Agroecologia,
a arte de enfrentar o atraso
Como
camponeses se organizam, desde os anos 80, em torno de um Brasil sem venenos.
As pontes criadas com a cidade e a Academia. A luta por políticas públicas. E o
futuro entrevisto: outra cosmovisão no campo, a partir das tramas da vida...
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Agroecologia: ferramenta para resistir à inaceitabilidade fantasmagórica
O
modelo produtivo tido como moderno, que fundamentou a prosperidade do modelo de
civilização dominante, apresenta sinais de exaustão e perda de eficiência, além
de ser inadequado para lidar com a nova realidade climática (CRS Report, 2023).
A Revolução Verde – impulsionada pelo expressivo avanço no setor químico a
partir da Segunda Guerra Mundial – resultou em custos ambientais de magnitude
equivalente aos seus resultados econômicos. Um modelo fortemente calcado no uso
abusivo de agrotóxicos e de fertilizantes. Estes, utilizados com um elevado
índice de “desperdício”, visto que apenas 17% das aplicações são real- mente
absorvidas pelas plantas, para depois serem consumidas na alimentação (Erisman
et al, 2008). O material residual alcança os cursos d’água e contribui na
proliferação de algas e formação de zonas mortas, num real sufocamento da vida
aquática (Jonhson; Harisson, 2015). O uso de fertilizantes químicos é
responsável também pela emissão de grandes quantidades de gases de efeito
estufa, tanto que o agronegócio é o maior emissor desses gases no Brasil.
É
necessário considerar que a produtividade do modelo do agronegócio brasileiro
estabelece sucessivos recordes a partir das qualidades intrínsecas dos
ecossistemas, o que representa uma significativa diferença em relação à
perspectiva culturalmente talhada (Chã, 2018), de que o seu desempenho é
resultado exclusivo de esforços em pesquisa e tecnologia próprios da
agricultura industrial. No entanto, ele se baseia numa mecânica de
funcionalidade voltada à maximização de lucros que é fortemente subsidiada pelos
serviços ecossistêmicos[1]. Situação que facilita a operação das commodities da
big farm e promove a expansão acelerada da fronteira agrícola em todas as
regiões do país, avançando a grilagem de terras e a expropriação de territórios
de povos tradicionais. Com esse pano de fundo, a busca por alternativas de
adequação ao cenário climático vigente consolida a agroecologia como uma
escolha eficaz (Gliessman, 2000), pois nesse paradigma a restauração dos
sistemas vivos é central para o desenvolvimento da capacidade humana de
coexistir com os sistemas de sustentação da vida no planeta (Mang; Reed, 2012).
Sentido no qual a agroecologia nos parece uma ação concreta não apenas de reta-
guarda contra a destruição da biosfera promovida pelo modelo típico do agronegócio,
mas também um movimento em certa medida insurgente. Afinal, ela avança por uma
ontologia contestatória a que interpreta a natureza como mera fonte de
“recursos naturais” à acumulação capitalista predatória. Talvez por isso,
forneça elementos objetivos e subjetivos para forjar uma versão de humanidade
menos alienada da natureza e de si mesma, carregando em si tanto o ethos
barroco de que trata Echeverría, como a ontologia dos povos tradicionais do
campo latino-americano – que em seus territórios resistem ao ontocídio do
capital, que pela violência da expropriação pretende suplantar com commodities
a biodiversidade e o conhecimento a ela associado.
Segundo
Altieri (2002), a agroecologia concilia conhecimentos tradicionais e
científicos para promover a sustentabilidade, a segurança alimentar e a
resiliência dos ecossistemas. Com foco na biodiversidade, essa prática combina
culturas e sistemas locais de conhecimento agrícola, além de encorajar um
manejo menos dependente do pacote tecnológico da Revolução Verde,
consequentemente, do uso de agrotóxicos. Além disso, em vez de ganhos de escala
com grandes monoculturas, a agroecologia propõe diversidade, tanto na produção
vegetal como na criação animal, com foco na variedade nutricional, na
resistência a pragas e na produtividade por meio da agrossilvicultura e
sistemas mistos de produção, a fim de potencializar a eficiência intrínseca da
natureza e favorecer a fertilidade natural do solo.
