segunda-feira, 11 de maio de 2026

Agroecologia, a arte de enfrentar o atraso

Como camponeses se organizam, desde os anos 80, em torno de um Brasil sem venenos. As pontes criadas com a cidade e a Academia. A luta por políticas públicas. E o futuro entrevisto: outra cosmovisão no campo, a partir das tramas da vida...

<><> Agroecologia: ferramenta para resistir à inaceitabilidade fantasmagórica

O modelo produtivo tido como moderno, que fundamentou a prosperidade do modelo de civilização dominante, apresenta sinais de exaustão e perda de eficiência, além de ser inadequado para lidar com a nova realidade climática (CRS Report, 2023). A Revolução Verde – impulsionada pelo expressivo avanço no setor químico a partir da Segunda Guerra Mundial – resultou em custos ambientais de magnitude equivalente aos seus resultados econômicos. Um modelo fortemente calcado no uso abusivo de agrotóxicos e de fertilizantes. Estes, utilizados com um elevado índice de “desperdício”, visto que apenas 17% das aplicações são real- mente absorvidas pelas plantas, para depois serem consumidas na alimentação (Erisman et al, 2008). O material residual alcança os cursos d’água e contribui na proliferação de algas e formação de zonas mortas, num real sufocamento da vida aquática (Jonhson; Harisson, 2015). O uso de fertilizantes químicos é responsável também pela emissão de grandes quantidades de gases de efeito estufa, tanto que o agronegócio é o maior emissor desses gases no Brasil.

É necessário considerar que a produtividade do modelo do agronegócio brasileiro estabelece sucessivos recordes a partir das qualidades intrínsecas dos ecossistemas, o que representa uma significativa diferença em relação à perspectiva culturalmente talhada (Chã, 2018), de que o seu desempenho é resultado exclusivo de esforços em pesquisa e tecnologia próprios da agricultura industrial. No entanto, ele se baseia numa mecânica de funcionalidade voltada à maximização de lucros que é fortemente subsidiada pelos serviços ecossistêmicos[1]. Situação que facilita a operação das commodities da big farm e promove a expansão acelerada da fronteira agrícola em todas as regiões do país, avançando a grilagem de terras e a expropriação de territórios de povos tradicionais. Com esse pano de fundo, a busca por alternativas de adequação ao cenário climático vigente consolida a agroecologia como uma escolha eficaz (Gliessman, 2000), pois nesse paradigma a restauração dos sistemas vivos é central para o desenvolvimento da capacidade humana de coexistir com os sistemas de sustentação da vida no planeta (Mang; Reed, 2012). Sentido no qual a agroecologia nos parece uma ação concreta não apenas de reta- guarda contra a destruição da biosfera promovida pelo modelo típico do agronegócio, mas também um movimento em certa medida insurgente. Afinal, ela avança por uma ontologia contestatória a que interpreta a natureza como mera fonte de “recursos naturais” à acumulação capitalista predatória. Talvez por isso, forneça elementos objetivos e subjetivos para forjar uma versão de humanidade menos alienada da natureza e de si mesma, carregando em si tanto o ethos barroco de que trata Echeverría, como a ontologia dos povos tradicionais do campo latino-americano – que em seus territórios resistem ao ontocídio do capital, que pela violência da expropriação pretende suplantar com commodities a biodiversidade e o conhecimento a ela associado.

Segundo Altieri (2002), a agroecologia concilia conhecimentos tradicionais e científicos para promover a sustentabilidade, a segurança alimentar e a resiliência dos ecossistemas. Com foco na biodiversidade, essa prática combina culturas e sistemas locais de conhecimento agrícola, além de encorajar um manejo menos dependente do pacote tecnológico da Revolução Verde, consequentemente, do uso de agrotóxicos. Além disso, em vez de ganhos de escala com grandes monoculturas, a agroecologia propõe diversidade, tanto na produção vegetal como na criação animal, com foco na variedade nutricional, na resistência a pragas e na produtividade por meio da agrossilvicultura e sistemas mistos de produção, a fim de potencializar a eficiência intrínseca da natureza e favorecer a fertilidade natural do solo.

