segunda-feira, 1 de julho de 2024

Menino que sonha em ser padre constrói a própria igreja aos 13 anos no Paraná

Lucas Gordia Andrade tem 17 anos, é de São João do Triunfo, nos Campos Gerais do Paraná, e sonha em ser padre. O jovem entrou para o seminário neste ano, mas o desejo do sacerdócio o acompanha desde pequeno.

Ele conta que brincava de rezar missas desde quando estava na pré-escola e, aos seis anos de idade, colocou na cabeça que queria ter a própria igreja. Os pais apoiaram a ideia e, quando ele tinha 13 anos, o ajudaram a construir uma capela no terreno da própria casa.

A Capela Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora da Conceição tem cerca de oito metros de altura, cinco metros de comprimento e 2,5 metros de largura. O espaço é aberto à comunidade de Faxinal dos Ferreiras, área rural onde está localizado.

Inspirada no estilo neogótico, a capela foi construída a partir das ideias de Lucas e dos investimentos da família do adolescente.

Pedreiros que são amigos da família foram construindo a estrutura conforme as orientações do jovem, que lembra com carinho da inauguração.

"Foi um dia que se iniciou no nervosismo e terminou numa alegria muito bonita. Foi um dia muito especial, porque a capela ainda não estava terminada, não tinha nem piso, estava no chão bruto, mas ver que estava se construindo, ver que estava se realizando o sonho que eu tinha desde pequeno foi muito bom", afirma.

A primeira celebração foi restrita à família, que se reuniu para orar no espaço. Desde então, a partir do final de 2020 diversas novenas foram realizadas no local. A primeira Santa Missa ocorreu em outubro de 2023, com o vigário da paróquia da cidade.

No início de 2024 Lucas entrou para o Seminário Propedêutico São João Paulo II, em União da Vitória, no sul do Paraná.

Ele estuda em regime de internato e, por isso, a administração e cuidados da capela estão sob a responsabilidade dos pais do menino. Sempre que pode visitá-los o jovem aproveita para contemplar o sonho realizado.

•           Mais igrejas na família

Os pais de Lucas são agricultores e realizaram o sonho do filho construindo a capela no próprio terreno.

Eles estimam que gastaram cerca de R$ 30 mil na construção, que também contou com a ajuda de familiares. O avô materno, por exemplo, doou tábuas de cedro para a construção do altar e colocou a mão na massa durante a obra.

"Quando o pedreiro começou a construir a gente foi se envolvendo, ajudando ele nas ideias que ele tinha. E para não encarecer a mão de obra o meu pai ficou ajudando o pedreiro", conta Emiliane Gordia Andrade, mãe de Lucas.

Não houve projeto prévio; a construção foi sendo feita conforme as ideias do jovem e a experiência dos profissionais.

De acordo com a prefeitura de São João do Triunfo, não há a necessidade de aprovação de projetos e alvarás de construção para edificações localizadas na zona rural da cidade, conforme o Código de Obras do Município.

Lucas conta que não se inspirou em nenhuma igreja específica, mas, sim, no estilo arquitetônico neogótico, que surgiu na Europa no século 18.

"Eu tentei, através dos arcos, janelas e portas e também da parte do forro e da cobertura, imitar igrejas góticas, que têm torre alta, que aponta para cima, para o alto, e uma cobertura mais alta para que conseguisse fazer o forro detalhado [...] A questão dos detalhes o pedreiro que foi colocando em prática na construção. Fomos nós dois os 'arquitetos'", conta.

A capela possui apenas a área para orações. O nome do espaço foi inspirado em devoções do próprio Lucas.

Ele conta que tanto a cidade onde fica a capela, São João do Triunfo, quanto a cidade onde ele nasceu, a vizinha Palmeira, têm devoções especiais pelas figuras religiosas.

•           Fé desde o berço

O interesse pela religião vem de família - e Lucas não foi o primeiro a ter a própria capela. Os avós do pai dele, Emerson Lucas Distefano Andrade, também construíram uma igreja décadas antes.

"O meu bisavô Jorge também tinha uma capela que pertencia à família. E aí, por conta que a comunidade não tinha capela, ela foi cedida para a Mitra [diocese]", lembra Lucas.

Os pais do adolescente lembram que desde pequeno ele tinha interesse pelos ritos e imagens da igreja católica.

"Em todo lugar que nós saíamos ele comprava uma imagem de Nossa Senhora, de santos, de Jesus. Não queria brinquedo, queria imagens. Ele tem centenas!", lembra Emerson.

A mãe, Emiliane, também conta que, mesmo não tendo acesso à internet na época, o filho sabia o nome de todos os santos.

"Já com uns 12 anos, ele comprava imagens em branco para pintar, tanto é que na capela têm duas imagens - uma do Sagrado Coração de Jesus e uma da Nossa Senhora - que ele mesmo pintou", revela.

•           A caminho do sacerdócio

No início deste ano Lucas entrou para o seminário, com o desejo de se tornar padre - o primeiro da família. Até lá, serão necessários pelo menos sete anos na instituição.

Ele está na fase inicial - o propedêutico, que define como um "enamorar da vocação".

"É um ano de propedêutico, dois anos de filosofia e quatro anos de teologia. Aí tem um estágio pastoral, que acontece durante o curso de Teologia, e na pastoral tem um estágio que é feito antes de ser ordenado diácono. Depois trabalha em alguma paróquia e, enfim, chega à ordenação sacerdotal", explica.

O regime é de internato, com um final de semana de folga no mês. Lucas quer ser pároco e avalia que, "um padre que cuida do seu povo é um padre que realmente entendeu o que é a vocação sacerdotal".

Para os pais, a saudade aperta, mas o sentimento também é de orgulho pela escolha do filho.

"A gente fica com uma sensação de perda. Ele sempre estava aqui junto, nunca ficou muito tempo longe... Mas nós sempre apoiamos as decisões dele e só temos que agradecer a Deus por ter esse menino de ouro na nossa vida", afirma Emerson.

Lucas quer ser pároco e "salvar almas", como define.

