Zé
Barbosa de Araújo: Bolsonarismo e a celebração da imbecilidade
O episódio
envolvendo a marca Ypê talvez seja um dos retratos mais acabados do estágio de
degradação intelectual a que chegou parte significativa do bolsonarismo. Diante
de uma recomendação técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre
riscos relacionados a determinados lotes de produtos, milhares de pessoas
decidiram reagir não com prudência, nem com racionalidade, mas com fanatismo
político. A lógica foi simples, grotesca e reveladora: se a marca esteve
associada a apoiadores de Jair Bolsonaro, então qualquer medida regulatória
contra ela só poderia ser “perseguição”. E, portanto, consumir um produto
potencialmente nocivo passou a ser, para alguns, um ato de militância
ideológica.
Há algo
profundamente perturbador nisso. Não apenas pela irresponsabilidade sanitária,
mas porque o caso escancara um fenômeno muito maior: o bolsonarismo transformou
a imbecilidade em identidade política. O absurdo deixou de ser um desvio
vergonhoso e virou demonstração pública de pertencimento. Quanto mais ridícula
a tese, mais ela funciona como senha tribal. A irracionalidade passou a operar
como prova de fidelidade.
Foi
assim na pandemia. Enquanto hospitais colapsavam e covas coletivas eram abertas
em Manaus, milhões de brasileiros aderiram à negação científica como se fosse
uma cruzada moral. A vacina, fruto de décadas de pesquisa científica acumulada,
foi convertida em objeto de paranoia delirante. Espalhou-se que imunizantes
alterariam DNA, implantariam chips, causariam magnetismo corporal ou
transformariam pessoas em jacarés, alusão a uma frase grotesca dita pelo
próprio Jair Bolsonaro e recebida por muitos não como vergonha nacional, mas
como símbolo de autenticidade “antissistema”.
A
tragédia brasileira durante a Covid não foi apenas sanitária. Foi
civilizatória. Médicos charlatães viraram celebridades digitais.
Influenciadores sem qualquer formação passaram a desacreditar pesquisadores,
universidades e instituições científicas. A ignorância foi romantizada como
virtude popular, enquanto o conhecimento técnico passou a ser tratado como
conspiração elitista. A estupidez ganhou estética, linguagem e militância
organizada.
O
terraplanismo, que durante décadas parecia apenas uma excentricidade folclórica
da internet, encontrou terreno fértil nesse ambiente de colapso cognitivo. Não
porque todos os bolsonaristas acreditassem literalmente que a Terra é plana,
mas porque o bolsonarismo consolidou uma cultura política baseada na rejeição
sistemática da realidade verificável. O método é sempre o mesmo: desacredita-se
qualquer fonte confiável (imprensa, universidades, ciência, dados oficiais)
para substituí-la por correntes de WhatsApp, vídeos conspiratórios e
“especialistas” de ocasião. A verdade deixa de ser aquilo que pode ser
demonstrado; passa a ser aquilo que reforça ressentimentos ideológicos.
Esse
mecanismo produz uma inversão moral devastadora. O sujeito racional vira
suspeito. O ignorante convicto vira “corajoso”. O pesquisador é tratado como
inimigo. O fanático desinformado é celebrado como alguém “que pensa por si
próprio”. Trata-se de um movimento político que sequestrou o sentimento
legítimo de indignação popular e o converteu numa máquina de culto ao grotesco.
Não é
coincidência que figuras mais histriônicas, violentas e caricatas tenham
prosperado nesse ambiente. O bolsonarismo premiou o escândalo permanente.
Quanto mais vulgar, mais autêntico parecia. Quanto mais agressivo, mais
“verdadeiro”. A política foi substituída por uma espécie de espetáculo da
brutalidade intelectual. Não se exigia coerência, projeto nacional ou
capacidade administrativa. Bastava odiar os inimigos corretos: jornalistas,
professores, artistas, cientistas, defensores dos direitos humanos,
universidades, ambientalistas, feministas, qualquer pessoa minimamente
comprometida com reflexão crítica.
O mais
assustador é perceber que essa adesão ao absurdo não ocorre apesar do ridículo,
mas justamente por causa dele. O comportamento irracional tornou-se
performático. Defender cloroquina contra evidências científicas, atacar
vacinas, relativizar golpes de Estado, repetir teorias conspiratórias ou
consumir produtos sob suspeita sanitária apenas para desafiar autoridades virou
demonstração pública de pertencimento político. O nonsense passou a funcionar
como ritual coletivo.
Há
nisso uma dimensão quase religiosa, não no sentido espiritual, mas sectário.
Toda seita precisa romper seus membros da realidade compartilhada. Precisa
criar um universo paralelo onde apenas o grupo possui acesso à “verdade”. O
bolsonarismo operou exatamente assim. Criou uma bolha emocional onde fatos
objetivos têm menos importância do que narrativas afetivas de perseguição.