Como uma ciência articulada entre a agronomia e a ecologia, a agroecologia, por meio da diversidade funcional, busca integrar agroecossistemas à matriz da paisagem para gerar resiliência na dinâmica dos ecossistemas e favorecer a estabilidade diante das mudanças ambientais. Essa conectividade harmônica tende a aumentar a biodiversidade, facilitar o manejo de pragas e reduzir a dependência de controle químico. Com uma taxa maior de reciclagem de biomassa, a resposta do agroecossistema às perturbações e a qualidade do solo são otimizadas, e a perda de elementos naturais, minimizada. Um modelo que privilegia interações benéficas e sinérgicas entre seres humanos e seu substrato material e condição inarredável de existência. Como processo, a transição para a agroecologia compreende a substituição de insumos perniciosos por outros mais adequados e de maior eficiência, bem como o redesenho de agroecossistemas diversificados para que tenham funções ecológicas autônomas, com foco em maior produtividade, segurança alimentar e resiliência climática a longo prazo.

O Brasil foi um dos primeiros países a instituir uma política nacional de agroecologia, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO). Instituída em 2012, a PNAPO fortaleceu movimentos sociais agroecológicos e deu impulso à criação de cursos universitários na área[2]. Processo que mobilizou e envolveu o trabalho de profissionais em diversos campos do conhecimento, preocupados não apenas com ecologia, mas também com a questão energética e com os problemas socioeconômicos oriundos da Revolução Verde – a Modernização Conservadora. Os primeiros passos articularam pesquisa científica em experiências concretas com fazendas orgânicas, associadas a criação de feiras com produtos oferecidos diretamente pelos produtores.

A instituição da PNAPO não esgota a trajetória da agroecologia no Brasil. Ela é um passo importante numa caminhada iniciada pelo menos desde 1977, quando a Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo (Aeasp) manifestou – no I Congresso Paulista de Agronomia – a necessidade de se repensar a modernização agrícola. Pode-se dizer que foi nesse momento que a pauta agroecológica entrara na discussão acadêmica brasileira. Em 1979, durante o IX Congresso Brasileiro de Agronomia, percebeu-se uma grande adesão de militantes mais à esquerda no campo político à agricultura alternativa – especialmente por considerá-la um modelo anticapitalista. Em 1981, a Federação dos estudantes de Agronomia do Brasil (Feab), a Associação dos Engenheiros Agrônomos do Paraná e o Grupo de Agricultura Alternativa dessa associação organizaram o I Encontro Brasileiro de Agricultura Alternativa (Ebaa), um marco da agricultura alternativa brasileira. Com o tempo, a associação entre atividades acadêmicas e militantes involucradas no movimento de agriculturas alternativas conformaram redes que formaram a base da institucionalização da agroecologia no Brasil (Paulino; Gomes, 2020).

No entanto, é notável que esse tema tenha sido abordado de maneira tão tímida pelos governos brasileiros até o momento. O contraste na destinação de recursos divulgada recentemente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária[3] para o período 2025-26 anuncia R$89 bilhões disponíveis para agricultura familiar, mas que fazem triste figura frente os R$516 bilhões destinados à médios e grandes produtores do agronegócio.

No território brasileiro, aproximadamente 17% da floresta amazônica foi perdida nos últimos 50 anos devido ao desmatamento, mineração e à mudança no uso da terra, o que provoca uma perda preocupante de biodiversidade e desestabiliza um ecossistema-chave para a manutenção dos padrões climáticos na América do Sul, interligado ao conjunto maior de sustentação climática global (Hultgren et al, 2025). Esse fato exerce uma influência direta na configuração climática do eixo central norte-sul do território brasileiro, numa grande área transfronteiriça que se estende do território amazônico até a província argentina de Buenos Aires (Cardoso; Rosa, 2019). Além disso, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura estima que 25% das terras agriculturáveis estejam altamente degradadas, como resultado de desmatamentos, práticas agrícolas insustentáveis e urbanização (FAO, 2011); uma tendência recorrente conforme documentado pelo estudo de Richardson et al. (2023), sinalizando que a maioria dos limites planetários – incluindo a integridade da biosfera e os fluxos biogeoquímicos da Terra – estão sendo ultra- passados. Essas alterações pressionam os impactos das mudanças climáticas sentidas globalmente de modo mais significativo para o 1,4 bilhão de pessoas que vivem em áreas vulneráveis (IPCC, 2022). E vale observar que de acordo com o IPCC (2023), o aumento de eventos climáticos extremos expôs globalmente milhões de pessoas à insegurança alimentar e a insegurança hídrica, com impactos adversos desproporcionalmente mais severos para pequenos produtores de alimentos, famílias de baixa renda e especialmente povos indígenas – cujas terras abrigam 80% da biodiversidade remanescente no planeta.

