguns pesquisadores começaram a suspeitar dos agentes infecciosos.

Entre as décadas de 1980 e 90, a professora Itzhaki fez os primeiros trabalhos que detectaram o material genético do herpes simples tipo 1 — um vírus extremamente comum, que afeta ao redor de 70% da população — no cérebro humano.

"Nós já sabíamos que esse vírus pode causar uma encefalite [uma inflamação do sistema nervoso], um quadro bem raro, mas muito grave", descreve ela.

"Começamos a especular, então, se a reativação do herpes ao longo da vida não poderia desencadear uma série de eventos que culminariam em danos às células do sistema nervoso, que eventualmente levassem à morte delas."

Esses trabalhos pioneiros foram os primeiros a encontrar agentes infecciosos no cérebro — até então, havia praticamente um consenso de que o Sistema Nervoso Central era uma região praticamente protegida da ação dos vírus.

Algo que chamou a atenção dos pesquisadores à época era que o herpes marcava presença tanto na cabeça de pessoas diagnosticadas que morreram com Alzheimer quanto naquelas que não apresentaram a doença durante a vida.

Na avaliação deles, deveriam existir alguns outros fatores, como a genética, que pudessem explicar por que alguns indivíduos infectados desenvolviam a demência e outros não.

Nos anos 1990, o time liderado por Itzhaki fez outra descoberta relevante: eles observaram em cobaias de laboratório que o herpes simples costuma se concentrar em regiões do cérebro que apresentam uma grande deposição da beta-amiloide.

Isso gerou uma nova teoria: será que essa proteína é produzida pelo sistema nervoso como uma defesa, com o objetivo de "capturar" o vírus e inativá-lo?

Sabe-se que essas moléculas têm um aspecto grudento — e poderiam supostamente "agarrar" o patógeno para dificultar a sua replicação antes que uma resposta imune mais elaborada fosse iniciada.

A grande questão aqui é que o herpes tem aquela característica de ficar "escondido" e se reativar de tempos em tempos ao longo da vida.

No cérebro, isso causaria uma inflamação repetida e geraria a fabricação da beta-amiloide com uma certa frequência.

Com o passar do tempo, o que antes funcionava como um mecanismo de proteção se transforma num problema: como descreve a cascata amiloide, o acúmulo da proteína faz mal aos próprios neurônios e eventualmente provoca a morte deles.

Vale lembrar aqui que essa ainda é uma teoria, que precisa ser comprovada em diversas pesquisas e aceita como um consenso entre especialistas da área.

•        O papel das vacinas

Recentemente, uma nova leva de trabalhos encontrou mais evidências do possível papel de agentes infecciosos no desenvolvimento do Alzheimer.

Um deles foi publicado no início de abril na revista Nature — e avaliou o papel da vacinação nesse contexto.

Em suma, pesquisadores da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, identificaram uma oportunidade a partir de uma decisão de saúde pública que aconteceu no País de Gales.

Em 2013, o governo local começou um esforço de vacinação contra o herpes zoster e estabeleceu um limite bem claro.

Pessoas que haviam nascido entre os dia 2 de setembro de 1933 e 1 de setembro de 1934 poderiam tomar o imunizante. Já aquelas que nasceram antes ou depois dessa data estavam fora da campanha.

"Nós tínhamos uma situação muito parecida a de um estudo clínico: dois grupos muito similares em diversos aspectos, que poderiam ser comparados, cuja diferença era a elegibilidade para tomar a vacina contra herpes zóster", resume o pesquisador Pascal Geldsetzer, professor assistente de Medicina, Epidemiologia e Saúde Populacional da Universidade Stanford.

Os resultados da análise mostraram que, entre as pessoas que receberam o imunizante, a probabilidade de um diagnóstico de demência nos sete anos seguintes era 3,5% menor — uma taxa considerada significativa.

"Pela primeira vez, temos evidências que provavelmente revelam uma relação de causa e efeito entre a vacinação contra o herpes zóster e a prevenção da demência. Nosso estudo mostrou que esse efeito protetor é grande e supera as ferramentas farmacológicas disponíveis hoje para tratar a demência", comemora o pesquisador.

Mas o que explica esse efeito? Geldsetzer aponta dois possíveis caminhos.

