terça-feira, 12 de maio de 2026

Zé Barbosa de Araújo: Bolsonarismo e a celebração da imbecilidade

O episódio envolvendo a marca Ypê talvez seja um dos retratos mais acabados do estágio de degradação intelectual a que chegou parte significativa do bolsonarismo. Diante de uma recomendação técnica da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre riscos relacionados a determinados lotes de produtos, milhares de pessoas decidiram reagir não com prudência, nem com racionalidade, mas com fanatismo político. A lógica foi simples, grotesca e reveladora: se a marca esteve associada a apoiadores de Jair Bolsonaro, então qualquer medida regulatória contra ela só poderia ser “perseguição”. E, portanto, consumir um produto potencialmente nocivo passou a ser, para alguns, um ato de militância ideológica.

Há algo profundamente perturbador nisso. Não apenas pela irresponsabilidade sanitária, mas porque o caso escancara um fenômeno muito maior: o bolsonarismo transformou a imbecilidade em identidade política. O absurdo deixou de ser um desvio vergonhoso e virou demonstração pública de pertencimento. Quanto mais ridícula a tese, mais ela funciona como senha tribal. A irracionalidade passou a operar como prova de fidelidade.

Foi assim na pandemia. Enquanto hospitais colapsavam e covas coletivas eram abertas em Manaus, milhões de brasileiros aderiram à negação científica como se fosse uma cruzada moral. A vacina, fruto de décadas de pesquisa científica acumulada, foi convertida em objeto de paranoia delirante. Espalhou-se que imunizantes alterariam DNA, implantariam chips, causariam magnetismo corporal ou transformariam pessoas em jacarés, alusão a uma frase grotesca dita pelo próprio Jair Bolsonaro e recebida por muitos não como vergonha nacional, mas como símbolo de autenticidade “antissistema”.

A tragédia brasileira durante a Covid não foi apenas sanitária. Foi civilizatória. Médicos charlatães viraram celebridades digitais. Influenciadores sem qualquer formação passaram a desacreditar pesquisadores, universidades e instituições científicas. A ignorância foi romantizada como virtude popular, enquanto o conhecimento técnico passou a ser tratado como conspiração elitista. A estupidez ganhou estética, linguagem e militância organizada.

O terraplanismo, que durante décadas parecia apenas uma excentricidade folclórica da internet, encontrou terreno fértil nesse ambiente de colapso cognitivo. Não porque todos os bolsonaristas acreditassem literalmente que a Terra é plana, mas porque o bolsonarismo consolidou uma cultura política baseada na rejeição sistemática da realidade verificável. O método é sempre o mesmo: desacredita-se qualquer fonte confiável (imprensa, universidades, ciência, dados oficiais) para substituí-la por correntes de WhatsApp, vídeos conspiratórios e “especialistas” de ocasião. A verdade deixa de ser aquilo que pode ser demonstrado; passa a ser aquilo que reforça ressentimentos ideológicos.

Esse mecanismo produz uma inversão moral devastadora. O sujeito racional vira suspeito. O ignorante convicto vira “corajoso”. O pesquisador é tratado como inimigo. O fanático desinformado é celebrado como alguém “que pensa por si próprio”. Trata-se de um movimento político que sequestrou o sentimento legítimo de indignação popular e o converteu numa máquina de culto ao grotesco.

Não é coincidência que figuras mais histriônicas, violentas e caricatas tenham prosperado nesse ambiente. O bolsonarismo premiou o escândalo permanente. Quanto mais vulgar, mais autêntico parecia. Quanto mais agressivo, mais “verdadeiro”. A política foi substituída por uma espécie de espetáculo da brutalidade intelectual. Não se exigia coerência, projeto nacional ou capacidade administrativa. Bastava odiar os inimigos corretos: jornalistas, professores, artistas, cientistas, defensores dos direitos humanos, universidades, ambientalistas, feministas, qualquer pessoa minimamente comprometida com reflexão crítica.

O mais assustador é perceber que essa adesão ao absurdo não ocorre apesar do ridículo, mas justamente por causa dele. O comportamento irracional tornou-se performático. Defender cloroquina contra evidências científicas, atacar vacinas, relativizar golpes de Estado, repetir teorias conspiratórias ou consumir produtos sob suspeita sanitária apenas para desafiar autoridades virou demonstração pública de pertencimento político. O nonsense passou a funcionar como ritual coletivo.