Ao minimizar o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos e privilegiar os gerados internamente nas unidades familiares, a produção agroecológica pode favorecer o acesso da população rural mais necessitada à alimentação de boa qualidade (Anderson et al, 2020). A agroecologia consolida-se a partir de um conceito que articula horizontalmente os interesses de produtores e consumidores por meio de cadeias curtas de credibilidade na produção de alimentos, promovendo uma mobilização estratégica focada nas capacidades de adaptação local em rede. Seu caráter intrínseco de cooperação (PLOEG, 2008) permite inferir que se trata de um modelo gerador de autonomia na produção de alimentos. No que se refere à redução de danos e capacidades regenerativas de ecossistemas, ela figura como estratégia em apenas de 15% da área global cultivada (Schreefel et al, 2020). Assim, para que possa contribuir efetivamente para a mitigação do aumento da temperatura global para além do limite médio de 1.5 Cº acima dos níveis pré-industriais, é necessário que a velocidade de transição à agroecologia triplique até 2030. Não obstante, quando se promove o reconhecimento do rural de modo contínuo ao urbano – como é o caso na perspectiva agroecológica – são favorecidos aspectos que reorientam novas cadeias produtivas, responsáveis e compro- metidas com o território. Dessa forma, não apenas se aperfeiçoa a gestão eficaz do ambiente, como também se investe na restauração do seu potencial natural, base para a operação da sua economia e para a sustentação do tecido da vida (Das; Bocken, 2024).

Segundo Haraway (2022), os catastróficos resultados de nossas atividades no capitaloceno oferecem oportunidade para uma efetiva mudança de paradigma. Uma vez diagnosticado o problema, lidar com ele se torna uma urgência e negá-lo não é uma alternativa viável. Também Thomas Kuhn (1970) sugeriu que os paradigmas desempenham um papel transformador quando há uma mudança de perspectiva acompanhada de uma compreensão acertada da natureza do problema (e da vida). Sob esta ótica, são válidas as tentativas de mapear e elucidar as fissuras e fragilidades, bem como os processos e dinâmicas sobre os quais colocamos nossas lentes. Ampliar o horizonte do debate envolve reconhecer que a fé mobilizada na investigação, no cálculo e na modelagem tem utilidade, pois permitiu compreender que os intrincados processos do planeta nunca foram estáveis, mas sim metaestáveis e altamente capazes de responder a perturbações radicais (Lovelock, 2020). Isso também significa que as formas de apreensão do mundo são tão diversas quanto as culturas o são, e que as formas de conhecimento tradicionais, que perpetuaram comunidades e povos em muitos lugares são válidas enquanto produtoras de sentido e podem indicar o caminho de saída do labirinto em que nos encontramos em nossa relação metabólica coma natureza. O que torna inaceitável o epistemicídio que o modelo de civilização hegemônico provoca.

<><> A experiência da Associação dos Agricultores Ecologistas Solidários do RS

Resgatamos brevemente uma experiência bem-sucedida da agroecologia brasileira: a primeira feira de agricultura ecológica da América Latina, com trajetória que alcança a terceira geração de agricultores no Rio Grande do Sul (Meirelles, 2018).