Como
uma ciência articulada entre a agronomia e a ecologia, a agroecologia, por meio
da diversidade funcional, busca integrar agroecossistemas à matriz da paisagem
para gerar resiliência na dinâmica dos ecossistemas e favorecer a estabilidade
diante das mudanças ambientais. Essa conectividade harmônica tende a aumentar a
biodiversidade, facilitar o manejo de pragas e reduzir a dependência de
controle químico. Com uma taxa maior de reciclagem de biomassa, a resposta do
agroecossistema às perturbações e a qualidade do solo são otimizadas, e a perda
de elementos naturais, minimizada. Um modelo que privilegia interações
benéficas e sinérgicas entre seres humanos e seu substrato material e condição
inarredável de existência. Como processo, a transição para a agroecologia
compreende a substituição de insumos perniciosos por outros mais adequados e de
maior eficiência, bem como o redesenho de agroecossistemas diversificados para
que tenham funções ecológicas autônomas, com foco em maior produtividade,
segurança alimentar e resiliência climática a longo prazo.
O
Brasil foi um dos primeiros países a instituir uma política nacional de
agroecologia, a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO).
Instituída em 2012, a PNAPO fortaleceu movimentos sociais agroecológicos e deu
impulso à criação de cursos universitários na área[2]. Processo que mobilizou e
envolveu o trabalho de profissionais em diversos campos do conhecimento,
preocupados não apenas com ecologia, mas também com a questão energética e com
os problemas socioeconômicos oriundos da Revolução Verde – a Modernização
Conservadora. Os primeiros passos articularam pesquisa científica em
experiências concretas com fazendas orgânicas, associadas a criação de feiras
com produtos oferecidos diretamente pelos produtores.
A
instituição da PNAPO não esgota a trajetória da agroecologia no Brasil. Ela é
um passo importante numa caminhada iniciada pelo menos desde 1977, quando a
Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo (Aeasp) manifestou –
no I Congresso Paulista de Agronomia – a necessidade de se repensar a
modernização agrícola. Pode-se dizer que foi nesse momento que a pauta
agroecológica entrara na discussão acadêmica brasileira. Em 1979, durante o IX
Congresso Brasileiro de Agronomia, percebeu-se uma grande adesão de militantes
mais à esquerda no campo político à agricultura alternativa – especialmente por
considerá-la um modelo anticapitalista. Em 1981, a Federação dos estudantes de
Agronomia do Brasil (Feab), a Associação dos Engenheiros Agrônomos do Paraná e
o Grupo de Agricultura Alternativa dessa associação organizaram o I Encontro
Brasileiro de Agricultura Alternativa (Ebaa), um marco da agricultura
alternativa brasileira. Com o tempo, a associação entre atividades acadêmicas e
militantes involucradas no movimento de agriculturas alternativas conformaram
redes que formaram a base da institucionalização da agroecologia no Brasil
(Paulino; Gomes, 2020).
No
entanto, é notável que esse tema tenha sido abordado de maneira tão tímida
pelos governos brasileiros até o momento. O contraste na destinação de recursos
divulgada recentemente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária[3] para o
período 2025-26 anuncia R$89 bilhões disponíveis para agricultura familiar, mas
que fazem triste figura frente os R$516 bilhões destinados à médios e grandes
produtores do agronegócio.
No
território brasileiro, aproximadamente 17% da floresta amazônica foi perdida
nos últimos 50 anos devido ao desmatamento, mineração e à mudança no uso da
terra, o que provoca uma perda preocupante de biodiversidade e desestabiliza um
ecossistema-chave para a manutenção dos padrões climáticos na América do Sul,
interligado ao conjunto maior de sustentação climática global (Hultgren et al,
2025). Esse fato exerce uma influência direta na configuração climática do eixo
central norte-sul do território brasileiro, numa grande área transfronteiriça
que se estende do território amazônico até a província argentina de Buenos
Aires (Cardoso; Rosa, 2019). Além disso, a Organização das Nações Unidas para
Alimentação e Agricultura estima que 25% das terras agriculturáveis estejam
altamente degradadas, como resultado de desmatamentos, práticas agrícolas
insustentáveis e urbanização (FAO, 2011); uma tendência recorrente conforme
documentado pelo estudo de Richardson et al. (2023), sinalizando que a maioria
dos limites planetários – incluindo a integridade da biosfera e os fluxos
biogeoquímicos da Terra – estão sendo ultra- passados. Essas alterações
pressionam os impactos das mudanças climáticas sentidas globalmente de modo
mais significativo para o 1,4 bilhão de pessoas que vivem em áreas vulneráveis
(IPCC, 2022). E vale observar que de acordo com o IPCC (2023), o aumento de
eventos climáticos extremos expôs globalmente milhões de pessoas à insegurança
alimentar e a insegurança hídrica, com impactos adversos desproporcionalmente
mais severos para pequenos produtores de alimentos, famílias de baixa renda e
especialmente povos indígenas – cujas terras abrigam 80% da biodiversidade
remanescente no planeta.