"O primeiro tem a ver especificamente com o vírus varicela [cuja reativação causa o herpes zoster]. Um crescente corpo de evidências sugere que vírus que atuam preferencialmente no sistema nervoso e permanecem ali durante boa parte da vida podem estar implicados no desenvolvimento da demência", responde ele.

Nesse sentido, a vacinação contra o herpes zoster bloqueia a reativação do vírus — e, com isso, em teoria, impediria que o agente infeccioso servisse de gatilho para a inflamação e a produção de beta-amiloide.

"O segundo mecanismo é potencialmente independente do vírus varicela. Temos cada vez mais provas de que as vacinas produzem efeitos no sistema imunológico que são muito mais amplos do que apenas estimular a produção de anticorpos contra um patógeno específico", acrescenta o pesquisador.

"E esse efeito imunológico mais amplo, por sua vez, pode trazer benefícios contra outras doenças", complementa ele.

O autor do trabalho recém-publicado quer agora fazer um teste clínico convencional — que envolve recrutar voluntários, dividi-los em grupos e avaliar os efeitos da vacinação contra a demência ao longo do tempo — e corre para encontrar financiamento para custear esse trabalho.

"Se a vacina contra o herpes zóster realmente for capaz de prevenir ou atrasar o aparecimento da demência, essa seria uma enorme descoberta", diz ele.

•        Perguntas sem respostas

Rodriguez entende que as investigações sobre o papel dos vírus como gatilhos para o Alzheimer são importantes para aprofundar o conhecimento sobre a doença, que afeta pelo menos 57 milhões de pessoas ao redor do mundo.

No entanto, ela entende que ainda são necessários mais estudos para comprovar que isso de fato acontece.

A especialista destaca que uma parte dos artigos científicos sobre o tema publicados até agora foram feitos com camundongos.

"E esses animais não desenvolvem Alzheimer naturalmente. Nós precisamos modificá-los geneticamente em laboratório para que ele apresente a neuroinflamação e o acúmulo de beta-amiloide", detalha a pesquisadora da FMUSP.

"Talvez precisássemos avaliar outras cobaias que fossem mais semelhantes aos seres humanos e desenvolvessem a forma esporádica desse tipo de demência, que não está relacionada à genética e é o tipo mais frequente na população."

"A depender dos resultados, poderíamos evoluir para pesquisas com seres humanos", complementa ela.

A neurologista acredita que, caso esse papel dos vírus no cérebro seja confirmado, isso pode representar uma excelente notícia — afinal, já temos algumas vacinas que impedem a reativação de alguns vírus (como a que protege contra o herpes zoster) e há antivirais baratos e acessíveis que bloqueiam a replicação de patógenos (como o herpes simples).

Embora não existam métodos para eliminar completamente esses vírus do organismo após a infecção inicial, há sempre a possibilidade de estudar e desenvolver novos imunizantes contra certos patógenos ou criar remédios para impedir a reativação deles no organismo.

"Se alguns vírus de fato desencadeiam o Alzheimer, nós estamos diante de um fator de risco modificável e teríamos ferramentas para prevenir novos casos", especula a neurologista.

"Até porque ainda não temos um tratamento eficaz, que seja suficiente para modificar o curso dessa doença", complementa ela.

Itzhaki concorda que ainda não existe uma prova cabal, que aponte os vírus como causa e o Alzheimer como efeito.

"Mas não há dúvidas de que existe uma forte associação entre as duas coisas. Temos muitas evidências indiretas que apontam nesse sentido", diz ela.

Para Geldsetzer, muitas dessas questões poderão ser respondidas em testes clínicos em andamento ou planejados para os próximos anos.

"Em Medicina, precisamos provar que uma nova medida, como um remédio ou uma vacina, funciona por meio de um estudo randomizado. Nesse tipo de pesquisa, você seleciona um número determinado de participantes e sorteia aleatoriamente quem vai receber uma intervenção ou não", explica ele.

Um desses testes clínicos, inclusive, acontece atualmente na Universidade Columbia, nos EUA, e avalia um antiviral chamado valaciclovir, já prescrito contra o herpes simples.

A ideia é entender se esse remédio pode reduzir a perda de memórias e a dificuldade de raciocínio entre pacientes que foram diagnosticados com Alzheimer em estágio inicial.