"Eu acho que um padre que cuida do seu povo é um padre que realmente entendeu o que é a vocação sacerdotal", afirma.

 

Fonte: g1

 

Como fertilização in vitro se tornou novo alvo do movimento antiaborto nos EUA

Um tratamento de fertilidade usado por milhões de famílias está no centro de um debate que vem sendo considerado a nova frente de batalha dos movimentos antiaborto nos Estados Unidos.

Enquanto vários Estados americanos já adotam ou discutem leis que garantem a embriões e fetos dentro do ventre da gestante as mesmas proteções legais dadas a uma pessoa, duas decisões recentes colocam em foco o status de embriões gerados por fertilização in vitro e ainda não implantados no útero.

Neste mês, a Convenção Batista do Sul, principal denominação protestante do país, aprovou uma resolução que condena tecnologias como fertilização in vitro, que frequentemente "resultam na destruição de embriões humanos", já que os excedentes muitas vezes são descartados.

Em fevereiro, o tema já havia ganhado destaque nacional quando a Suprema Corte do Alabama, mais alta instância da Justiça daquele Estado, decidiu que embriões congelados em tubos de ensaio devem ser considerados crianças perante a lei, levando ao fechamento temporário de clínicas de fertilização in vitro.

O debate nos EUA ocorre em um momento em que a questão do status legal de embriões e fetos também entrou em pauta no Brasil, em meio à discussão sobre o projeto de lei que equipara o aborto a partir de 22 semanas de gestação a homicídio, mesmo em casos de estupro.

Em vídeo divulgado nas redes sociais nesta semana, o autor do projeto, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), comparou sua proposta com o Estatuto do Nascituro: "É um projeto ainda light, não é o Estatuto do Nascituro, que os pró-vida, que são católicos e evangélicos de todo Brasil, esperariam que fosse aprovado".

Com essa comparação, Cavalcante chamou a atenção para aquele projeto de lei, apresentado inicialmente em 2007, que daria proteção jurídica ao nascituro, descrito como "ser humano concebido, mas ainda não nascido", incluindo os concebidos in vitro, e tornaria o aborto crime hediondo.

A fertilização in vitro não é o foco específico da discussão atual no Brasil. Nos Estados Unidos, porém, analistas e ativistas enxergam a rejeição à técnica como uma progressão natural do movimento antiaborto e de leis baseadas na ideia de que a vida começa no momento da concepção (na união do espermatozoide com o óvulo).

"Há muito tempo o movimento antiaborto se opõe à fertilização in vitro", diz à BBC News Brasil a historiadora do direito Mary Ziegler, professora de Direito da Universidade da Califórnia, em Davis. "Mas tem havido mais esforço para dar prioridade [a esse tema] ultimamente."

Ziegler, que é autora de diversos livros sobre a história jurídica do debate sobre o aborto nos Estados Unidos, diz que não se surpreenderá se o debate em torno da fertilização in vitro começar a ganhar mais atenção em outros países, como o Brasil.

"Acho que o Brasil é provavelmente o país com o paralelo mais próximo dos Estados Unidos em termos de política partidária do aborto e no sentido de pegar emprestadas estratégias em torno do tema", opina.

•           Apoio popular e dilema moral

Calcula-se que cerca de 2% dos nascimentos nos Estados Unidos a cada ano sejam fruto de gestações via fertilização in vitro.

Nessa técnica de reprodução assistida, é comum que sejam extraídos o máximo possível de óvulos de uma mulher, que são então fertilizados por espermatozoides em laboratório.

Múltiplos embriões costumam ser gerados nesse processo, e os que não são transferidos ao útero podem ser congelados para uso posterior, destruídos ou doados, inclusive para pesquisas médicas.

Ao contrário do aborto, que divide a sociedade americana, a fertilização in vitro é extremamente popular no país, mesmo entre religiosos e evangélicos.

Em pesquisa da empresa YouGov a pedido da CBS News em fevereiro, 86% defendem a legalidade do tratamento.

Outro levantamento, feito pela consultora Kellyanne Conway, que foi conselheira de Donald Trump, revelou apoio de 83% dos evangélicos e 78% dos que se identificam como "pró-vida" ao tratamento.

No entanto, ao mesmo tempo em que a maioria dos americanos diz apoiar a técnica, pesquisa do instituto Pew Research Center indica que 35% concordam que "a vida humana começa na concepção, portanto um embrião é uma pessoa com direitos".

Muitos dos que se opõem ao aborto não veem ligação entre o procedimento e a fertilização in vitro, encarada como uma tecnologia cujo objetivo é gerar vidas e que ajuda inúmeros casais com problemas de fertilidade a ter filhos e aumentar a família.

Mas o destino dos embriões excedentes sempre foi um ponto ressaltado por opositores da técnica, que apontam para um dilema moral diante da crença de que a vida começa no momento da concepção.

Segundo Ziegler, antes havia no movimento antiaborto o sentimento de que destacar essa questão poderia prejudicar a luta para derrubar Roe versus Wade, a decisão de 1973 que garantia o direito constitucional ao aborto nos Estados Unidos.

Esse objetivo foi atingido em 2022, quando a Suprema Corte do país anulou aquela decisão, deixando cada Estado livre para regular o aborto como quiser, o que resultou na proibição quase completa do procedimento em várias partes do país.

"(Com isso) aquela preocupação estratégica (do movimento antiaborto sobre dar destaque à fertilização in vitro) parece não estar mais presente", observa Ziegler.

•           Impacto da decisão no Alabama

Na esteira da decisão da Suprema Corte americana em 2022, proliferaram no país projetos de lei que descrevem fetos e embriões como "crianças que ainda não nasceram" e dão a eles os mesmos direitos legais reservados a pessoas, endurecendo as restrições ao aborto.

Diferentemente do Brasil, onde o aborto só é permitido em caso de estupro, risco à vida da gestante ou se o feto for anencéfalo, nos Estados Unidos cada Estado tem suas prórias leis sobre o procedimento.

O Alabama, no sul do país, é um dos que tem as leis mais rígidas, proibindo o aborto em qualquer estágio da gravidez, mesmo em casos de estupro ou incesto, com exceção apenas quando houver risco grave à saúde da gestante.