Ao
minimizar o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos e privilegiar os
gerados internamente nas unidades familiares, a produção agroecológica pode
favorecer o acesso da população rural mais necessitada à alimentação de boa
qualidade (Anderson et al, 2020). A agroecologia consolida-se a partir de um
conceito que articula horizontalmente os interesses de produtores e
consumidores por meio de cadeias curtas de credibilidade na produção de
alimentos, promovendo uma mobilização estratégica focada nas capacidades de
adaptação local em rede. Seu caráter intrínseco de cooperação (PLOEG, 2008)
permite inferir que se trata de um modelo gerador de autonomia na produção de
alimentos. No que se refere à redução de danos e capacidades regenerativas de
ecossistemas, ela figura como estratégia em apenas de 15% da área global
cultivada (Schreefel et al, 2020). Assim, para que possa contribuir
efetivamente para a mitigação do aumento da temperatura global para além do
limite médio de 1.5 Cº acima dos níveis pré-industriais, é necessário que a
velocidade de transição à agroecologia triplique até 2030. Não obstante, quando
se promove o reconhecimento do rural de modo contínuo ao urbano – como é o caso
na perspectiva agroecológica – são favorecidos aspectos que reorientam novas
cadeias produtivas, responsáveis e compro- metidas com o território. Dessa
forma, não apenas se aperfeiçoa a gestão eficaz do ambiente, como também se
investe na restauração do seu potencial natural, base para a operação da sua
economia e para a sustentação do tecido da vida (Das; Bocken, 2024).
Segundo
Haraway (2022), os catastróficos resultados de nossas atividades no
capitaloceno oferecem oportunidade para uma efetiva mudança de paradigma. Uma
vez diagnosticado o problema, lidar com ele se torna uma urgência e negá-lo não
é uma alternativa viável. Também Thomas Kuhn (1970) sugeriu que os paradigmas
desempenham um papel transformador quando há uma mudança de perspectiva
acompanhada de uma compreensão acertada da natureza do problema (e da vida).
Sob esta ótica, são válidas as tentativas de mapear e elucidar as fissuras e
fragilidades, bem como os processos e dinâmicas sobre os quais colocamos nossas
lentes. Ampliar o horizonte do debate envolve reconhecer que a fé mobilizada na
investigação, no cálculo e na modelagem tem utilidade, pois permitiu
compreender que os intrincados processos do planeta nunca foram estáveis, mas
sim metaestáveis e altamente capazes de responder a perturbações radicais
(Lovelock, 2020). Isso também significa que as formas de apreensão do mundo são
tão diversas quanto as culturas o são, e que as formas de conhecimento
tradicionais, que perpetuaram comunidades e povos em muitos lugares são válidas
enquanto produtoras de sentido e podem indicar o caminho de saída do labirinto
em que nos encontramos em nossa relação metabólica coma natureza. O que torna
inaceitável o epistemicídio que o modelo de civilização hegemônico provoca.
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A experiência da Associação dos Agricultores Ecologistas Solidários do RS
Resgatamos
brevemente uma experiência bem-sucedida da agroecologia brasileira: a primeira
feira de agricultura ecológica da América Latina, com trajetória que alcança a
terceira geração de agricultores no Rio Grande do Sul (Meirelles, 2018).