A última pergunta que fica, então, é: por que demorou tanto tempo para que o papel dos vírus na demência recebesse a devida atenção?

"Acho que muitas pessoas que trabalham nesse campo não entendem muito sobre virologia e acham que, após a infecção inicial, os vírus simplesmente são eliminados do corpo", especula a professora da Universidade de Manchester.

"Alguns também temiam que a teoria da cascata amiloide fosse desbancada. Mas nosso trabalho nunca teve esse objetivo."

"Entendemos que as proteínas beta-amiloide e TAU são obviamente importantes para o desenvolvimento do Alzheimer."

"Só suspeitamos que elas não são a causa, mas, sim, a consequência de um processo que acontece no cérebro", conclui ela.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Fraude no INSS: associações autorizaram desconto para o mesmo aposentado em um único dia

Investigações da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU) identificaram que associações filiaram e autorizaram descontos nos pagamentos para os mesmos aposentados em um único dia. Dois casos são citados pelos investigadores como exemplo da irregularidade.

A ação faz parte de uma fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), segundo PF e CGU. Os desvios ocorreram entre 2019 e 2024 e podem chegar a R$ 6,3 bilhões, segundo as estimativas. A TV Globo teve acesso aos documentos.

Os investigadores veem indícios de uma "indústria de produção de termos de descontos ilegítimos" para filiar os aposentados às entidades que faziam os descontos nas aposentadorias.

"A CGU identificou o envio, no mesmo dia, de autorizações de desconto para o mesmo beneficiário por entidades diferentes, indicando possível utilização indevida da informação cadastral dos beneficiários", indica a investigação.

Um dos casos citados envolve um aposentado do Piauí, que foi cadastrado no mesmo dia na Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (AAPEN) e na Associação de Assistência Social a Pensionistas e Aposentados (Aaspa).

As duas entidades filiaram o idoso com fichas cadastrais que contém o mesmo erro de grafia em um dos sobrenomes do aposentado - duas letras "A" em vez de uma.

As inscrições dos aposentados como beneficiários dos descontos associativos foram feitas por funcionários do INSS que atuam na Diretoria de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão.

Este é o setor da entidade responsável por firmar e supervisionar os Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) entre as associações de aposentados e o INSS.

De acordo com as investigações da PF e da CGU, os suspeitos das fraudes em aposentadorias cobravam mensalidades irregulares, descontadas dos benefícios de aposentados e pensionistas, sem a autorização deles.

Ao todo, 11 entidades foram alvos de medidas judiciais. Os contratos de aposentados e pensionistas com essas entidades foram suspensos, segundo o ministro da CGU.

A CGU entrevistou uma amostra de 1.273 aposentados e pensionistas. A maioria — 97% dessa amostra — afirmou nunca ter autorizado descontos em seus benefícios.

O presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi demitido, e cinco servidores públicos foram afastados de suas funções.

A operação ocorreu em 13 estados e no Distrito Federal, com 211 buscas e apreensões em 34 municípios. De acordo com Lewandowski, foram apreendidos pela PF nesta manhã carros de luxo, joias, obras de arte e dinheiro vivo.

•        Entidades filiaram sem autorização aposentados em cidades distantes até 957 km de suas casas

Entidades suspeitas de praticarem descontos irregulares em aposentadorias filiaram aposentados em associações de cidades que ficam a até 957 km de distância de onde elas moravam. A informação chamou a atenção da Polícia Federal (PF) sobre um golpe no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A investigação apontou que ocorreram descontos irregulares de até R$ 6,3 bilhões em aposentadorias e pensões e a Justiça Federal do Distrito Federal autorizou uma operação da Polícia Federal contra fraudes no INSS. A TV Globo teve acesso aos documentos.

Entre as suspeitas está a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer): de 15 autorizações apresentadas, 14 informavam que os aposentados e pensionistas contribuintes estavam vinculados a sindicados ou associações localizados em cidades diferentes da que residiam. As distâncias variavam de 34 km a 957 km.

A decisão diz que os investigadores acharam "pouco provável que os aposentados, todos acima de 60 anos, se deslocariam para outro estado para se associar a um sindicato ou associação distante, inclusive pela dificuldade de contar com a assistência dessas entidades quando precisassem".