A decisão da Suprema Corte do Estado sobre fertilização in vitro, no início deste ano, teve origem em processos movidos por famílias cujos embriões congelados foram acidentalmente destruídos na clínica onde estavam armazenados.

Os juízes decidiram que uma lei de 1872, segundo a qual pais podem processar pela morte de filhos menores de idade, também se aplica a nascituros, inclusive "crianças extrauterinas".

"A questão central apresentada (…) é se a lei contém uma exceção não escrita para crianças extrauterinas, isto é, crianças em gestação que estão localizadas fora de um útero biológico no momento em que são mortas", disse o juiz Jay Mitchell. "A resposta a essa pergunta é não."

Clínicas de fertilização in vitro no Estado suspenderam as atividades, deixando famílias que já haviam investido milhares de dólares sem saber se poderiam continuar o tratamento. A presidente da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, Paula Amato, disse que a decisão ia “contra a realidade médica”.

"O tribunal decidiu que um óvulo fertilizado congelado, armazenado num congelador de uma clínica de fertilidade, deve ser tratado como equivalente legal a uma criança ou um feto em gestação no útero", afirmou. "Os membros do tribunal podem vê-los como equivalentes, mas a ciência e o bom senso nos dizem que não são."

Semanas depois, a Câmara e o Senado do Estado, onde os republicanos são maioria, aprovaram às pressas uma lei que protege pacientes, servidores de saúde e clínicas de fertilização in vitro de responsabilidade legal, e várias delas retomaram os tratamentos.

Mas a nova lei é uma solução temporária, já que não anula a opinião da Suprema Corte de que embriões congelados devem ser tratados legalmente como pessoas e deixa várias dúvidas sobre possíveis ramificações legais, que poderiam ter impacto ao redor do país.

As famílias que haviam movido o processo inicial argumentam que a nova lei viola seus direitos constitucionais e pedem que seja anulada, e o caso poderá chegar novamente à Suprema Corte do Alabama.

•           O voto na Convenção Batista do Sul

A atenção gerada pela decisão no Alabama inspirou líderes da Convenção Batista do Sul a colocarem o tema em pauta em seu encontro anual, que reuniu neste mês mais de 10 mil delegados, chamados de "mensageiros", na cidade de Indianapolis.

"Eles viram que era um momento propício para trazer essa questão à atenção [dos fiéis]", avalia Ziegler. "Ambos os episódios estão intimamente conectados."

Enquanto a maioria dos "mensageiros" rejeitam o aborto, muitos são favoráveis à fertilização in vitro, e durante o encontro alguns deram testemunhos emocionados sobre como o tratamento os ajudou a ter filhos.

No final, uma resolução denominada "Sobre as realidades éticas das tecnologias reprodutivas e a dignidade do embrião humano" foi aprovada por ampla maioria.

A resolução não se opõe especificamente à criação de embriões pela técnica, mas sim ao fato de que muitos são destruídos.

"Estimativas sugerem que entre 1 milhão e 1,5 milhão de seres humanos estão atualmente armazenados em congeladores criogênicos em estado embrionário nos Estados Unidos, com a maioria inquestionavelmente destinada à eventual destruição", diz um trecho.

Nesse contexto, os fiéis são convocados a "reafirmar o valor incondicional e o direito à vida de todos os seres humanos, incluindo aqueles em estágio embrionário, e somente utilizar tecnologias reprodutivas condizentes com essa afirmação".

O texto ressalta que "todas as crianças, quaisquer que sejam as circunstâncias da sua concepção, são um presente de Deus" e encoraja os fiéis a "considerar a adoção de embriões congelados para resgatar aqueles que eventualmente serão destruídos".

Também demonstra solidariedade com "casais diagnosticados com infertilidade" e os incentiva a "considerar as implicações éticas das tecnologias de reprodução assistida".

Apesar de a resolução não proibir os membros da Convenção Batista do Sul de usarem fertilização in vitro, sua passagem representa o início de uma discussão mais profunda sobre o tema entre os fiéis.

Segundo a presidente do comitê de resoluções, Kristen Ferguson, "(o voto) é o primeiro passo" e simplesmente abre o debate entre os fiéis sobre essa "questão complexa".

•           Termômetro do sentimento evangélico

Com cerca de 13 milhões de membros espalhados por quase 50 mil congregações, a Convenção Batista do Sul tem enorme influência política nos Estados Unidos e é considerada um termômetro do sentimento evangélico no país.

Nesse contexto, analistas afirmam que a resolução, aprovada poucos meses após a decisão no Alabama, pode indicar uma maior abertura nesse grupo ao argumento de que embriões, mesmo fora do útero, devem receber as mesmas proteções que pessoas, em uma vitória para o movimento antiaborto.

"Pode assinalar o início de uma ampla virada na direita contra a fertilização in vitro, uma questão que muitos conservadores sociais vêem como a próxima fronteira do movimento 'pró-vida'", disse o jornal Politico.

O foco na fertilização in vitro coloca o Partido Republicano na posição delicada de, em pleno ano eleitoral, manter sua posição "pró-vida" ao mesmo tempo em que demonstra apoio ao tratamento de fertilidade, usado ou favorecido pela maioria de seus eleitores.

Ao mesmo tempo, os democratas, que vêm coletando sucessos em eleições estaduais ao defender o acesso ao aborto, tentam forçar os republicanos a se posicionarem contra medidas que defendem a fertilização in vitro, para demonstrar o contraste entre as posições dos dois partidos.

Em meio a essa briga política, propostas dos dois lados para proteger o acesso à técnica foram foram apresentadas nos últimos dias no Congresso americano, mas acabaram bloqueadas.

Em maio, a comissão de ética e liberdade religiosa da Convenção Batista do Sul enviou uma carta ao Senado americano mencionando as "graves preocupações éticas" da fertilização in vitro.

"Conclamamos os legisladores a desenvolver e implementar um sistema de supervisão federal que proteja e informe as mulheres e garanta que os embriões sejam tratados com cuidado, mesmo enquanto nos opomos à prática geral da fertilização in vitro", diz o texto.