Trata-se
de uma experiência de autogestão que surgiu há 34 anos com um pequeno grupo de
agricultores familiares, organizados formalmente como uma cooperativa. Mais
tarde – com a chegada de novas famílias – esta assumiu forma de associação. O
vínculo associativo formal se iniciou em 1986, aliando a necessidade destes
agricultores com o desejo de consumidores urbanos de adquirir alimentos livres
de veneno, numa relação sem intermediários. Os primeiros movimentos se
consolidaram com encontros de periodicidade quinzenal para comercialização em
espaço público; inicialmente num parque na área central de Porto Alegre. Não
demorou para que os primeiros agricultores conta- minassem vizinhos e
familiares em diferentes regiões do estado com o conceito ecológico. Em 1990 o
grupo já havia crescido em número, gênero e grau; e os afiliados urbanos
organizaram uma grande feira livre no mesmo parque, chamada de Tupambaé. Este
evento deu visibilidade à causa ecológica no Rio Grande do Sul e vale destacar
que alguns dos afiliados urbanos eram já conhecidos ativistas, entre eles os
agrônomos Jaques Saldanha, Sebastião Pinheiro, Maria José Guazelli e José
Lutzemberger.
A
Associação dos Agricultores Ecologistas Solidários do RS, ou “Agroecológica”,
como é conhecida localmente, teve sua origem neste grupo que organizou uma sede
para o funcionamento de sua cooperativa-entreposto nos anos 1990. O
abastecimento se dava aos sábados, quando as famílias chegavam de suas
respectivas regiões para expor seus produtos na feira localizada em frente à
sede da cooperativa. Sob concessão de espaço público pela prefeitura, em evento
autogestionado, a feira ganhou corpo na capital gaúcha, diversificou sua oferta
de alimentos e tornou-se um projeto pioneiro em termos de cadeias curtas de
produção e comercialização de alimentos no Brasil. Embora sua sede física tenha
sido desativada em meados dos anos 2000, a feira de agricultores se expandiu em
seu local de origem e inspirou o surgimento de seis pontos de comercialização
de alimentos orgânicos, em diferentes bairros da capital gaúcha.
Um
ponto importante a ser contextualizado é que a procura por alimentos livres de
agrotóxicos não fazia parte da cultura local. Havia inclusive algum
desmerecimento quanto a estética dos produtos. De acordo com Meirelles (2019),
os relatos dos agricultores pioneiros denotam aspectos de uma suposta falta de
técnica ou de capricho nos produtos, para que rabanetes e cenouras se
parecessem aos dos grandes supermercados, em padrões de tamanho, cor e
uniformidade.
Entretanto,
os vínculos se fortaleceram. O ambiente das instituições envolvidas favoreceu
em certa medida a iniciativa, cedendo espaço na via pública junto ao parque
para que a feira ocorresse com regularidade semanal, ademais da acolhida de
grupos urbanos que anteviram a importância dessa proposta. Assim, o grupo de
associados ecologistas rurais e urbanos assumiu um quadrante da cidade de modo
autogestionário, organizando horários de chegada e de saída, interrompendo
previamente o trânsito para a realização da feira, assumindo a limpeza e taxas
da rede local de energia com independência e autonomia. Essa concessão de uso
do espaço público já dura 34 anos, transpassando a troca de gestores municipais
numa relação entre sociedade civil organizada e poder público. Trata-se de um
exemplo concreto das possibilidades do modelo sinérgico da abordagem
agroecológica, apoiado na perspectiva da ecologia política, que entende a
governança como fator decisivo na formação dos sistemas agrícolas e de outros
sistemas humanos (Anderson et al, 2020).
Orientando-se
pelas normativas de certificação orgânica (N46 — Lei 10.831/2023), todas as
propriedades afiliadas são credenciadas no Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento. Os membros da associação são habilitados para o manejo
adequado de suas áreas e estão equipados de acordo com as particularidades de
cada região bioclimática. Além disso, as famílias participam de capacitações
por meio da troca de experiências nos encontros semestrais oportunizados pela
associação (Cardoso, 2020).
Com
propriedades familiares entre três e 20 hectares, em diferentes biorregiões,
atualmente são mais de 100 famílias integra- das num sistema de agroecologia em
rede, que abastece 6 feiras semanais em Porto Alegre. Algumas destas famílias
investiram em processar itens na propriedade rural, o que resultou em uma gama
considerável de produtos agroindustriais. A Agroecológica envolve também três
assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), dois destes
ligados à produção de arroz em coletivos com cerca de 20 famílias em cada área;
grupo responsável pela maior produção de arroz orgânico na América Latina[4].