<><> Viagens de 27 horas até as entidades

Um dos exemplos fornecidos é o de um aposentado de 78 anos, morador da cidade de Manacapuru (AM), que estaria vinculado à Associação de Desenvolvimento Rural Família Feliz, sediada na cidade de São Gabriel da Cachoeira (AM) – cidades 957 km distantes uma da outra.

Os investigadores apontam que uma viagem de ônibus entre elas, que envolveria, ainda, o uso de táxi e barco, tem uma duração prevista de, aproximadamente, 27h30min.

"É improvável que um aposentado de 78 anos fosse percorrer tamanha distância para se associar, assim como também é improvável que funcionários da associação fossem percorrer tantos quilômetros em busca de associados. E, ainda que a vinculação associativa exista, seria muito difícil a prestação de quaisquer serviços pela entidade a tão longa distância", diz o documento da Justiça Federal do DF.

Outra situação relatada no documento é a de duas aposentadas que moram no município de Raposa (MA) entrevistadas pela equipe da Controladoria-Geral da União (CGU). As duas negaram ter autorizado o desconto e o vínculo com qualquer associação.

Segundo as autorizações de desconto apresentadas pela Conafer, elas estariam associadas ao Sindicato dos Pescadores Profissionais, Artesanais, Aquicultores, Criadores de Peixe e Trabalhadores na Pesca do Município de São João do Caru, na cidade de mesmo nome no Maranhão, que fica a 386 km de Raposa (MA).

"É pouco provável que tais aposentadas fossem buscar vinculação e assistência sindical tão longe quando o município de Raposa (MA), cidade do litoral maranhense, conta com sindicato de pescadores", diz o documento da CGU.

A decisão aponta ainda exemplo de duas aposentadas de Alagoas, que moravam nas cidades de Porto Real do Colégio e Girau de Ponciano, respectivamente. Elas estariam vinculadas ao Sindicato Intermunicipal dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais e Patronal do Município de Cacimbinhas e Região Sertaneja, sediado na cidade de Cacimbinhas, no Maranhão.

A distância entre a cidade de residência das duas aposentadas até a sede do sindicato é de 138 km e 67 km, nesta ordem.

A investigação entrevistou o presidente do Sindicado de São João do Caru, que disse que o sindicato é mantido pela contribuição de trabalhadores ativos e que não há cobrança de aposentados e pensionistas e que, apesar de estar vinculado à Conafer, não recebe contribuições ou valores pecuniários da confederação.

•        742 mil aposentados apontaram descontos indevidos no 1º semestre de 2024

Um levantamento feito pela Controladoria-Geral da União (CGU) apontou que 742.389 beneficiários registraram pedidos para cancelamento do desconto associativo no primeiro semestre de 2024.

As reclamações foram feitas em canais de atendimento do INSS.

Em 709 mil desses casos – 95,6% do total –, os aposentados informaram que não haviam autorizado previamente o desconto feito pelas associações direto da folha.

"O quantitativo de requerimentos de exclusão de descontos de mensalidades associativas efetuados [...] sinalizam que não é possível assumir como parâmetro balizador das decisões e ações sob a responsabilidade do INSS a boa-fé, em especial considerando os reflexos diretos no valor do benefício pago aos segurados do INSS em virtude da realização desses descontos", afirmou a CGU.

Ao todo, essas associações registraram 6,54 milhões de beneficiários com algum percentual de desconto em folha. Ainda não se sabe quantos desses foram vítimas de fraude.

Em julho de 2024, a CGU enviou para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), à época presidido por Alessandro Stefanutto, esses dados e outros documentos de uma auditoria feita pelo órgão.

A controladoria pediu para a suspensão do repasse de mensalidades de oito associações. Nenhuma providência foi tomada.

O levantamento feito pela Controladoria-Geral da União foi utilizado como suporte para a realização da operação em conjunto com a Polícia Federal e serviu de suporte para a decisão judicial de bloquear os descontos das entidades.

•        Entidades que movimentaram R$ 663 milhões tinham 'representantes de fachada', diz CGU

Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) divulgado nesta segunda-feira (28) aponta que três entidades associativas – que movimentaram R$ 663 milhões entre os anos de 2019 e 2025 – tinham "representantes de fachada".