Qualquer crítica vira prova da conspiração. Qualquer investigação é “censura”.
Qualquer responsabilização é “ditadura”. A vítima permanente tornou-se uma
figura central dessa identidade política.
Evidentemente,
o anti-intelectualismo não nasceu com Bolsonaro. O obscurantismo sempre
existiu. Mas o bolsonarismo lhe deu legitimidade institucional, escala de
massas e linguagem pop. Pela primeira vez desde a redemocratização, o
negacionismo deixou de ser marginal para ocupar o centro do poder político
nacional. A presidência da República tornou-se palco diário de desinformação
organizada.
As
consequências disso são profundas e duradouras. Uma sociedade que perde a
capacidade de distinguir fato de delírio torna-se vulnerável a toda espécie de
autoritarismo. Quando a verdade objetiva morre, sobra apenas o grito, a
manipulação emocional e a força bruta. Não existe democracia saudável sem algum
compromisso coletivo com a realidade.
O caso
da Ypê, por mais aparentemente banal que seja, sintetiza perfeitamente essa
decadência. Pessoas dispostas a colocar a própria saúde em risco para defender
uma identidade política revelam um grau alarmante de submissão ideológica. Não
importa mais o conteúdo da informação. Importa apenas quem é percebido como
aliado ou inimigo.
Talvez
esse seja o traço mais perverso do bolsonarismo: ter transformado a humilhação
intelectual em orgulho coletivo. Fazer papel de ridículo deixou de causar
constrangimento. Pelo contrário: virou demonstração de fidelidade política. O
grotesco foi naturalizado. O patético foi convertido em linguagem pública. A
ignorância passou a ser celebrada como autenticidade popular.
E uma
nação que começa a aplaudir a própria degradação intelectual entra num
território perigosíssimo, porque quando a imbecilidade vira projeto político, a
barbárie nunca demora a chegar.
• Anvisa encontrou “quadro crítico,
caracterizado como de risco sanitário elevado” na fábrica da Ypê
Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve decidir nesta semana, em reunião
colegiada, se mantém a suspensão da fabricação e da comercialização de um lote
de produtos de limpeza da marca Ypê, após uma inspeção sanitária apontar falhas
graves na unidade da empresa em Amparo, no interior de São Paulo.
Imagens
do relatório da fiscalização mostram equipamentos utilizados na produção de
detergentes e lava-roupas com marcas de corrosão. Entre os pontos destacados
pelos fiscais está o estado de conservação de um tanque usado na manipulação de
produtos para lava-louças. O documento também relata que restos de produtos
armazenados e devolvidos foram encontrados nas linhas de envase da fábrica.
A
inspeção foi realizada por técnicos da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária, do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e da Vigilância
Sanitária de Amparo. Durante quatro dias, os fiscais avaliaram as condições de
produção da Química Amparo, fabricante da marca Ypê. A decisão da Anvisa foi
publicada na última quinta-feira.
Segundo
a agência, foram identificados “descumprimentos relevantes em etapas críticas
do processo produtivo”, incluindo falhas nos sistemas de garantia da qualidade,
produção e controle de qualidade.
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Boas práticas de fabricação
O
relatório afirma ainda que os problemas encontrados comprometem as boas
práticas de fabricação de saneantes e indicam risco sanitário, com
possibilidade de contaminação microbiológica e presença de micro-organismos
patogênicos nos produtos.
O risco
sanitário foi identificado em lotes de lava-louças, lava-roupas líquido e
desinfetantes com numeração final 1. A orientação da Anvisa é para que
consumidores suspendam imediatamente o uso desses produtos e entrem em contato
com o serviço de atendimento ao consumidor da empresa para informações sobre o
recolhimento.
O
documento da inspeção destaca ainda que, entre dezembro de 2025 e abril de
2026, a empresa registrou resultados fora da especificação microbiológica,
incluindo testes positivos para pseudomonas aeruginosa, uma bactéria encontrada
em 80 lotes de produtos acabados.
De
acordo com os fiscais, esses lotes não foram reprovados pelo controle de
qualidade e permaneceram armazenados no almoxarifado da empresa aguardando uma
definição financeira.
A
inspeção concluiu que o conjunto das irregularidades configura “um quadro
crítico, caracterizado como de risco sanitário elevado”, exigindo medidas
corretivas imediatas para evitar riscos à saúde dos consumidores e o
agravamento de sanções sanitárias.
Segundo
a Anvisa, produtos de limpeza contaminados por bactérias podem provocar
infecções na pele, nos olhos e problemas respiratórios, principalmente em
pessoas vulneráveis, como idosos e imunossuprimidos.