Para Ziegler, apesar das divisões, "os principais grupos antiaborto (nos Estados Unids) estão agora muito mais unidos na oposição à fertilização in vitro do que antes".

"O movimento antiaborto defende muitas posições impopulares. E a questão sempre foi se vai mudar a opinião das pessoas ou se vai tentar impor suas prioridades, mesmo que não haja apoio", observa Ziegler.

"Acho que a tendência, especialmente com a fertilização in vitro, tem sido a de pressionar por [suas] posições, independentemente de serem populares ou não", afirma.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Reação da sociedade, faz Rubinho Nunes, recuar do PL da Marmita, mas sua ‘luta’ contra população vulnerável continua

Na semana que passou, vergonhosamente os vereadores paulistanos aprovaram em primeiro turno o PL 445-23, de Rubinho Nunes, do União Brasil, que previa multa de R$ 17 mil a quem doasse alimentos para a população de rua da cidade. O projeto foi aprovado com a justificativa infame de acabar com o "tráfico de marmita".

Na teoria, a ideia era criar "protocolos de segurança alimentar para pessoas em vulnerabilidade social”. Na prática, dificultava que ONGs e pessoas físicas distribuíssem voluntariamente marmitas a sem-teto. O projeto foi aprovado em 32 segundos.

Foi só depois de uma intensa reação da sociedade que Nunes voltou atrás – suspendeu a tramitação do projeto e falou em "erro". Diz que não se 'atentou ao valor da multa'.

Mas é preciso colocar as coisas em perspectiva: o PL da fome, foi apelidado, não é uma iniciativa isolada. Ele faz parte de uma cruzada maior, orquestrada desde o fim do ano passado.

Seguindo a cartilha do MBL, Rubinho Nunes aprendeu a capitalizar politicamente em cima da polêmica em redes sociais antagonizando com a esquerda – e foi exatamente isso que ele fez desta vez.

Há meses, o vereador vem empreendendo uma cruzada contra o padre Júlio Lancellotti. As acusações de Nunes contra o religioso, conhecido por seu trabalho com a população em situação de rua na capital paulista, vão de "máfia da miséria" à associações com pedofilia.

Rubinho Nunes está em uma saga para tentar emplacar uma CPI para "máfia da miséria" que atuaria na Cracolândia. No começo deste ano, vários vereadores que haviam endossado a CPI retiraram a assinatura quando viram que a investigação seria direcionada ao padre.

Em março deste ano, houve outro pedido de CPI, já mirando Padre Júlio, desta vez para investigar supostos abusos sexuais contra pessoas vulneráveis. Lancellotti nega todas as acusações.

Denúncia parecida já havia sido feita por outro ex-MBL, Arthur do Val, em 2020. Segundo ex-membros do movimento, a máquina de moer reputações do MBL usou um vídeo fabricado como "prova" contra Lancellotti em acusações de pedofilia. O objetivo: impulsionar a candidatura de Val, conhecido como Mamãe Falei. Essa história é contada em uma reportagem na revista piauí.

As investigações contra o padre foram arquivadas pelo Ministério Público na época. Mas acusações semelhantes ressurgiram – de novo, em ano eleitoral.

Desta vez, a narrativa orquestrada de Rubinho Nunes contra Padre Júlio e organizações de caridade ficam claras nos anúncios do vereador no Facebook. Ele gastou ao menos R$ 15 mil só em anúncios que miram o religioso, entre fevereiro e março deste ano.

Em um deles, o vereador lamentava que Câmara estivesse "se ajoelhando para um pedófilo". Pedia apoio para conseguir assinaturas para a CPI. O anúncio custou R$ 3 mil e atingiu 100 mil pessoas.

Em outro, Nunes dizia que 'fluxo' na Cracolândia aumentou em 140% depois que o Fernando Haddad criou o 'Bolsa Crack' em SP". "As ONGs esquerdistas se multiplicaram no período. Agora, elas querem boicotar a CPI que vai investigá-las", dizia a propaganda. (O que aumentou mesmo foi a Cracolândia de Ricardo Nunes: 43% só no segundo semestre de 2023.)

Só que, agora, Rubinho Nunes e seus pedidos de CPI entraram na mira da Polícia Civil. O órgão irá investigar a conduta do vereador a pedido do Ministério Público de São Paulo.

O pedido inicial foi feito pelo Instituto Padre Ticão, ONG que acusa Rubinho Nunes de abuso de autoridade por tentar abrir a CPI "mesmo sem qualquer indício de conduta criminosa por parte do pároco, com única motivação de produzir ganho pessoal de capital político".

O MPSP entendeu que o caso deveria ser melhor esclarecido. Como mostrou a votação do PL da Fome, o ex-MBL conseguiu emplacar sua cruzada dentro da Câmara – mas a sociedade mostrou que não está disposta a comprar essa campanha do lado de fora. Que os vereadores aprendam. Afinal, é ano eleitoral

•           Polícia investiga vereador Rubinho Nunes por CPI contra padre Julio Lancelotti

O vereador de São Paulo Rubinho Nunes (União Brasil), está sendo investigado após alegações de abuso de poder contra o padre Julio Lancellotti, conhecido por sua atuação junto às comunidades vulneráveis. A Polícia Civil de São Paulo, sob a demanda da 4ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, iniciou um inquérito buscando esclarecer a situação.

A denúncia que motivou a 4ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, vinculada ao Ministério Público, a solicitar a investigação da Polícia Civil foi feita pelo Instituto Padre Ticão, que criticou a formulação da comissão sem que houvesse qualquer indício de conduta ilegal de Lancellotti em seu trabalho assistencial na região conhecida como Cracolândia, no centro da capital paulista.

<><> O que motivou as investigações contra Rubinho Nunes?

O vereador usou sua posição para instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), o que gerou grande polêmica. Segundo o Instituto Padre Ticão, a CPI, que deveria investigar operações nas ONGs, foi indevidamente direcionada contra Lancellotti, sem evidências que justificassem tal foco.