As três entidades estão na lista das 11 investigadas pela CGU e pela Polícia Federal por suposta fraude com descontos sem autorização de mensalidades associativas. Os descontos eram feitos em pensões e aposentadorias pagas pelo INSS.

Segundo a CGU, as entidades e os valores movimentados no período investigado são:

•        Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (AAPEN) - R$ 270.837.348,47

•        União Nacional de Auxílio Aos Servidores Públicos (Unaspub) - R$ 233.274.586,45

•        Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB) - R$ 159.242.344,69

Chamou a atenção dos investigadores que os "representantes de fachada" – pessoas com procurações que davam a elas amplos poderes para responder pelas entidades – eram homens e mulheres com idade avançada ou de baixa renda, inclusive beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família.

"As associações [suspeitas de irregularidades] possuem presidentes com idade avançada, o que poderia comprometer suas ações à frente da entidade, beneficiários de aposentadoria por incapacidade permanente e/ou sem experiência empregatícia formal, o que pode indicar eventual comprometimento da capacidade para gerenciamento das entidades", afirmou a CGU.

O documento do órgão com os indícios de irregularidades foi encaminhado, em julho de 2024, para o INSS para que fossem tomadas as providências cabíveis sobre o caso.

Na semana passada, a Polícia Federal e a CGU realizaram a Operação Sem Desconto, que apura um esquema que pode ter desviado até R$ 6,3 bilhões de aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS com as chamadas "mensalidades associativas".

De acordo com as investigações, entidades que supostamente representavam aposentados e pensionistas do INSS descontavam, de forma indevida, uma parte do pagamento sem autorização dos beneficiários, usando, por exemplo, assinaturas falsas.

Muitas entidades sequer tinham estrutura para prestar serviços que afirmavam realizar.

<><> 'Confusão empresarial'

Também chamou a atenção dos investigadores o que a CGU classificou como "confusão empresarial" entre duas entidades investigadas: a mesma mulher, Cecília Rodrigues Mota, foi presidente da AAPEN (antiga ABSP) e da AAPB ao mesmo tempo entre 29 de março de 2017 e 14 de fevereiro de 2020.

As associações também já funcionaram no mesmo endereço, situado à Rua Pedro Borges nº 33, Palácio Progresso, Fortaleza (CE), e, de forma concomitante, entre 14 de junho de 2016 e 17 de setembro de 2020.

"Tal relacionamento, assim como o compartilhamento de endereço, sinalizam para a possibilidade de se tratar de uma organização única, dividida para possibilitar ganhos de mercado", diz o relatório da CGU.

Na operação da semana passada, Cecília Mota foi alvo de mandado de busca e apreensão. O g1 busca contato com as entidades e pessoas citadas nesta reportagem.

•        PF afirma que investigados em postos de chefia deram guarida ao esquema

A Polícia Federal afirmou à Justiça ter reunido elementos que indicam que a direção do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) tomou medidas que acabaram garantindo a manutenção do esquema de descontos indevidos de benefícios.

Relatório da PF obtido pela TV Globo afirmou ainda que o fato de investigados ocuparem cargos de chefia conferia "guarida à perpetuação dos descontos associativos ilícitos praticados".

A partir dos elementos reunidos pelos investigadores, a Justiça Federal determinou o afastamento do então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que estava no cargo desde 2023, e outros cinco servidores da cúpula do instituto. Após a operação da PF, Stefanutto acabou demitido.

As investigações reuniram diversas declarações de Stefanutto ressaltando que não seria permitida a inclusão de novos descontos de mensalidades associativas na folha de pagamentos do INSS em 2024, assegurando que seria feita checagem dos dados e tomadas outras providências.

O relatório cita ainda que, em novembro de 2023, o INSS autorizou o desbloqueio em lote dos descontos associativos.

De acordo com a PF, o comando do INSS não agiu dentro do protocolo. E cita, como elementos que deveriam ter barrado essa autorização:

1.       "reiteradas manifestações da ocorrência de descontos indevidos";

2.       "multiplicidade de notícias veiculadas na imprensa acerca da ocorrência de descontos sem autorização dos beneficiários";

3.       acórdão do Tribunal de Contas da União "requerendo a suspensão desses descontos" até a adoção de biometria;

4.       solicitações efetuadas ao INSS para a exclusão de descontos associativos (conforme números posteriormente registrados nos relatórios produzidos pela Controladoria-Geral da União e pela Auditoria Geral do INSS);

5.       solicitação à unidade de auditoria interna do INSS para que apurasse as situações veiculadas na mídia.