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O que diz a Ypê
Em nota
ao programa Fantástico, a Ypê afirmou que a inspeção não encontrou contaminação
nos produtos comercializados e informou que possui controle de qualidade para
identificar e descartar itens fora do padrão exigido pela empresa.
A
fabricante também declarou que as imagens divulgadas mostram áreas sem contato
direto com os produtos e que os locais fazem parte de “um plano robusto de
melhorias na fábrica”, desenvolvido em alinhamento com a Anvisa desde o ano
passado.
A
empresa informou ainda que mais da metade das adequações já foi executada e que
a produção na unidade permanece paralisada desde quinta-feira para acelerar as
mudanças exigidas pela agência reguladora.
A Ypê
reiterou “seu compromisso de 75 anos como uma empresa 100% nacional, focada em
entregar produtos de qualidade a um preço justo para todos os brasileiros”.
Na
sexta-feira, a empresa apresentou recurso administrativo contra a decisão da
Anvisa, o que suspendeu automaticamente os efeitos da medida até a análise
definitiva do caso.
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Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo
Em
nota, o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo afirmou que a
avaliação técnica sobre o risco sanitário permanece mantida e reforçou a
recomendação para que consumidores não utilizem os produtos incluídos na medida
sanitária.
O órgão
também orientou mercados, supermercados e estabelecimentos comerciais a
retirarem os lotes afetados das prateleiras e impedirem sua venda.
A
diretoria colegiada da Anvisa deve analisar o caso na próxima quarta-feira.
Segundo o diretor-presidente da agência, Leandro Pinheiro Safatle, o processo
segue critérios técnicos e científicos.
“Foi
feita toda essa investigação, toda essa análise. Então, tem os pareceres que
foram feitos tecnicamente. A Anvisa segue a boa técnica, segue a ciência e
segue a melhor metodologia”, afirmou.
Safatle
também destacou que a empresa teve garantido o direito à ampla defesa durante o
processo administrativo e que a suspensão temporária da medida ocorreu
automaticamente após a apresentação do recurso.
Anvisa
monitorava produtos desde contaminação microbiológica na fábrica em 2025
fiscalização
que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a determinar,
nesta quinta-feira (7), suspensão da fabricação e recolhimento de produtos da
Ypê teve uma motivação extra: o “histórico de contaminação microbiológica”
registrado na fábrica da empresa em novembro de 2025, de acordo com a própria
agência.
No ano
passado, o órgão havia mandado recolher lotes específicos de produtos para
lavagem de roupas por contaminação da bactéria Pseudomonas aeruginosa.
Os
produtos recolhidos, à época, foram lava roupas líquido Ypê Express, lava
roupas líquido Tixan Ypê e lava roupas líquido Power Act.
A
Anvisa informou que a fiscalização realizada na última semana de abril de 2026
foi efetuada devido a esse histórico, além de novos elementos identificados,
que apontaram a necessidade de reavaliar as condições de fabricação.
O caso
de novembro de 2025 seguiu em monitoramento sanitário, o que motivou a nova
inspeção para avaliar se as Boas Práticas de Fabricação estavam sendo cumpridas
e se as medidas tomadas pela empresa eram efetivas.
As
descobertas atuais da agência indicam fragilidades no sistema de qualidade, no
controle microbiológico, na produção, na limpeza e sanitização e na
rastreabilidade. Todos os aspectos estão diretamente ligados à prevenção de
desvios microbiológicos.
“Há
conexão técnica entre o histórico anterior e a necessidade de aprofundamento da
fiscalização, embora a medida atual esteja baseada na avaliação dos achados
verificados na inspeção de abril de 2026”, destacou a agência.
Relembre
o caso
A
Anvisa determinou, nesta quinta-feira (7), o recolhimento de produtos da marca
Ypê, incluindo lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetantes de todos
os lotes com numeração final 1. Os itens foram fabricados pela empresa Química
Amparo, na unidade localizada em Amparo, interior paulista.
Além do
recolhimento, a Anvisa determinou a suspensão da fabricação, comercialização,
distribuição e uso dos produtos atingidos pela medida.
Segundo
a agência, a decisão foi tomada após uma avaliação técnica de risco sanitário
realizada em conjunto com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS). A
análise ocorreu depois de uma inspeção conduzida na última semana em parceria
com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância
Sanitária de Amparo.
Durante
a fiscalização, foram identificados descumprimentos considerados relevantes em
etapas críticas do processo de produção. Entre os problemas apontados estão
falhas nos sistemas de garantia da qualidade, na produção e no controle de
qualidade dos produtos.
De
acordo com a Anvisa, as irregularidades comprometem o cumprimento das Boas
Práticas de Fabricação (BPF) para saneantes e representam risco à segurança
sanitária, incluindo a possibilidade de contaminação microbiológica, com
presença indesejada de microrganismos patogênicos.
Fonte:
Fórum

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