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Reflexões finais
Echeverría
busca um desenvolvimento do marxismo a partir de uma leitura particular de O
capital. Numa interpretação próxima às de Postone e Meszaros, o filósofo
equatoriano recupera a auto subjetivação do valor como um movimento em que o
desenrolar da forma puramente social atribuída à matéria assume as rédeas do
metabolismo social. Processo histórico que – conforme elucidado por Marx –
implica numa sociedade reificada em cujo princípio objetivo da produção é
colocado à frente do subjetivo. Com isso, forja-se uma versão de humanidade
enfeitiçada, governada e atormentada pelo fruto de suas próprias mãos. No
Brasil, o agronegócio é força tarefa dessa humanidade fantasmagórica em sua
variação mais cruenta. Nos espaços rurais, onde o consenso commodities/glifosato
degrada de maneira cada vez mais intolerável a vida humana e a extra-humana,
alargando a fratura metabólica, ele investe contra outras humanidades possíveis
e em resistência à pretensão universalista dos que se locupletam com a
circulação do valor em si e para si.
A
agroecologia pode ser uma ação concreta de contestar – por dentro – tal
desenvolvimento, visto que em seus princípios visa concretizar o metabolismo
humanidade/natureza proximamente ao que Echeverría chama ethos barroco. Atitude
de um grupo social que – sem negar a existência do que considera inaceitável –
resiste em meio ao seu avanço. Tal qual fazem os movimentos indígenas e a
própria insurgência zapatista, um movimento contestatório impulsionado não
exclusivamente pela forma abstrata do valor, mas de alguma maneira a subjugando
à materialidade do valor de uso e às necessidades concretas dos sujeitos
envolvidos. Postura que não propõe um retrocesso inocente na história. Mas,
como afirmou Echeverría numa entrevista concedida a Javier Sigüenza (2011), é uma
estratégia para neutralizar a contradição entre a forma natural da vida e a
forma social/valor que esta assume no capitalismo. A maneira barroca de viver
nesse sistema é um tipo de comportamento que permite ao ser humano neutralizar
– mesmo que parcialmente – a cada vez mais insuportável contra- dição
capitalista. O peculiar no ethos barroco é que ele implica um momento de
resistência calcada na defesa do aspecto qualitativo da produção em detrimento
do quantitativo. Uma defesa da forma natural da vida, por dentro dos próprios
processos nos quais ela é atacada pela barbárie do valor em processo de
valorização. O que o ethos barroco faz – em essência – é reafirmar a vigência
da forma natural de vida em meio a destruição da vida provocada pelo capitalismo
em sua versão puritana/norte-europeia/estadunidense.
A
agroecologia integra esse ethos, em alguma medida resgatando a cosmovisão
indígena/camponesa da natureza como trama de vida, com temporalidade intrínseca
e temperamento próprio. Uma totalidade que inclui a espécie humana e da qual
esta depende. Nesse sentido é possível interpretá-la como ação estratégica de
resistência, mas também possibilidade de outro mundo. Um futuro ancestral
(Krenak, 2024), visto que recupera um entendimento tradicional e permite
imaginar com ele um horizonte emancipatório. Uma versão de humanidade com
capacidade de agência, de resgate das rédeas de seu metabolismo com a natureza
dos ganhos do valor em valorização. Conforme demonstrou Marx (2013), a
subsunção do trabalho ao capital também aliena o ser humano de uma de suas
características mais essenciais: a força sinérgica da cooperação consciente, do
resultado do trabalho coletivamente organizado com vistas a um objetivo comum,
que é sempre maior do que o somatório das ações individuais isoladas. No Rio
Grande do Sul, a exitosa experiência da “Agroecológica” atesta isso e prova que
é possível recuperar a capa- cidade humana de planejamento e gestão coletiva do
processo de reprodução material, articulando equilíbrios próprios das unidades
camponesas (Ploeg, 2016) numa interação saudável entre o campo e a cidade, com
um metabolismo social menos autofágico e cruento.
Fonte:
Por Daniel Lemos Jeziorny e Marcos Abrahão Cardoso, em Outas Palavras

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