Há nisso uma dimensão quase religiosa, não no sentido espiritual, mas sectário. Toda seita precisa romper seus membros da realidade compartilhada. Precisa criar um universo paralelo onde apenas o grupo possui acesso à “verdade”. O bolsonarismo operou exatamente assim. Criou uma bolha emocional onde fatos objetivos têm menos importância do que narrativas afetivas de perseguição. Qualquer crítica vira prova da conspiração. Qualquer investigação é “censura”. Qualquer responsabilização é “ditadura”. A vítima permanente tornou-se uma figura central dessa identidade política.

Evidentemente, o anti-intelectualismo não nasceu com Bolsonaro. O obscurantismo sempre existiu. Mas o bolsonarismo lhe deu legitimidade institucional, escala de massas e linguagem pop. Pela primeira vez desde a redemocratização, o negacionismo deixou de ser marginal para ocupar o centro do poder político nacional. A presidência da República tornou-se palco diário de desinformação organizada.

As consequências disso são profundas e duradouras. Uma sociedade que perde a capacidade de distinguir fato de delírio torna-se vulnerável a toda espécie de autoritarismo. Quando a verdade objetiva morre, sobra apenas o grito, a manipulação emocional e a força bruta. Não existe democracia saudável sem algum compromisso coletivo com a realidade.

O caso da Ypê, por mais aparentemente banal que seja, sintetiza perfeitamente essa decadência. Pessoas dispostas a colocar a própria saúde em risco para defender uma identidade política revelam um grau alarmante de submissão ideológica. Não importa mais o conteúdo da informação. Importa apenas quem é percebido como aliado ou inimigo.

Talvez esse seja o traço mais perverso do bolsonarismo: ter transformado a humilhação intelectual em orgulho coletivo. Fazer papel de ridículo deixou de causar constrangimento. Pelo contrário: virou demonstração de fidelidade política. O grotesco foi naturalizado. O patético foi convertido em linguagem pública. A ignorância passou a ser celebrada como autenticidade popular.

E uma nação que começa a aplaudir a própria degradação intelectual entra num território perigosíssimo, porque quando a imbecilidade vira projeto político, a barbárie nunca demora a chegar.

•        Anvisa encontrou “quadro crítico, caracterizado como de risco sanitário elevado” na fábrica da Ypê

Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deve decidir nesta semana, em reunião colegiada, se mantém a suspensão da fabricação e da comercialização de um lote de produtos de limpeza da marca Ypê, após uma inspeção sanitária apontar falhas graves na unidade da empresa em Amparo, no interior de São Paulo.

Imagens do relatório da fiscalização mostram equipamentos utilizados na produção de detergentes e lava-roupas com marcas de corrosão. Entre os pontos destacados pelos fiscais está o estado de conservação de um tanque usado na manipulação de produtos para lava-louças. O documento também relata que restos de produtos armazenados e devolvidos foram encontrados nas linhas de envase da fábrica.

A inspeção foi realizada por técnicos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo e da Vigilância Sanitária de Amparo. Durante quatro dias, os fiscais avaliaram as condições de produção da Química Amparo, fabricante da marca Ypê. A decisão da Anvisa foi publicada na última quinta-feira.

Segundo a agência, foram identificados “descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo”, incluindo falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade.

<><> Boas práticas de fabricação

O relatório afirma ainda que os problemas encontrados comprometem as boas práticas de fabricação de saneantes e indicam risco sanitário, com possibilidade de contaminação microbiológica e presença de micro-organismos patogênicos nos produtos.

O risco sanitário foi identificado em lotes de lava-louças, lava-roupas líquido e desinfetantes com numeração final 1. A orientação da Anvisa é para que consumidores suspendam imediatamente o uso desses produtos e entrem em contato com o serviço de atendimento ao consumidor da empresa para informações sobre o recolhimento.

O documento da inspeção destaca ainda que, entre dezembro de 2025 e abril de 2026, a empresa registrou resultados fora da especificação microbiológica, incluindo testes positivos para pseudomonas aeruginosa, uma bactéria encontrada em 80 lotes de produtos acabados.

De acordo com os fiscais, esses lotes não foram reprovados pelo controle de qualidade e permaneceram armazenados no almoxarifado da empresa aguardando uma definição financeira.

A inspeção concluiu que o conjunto das irregularidades configura “um quadro crítico, caracterizado como de risco sanitário elevado”, exigindo medidas corretivas imediatas para evitar riscos à saúde dos consumidores e o agravamento de sanções sanitárias.

Segundo a Anvisa, produtos de limpeza contaminados por bactérias podem provocar infecções na pele, nos olhos e problemas respiratórios, principalmente em pessoas vulneráveis, como idosos e imunossuprimidos.

<><> O que diz a Ypê

Em nota ao programa Fantástico, a Ypê afirmou que a inspeção não encontrou contaminação nos produtos comercializados e informou que possui controle de qualidade para identificar e descartar itens fora do padrão exigido pela empresa.