No final de 2023, Nunes, que é fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), iniciou um movimento pela criação de uma CPI para apurar o trabalho de ONGs e movimentos que atuavam na Cracolândia. No entanto, com o correr das semanas, ficou evidente que o vereador queria, na verdade, investigar Lancellotti, personagem muito próximo de organizações da esquerda em São Paulo.

Com o mal estar causado na Câmara Municipal, Nunes foi forçado pelos líderes partidários a reescrever o escopo da proposta de CPI e evidenciar padre Júlio Lancellotti como alvo. Como resultado, perdeu apoio e força política e a comissão está estagnada na gaveta do presidente da Casa, o vereador Milton Leite (UB).

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o promotor do Ministério Público, Paulo Henrique Castex, falou sobre a investigação. “Entendo que a narrativa apresentada deve ser mais bem esclarecida para apurar possível conduta com repressão criminal”, explicou.

<><> Como a sociedade reagiu?

Muitas pessoas e organizações expressaram preocupação com o possível desvirtuamento das funções legislativas para perseguição pessoal e política. Além disso, alegações adicionais feitas pelo Instituto Padre Ticão incluem a propagação de notícias falsas e aporofobia, acentuando ainda mais as críticas contra o vereador.

Em resposta, Rubinho Nunes defende-se das acusações, destacando que sua intenção ao abrir a CPI foi puramente investigativa, focada em possíveis irregularidades nas entidades que operam na cracolândia. Ele acusa o instituto e o Ministério Público de tentar intimidá-lo em vez de focar no bem-estar das comunidades vulneráveis e na corrupção em algumas ONGs.

•           Quem é Rubinho Nunes

Rubens Alberto Gatti Nunes (Vinhedo, 2 de junho de 1988) é um advogado e político brasileiro filiado ao União Brasil (UNIÃO).[1] Atualmente exerce seu primeiro mandato como vereador da cidade de São Paulo.

É conhecido por ser um dos cofundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), do qual foi líder e advogado por oito anos. Em 2022, ele deixou o quadro de integrantes do movimento.

No segundo ano de mandato como vereador, Rubinho Nunes foi eleito corregedor-geral da Câmara Municipal de São Paulo para o exercício de 2023, com 37 votos favoráveis. A escolha ocorreu após a eleição da nova Mesa Diretora da Casa, realizada em 15 de dezembro de 2022.

<><> Biografia

Filho do vereador Rubens Nunes (PODE) e da comerciante Inês Gatti Nunes, Rubinho Nunes nasceu no município de Vinhedo, no interior do estado de São Paulo, em 2 de junho de 1988. Formou-se em Direito e Ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) e pós-graduou-se em Direito trabalhista pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Direitos fundamentais através do curso IBCCRIM-Coimbra, realizado pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais em parceria com o Instituto de Direito Penal Económico Europeu, da Universidade de Coimbra. Além disso, Rubinho Nunes também especializou-se em Direito constitucional e Empresarial.

•           Trajetória política

Em 2014, Rubinho Nunes foi um dos cofundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), organização política em oposição ao governo Dilma Rousseff (PT) e que tinha por objetivo conseguir o afastamento da ex-presidente. À época, Rubinho Nunes protocolou um dos pedidos de impeachment e trabalhou na organização de diversas manifestações que precederam o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República.

Em abril de 2016, Rubinho Nunes protocolou o primeiro pedido de impeachment da história de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), sob o argumento de que Marco Aurélio Mello agiu de forma arbitrária ao determinar, por meio de medida liminar, que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, estaria obrigado a acatar o pedido de impeachment contra o vice-presidente Michel Temer, que já havia sido arquivado. Posteriormente, o presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB), arquivou o pedido alegando falta de documentação dos denunciantes e ausência de crime de responsabilidade.

Nas eleições municipais de Vinhedo em 2016, Rubinho Nunes concorreu ao seu primeiro cargo eletivo ao candidatar-se à vice-prefeito do município pelo PMDB ao lado do então candidato a prefeito Dr. Dario (PTB). Angariando 11.127 votos, porém, a chapa ficou em 2° lugar na disputa e não conseguiu se eleger.

Em 2018, Rubinho Nunes tornou-se conhecido nacionalmente após entrar na Justiça contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e conseguir a suspeição dos seus direitos políticos à época em que estava preso em Curitiba após condenação pela Operação Lava Jato. Na ocasião, Rubinho moveu uma ação popular que questionava benefícios do ex-presidente como, por exemplo, motorista, carro oficial e seguranças particulares. Em resposta à ação, em 17 de maio de 2018, o juiz federal Haroldo Nader, da 6ª Vara de Campinas, acolheu a tutela de urgência em ação popular e mandou cortar os benefícios de Lula, como ex-presidente. Além disso, em agosto do mesmo ano, quando o Partido dos Trabalhadores registrou a candidatura do ex-presidente Lula à presidência da República, Rubinho Nunes e o líder do MBL, Kim Kataguiri (DEM), entraram com nova ação pedindo a impugnação da candidatura de Lula com base na Lei da Ficha Limpa. Ainda no final de agosto, 6 dos 7 ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) votaram de maneira favorável ao pedido e Lula teve sua candidatura barrada.

Já nas eleições de 2020, Rubinho Nunes concorreu ao cargo de vereador da cidade de São Paulo na legenda do Patriota. Alcançando a soma de 33.038 votos, o equivalente à 0,65% dos votos válidos, conseguiu ser eleito à Câmara Municipal de São Paulo.

Durante o exercício do mandato, entrou com uma ação contra o prefeito eleito da capital paulistana, Bruno Covas (PSDB), após o prefeito firmar um acordo sigiloso de R$ 100 milhões entre a prefeitura e a empresa Mc Brazil Motorsport Holding Ltda para a realização do Grande Prêmio de Fórmula 1 de São Paulo entre os anos de 2021 a 2025. De acordo com Rubinho Nunes, o contrato foi fechado sem processo licitatório e “violou os princípios constitucionais da moralidade, da publicidade e da legalidade. E, caso mantido, poderá lesar o patrimônio público municipal”, devido ao sigilo imposto pelo município na documentação. Alguns dias depois, a Justiça deferiu uma liminar, impedindo que o gasto fosse realizado nos termos do prefeito.