Trata-se de uma experiência de autogestão que surgiu há 34 anos com um pequeno grupo de agricultores familiares, organizados formalmente como uma cooperativa. Mais tarde – com a chegada de novas famílias – esta assumiu forma de associação. O vínculo associativo formal se iniciou em 1986, aliando a necessidade destes agricultores com o desejo de consumidores urbanos de adquirir alimentos livres de veneno, numa relação sem intermediários. Os primeiros movimentos se consolidaram com encontros de periodicidade quinzenal para comercialização em espaço público; inicialmente num parque na área central de Porto Alegre. Não demorou para que os primeiros agricultores conta- minassem vizinhos e familiares em diferentes regiões do estado com o conceito ecológico. Em 1990 o grupo já havia crescido em número, gênero e grau; e os afiliados urbanos organizaram uma grande feira livre no mesmo parque, chamada de Tupambaé. Este evento deu visibilidade à causa ecológica no Rio Grande do Sul e vale destacar que alguns dos afiliados urbanos eram já conhecidos ativistas, entre eles os agrônomos Jaques Saldanha, Sebastião Pinheiro, Maria José Guazelli e José Lutzemberger.

A Associação dos Agricultores Ecologistas Solidários do RS, ou “Agroecológica”, como é conhecida localmente, teve sua origem neste grupo que organizou uma sede para o funcionamento de sua cooperativa-entreposto nos anos 1990. O abastecimento se dava aos sábados, quando as famílias chegavam de suas respectivas regiões para expor seus produtos na feira localizada em frente à sede da cooperativa. Sob concessão de espaço público pela prefeitura, em evento autogestionado, a feira ganhou corpo na capital gaúcha, diversificou sua oferta de alimentos e tornou-se um projeto pioneiro em termos de cadeias curtas de produção e comercialização de alimentos no Brasil. Embora sua sede física tenha sido desativada em meados dos anos 2000, a feira de agricultores se expandiu em seu local de origem e inspirou o surgimento de seis pontos de comercialização de alimentos orgânicos, em diferentes bairros da capital gaúcha.

Um ponto importante a ser contextualizado é que a procura por alimentos livres de agrotóxicos não fazia parte da cultura local. Havia inclusive algum desmerecimento quanto a estética dos produtos. De acordo com Meirelles (2019), os relatos dos agricultores pioneiros denotam aspectos de uma suposta falta de técnica ou de capricho nos produtos, para que rabanetes e cenouras se parecessem aos dos grandes supermercados, em padrões de tamanho, cor e uniformidade.

Entretanto, os vínculos se fortaleceram. O ambiente das instituições envolvidas favoreceu em certa medida a iniciativa, cedendo espaço na via pública junto ao parque para que a feira ocorresse com regularidade semanal, ademais da acolhida de grupos urbanos que anteviram a importância dessa proposta. Assim, o grupo de associados ecologistas rurais e urbanos assumiu um quadrante da cidade de modo autogestionário, organizando horários de chegada e de saída, interrompendo previamente o trânsito para a realização da feira, assumindo a limpeza e taxas da rede local de energia com independência e autonomia. Essa concessão de uso do espaço público já dura 34 anos, transpassando a troca de gestores municipais numa relação entre sociedade civil organizada e poder público. Trata-se de um exemplo concreto das possibilidades do modelo sinérgico da abordagem agroecológica, apoiado na perspectiva da ecologia política, que entende a governança como fator decisivo na formação dos sistemas agrícolas e de outros sistemas humanos (Anderson et al, 2020).

Orientando-se pelas normativas de certificação orgânica (N46 — Lei 10.831/2023), todas as propriedades afiliadas são credenciadas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os membros da associação são habilitados para o manejo adequado de suas áreas e estão equipados de acordo com as particularidades de cada região bioclimática. Além disso, as famílias participam de capacitações por meio da troca de experiências nos encontros semestrais oportunizados pela associação (Cardoso, 2020).

Com propriedades familiares entre três e 20 hectares, em diferentes biorregiões, atualmente são mais de 100 famílias integra- das num sistema de agroecologia em rede, que abastece 6 feiras semanais em Porto Alegre. Algumas destas famílias investiram em processar itens na propriedade rural, o que resultou em uma gama considerável de produtos agroindustriais. A Agroecológica envolve também três assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), dois destes ligados à produção de arroz em coletivos com cerca de 20 famílias em cada área; grupo responsável pela maior produção de arroz orgânico na América Latina[4].