"[A despeito de tudo isso] Não foram cumpridas, pela direção do INSS, as medidas preventivas preconizadas normativamente".

Os investigadores dizem que "em direta violação à previsão normativa e à realidade dos fatos, a direção do INSS atende ao pleito solicitado pelas entidades e concretiza medida alternativa, provisória, precária e transitória, sob a garantia do “compromisso” das entidades de que seus sistemas estariam em aderência aos requisitos técnicos e sem considerar o potencial e efetivo prejuízo aos beneficiários".

"A implementação da solução transitória evidenciou riscos significativos, como a perpetuação de falhas nos processos de averbação e a potencial continuidade de descontos indevidos, fatos que ensejaram a suspensão cautelar dos descontos pelo INSS em abril de 2024".

A PF listou ainda uma série de repasses para servidores do INSS em um amplo esquema de triangulação. As entidades associativas, que recebiam valores dos descontos, faziam transferências para empresas, que na sequência ficavam responsáveis por enviar para familiares dos funcionários ou escritórios de advocacia. Há repasses de cifras milionárias.

"Não bastasse isso, foram apontadas movimentações financeiras originadas nas entidades associativas e recebidas, direta ou indiretamente, por servidores do INSS, em especial pela direção da Autarquia, sem motivo razoável conhecido para tanto. Os crimes pelos quais os agentes públicos estão sendo investigados, portanto, são diretamente ligados ao exercício funcional, pois praticados no desempenho abusivo da função. São crimes que trazem efeito deletério à reputação, à imagem e à credibilidade do INSS".

A PF cita que há indícios suficientes da prática dos crimes de corrupção passiva, inserção de dados falsos em sistema de informações e violação de sigilo funcional, no âmbito do INSS, vinculados aos descontos indevidos de contribuição associativa em benefícios de aposentados ou pensionistas do RGPS.

Os investigadores classificaram o caso como grave e disseram que há "dano e risco de reiteração de dano ao Estado e aos beneficiários lesados do INSS".

"Portanto, é inaceitável que os investigados, descambando para a ilegalidade, valham-se das relevantes funções que o Estado lhes confiou para enriquecer ilicitamente, sobretudo quando verificado concretamente que o cargo público teria sido utilizado para viabilizar a empreitada criminosa".

•        Sindicato enviou R$ 26 milhões fracionados a 15 pessoas e empresas, aponta Coaf

A Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag) repassou a 15 pessoas e empresas R$ 26 milhões de maneira fracionada. Foi o que apontou um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) na investigação sobre as fraudes no INSS que, segundo investigações iniciais, representam R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

O Coaf emitiu o relatório com base na investigação da Polícia Federal. "Dentre as atipicidades, destacou-se a movimentação incompatível com o faturamento cadastrado e o recebimento de depósitos em espécie, de maneira fracionada, efetuados em terminais de autoatendimento, onde não foi possível identificar depositantes", apontou a PF.

A Polícia Federal (PF) investiga a Contag por suspeita de descontos irregulares em aposentadorias e pensões. Entidades de classe, como associações e sindicatos, firmavam Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) com o INSS e permitiam descontos de mensalidades associativas diretamente na folha de pagamento de aposentados e pensionistas do INSS, sem autorização dos beneficiários. Cerca de 97% dos beneficiários entrevistados não autorizaram o desconto, segundo a Controladoria-Geral da União.

O desconto na folha de pagamentos do INSS em favor de entidades é previsto em lei desde 1991. No entanto, de acordo com a legislação, essa mensalidade só pode ser cobrada com autorização prévia dos segurados. Caso concordem com o desconto, eles podem ter acesso a benefícios como auxílio funerário, assistência odontológica e psicológica, consultoria jurídica e academia.

<><> Posicionamento da Contag

A Contag afirmou que "reitera seu respeito às instituições democráticas e o compromisso com a legalidade em todas as suas ações".

A confederação declarou ainda que está à disposição da Justiça para colaborar com as investigações em curso, "defendendo a total transparência do processo investigativo e a apuração devida dos fatos".

 

Fonte: g1/Brasil 247