Além disso, em fevereiro de 2021, a Justiça de São Paulo suspendeu, a pedido de Rubinho Nunes, o festival "Tô Me Guardando", realizado pela prefeitura para promover apresentações de Carnaval virtuais, devido à pandemia do novo coronavírus. De acordo com o vereador, o evento violava os princípios administrativos e não contemplava licitação no processo, além de custar R$ 3 milhões aos cofres públicos. A prefeitura recorreu da decisão mas, em abril do mesmo ano, o desembargador Camargo Pereira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, negou o recurso e manteve a suspensão.

Em 2021 foi expulso do Partido Patriotas, quando naquele momento se opôs à filiação do senador Flávio Bolsonaro ao partido. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, afirmou que tal motivação se deu devido à venda do partido para um projeto mesquinho, buscando captar maiores recursos do fundo partidário. Em seguida Rubinho se filiou ao PSL, porém durante a janela eleitoral de 2022 se transferiu novamente agora para o partido União Brasil, o mesmo do então presidente da câmara de vereadores, Milton Leite da Silva.

Após várias denúncias feitas por moradores e comerciantes do centro de São Paulo, Rubinho Nunes protocolou uma CPI para investigar as ONGs que atuam na região da cracolândia. Além disso, o vereador também protocolou uma nova CPI para investigar as recorrentes denúncias de abuso sexual contra o padre Júlio Lancellotti e outros casos de exploração sexual de pessoas em situação de vulnerabilidade. A disputa em torno da questão, levou o PSOL a anunciar a abertura de outra CPI para investigar a política de tratamento à população de rua do Prefeito Ricardo Nunes.

Nenhuma das CPIs até o momento foram de fato abertas. Após a repercussão em torno da questão, diversos vereadores que assinaram o pedido de abertura se disseram enganados, pois o nome do padre não constava do documento original. Pediram a retirada da sua assinatura, Thammy Miranda(PL), Xexéu Tripoli (PSDB), Sidney Cruz (Solidariedade) e Sandra Tadeu (União). Tal situação resultou em maior dificuldade na instauração do procedimento uma vez que são necessárias 28 assinaturas e com a repercussão passaram de 22 para 18 as assinaturas de vereadores que concordam com o caso.

O caso das CPIs levou Nunes a ser alvo de inquérito policial, instaurado pela 4ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, atendendo a um pedido do Instituto Padre Ticão. Nunes questionou a motivação do inquérito e afirmou que irá estudar uma representação criminal contra os responsáveis pelo instituto por denunciação caluniosa eleitoral.

Em junho de 2024, foi aprovado em primeiro turno um projeto de lei de autoria de Rubinho Nunes que estabelecia uma série de regras para entidades e até pessoas físicas que quisessem doar alimentos à população em vulnerabilidade social da cidade e proibiam a doação de comida a moradores de rua sem autorização da Prefeitura. Uma pessoa que doasse alimento a um morador de rua da cidade sem licença pode ter que pagar multa de até R$ 17.680. O texto ainda precisava ser aprovado em segundo turno para ser levado à sanção do prefeito Ricardo Nunes (MDB), mas foi alvo de ampla reprovação, incluindo do prefeito, que declarou que o vetaria. Com a polêmica, o próprio vereador recuou e suspendeu a tramitação do projeto.

 

Fonte: The Intercept/O Perfil/Brasil de Fato/Wikipedia

 

Isaías Albertin de Moraes: ‘A hegemonia do dólar em risco’

Recentemente, no dia 9 de junho de 2024, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, anunciou que a Arábia Saudita não irá renovar o acordo de petrodólar com os Estados Unidos. O acordo, negociado em julho de 1974, estabeleceu uma aliança estratégica de longo prazo entre os dois países.

Desenvolvido por Henry Kissinger, então Secretário de Estado do Presidente Richard Nixon, e por William Simon, subsecretário, em parceira com a Casa Real Saudita, chefiada pelo Rei Faisal bin Abdulaziz Al Saud e o príncipe herdeiro Fahd bin Abdul Aziz al-Saud, estabeleceu dois grupos de trabalhos: cooperação econômica e necessidades militares da Arábia Saudita.

Na questão econômica, os EUA garantiram que a Arábia Saudita, na qualidade de presidente da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), determinasse que todos os países-membros fixassem o preço do petróleo em dólares. Isso fez com que todas as transações comerciais na área de petróleo, gás e outros combustíveis fossem realizadas exclusivamente na moeda estadunidense.

Na esfera militar, a Arábia Saudita e sua Casa Real, sunita, receberiam proteção dos EUA. A Arábia Saudita temia a superioridade militar do Irã, xiita, que ameaçava sua integridade territorial e a segurança dos membros da Casa Real Saudita. É um modelo de proteção, a grosso modo, semelhante aos tratados de Washington com alguns países asiáticos como Japão e Coreia do Sul. Os EUA mantêm bases militares importantes na Arábia Saudita.

Bom, desde o dia 9 de junho, esse arranjo está em risco por diversos fatores e com possibilidades de causar impactos determinantes para economia política internacional. Sem exageros, essa mudança transformará significativamente o panorama econômico mundial, a geopolítica e o sistema internacional e com repercussões na América Latina.

O acordo de 1974 é uma das principais razões que fizeram do dólar a moeda dominante no mundo mesmo após o fim do Sistema Bretton Woods em 1971. Em suma, o Sistema Bretton Woods, estabelecido em 1944, vinculava as moedas ao dólar estadunidense que, por sua vez, estava lastreado ao ouro depositado pelas nações signatárias, como garantia da moeda, em Fort Knox.

O sistema durou até 15 de agosto de 1971, quando os EUA, de forma unilateral, acabaram com a convertibilidade do dólar em ouro, o que tornou o dólar uma moeda fiduciária. Essa decisão, referida como “Nixon Shock”, criou uma situação em que o dólar estadunidense se tornou moeda de reserva, usada por muitos países.