A fabricante também declarou que as imagens divulgadas mostram áreas sem contato direto com os produtos e que os locais fazem parte de “um plano robusto de melhorias na fábrica”, desenvolvido em alinhamento com a Anvisa desde o ano passado.

A empresa informou ainda que mais da metade das adequações já foi executada e que a produção na unidade permanece paralisada desde quinta-feira para acelerar as mudanças exigidas pela agência reguladora.

A Ypê reiterou “seu compromisso de 75 anos como uma empresa 100% nacional, focada em entregar produtos de qualidade a um preço justo para todos os brasileiros”.

Na sexta-feira, a empresa apresentou recurso administrativo contra a decisão da Anvisa, o que suspendeu automaticamente os efeitos da medida até a análise definitiva do caso.

<><> Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo

Em nota, o Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo afirmou que a avaliação técnica sobre o risco sanitário permanece mantida e reforçou a recomendação para que consumidores não utilizem os produtos incluídos na medida sanitária.

O órgão também orientou mercados, supermercados e estabelecimentos comerciais a retirarem os lotes afetados das prateleiras e impedirem sua venda.

A diretoria colegiada da Anvisa deve analisar o caso na próxima quarta-feira. Segundo o diretor-presidente da agência, Leandro Pinheiro Safatle, o processo segue critérios técnicos e científicos.

“Foi feita toda essa investigação, toda essa análise. Então, tem os pareceres que foram feitos tecnicamente. A Anvisa segue a boa técnica, segue a ciência e segue a melhor metodologia”, afirmou.

Safatle também destacou que a empresa teve garantido o direito à ampla defesa durante o processo administrativo e que a suspensão temporária da medida ocorreu automaticamente após a apresentação do recurso.

Anvisa monitorava produtos desde contaminação microbiológica na fábrica em 2025

fiscalização que levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a determinar, nesta quinta-feira (7), suspensão da fabricação e recolhimento de produtos da Ypê teve uma motivação extra: o “histórico de contaminação microbiológica” registrado na fábrica da empresa em novembro de 2025, de acordo com a própria agência.

No ano passado, o órgão havia mandado recolher lotes específicos de produtos para lavagem de roupas por contaminação da bactéria Pseudomonas aeruginosa.

Os produtos recolhidos, à época, foram lava roupas líquido Ypê Express, lava roupas líquido Tixan Ypê e lava roupas líquido Power Act.

A Anvisa informou que a fiscalização realizada na última semana de abril de 2026 foi efetuada devido a esse histórico, além de novos elementos identificados, que apontaram a necessidade de reavaliar as condições de fabricação.

O caso de novembro de 2025 seguiu em monitoramento sanitário, o que motivou a nova inspeção para avaliar se as Boas Práticas de Fabricação estavam sendo cumpridas e se as medidas tomadas pela empresa eram efetivas.

As descobertas atuais da agência indicam fragilidades no sistema de qualidade, no controle microbiológico, na produção, na limpeza e sanitização e na rastreabilidade. Todos os aspectos estão diretamente ligados à prevenção de desvios microbiológicos.

“Há conexão técnica entre o histórico anterior e a necessidade de aprofundamento da fiscalização, embora a medida atual esteja baseada na avaliação dos achados verificados na inspeção de abril de 2026”, destacou a agência.

Relembre o caso

A Anvisa determinou, nesta quinta-feira (7), o recolhimento de produtos da marca Ypê, incluindo lava-louças, sabão líquido para roupas e desinfetantes de todos os lotes com numeração final 1. Os itens foram fabricados pela empresa Química Amparo, na unidade localizada em Amparo, interior paulista.

Além do recolhimento, a Anvisa determinou a suspensão da fabricação, comercialização, distribuição e uso dos produtos atingidos pela medida.

Segundo a agência, a decisão foi tomada após uma avaliação técnica de risco sanitário realizada em conjunto com o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS). A análise ocorreu depois de uma inspeção conduzida na última semana em parceria com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária de Amparo.

Durante a fiscalização, foram identificados descumprimentos considerados relevantes em etapas críticas do processo de produção. Entre os problemas apontados estão falhas nos sistemas de garantia da qualidade, na produção e no controle de qualidade dos produtos.

De acordo com a Anvisa, as irregularidades comprometem o cumprimento das Boas Práticas de Fabricação (BPF) para saneantes e representam risco à segurança sanitária, incluindo a possibilidade de contaminação microbiológica, com presença indesejada de microrganismos patogênicos.

 

Fonte: Fórum

 

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