<><> Reflexões finais

Echeverría busca um desenvolvimento do marxismo a partir de uma leitura particular de O capital. Numa interpretação próxima às de Postone e Meszaros, o filósofo equatoriano recupera a auto subjetivação do valor como um movimento em que o desenrolar da forma puramente social atribuída à matéria assume as rédeas do metabolismo social. Processo histórico que – conforme elucidado por Marx – implica numa sociedade reificada em cujo princípio objetivo da produção é colocado à frente do subjetivo. Com isso, forja-se uma versão de humanidade enfeitiçada, governada e atormentada pelo fruto de suas próprias mãos. No Brasil, o agronegócio é força tarefa dessa humanidade fantasmagórica em sua variação mais cruenta. Nos espaços rurais, onde o consenso commodities/glifosato degrada de maneira cada vez mais intolerável a vida humana e a extra-humana, alargando a fratura metabólica, ele investe contra outras humanidades possíveis e em resistência à pretensão universalista dos que se locupletam com a circulação do valor em si e para si.

A agroecologia pode ser uma ação concreta de contestar – por dentro – tal desenvolvimento, visto que em seus princípios visa concretizar o metabolismo humanidade/natureza proximamente ao que Echeverría chama ethos barroco. Atitude de um grupo social que – sem negar a existência do que considera inaceitável – resiste em meio ao seu avanço. Tal qual fazem os movimentos indígenas e a própria insurgência zapatista, um movimento contestatório impulsionado não exclusivamente pela forma abstrata do valor, mas de alguma maneira a subjugando à materialidade do valor de uso e às necessidades concretas dos sujeitos envolvidos. Postura que não propõe um retrocesso inocente na história. Mas, como afirmou Echeverría numa entrevista concedida a Javier Sigüenza (2011), é uma estratégia para neutralizar a contradição entre a forma natural da vida e a forma social/valor que esta assume no capitalismo. A maneira barroca de viver nesse sistema é um tipo de comportamento que permite ao ser humano neutralizar – mesmo que parcialmente – a cada vez mais insuportável contra- dição capitalista. O peculiar no ethos barroco é que ele implica um momento de resistência calcada na defesa do aspecto qualitativo da produção em detrimento do quantitativo. Uma defesa da forma natural da vida, por dentro dos próprios processos nos quais ela é atacada pela barbárie do valor em processo de valorização. O que o ethos barroco faz – em essência – é reafirmar a vigência da forma natural de vida em meio a destruição da vida provocada pelo capitalismo em sua versão puritana/norte-europeia/estadunidense.

A agroecologia integra esse ethos, em alguma medida resgatando a cosmovisão indígena/camponesa da natureza como trama de vida, com temporalidade intrínseca e temperamento próprio. Uma totalidade que inclui a espécie humana e da qual esta depende. Nesse sentido é possível interpretá-la como ação estratégica de resistência, mas também possibilidade de outro mundo. Um futuro ancestral (Krenak, 2024), visto que recupera um entendimento tradicional e permite imaginar com ele um horizonte emancipatório. Uma versão de humanidade com capacidade de agência, de resgate das rédeas de seu metabolismo com a natureza dos ganhos do valor em valorização. Conforme demonstrou Marx (2013), a subsunção do trabalho ao capital também aliena o ser humano de uma de suas características mais essenciais: a força sinérgica da cooperação consciente, do resultado do trabalho coletivamente organizado com vistas a um objetivo comum, que é sempre maior do que o somatório das ações individuais isoladas. No Rio Grande do Sul, a exitosa experiência da “Agroecológica” atesta isso e prova que é possível recuperar a capa- cidade humana de planejamento e gestão coletiva do processo de reprodução material, articulando equilíbrios próprios das unidades camponesas (Ploeg, 2016) numa interação saudável entre o campo e a cidade, com um metabolismo social menos autofágico e cruento.

 

Fonte: Por Daniel Lemos Jeziorny e Marcos Abrahão Cardoso, em Outas Palavras

 

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