A partir de 1974, com o acordo com a Arábia Saudita, pode-se afirmar que o lastro para os novos dólares emitidos pelos EUA é a demanda gerada pela obrigação de denominar os contratos de compra e venda de petróleo, gás e outros combustíveis em dólares. O ouro metal foi substituído pelo “ouro negro”, o petróleo. Há 50 anos nascia uma das âncoras do sistema econômico-financeiro internacional e da hegemonia dos EUA, a “Era dos petrodólares”.

Os petrodólares criam um ciclo de capital interessante no sistema internacional. Os países produtores de petróleo, membros da OPEP, vendem seu produto para os EUA e o resto do mundo em dólares, depois reciclam seus rendimentos em investimentos e ativos denominados também em dólares por meio dos bancos comerciais estadunidenses e europeus. Como todos os Estados precisam de petróleo, todos necessitam de possuírem dólares como moeda reserva, logo ao investir ou emprestar para economias emergentes ou centrais os petrodólares apoiam explicitamente uma denominação-dependência dos dólares perante outras moedas.

As entidades financeiras privadas e os próprios Estados tratam o dólar como um porto seguro para investimentos e poupança a longo prazo. Isso permite, por exemplo, que os EUA expandam sua base monetária (imprima dólares) sem sofrer de pressão inflacionária no seu mercado interno na mesma dimensão que outras economias.

Em 2023, dados do Tesouro dos EUA demonstraram que as reservas de ouro em Fort Knox (avaliadas a preços de mercado) estavam estimadas em 270 bilhões de dólares enquanto o total de moeda estadunidense em circulação e depositadas no sistema bancário (conta corrente e poupança) somavam 21 trilhões de dólares. Em outras palavras, para cada dólar que pode ser lastreado ao ouro, há 77 dólares sem qualquer tipo de lastro, ou seja, fiduciários.

O que mantém o sistema da Era dos petrodólares é o acordo entre EUA-Arábia Saudita de 1974 e que pode ser quebrado em breve. Os motivos para que o príncipe herdeiro saudita não renove o arranjo são diversos, mas destacam-se: (i) aumento da influência econômica da China, (ii) ampliação do bloco BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), (iii) redução da produção de petróleo pela OPEP+; (iv) Guerra Rússia-Ucrânia/Otan; (v) tensões diplomáticas entre EUA-Arábia Saudita (assassinato de Jamal Khashoggi).

A possível queda do sistema petrodólares é palpável e os EUA sabem disso. O candidato a Casa Branca nas eleições deste ano e ex-presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou, em abril de 2024, que seus conselheiros econômicos estão esboçando um plano para eventuais sanções contra países que se afastarem do dólar como moeda de troca comercial e de reserva. O projeto prevê a imposição de multas, controles de exportação, cobranças por manipulação cambial e tarifas.

Nas palavras de Donald Trump: “Eu não permitiria que os países deixassem de usar o dólar porque, quando perdermos esse padrão, será como perder uma guerra revolucionária. Isso será um golpe para o nosso país”.

Os formuladores de política econômica e das relações internacionais do Partido de Donald Trump, o Republicano, estão cientes de que o fim da Era dólar no sistema econômico-financeiro internacional é um xeque-mate a hegemonia dos EUA. Se realmente a Arábia Saudita e demais membros da OPEP começarem a negociar o petróleo em diferentes moedas, os EUA ficariam restritos com suas opções para manter sua força bélica, com uma corrida armamentista com a Rússia, e seu empenho econômico, em uma guerra comercial com a China.

As saídas para os estadunidenses são: (i) expandir ainda mais sua base monetária (imprimir dinheiro), que levaria a uma inflação intensa, crise fiscal e colapso da economia. (ii) Buscar novas referências de riquezas para lastrear o dólar diferentemente do ouro. Não há espaço para voltar a acumular ouro, pois nos últimos anos Rússia, Índia e China aumentaram expressivamente suas reservas de ouro, logo saíram na frente. Muitos economistas e políticos Republicanos estão conjecturando um padrão dólar-bitcoin.

(iii) Conduzir política e economicamente as principais economias do mundo na construção de um novo Sistema Bretton Woods, algo que os BRICS, puxados pela China, parecem mais dispostos a concretizarem. (iv) Forçar a dolarização de outras economias, sobretudo em sua área de influência direta: a América Latina.

Até o momento, tudo indica que, nos EUA, os Democratas estão perdidos entre essas estratégias enquanto os Republicanos já optaram pelo confronto de blocos econômicos, preferindo a tática de forçar claramente a adesão parcial ou total ao dólar de economias mais fracas. O método é desestabilizar social, política e economicamente as nações-alvos por meio de artifícios de guerra híbrida, incluindo apoiar a direita populista e neofascista, para depois, com a atrofia dos mecanismos de comando dos sistemas econômicos e políticos dessas nações, recomendar como tábua de salvação, talvez, a dolarização de suas economias.

Na América Latina, já há três economias dolarizadas: Panamá, El Salvador e Equador. Não foi por acaso que Javier Milei, atual Presidente da Argentina e representante dessa “nova direita” na América Latina, defendeu enfaticamente, durante sua campanha, a total independência do Banco Central e a dolarização da economia argentina.

Ele estava dando voz ao projeto dos EUA, especialmente dos Republicanos, que visa manter o dólar como moeda de reserva ou até mesmo forçar a total dolarização das principais economias da América Latina: Brasil, México e Argentina. A população desses países, no geral, ainda não entendeu o que está em jogo com o começo do fim da Era dos petrodólares. O mundo e a vida, como nós conhecemos, mudarão completamente.

É no mínimo irônico que o elemento decisor para a sinalização de uma nova Era na economia internacional e na geopolítica, sinalizando a construção de um novo sistema econômico-financeiro multipolar, passe pela definição de um monarca, o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman. A decisão da Arábia Saudita de não renovar o pacto do petrodólar com os EUA representa um marco histórico, com implicações vastas e complexas.

À medida que o equilíbrio de poder econômico e político global se ajusta a essa nova realidade, o mundo enfrenta uma era de incertezas e oportunidades. A compreensão e a adaptação a esses novos desafios serão cruciais para todas as nações, especialmente aquelas na América Latina, que podem ser as próximas peças nesse xadrez geopolítico e econômico em constante evolução.

 

¨      Mesmo com sanções, produtos russos furam mais um bloqueio e chegam ao mercado de Cingapura

Produtos russos, que vão de itens para cabelo a chocolate, estão chegando às prateleiras dos supermercados virtuais de Cingapura, mesmo com muitos países e empresas seguindo as sanções ocidentais ou evitando fazer negócios com Moscou após o início da operação na Ucrânia.

Visitantes dos sites Lazada, Redmart e Shopee, em Cingapura, podem encontrar os mais variados produtos originários da Rússia, incluindo potes de ovas de salmão, condicionadores de cabelo, bolos waffle e chocolates de leite com avelã.

Enquanto várias nações têm proibições de importação de produtos russos por conta da operação, as de Cingapura são limitadas a atividades de arrecadação de fundos ou a exportações que poderiam contribuir diretamente para o conflito, mas não há nenhuma proibição contra a venda de mantimentos russos na ilha e não há sanções sobre exportações de alimentos.

"Os cingapurianos não são geralmente o tipo de pessoa que boicota", disse Sovan Patra, professor sênior da Escola de Ciências Sociais da Universidade de Administração de Cingapura, ouvido pela Bloomberg.

O país asiático condenou a operação na Ucrânia, mas, à medida que o conflito chega ao seu terceiro ano, qualquer demonstração de receio está diminuindo, analisou a mídia.

No mês passado, a Reuters noticiou que as exportações de produtos petrolíferos refinados da Rússia para Cingapura atingiram o maior nível esse ano.

As importações de nafta russa para Cingapura – ingrediente essencial para a fabricação de produtos petroquímicos como plásticos e fibras têxteis – aumentaram para cerca de quase 500.000 toneladas métricas em maio, analisou a mídia.

A Ásia tem uma escassez estrutural de nafta e depende do noroeste da Europa, do Mediterrâneo e dos Estados Unidos para suprir o déficit de cerca de 2 milhões de toneladas por mês.

A Rússia foi responsável por 25% das importações totais de nafta para a Ásia em 2023, mostraram dados de rastreamento de navios da Kpler, citados pela agência.

¨      FMI pede que usuários de ativos russos garantam que ação não prejudicará o sistema monetário global

O Fundo Monetário Internacional (FMI) pediu que os países que utilizam ativos russos garantam que o sistema monetário global não será prejudicado.

É o que disse, nesta sexta-feira (28), Gavin Gray, chefe da missão do FMI na Ucrânia.

"Pedimos aos países envolvidos que garantam que qualquer ação tenha fundamentos legais suficientes", disse Gray.

·        Uso dos ativos russos

Em 24 de junho, a União Europeia aprovou a primeira parcela da ajuda a Kiev a ser financiada pelos juros dos ativos russos congelados, apesar do veto da Hungria, uma medida sem qualquer tipo de precedente legal no sistema internacional.

A decisão da União Europeia (UE) de financiar Kiev com 1,4 bilhão de euros (aproximadamente R$ 8,27 bilhões) proveniente dos lucros dos ativos russos congelados mostra que "o Ocidente continua roubando", segundo o que o correspondente de guerra francês Laurent Brayard disse à Sputnik.

Ele também questionou a democracia na Europa, afirmando que quem toma as decisões está nos EUA.

Por outro lado, a ministra das Relações Exteriores holandesa, Hanke Bruins Slot, confirmou que este 1,4 bilhão de euros (R$ 8,4 bilhões) seriam utilizados para comprar munições, artilharia, mísseis e sistemas de defesa aérea para a Ucrânia.

A UE e o G7 bloquearam ativos russos no valor de 300 bilhões de euros (aproximadamente R$ 1,7 trilhão), depositados em bancos ocidentais, desde o início da operação militar especial na Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022. A operação tem como objetivo defender as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk (RPD e RPL) do genocídio cometido por Kiev e enfrentar os riscos de segurança nacional representados pelo avanço da OTAN em direção ao leste.

¨      Analista explica como Rússia pode responder às ações dos EUA após o cancelamento do Tratado INF

Uma versão de míssil com alcance aumentado para o sistema Iskander-M e um novo sistema de médio alcance baseado em um dos sistemas móveis de mísseis terrestres podem ser desenvolvidos na Rússia em resposta à implantação pelos EUA de mísseis de médio e curto alcance perto da fronteira russa, disse à Sputnik o analista militar Igor Korotchenko.

Ontem (28), o presidente russo Vladimir Putin disse em uma reunião operacional com os membros permanentes do Conselho de Segurança da Rússia que Moscou, pelo visto, precisa iniciar a produção de mísseis de médio e curto alcance de baseamento terrestre e tomar decisões sobre a sua implantação, reagindo às ações dos EUA relacionadas ao abandono do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês).

"Em primeiro lugar, é possível aumentar as características tático-técnicas do sistema Iskander-M no que diz respeito aos seus mísseis aerobalístico e de cruzeiro, de modo a tornar o alcance do lançamento muito maior, do que as existentes", disse o especialista.

Além disso, de acordo com Korotchenko, sob essas mesmas condições, é possível criar um sistema de mísseis de médio alcance com base em um dos sistemas móveis de mísseis terrestres desenvolvidos pela corporação Instituto de Tecnologia Térmica de Moscou.

Como uma das tarefas mais importantes na criação de uma nova geração de sistemas de mísseis russos, o analista destacou a salvaguarda de sua mobilidade. Isso permitirá que eles sejam dispersos na área de posicionamento durante o serviço de combate. Além disso, aumentará a sua dissimulação e dificultará ao máximo que sejam detectados por meios de reconhecimento espacial do adversário.

"Vale relembrar que, ao implantar, por exemplo, os referidos sistemas no leste da Rússia, podemos manter na mira uma série de alvos militares dos EUA no Alasca e garantir, se necessário, a supressão das bases militares americanas nos países que apoiam a política agressiva dos EUA contra a Rússia na região Ásia-Pacífico", concluiu o analista militar.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Sputnik Brasil